Crise favorece retorno de Roriz ao poder no DF

Situação internacional favorece tentativa de Roriz de voltar ao palco político no Distrito Federal no momento em que o desgaste político toma conta do governador Arruda, pego em cheio pela bancarrota internacionalVicentine, como num enredo de novela, volta à cena no Distrito Federal, para, ao lado de Roriz, tentar mandato parlamentar, na oposição ao governador, seu ex-marido

O governador José Roberto Arruda(DEM-DF) está passando pelo inferno astral político. Ele e seus colegas governadores, não se excluindo, principalmente, o presidente Luís Inácio Lula da Silva. Todos tentam embarcar na Arca de Noé, para se salvarem do dilúvio econômico universal. Não está fácil. Nesse contexto, o caminho se abre para a oposição. Se esta, em outras oportunidades, fichinhas perto do tremor de terra que representa a crise econômica global em curso, teve bons resultados ou se seu representante teve condições de exercitar uma relação estreita com a população, as chances de retorno ao poder são grandes. Pode ser o caso do ex-governador Joaquim Roriz, que renunciou para não ser cassado por corrupção com perda de mandato de senador eleito em 2006. Ele se prepara para voltar em grande estilo, tendo como estandarde a ex-mulher do governador Arruda, a talentosa atriz Mariane Vicentine. Separada do marido, logo que este assumiu o poder, casando outra vez, com Flávia, agora, lançada politicamente por ele para tentar ser popular, comandando programa social, numa típica jogada política peronista sulamericana, Mariane Vicentine volta à cena nos braços políticos do PMDB, com Roriz, para disputar mandato parlamentar. O Distrito Federal assistirá espetáculo jamais visto na história política recente do país. O ex-governador busca sensibilizar o senso feminino da capital, jogando em cena a ex-mulher do governador como astro político na campanha eleitoral. Roriz feminista.

O governador José Roberto Arruda e seu vice, empresário Paulo Octávio, foram pegos no contrapé pela crise. Assumiram o governo com a capa de Maquiavel. Fazer o mal de uma só vez e o bem aos poucos. O titular do Buritinga fez a maldade numa pancada. Demitiu mais de 16  mil aliados populares do ex-governador Roriz abancados na máquina administrativa, em fundação social, como cabos eleitorais rorizistas.  Se se multiplica 16 x 5(integrantes de cada família do demitido ou demitida), tem-se 80 mil pessoas que imediatamente passaram a ter ódio do governador. Milhares de votos foram para a fogueira. Logo em seguida, em rumoroso e excitante desdobramento de vida familiar, rolou novo casamento, que incendiou a imaginação da capital totalmente fofoqueira.

Dois episódios, um familiar, que não deixa de virar público, porque público é o governador, a partir do momento em que assume o cargo e se expõe material e espiritualmente ao povo; outro, político, a demissão em massa de rorizistas, ocupantes de cabides de emprego em fundação de serviço social, cuja função era, indiscutivelmente, fazer populismo político – eis os codimentos que temperarão a luta política no DF.

Ao meter o pé na barraca de Roriz, Arruda inviabilizou possibilidade de conquistar o coração dos rorizista ao longo de sua trajetória. E ao deixar a ex-mullher e casar rapidamente com outra, criou indisposição surda com o voto feminino.

O fervor que os partidários de Roriz evocam promete radicalismo. Não menos fervoroso e radical pode vir a ser, também, o voto feminino no DF. Tudo misturado, no compasso geral da crise que inviabiliza economicamente o governo e o coloca sob pressão total do desemprego, tende a favorecer Roriz.

Pegos no contrapé pela crise

Governador e vice estão sob ameaças por ter preferido o econômico ao social, pensando em primeiro enxugar e econmizar, para depois gastar, no momento errado, porque a crise emergiu e levou as economias que poderiam garantir segundo mandatoOs dois episódios, que deixaram a familia brasiliense antenada na situação política e familiar governamental e nos seus desdobramentos ao longo dos últimos dois anos, não contribuiram, por sua vez, para transformar o governador Arruda em político carismático, como é o caso de Joaquim Roriz, amado pela população pobre, porque viveu tempo especial de bonança, por meio da qual construiu capital político popular de grande estoque no tempo.

