04 abr
2009Cair fora da globalização(intoxicação), já!
Categoria: (Economia) por Adriano Benayon em 04-04-2009

A Ressaca da globalização Se não quisermos sofrer males ainda maiores que os que vêm assolando nosso País, temos de saltar fora da globalização com urgência. Ela é como um trem em acelerado em direção ao abismo. Mesmo que pular do trem cause algum incômodo, mais vale não nos deixarmos espatifar.
Outra metáfora, válida para todo o Planeta, é comparar a globalização à intoxicação por bebida alcoólica ou por droga entorpecente. Seus terríveis efeitos surgem antes mesmo de cessar a ingestão dos tóxicos.
O tema central do livro Globalização versus Desenvolvimento, cuja 1ª edição foi publicada há onze anos (1998), é a demonstração de ser o desenvolvimento incompatível com a abertura indiscriminada da economia e com o controle dela por capitais estrangeiros.
Essa situação leva a ter política econômica comandada do exterior. Isso transformou a estrutura da economia, tornando mais primário o padrão de produção. Fez, por exemplo, as exportações dependerem cada vez mais de recursos naturais. Em suma, o País regride tecnologicamente, e aumentam as transferências para o exterior.
Venho apontando que, nos EUA e na Europa, entre outros lugares, o colapso financeiro está rapidamente degenerando também em colapso econômico e social. Nos EUA, por exemplo, as demissões estão ocorrendo ao ritmo de 1 milhão por mês. No Brasil foram 600.000 em dezembro e mais de 100.000 em janeiro.
Há tempos, exponho ser enganoso o discurso que afirma estar o Brasil preparado para enfrentar a “crise” mundial. No artigo “Contas externas vulneráveis”, publicado em A Nova Democracia, nº 42, abril de 2008, tratei da vulnerabilidade estrutural da economia brasileira, quase que totalmente desnacionalizada, a inviabilizar as decisões de política econômica necessárias ao desenvolvimento.
Dólar vira buraco negro
Em trabalhos subseqüentes deixei claro que as reservas externas do Banco Central – da ordem de US$ 200 bilhões hoje, pois já foram maiores – podem pulverizar-se em função de simples mudança de conjuntura.
No artigo “Investment grade ou Brasil atrás das grades?”, publicado nº 43, maio de 2008, expus o engodo que foi a elevação da cotação do Brasil pelas agências internacionais de risco de crédito. Elas próprias não merecem crédito algum, haja vista terem dado cotação máxima a títulos tóxicos, inclusive os baseados em hipotecas nos EUA, que perderam depois todo seu valor de mercado.
Em “A nova crise do real”, escrito em agosto e publicado em A Nova Democracia, nº 46, setembro de 2008, disse estar em gestação, para futuro pouco distante, nova crise cambial. De então até agora, o real já caiu 38% em relação ao dólar.
O pior é que os efeitos no Brasil do colapso mundial ainda estão começando a se manifestar. Alguns sinais claros já estão presentes, como o da taxa de câmbio e muitos outros. Entre eles, o fato de a inadimplência das empresas ter crescido nada menos que 149% na comparação de janeiro de 2009 com janeiro de 2008.
Ademais, grandes empresas no Brasil endividaram-se grandemente no exterior em anos recentes, inclusive as transnacionais junto a suas matrizes. Com a desvalorização do real, cresce o serviço dessas dívidas. Os balanços das empresas deterioram-se por causa do câmbio, ao mesmo tempo em que cai o valor em dólares das exportações – e não apenas em função da taxa cambial – pois há brutal redução da procura externa pelos produtos exportados do Brasil.
Depois da bonança, ressaca mortífera
É de notar a queda, superior a 60%,de março a dezembro de 2008, do preço das commodities (bens agrícolas e metais) no mercado mundial. O grosso das exportações brasileiras se compõe desses recursos naturais com nenhum ou pequeno grau de transformação industrial.
Esses bens ainda tiveram saldo positivo em 2008 de U$ 55,1 bilhões, viabilizando que a balança comercial do País tivesse o superávit de US$ 47,9 bilhões, apesar de déficit de US$ 7,2 bilhões por parte da indústria de transformação.
Mas houve significativa deterioração do Balanço de Pagamentos em 2008, o qual prenuncia maior afundamento em 2009, uma vez que se está acentuando o colapso nos países com que o Brasil tem relações econômicas.
Em 2008 já se registrou a maior saída líquida de divisas do País – excluindo a balança comercial – desde 1982. O último recorde foi em 2005, com US$ 32,5 bilhões. Em 2008 saíram US$ 48,9 bilhões, os quais foram insuficientemente compensados pelos US$ 47,9 bilhões do saldo comercial. Com isso, o Balanço de Pagamentos (BP) fechou com déficit de US$ 1 bilhão, o primeiro desde 2002, o ano da última crise cambial.
Excluindo as transferências unilaterais[1][1][1], para ficar só com o resultado das capitais e de serviços, as saídas líquidas destas contas atingiram US$ 53,6 bilhões, não obstante ter o Brasil mantido as taxas de juros mais altas do Mundo. Em princípio, altas taxas de juros atrairiam capitais para o País.
