Estado usa inflação contra luta de classes

Lauro, téorico das não-mercadorias, segue a linha de Marx para fixar a crise capitalista americana, no século 20, destacando-se em três livros fundamentais, "A crise da ideologia keynesiana", "A crise completa - economia política do não" e "Inflação, instrumento de controle social", atualíssimo, no momento, em que a luta de classe explode e os governos, para enfrenta-la , lança mão da expansão inflacionária, escondendo a inflação na dívida pública, dialeticamenteA expansão do desemprego nos paises capitalistas desenvolvidos e emergentes tende a acirrar o que se imaginava, sob social-democracia representativa, presidencialista-parlamentarista,  superado pelo capitalismo, ou seja, a luta de classes. Engano.  Ao anunciar que jogará 1,5 trilhão de dólares na circulação capitalista americana, para a economia dos Estados Unidos continuar, via consumo, puxando a demanda mundial e fazer preponderar politicamente o pensamento dominante de Tio Sam na cena global em crise aguda, o presidente Barack Obama demonstra a tese do professor Lauro Campos, “Inflação, instrumento de controle social”. O Estado investe inflacionariamente para tentar, na crise de realização da produção no consumo, aliviar o que realmente é emergente e socialmente perigoso para o capitalismo,  a explosão da luta de classes.

O antagonismo social amplia-se na conjuntura em que a disputa pela renda aumenta, no ambiente em que a riqueza da comunidade, em um total de 15 trilhões, desapareceu na especulação, destaca o ex-embaixador brasileiro na Alemanha, China e Estados Unidos, Roberto Abdenur, no programa do jornalista William Waack. As tensões internas, nos Estados Unidos, representam uma nova guerra americana. A diplomacia externa americana tenderia a diminuir de importância relativamente às tensões sociais, econômicas e políticas emergentes, que fazem explodir nas ruas a luta de classe. Se o governo salva os ricos, a população em sua diversidade de classe passa a exigir o mesmo tratamento. O Estado não pode ser mais exclusivamente burguês. A superestrutura jurídica do Estado balança para nova correlação de forças que emerge no rastro da falência bancária que detonou a luta de classes.

As greves já estão nas ruas. Na França, amplia greve geral contra o governo que não toma partido na situação do desemprego. Sarkosy, no desespero, clama por refundação do capitalismo. Ou seja, o que está aí, bancado na especulação como forma de reprodução do capital, deixou de ser útil, ao levar à recessão global. Nos Estados Unidos, com o seguro desemprego alcando 6 milhões de desempregados em seis meses,  os grupos organizados  protestam contra a injusta distribuição da renda nacional  em que os mais ricos ganham os bonus mesmo diante da quebradeira, como se tentta alcançar na AIG.  Com o desemprego avançando entre os europeus na casa dos 10% a 15%, a luta de classes impõe a sua dinâmica na greve política. Não é o empresário que quer arrochar salário e que obriga o trabalhador a ir à greve por melhores salários. Trata-se de contestação a uma situação concreta que deixa de produzir empregos. Ou seja , em que não existem rendas, apenas pobreza.

 

América do Sul ferve

 

O sutil embaixador brasileiro meteu o dedo na ferida ao dizer que o explode nesse momento é a luta de classe que obriga os EUA a priorizarem a agenda interna em vez de a externa, dada o estrago provocado na vida nacional, detonado 15 trilhões de renda da comunidade, empobrecendo-a e levando os americanos a relativizar sua riqueza relativamente ao resto do mundo. CrashNa América do Sul, periferia capitalista dependente da poupança externa, que desapareceu, os movimentos de libertação econômica podem pipocar, se as dificuldades ficarem intransponíveis, no confronto que a crise promove das forças produtivas, expansivas em face do desenvolvimento científico e tec nológico,  com as relações sociais da produção, estreitadas pela concentração de renda,  levando à luta de classes. A Argentina, que depende das exportações, porque o neoliberalismo menemista destrui o parque industrial portenho, no tempo da Era FHC, no Brasil, não realiza a produção interna no mercado externo bloqueado pela crise. A receita interna implicaria em maior distribuição de renda. Mexeria no bolso dos grandes latifundiários. Luta de classes emergente.

Na Venezuela, a queda da receita do petróleo e a escassez da oferta de alimentos em decorrência da irracional concentração da propriedade no país, detona a destruição simultanea da deflação com inflação. Deflação, no ambiente geral da crise global. Inflação, decorrente da baixa oferta de alimentos que elevam os preços em meio a uma política monetária que produz o câmbio negro e a corrupção cambial em larga escala. O Estado venezuelano não apenas irriga a circulação capitalista, com menos recursos advindo das receitas do petróleo, para puxar a demanda interna, mas passou a atuar diretamente na distribuição do produto privado alimentício, a fim de evitar especulação inflacionária. Chavez repete Sarney no tempo da busca do boi no pasto.