José Roberto Arruda , ao destruir o paiol populista rorizista não construiu outro no lugar, imediatamente. Conferiu característica mais econômica que social ao seu perfil governista, na medida em que jogou , maquiavelicamente, o neoliberalismo radical. Primeiro a economia, custe o que custar; depois, o social. Ou seja, o inverso das prioridades de Roriz.

Arruda partiu para enxugar o governo no plano fiscal e monetário, na base do arrocho, enquanto, ao mesmo tempo, ergueu o discurso da Brasília legal, na tentativa de desmontar o jogo de interesses armados pelo ex-governador Joaquim Roriz, que favoreceu sua relação não apenas com os mais pobres, por meio de agressivo programa social, tão ou mais eficiente do que o patrocinado pelo governo federal, com o Bolsa Família, mas, também, com os mais abastados. Se, de um lado, ficou com sua imagem ligada à desconfiaça de favorecer empreiteiras, isto é, grandes empresários, enquanto tocava as obras que rendiam votos, ao mesmo tempo, tocava programa social, favorecendo os miseráveis. Uma no cravo outra na ferradura.

Com Arruda, essa possibilidade não foi construída, no plano do imaginário. Sem mediação política , o governador destroçou a base social erguida por Roriz e ao mesmo tempo, também, a base econômica que usufrui os serviços de concessão do governo anteriormente concedidos pelo ex-governador, como no caso de transportes de vans.

Embora possa ter havido, como denunciam os arrudistas, jogo de influência na divisão dos interesses, com as vans, tornou-se possível alcançar, no DF, aquilo que o economista inglês, Adam Smith, caracterizou de livre mercado. Os consumidores estiveram sob intensa disputa pelos donos de vans, de modo que esperavam o transporte na própria porta de casa, a preço competitivo.

Arruda destruiu essa base econômica em nome da organização do trânsito, que, infestado de vans, estavam destruindo a paz dos que enfrentam o dia a dia caótico no DF. O governador e o vice, na prática, detonaram o livre mercado de transporte que, atuando sem regras – tipo o mercado financeiro global que foi para os ares – , aterrorizava quem possui carro, m as, de alguma maneira, facilitava a vida de quem não o possui.

Não teria sido o caso de, em vez de destruir essa base econômica vivendo em competição imperfeita, enquadrá-la dentro de rígidas regras de fiscalização econômica e de comportamento estabelecidas pela legislação do trânsito?

Petistas se aliam ao ex-governador

Magela ou Agnelo-Roriz? O jogo do PT-RORIZ-PMDB já está no ar com potencial de fogo elevado com Roriz na cabeça, se a crise se aprofundar e deixar o governador em situação ainda mais crítica, podendo superar seu momento em forma de vitoria em 2010.O fato é que ao destruir a base econômica do transporte disseminado de vans, que, segundo os aliados do governador, constituiam máfias organizadas com o beneplácito do ex-governador, o titular do GDF acumulou  mais uma carga de ódio, agora, de outra categoria social, cujo poder de espalhar veneno político tornou-se imenso, quanto mais foram destroçados em favor da predominância de grupos oligopolizados, mais poderosos financeiramente.  São milhares de bocas a falar mal do chefe do poder.

Arruda e Octávio, no plano do transporte coletivo,  optaram pela elitização da propriedade em vez da disseminação da propriedade, em nome chamada Brasília Legal, cujos resultados positivos foram ofuscados pela radicalidade das medidas corretivas adotadas. Também em nome da legalidade, foram retirados os feirantes dos locais de movimento, bem como limpeza da paísagem em geral, sob abuso da propaganda indiscriminada. Limpou o terreno, transferindo o pessoal para uma feira construída pelo governo, mas distante do consumidor. Mas, quem vai continuar distante do consumidor, com mercadorias acumuladas em estoque, com o compromisso de se formalizarem? Caixão. Acumularam-se mais ressentimentos etc.

