Economia sob dólar está morta

Muitos analistas já vêem um mundo sem o dólar como preponderrante absoluto, mas com valor relativo , o que pode começar a acontecer a partir da reunião de 2 de abril em Londres. Saravá

No ambiente que antecede a reunião do G-20, rola discussão interminável em torno dos créditos podres na Europa e nos Estados Unidos que merdeiam geral a economia global. Eles seriam produtos da irresponsabilidade do mercado financeiro.  Os banqueiros seriam os culpados.  A imaginação criativa e genial deles, cantada e verso e prosa pela literatura mundial afora, capaz de encantar jovens que se lançam à ganancia como se fossem os novos reis do universo, teria levado a humanidade a viajar na maionese do lucro fácil. Os banqueiros são a síntese  dialética do bem e do mal, muitas vezes bodes expiatórios.

Por que deixariam de ganhar, se podem ganhar, se devem ganhar, para não serem abandonados pelos acionistas que confiam na sua genialidade para ganhar e multiplicar riquezas? Atuam nas brechas da lei que são votadas pelos parlamentos cujos ocupantes têm nos bancos seus principais financiadores, segundo dados do Superior Tribunal Eleitoral. Houve, há um desvio do assunto.

O problema é o Estado financista burguês que criou sua própria moeda vigorante, para valer, dos anos  de 1930 em diante para superar a crise de 1929. Depois disso adotou flexibilidades legais ao longo do século 20 que resultou em perda de  controle sobre sua própria criatura cuja essência, sob o capitalismo, é a guerra como salvação do sistema capitalista, desde as velhas monarquias. O rei aumenta os impostos em cima da burguesia para fortalecer a agressão militar a fim de tomar dos outros novas riquezas traduzidas em fortalecimento político do reino e, consequentemente, da moeda monárquica, como estabilizadora do capitalismo, sob padrão-ouro.

Mercadoria e dinheiro, dinheiro e mercadoria, são faces de um só movimento sob o capitalismo. O destino de um está ligado ao do outro e vice-versa. São interativos, polo e contrapolo, que se afirmam e se negam, de modo que a negatividade, a evolução do processo interativamente, representa a própria realidade em movimento de negação. Fora disso, é uma grande discussão que se desenrola em torno da possibilidade de separar duas coisas que são, essencialmente, uma só: a produção e a especulação que evoluem no processo de desenvolvimento contraditório entre as forças produtivas, dominadas pela ciencia e tecnologia, e as relações de produção, dadas por uma institucionalidade burguesa estreita, por seu caráter de classe. Os conflitos de classe estão na base desse estado em que nos Estados Unidos explodem tremendamente. Os interesses contraditórios entram em choque , e a contradição busca sua superação.

 

 

Forças destrutivas substituem

forças produtivas na guerra

 

 

A destruição de mercadorias produtivas e a produção de mercadorias destrutivas para serem especuladas como forma de acumulação do capital resultaria ao final na negação da negaçãoMarx destaca que o capitalismo desenvolveria ao máximo  as forças produtivas, entraria na senilidade e passaria a desenvolver as forças destrutivas na guerra. A moeda ouro que exigia o lastro monetário como segurança para emissão de títulos do governo monárquico  seria superada, segundo ele, pela moeda papel. Funcionalidade nas trocas e maior circulação mundial. O Estado burguês compraria sua própria moeda, deixando a moeda monárquica, o padrão ouro, do século 19, como disse Keynes, na condição de “relíquia bárbara”, depois do crash de 29.

Removida a moeda monárquica, instaurada a moeda burguesa, para conduzir o estado burguês não mais com moeda monárquica, ouro, mas moeda burguesa, papel-moeda, a burguesia se livrava do rei que a sugava com intensos impostos, a fim de sustentar expansão do reino, como forma de elevar a arrecadação e, consequentemente, sustentar a validade da moeda do rei.  

Ou seja, por trás da sustentação da moeda está a guerra, a ocupação, a sabotagem, a acumulação de ouro, o lastro que dá sustentação aos títulos, às dívidas do governo, os investimentos em máquinas de guerra etc. A primeira inflação na Europa, ainda Marx, se deu por conta do roubo escancarado dos europeus do ouro de Ouro Preto e Potosi, no século 17/18. A praça européia foi inundada de ouro e o preço do metal caiu.