 

Líderes se mostram impotentes

 

Lula e Lugo precisam atuar juntos para os movimentos sociais não emergirem e espalharem faíscas políticas revolucionáriasPARAGUAY-INAUGURATION-LUGO-LULA DA SILVACristina e Lula estão condenados a andarem juntos para que não sofram as consequencias políticas das mobilizações sociais que avançam no compasso arrasador do desempregoChavez, empenhado no socialismo bolivariano, sofre chantagens dos capitalistas venezuelanos, que escondem os produtos alimentícios, especulando inflacionáriamente, destruindo a confiança do povo no governo, que perde dinheiro com as receitas do petróleo, enquanto não atacou a infra-estrutura para valer, a fim de elevar a produção e o consumo, a fim de evitar pressão altista

 

 

 

 

 

No Paraguai, o presidente Fernando Lugo, sem condições de atender as demandas populares emergentes, salvo se abrir  o governo mais escancaradamente a elas, contrariando os velhos coronéis, que mandam nas forças armadas, pode enfrentar greve geral. Lugo somente teria sossego se conseguisse uma acomodação com o presidente Lula para fixar uma parcela maior de dinheiro para o Paraguai decorrente do faturamento de Itaipu. Do contrário, se explodir movimento popular no Paraguai, respingaria fogo para todos os lados sulamericanos. 

No Brasil, o presidente Lula , na conjuntura instável, que derruba sua popularidade, conforme aferiram pesquisas Datafolha e CNI-IBOPE, e a arrecadação em  R$ 40 bilhões para este ano, em meio a tantos desafios,  como a expansão do desemprego para a casa dos 800 mil demitidos, colocando a luta de classes em primeiro plano,  está diante de outro grande pepino que envolve mais luta de classes. Terá que arbitrar o ganho financeiro dos grupos sociais no momento em que a taxa de juro cai. Nesse ambiente, o ganho do rentista especulador também cai, mas o do pequeno poupador da caderneta de poupança, que engorda a Caixa Ecômica Federal, sobe. A selic, taxa básica, de 11,25%, descontada a inflação perto de 6%, ficaria entre 5% e 5,5%. Ou seja, eutanásia do rentista nos títulos do governo. Estes perderiam para a poupança que paga 6% mais TR, tendo 60% de garantia total. Para afastar da tentação da poupança o grande investidor, o presidente prejudicaria o pequeno poupador, acirrando a luta de classes?

Qual seria o meio termo, capaz de permitir o governo continuar jogando seus títulos na praça para garantir o financiamento da dívida pública e os investimentos anticíclicos indispensáveis para amenizar a caida da produção e do consumo? Certamente, fixar novos limites, no contexto socialmente explosivo, pois, caso contrário, mais um capítulo do acirramento da luta de classe começaria a ser escrito na prática, no ambiente de deterioração econômica, já acelerada.

 

Remédio contra revolução

 

O Grupo dos 20 países mais influentes do mundo ultrapassa o poder do G-8, na grande crise mundial, para dar novo curso ao capitalismo em crise financeira totalO acirramento do antagonismo social se acelera com a intensificação do desemprego. A contradição – o confronto das relações sociais da produção, estreita, com o desenvolvimento das forças produtivas, largo – busca a superação dialética, política. Nesse ambiente, a  inflação, no sistema capitalista,  deixa de ser problema e se transforma em solução. Ela evita , pelo menos temporariamente, a luta de classes que as situações deflacionárias desenham explosivamente, sinalizando inevitável mudança brusca de regime político, no ritmo do empobrecimento coletivo. A inflação deixa de ser instrumento econômico e passa a ser arma política do capitalismo contra a emergência socialista,  destaca Lauro Campos,  em “Inflação, instrumento de controle social”, tese de mestrado de 1957, orientada pelo economista italiano Cláudio Napoleoni. Há 52 anos, o senador brasiliense e professor de 11 matérias de economia na Universidade de Brasilia, autor do clássico “A crise da Ideologia Keynesiana”(1982), já cantava a bola. Com tanta antecedência, em meio a um mundo enebriado pelo capital, só poderia ser considerado louco. “Minha loucura é minha lucidez”(Glauber Rocha). Ele previu a derrocada keynesiana americana e, agora, a solução, contraditoriamente, volta a ser Keynes, configurando a negação da negação do sistema.

O capitalismo lança mão da inflação para evitar que o comunismo suba ao poder no rastro da deflação. Ao investir, o Estado evita o confronto social a que é levado o sistema em epidemia deflacionária, que leva o salário a zero ou negativo, na sua expressão matemática do termo, como destaca Marx.  Como o que se encontra em excesso na deflação presente é justamente o excesso de oferta de moeda em circulação global que deflaciona seu p reço, contra essa deflação monetária o governo joga a inflação monetária. Retira a moeda podre e tenta colocar uma sã. Até quando os compradores de títulos do governo americano, os governos do mundo capitalista, suportariam emissões em massa de dólares, jogando o valor dos títulos para baixo.  A dívida pública, que esconde a inflação, poderia não suportar e a inflação se soltar exponencialmente.