Toda essa onda negativa – somada aos insuficientes serviços de saúde, educação e segurança – o governador pensou ser possível removê-los nos dois anos finais de governo, quando teria em caixa dinheiro acumulado com a política maquiavélica praticada nos dois primeiros anos, à moda neoliberal, de cortar despesas e acumular receitas, em nome da governabilidade. Cumpriria, na segunda etapa governamental,  seu tempo de vacas gordas, programando, abstratamente, arrojado cronograma de obras. Estas, claro, se expressriam em votos em 2010, favorecendo segundo madato. Debalde.

No meio do caminho tinha uma pedra. Explodiram as hipotecas imobiliárias americanas no mercado global, empoçando o crédito mundial, quebrando o sistema financeiro europeu e americano e, consequentemente, rompendo o equilíbrio econômico internacional precário sob o domínio do dólar.

O tsunami econômico desorganizou a economia e as finanças de todos os países, atingindo o DF. Na Europa do Leste , a situação está muito pior. Não têm matérias primas nem base industrial, estão endividados e as exportações secaram. Os governos estão caindo em pencas. No Brasil, embora haja abundancia de matérias primas e base industrial forte, a posição do presidente Lula , ainda assim,  começou a sofrer revezes nas pesquisas em meio a uma economia sangrada pelos juros altos. Os governadores e prefeitos, idem.

Sem poder lançar mão do dinheiro que economizou nos dois primeiros anos do governo, o governador Arruda, em vez disso, está tendo, nos dois anos finais de sua administração, que distribuir o recurso economizado para compensar quedas de arrecadação tributária decorrente da bancarrota financeira que desacelerou geral.

Troca seis por meia duzia, fora o desgaste das greves.

Lua de mel no fim

A lua de mel entre Lula e os governadores, entre eles, o governador Arruda, pode estar chegando ao fim, porque não são mais possíveis a sustentação das regras do consenso de washington, que fragilizaram a federação brasileiraOs prefeitos e os governadores estão na lona, com a queda da arrecadação. As dívidas e os prazos terão que ser renegociados e esticados. Para piorar, recebem, como recursos transferidos, apenas, as receitas dos tributos – imposto de renda e imposto sobre produtos industrializados; não vêem a cor do dinheiro das contribuições sociais, responsáveis por mais da metade da arrecadação tributária nacional, pois são abocanhadas, integralmente, pelo tesouro nacional, graças ao neoliberalismo praticado na Era FHC.

Sob orientação dos banqueiros,  do Consenso de Washington e do FMI, os governos neorepublicanos, depois da crise monetária dos anos de 1980, arrocharam neoliberalmente os governos estaduais para pagarem em escala cada vez mais crescente os serviços da dívida pública interna. Superavits elevados , abertura econômica e privatização – eis o que exigiam os credores.

Os neoliberais , agora, colhem o desastre que plantaram em forma de condução da economia, desregulamentando-a, totalmente, sob discurso ideológico favorável ao estado mínimo. A sociedade, argumentavam, teria maior abundância e progresso. Olha o resultado aí! Miséria, fome, desemprego e, certamente, perda de votos.

O governador Arruda e o vice, propagandistas do neoliberalismo, que entrou em crise e pegou-os, como executivos, no contrapé, terão pela frente a propaganda populista distributivista do ex-governador Joaquim Roriz, aliado do PT.

Ambos, PMDB-PT,  almejam evitar que Arruda e Paulo Octávio – a dobradinha seria repetida, na crise, em 2010? – cheguem ao segundo turno, para poderem disputar entre si – Roriz x Agnelo? Magela x Roriz?  – , realizando, no frigir dos ovos, governo de composição, seja qual for o resultado final.

Se Arruda for para o segundo turno, teria Roriz-PT juntos contra ele. Se, ao contrário,  o PT e Roriz  disputarem a segunda etapa, Arruda apoiaria quem? Roriz? Agnelo ou Magela, prováveis nomes do PT? Roriz, parece, conseguiu entrar na Arca de Noé.

No momento em que as massas têm diante de si o espectro da fome espalhada pela crise global, PT-Roriz ou Roriz-PT, na composição eventual da força oposicionista , disporiam de vantagens comparativas geradas pelo desgaste político mundial circuntancial que abala Arruda-PO.