Se a burguesia livra-se do rei, por que ficaria aprisionada à moeda dele, cuja sustentabilidade estaria em cima de uma ideologia falsa , a do equilibrismo monetário, baseado nas reservas de ouro, como forma de conter crises entre choques de oferta e demanda, com queda de preços e deflação etc, se, essencialmente, o capitalismo é puro desequilibrio em forma de acumulação?

 

 

Keynes não seria mais

da burguesia em bancarrota

 

 

O poder do ouro mereceu um estudo espetacular de Jeffry a. frieden que ilustra a forma como as nações mais ricas impõe seu poder por meio do poder de troca cambial, impondo a força da moeda mais rica sobre a mais pobre, sistematicamente.

Está na praça um livro sensacional, “Capitalismo Global”, Jeffry A. Frieden, Zahar(obrigado pelo presente, Bira), que dá um panorama luminoso sobre o padrão-ouro. Leitura obrigatória. O Estado burguês, na passagem do século 19 para o 20, detona a moeda monárquica, que leva o capitalismo à deflação, e adota a moeda papel, a moeda burguesa, sem lastro, fictícia. Nasce novo padrão de acumulação. A produção dos bens duráveis, na Era do Jazz, dos anos de 1920 a 1930, sob ensaios geniais de Scoth Fitztgerald, já eram, em 1929, como motores da acumulação capitalista. Entra o Estado com sua moeda como salvador da pátria, para promover a acumulação não mais em setores concorrenciais que levam à deflação mas em setores não concorrenciais, os gastos do governo em não-mercadorias – produtos bélicos e espaciais, contrução de infra-estrutura geral, aumento do funcionalismo, da burocracia – inflacionários, completamente, dissipadores, como diz Keynes. O Estado passa a consumir bens que não são possíveis de serem consumidos pelos consumidores de bens duráveis, onde a crise se instalara, a fim de gerar renda – aumento do consumo sem aumentar a oferta -, com a moeda estatal inconversível, capaz de dinamizar a produção que havia se sucumbido sob o lassair faire.  O Estado, essencialmente, como diz Lauro Campos, vira capital. Se a burguesia financeira pode emitir capital, porque limitar-se ao ouro do rei?

O banqueiro é o veículo do capital da burguesia financeira que comanda o estado nacional burguês cuja constituição estabelece seu perfil de classe sustentado na genialidade do código napoleônico, conjunto moral do capital, apoiado no direito da propriedade, sob reinado do direito positivo, erigido no rastro de destruição do poder monárquico, a partir da Revolução Francesa de 1879. De lá para cá, as constituições burguesas mundo afora são variações, acréscimos e penduricalhos à idéia básica de Napoleão – fera fantástica que, já aos 27 anos, assombrava os generais, sinalizando futuro incrível, que seria assessorado por outro gênio, o grande bandido Talleyrand, conforme perfil traçado pelo historiador russo, E. Tarlé, em “O diplomata da burguesia”.

Como os europeus fizeram com as colônias, Napoleão fez com as monarquias européias, espancando-as em campos de batalha, em armadilhas geniais,  em nome da ascensão do Estado burguês, enquanto Talleyrand ia fechando os acordos e cobrando comissões fantásticas dos reis subordinados a Paris. O grande diplomata chegou a ser o homem mais rico da cidade luz. A casa do espanto não estava no Congresso, mas no Itamarati,  no tempo de Napoleão.  A propriedade é um roubo, disse Proudhon.

Em toda essa trajetória, quem está permeando, sempre, o poder, conduzindo o barco, sugerindo a Talleyrand a melhores ações da praça parisiense na bolsa? Os grandes banqueiros, a nata da corte napoleônica. Brasília, perto de Paris, é uma brincadeira. Não foi à toa que a Comunca rolou por lá em 1871, embora em 1845 a situação já fervesse, como destaca Engels, no seu estudo sobre as lutas de classe na Europa , com destaque para a Inglaterra.