É visível também a diminuição do saldo comercial, não só pelo declínio, mês a mês, em 2008, mas também pelos resultados dos dois primeiros meses de 2009, quando somou apenas US$ 1,2 bilhão.
Mágica desmascarada
As transações correntes, que englobam tudo, menos o movimento de capitais, registraram, em 2008, déficit de US$ 28,7 bilhões. Até 2007 havia superávit, mas já minguando então para US$ 1,7 bilhão. Isso implica que o déficit do BP em 2008 só não foi muito maior que US$ 1,2 bilhão, porque o movimento de capitais registrou apreciável ingresso líquido, em grande parte de investimentos diretos.
Além de ser problemático que isso se mantenha, não haverá, de qualquer modo, como fechar o BP sem recurso a grande aumento da dívida externa brasileira. Mas esta já cresceu muito em 2008, e os bancos do exterior vêm negando crédito. Estão, na maioria, falidos e sobrevivem mediante a vergonhosa injeção de trilhões de dólares por parte dos governos e dos bancos centrais de seus países.
Seriam necessários mais dados para perceber que se aproxima gravíssima crise das contas externas no Brasil?
Fica para o próximo artigo atualizar a situação mundial e avaliar em profundidade a colossal negociata que, em geral, está sendo o auxílio dos governos aos bancos e outras instituições financeiras causadoras do colapso econômico. Este, a continuar o tipo de tratamento que lhe vem sendo dado, promete ser o mais profundo de todos os tempos.










O grande mistério que a reunião dos países integrantes do Grupo dos 20, em Londres, na quinta, 02, deixou no ar é saber qual o lastro, a garantia real, do fundo financeiro dos 1,15 trilhão de dólares – falou-se em até 5 trilhões até 2010 - que eles injetarão no FMI, para dinamizar o comércio internacional, em troca do ouro da instituição distribuido proporcionalmente às cotas de cada sócio, entre os quais os Estados Unidos possuem o maior número. Por isso, continuariam, claro, dando as cartas, embora estejam baleados pela bancarrota financeira que destruiu os grandes bancos dos Estados Unidos. O multilateralismo, por enquanto, seria um sonho de noite de verão. A necessidade do presidente Barack Obama de emitir dólares sem garantia para enxugar os dólares derivativos podres e tóxicos em forma de hipotecas, fed funds etc, que encharcam a circulação global, sem regulamentação governamental dos países ricos, inviabilizando a produção e o consumo, no crediário, lança desconfiança sobre a saúde do fundo financeiro internacional que engordará o FMI e o Banco Mundial. Os países que estão preocupados, como os europeus, China, Japão entre outros, inclusive, o Brasil, por disporem de excesso de títulos e moeda americanos em caixa, ameaçados pela grande oferta de derivativos dolarizados, teriam onde desovar seus borós. Ou seja, no FMI. Não teria sido à toa que o presidente Lula, logo depois da reunião, abriu espaço para trocas comerciais, na América do Sul, com moedas locais.O titular do Planalto, orgulhoso, seria o primeiro líder dos emergentes a colocar dinheiro – 10 bilhões de dólares- no renovado Fundo Monetário Internacional, que pode virar fundo sem fundo como resultado principal da reunião do G-20. Tremenda encenação, da qual o FMI poderá ser primeira grande vítima.
O FMI renovado é essa nova aparência que está sendo chamada a assumir a cara dos déficts no lugar dos governos, comprando dólares, apresentando em troca o ouro que acumula como propriedade dos sócios cotistas. Estes jogam suas vergonhas em forma de deficits crônicos para cima do FMI que teria cara de governo mundial, com os dólares sem garantias, depositados pelos novos e poderosos sócios do G-20, no próprio FMI, em forma de direitos especiais de saques.
No cenário novo e desastroso de devastação financeira, o poder relativo do Brasil e da America do Sul tende a ser maior do que o dos Estados Unidos e da Europa, cuja fonte de renda para sustentar o consumo da classe média – os rendimentos especulativos no mercado financeiro – virou fumaça.
O presidente Lula pode ter mandado o Itamarati colocar mais pimenta no seu discurso no G-20, Londres, 02.04, principalmente, depois que seu prestigio popular começou a diminuir, perigosamente, no rítmo da crise. Se ele disse que não foi o Brasil que produziu a crise e a crise está destruindo sua reputação, aos poucos, devagar e sempre, quanto mais aumentam seus estragos, em escala global, claro, Lula vai sentar o pau nos que , ao seu juízo, fizeram a crise, ou seja, os homens de olhos azuis. Do contrário, o desgate governamental vai se aprofundar e a condidatura da ministra Dilma Rousseff derrapará. Ontem, em Paris, lascou: os ricos são os culpados pela bancarrota mundial. Alguém tem dúvida?
Os poderes sobre a moeda mudam com as crises. A libra inglesa, na passagem do século 19 para o 20, perdeu poder para os Estados Unidos. O dólar consolidou-se depois da guerra, determinando nova divisão internacional do trabalho. Na passagem do século 20 para o 21, no entanto, o poder da moeda americana já não é o mesmo de sessenta anos atrás, entrando como salvadora do mundo.