O desgaste adicional com a greve dos professores seria outro buraco político. A disposição da categoria de radicalizar, no momento em que a maior preocupação é evitar a escalada do desemprego, pode favorecer o governador Arruda, fortalecendo-o. Mas, poderá ser algo momentâneo, caso a crise continue desvastando os lares, expulsando trabalhadores, espalhando o pânico social.

O pedido de trégua de 90 dias solicitado aos professores pelo  governador é sua única saída, que pode esconder grande sagacidade. Nos próximo três meses, a situação estaria tão crítica, pelo andar da carruagem, que as reivindicações dos professores soariam abusivas aos pais dos alunos prejudicados.

Seria a hora de Arruda mobilizar a sociedade contra os professores?

Consenso de Washington já era

Se Gordon Brown reconheceu que o Consenso de Washngton chegou ao fim, porque os governadores continuariam sofrendo os desgastes impostos pela regra do consenso, inviabilizando a economia nacional? Não seria ser mais realista que o rei, que está nu?As opções que vão restando aos governadores , na marcha da redução dos recursos, é gritar contra o governo federal. Arruda não faz para cima, com Lula, o que fez para baixo, com os aliados de Roriz, depois que chegou ao poder. Convive bem com Lula, mas luta nos Ministérios para arrumar dinheiro e evitar que haja maiores restrições aos repasses de recursos por meio dos Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios, visto que o DF tem direito, constitucional, aos dois.

Ele, no entanto, entra na fila como os demais colegas governadores, esperando pela oportunidade, enquanto os desgastes provocados pela crise avançam, inexoravelmente. Diante da morte, ninguém deixa de gritar. É o que pode acontecer, se o gargalo apertar. Tudo indica que isso pode rolar, nos próximos meses. Analistas credenciados dão de barato três anos de crise. Ou seja, tempo de vacas magérrimas. Contraste total com os   cinco anos de vacas gordas que passaram como vento das tempestades, sem deixar rastro, assombrando governadores e prefeitos.

Certamente, abre-se campo de luta entre os governadores e o governo federal por maior distribuição de recursos da receita tributária em nome de pacto federativo. O foco da luta pode ser a defesa, pelos governadores, de maior naco de carne das contribuições sociais, cuja arrecadação não é dividida entre governo federal e unidades federativas.

A criação das contribuições representou maquiavelismo do ex-secretário da Receita Federal e da secretaria da Fazenda do Distrito Federal, Everardo Maciel. Monitorado pelo Consenso de Washington e pelo  FMI, o governo FHC determinou à Receita mais arrecadação para cobrir as despesas com juros que bancavam o populismo cambial decorrente da sobrevalorização da moeda nacional em nome do combate à inflação.

Sem distribuir os bônus das contribuições sociais, que ajudam a formar os superavits elevados, para pagar juros da dívida pública interna, o governo federal segregou economicamente estados e municípios. Estes tiveram que se contentar com repasses organizados em fundos de participação, sujeitos a rígidas condições orçamentárias impostas pelo FMI e Consenso de Washington.

Ou seja, Arruda  e governadores em geral teriam que peitar Lula e engrossar movimento nacional pela reversão ou eliminação das regras do Consenso de Washington, que caducaram.

Por que seriam mantidas no Brasil, se, na reunião do G-20, realizada há duas semanas, em Londres, o primeiro ministro da Inglaterra, Gordon Brown, destacou que o Consenso de Washington acabou? Se quem criou o instrumento que ancora pensamento neoliberal anglo-saxão o condenou, por ter se tornado ineficaz, por que ele continuaria sendo aceito em forma de exploração pelos explorados?

O Distrito Federal, sob as regras do Consenso de Washington, só tem a perder, porque, sendo município e estado, de acordo com a Constituição, poderia ter o dobro da arrecadação, se o resultado das contribuições sociais entrasse no bolo geral para dividir com estados e municipios. Disporia de recursos para  cumprir cronograma de obras. Poderia se safar da pressão social que favorece ascensão irresistível de Roriz. Arruda teria que levantar uma bandeira externa, para obter ressonância interna, a fim de tentar dar a volta por cima.