 

 

Estatização bancária em marcha

 

 

A banca privada sempre esteve por trás do FED, mas a grande crise monetária desencadeada pela irresponsabilidade do estado burgues coloca eles em situação vulnerávelA história se repete no início dos anos de 1910/1920. Os banqueiros americanos , associados aos europeus – banqueiro não tem pátria – , perceberam a virada da história da libra rumo ao dólar, depois da primeira guerra mundial. Criaram, por isso, em 1913,  o FED. O tesouro americano, como explica o professor Adriano Benayon, especialista em comércio internacional,  lançaria os títulos e o FED emitiria moeda que compraria os papéis do governo. Não seria , pois, o tesouro o emissor da moeda, mas o FED, dominado, claro, pelos bancos privados. A estatização bancária nos Estados Unidos sob Barack Obama significa transferir do FED para o tesouro dos Estados Unidos o poder de emitir tanto os títulos como o dinheiro. Ou seja, o comando bancário sobre o FED , sob o Estado burguês, caiu por terra, nos Estados Unidos.  Qual seria a cara da nov a burguesia capitalista, se os bancos faliram?

 E no Brasil, esse poder cairia, também? Quando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na Inglaterra, enquanto esquenta os musculos e a mente para o grande embate da reunião do G-20, em Londres, em 2 de abril,  pede estatização bancária nos Estados Unidos, inconscientemente, poderia ser lido seu pensamento, relativamente, ao Brasil?

 O Estado burguês , na maior potência capitalista mundial, tinha por trás os bancos que comandavam a moeda que compra os papéis do governo e estabelecem as regras monetárias do dinheiro burguês que subsituiu o dinheiro monárquico, na entrada do século 20. O Estado poderoso americano foi o grande condutor da moeda global, soprando nela seu próprio poder, ditanto regulamentação. Estabeleceu, por meio destaca, a confiança que antes era exercitada pelo ouro, como reserva de valor, ativo. Seu maior valor seria a confiança cujos abalos levariam o mundo ao beco sem saída atual.

 

 

Estado burguês sem

supremacia burguesa

 

 

As bases do estado burgues montado por Napoleão sucumbe-se à especulação patrocinada pela burguesia financeira que tinha como aliado na especulação Talleyrand e todos os seus herdeiros que imploriam o sistema a partir de Wall StreetA confiança no papel foi rasgada na grande crise de 2009, oitenta anos depois que outra grande crise, a de 1929, lançou a moeda papel para substituir a moeda ouro. O que se trata, portanto, é de destruição do instrumento do Estado burguês criado na ficção da moeda inconversível comandada pelos bancos centrais que têm por trás a bancocracia. O modelo keynesiano, que é a expressão desse poder, não poderia, então, como muitos pregam ser a saída para a burguesia financeira, mas para outra categoria de classe. Os banqueiros, ao correrem para o Estado, a fim de serem salvos, fogem do próprio Estado que criaram, o condutor da burguesia financeira sem regras. Querem regras, querem ser mandados. Querem o poder político impondo-lhes cabresto, em vez de serem eles os condutores do cabresto. A experiência da implosão fantástica da especulação descredenciou os banqueiros com seu discurso de BC autônomo. Meirelles já devia estar demitido há tempos.

O novo Estado burguês – porque as instituições essencialmente burguesas napoleônicas e seus penduricalhos históricos continuam vivos, atuantes – somente sairia do buraco se abandonasse a sua condição de representante exclusivo do pensamento burguês para abrir-se a novos pensamentos, caso queira manter-se como tal, sem mais a supremacia da burguesia financeira. Como ser conduzido o mundo pela expressão do fracasso?

As discussão em torno de se os bancos ou não são culpados escondem o essencial, a falência do Estado burguês e sua moeda como condutora do mundo. Abaixo a moeda burguesa, viva outra moeda, mundial, coordenada, multilateralmente, para dar curso a uma situação insustentável, a da continuidade dos créditos podres.

O G-20 está diante do seu grande desafio: contruir uma nova divisão internacional do trabalho. A que foi criada pelo poder do dólar está morta. O dólar, no século 21, como a libra, no século 20, em meio à banc arrota financeira americana, é natureza morta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Havia sido descoberta uma mina de ouro em Cristalina, nos anos de 1960. Os empresários e aventureiros da região foram em massa amassar barro, furar buraco, cavar fundo em busca da riqueza ilusória. Viviam a ilusão do ouro, quando, em 1871, Marx já estava falando no papel moeda, no auge da crise capitalista francesa que le va à Comuna de Paris, primeiro estado operário sobre o qual o autor de O Capital teorizaria e pedagogizaria tal estado, no qual Lenin se assenta para tentar – não conseguiu – desancar Kautysk,  em espetacular polêmica história sobre interpretações do pensamento marxista.