Todos os governos capitalistas desenvolvidos e emergentes, nesse momento, estão numa mesma onda, seguem voz keynesiana unida, que deverá soar forte na reunião do G-20, o novo poder internacional. . Mudança drástica de principio. Se até ontem, antes de outubro de 2008, o princípio único era o Estado fora da economia. Em 2009, com o aprofundamento da crise, o princípio único passa a ser o Estado todo na economia.

Qual seria o meio termo, se, historicamente, chegaram ao estresse os dois extremos ideológicos: de um lado, o capitalismo especulativo, que quebra na grande crise de 2009, e o socialismo stalinista que já quebrara com a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989?

 

Novo papel do Estado burguês

 

Os governos se lançam à inflação, elevando os gastos, que ampliam a dí vida púb lica, contrapolo do processo inflacionário, a fim de evitar superação do capitalismo e emergencia socialista na bancarrota financeira globalO Estado burguês, que, segundo os teoricos marxistas, estaria a serviço dos ricos em prejuízo dos pobres, no processo de sobreacumulação do capital protegido por leis votadas em parlamentos cuja consciência é comprada por caixa dois eleitoral, está diante do seu maior desafio. Se não proteger os interesses dos mais pobres, pode sumir do mapa, se ocorrer uma nova versão mais ampliada de um maio de 1968 em escala global, sintonizada pela tecnologia da informação.

A greve política geral, na França, é o primeiro sinal perigoso para o sistema capitalista em total desarticulação. O presidente Sarkosy foi às ruas conversar com os líderes. Estes, em face da bancorrota, perdem suas lideranças. Surgem novos discursos, pautados pela pressão dada pelo desemprego galopante.  As lideranças políticas e sindicais que estão engordando nos recursos do orçamento da máquina política lulista que se cuidem.

A inflação se transforma em solução. O jogo é de disfarce. Com uma mão, o governo joga papel moeda na circulação; com a outra, joga papel do governo, para enxugar parte da circulação monetária, a fim de evitar enchente inflacionária. A dívida cresce, dialeticamente, no lugar da inflação. Diante da destruição deflacionária, que desaparece tanto com o trabalho como com o capital, a solução inflacionária que acumula capital e aleija os salários, mantendo relação de dominação em processo de contestação sob a crise, torna-se a benção dos céus.

 

Pré-história do comunismo?

 

O Grupo dos 20, o novo poder, poderá, sob orientação das novas ideias do FMI, lançar novo padrão monetário global, como anuncia o economista brasileiro no Fundo Monetário InternacionalKeynes disse que na crise a moeda estatal inconversível – papel que vira papel moeda – é a única variável verdadeiramente independente sob o capitalismo, gerando o que chamou de “eficiência marginal do capital”, que desperta o espírito animal investidor do ser humano empreededor. Ao jogar dinheiro na circulação o governo, segundo o grande economista inglês, cria as quatro condições necessárias à produção da “eficência marginal do capital”, ou seja, o lucro: 1 – aumenta os preços, 2 – reduz os salários, 3 – baixa a taxa de juro e 4 – perdoa a dívida do empresário contraída a prazo. Vale dizer, o espírito animal somente desperta quando o investidor não precisa meter a mão no bolso. A inflação, ou seja, a acumulação, vira alternativa à deflação, a destruição. Escolha de Sofia.

Tal esquema bancado pelo Estado, gerando renda fictícia na moeda, gerou a bancarrota financeira atual, como modelo de reprodução ampliada do capital. Qual seria o novo modelo se o que está em crise perdeu credibilidade, para continuar beneficiando categoria social especulativa destruída pela ganância?

O governo, doador e o entesourador universal, molhou e enxugou o mercado depois que ele entrou em crise em 1929 sob padrão ouro predominante no século 19. Agora, a grande crise monetária internacional de 2009, 80 anos depois, demonstra o esgotamento do sistema monetário substituto do padrão ouro, o do padrão papel moeda sem lastro, produzindo constestações políticas globais,  porque perdeu a confiança geral.  O que virá por aí? O G-20 dará resposta. Ou não. O fato é que o estado burguês, diante da falência da burguesia financeira, precisa buscar  nova representação, quando seus gestores estão falidos. O economista Paulo Nogueira Batista Junior, representante da América Latina no FMI,  do centro do furacão, informa que vem aí novo modelo monetário a ser apresentado em Londres, pelo G-20. Nova aurora do capitalismo ou pré-histórica do comunismo?