29 mar
2009Tango argentino agita Distrito Federal
Categoria: (Cultura, Política) por Cesar Fonseca em 29-03-2009

Rose Marie Muraro, marxista cristã, estudiosa dos fenômenos monetários que produzem as crises capitalistas, editora, ensaísta, socióloga e antropóloga, apóstola do feminismo anti-xenófobo brasileiro, autora de vários livros, dentre eles, um clássico, sua autobiografia, “Memórias de uma Mulher Impossível”(Ed. Rosa dos Tempos, 404 pgs), cabeça a mil, tem colocado, insistentemente, que a renovação moral da humanidade vai se dar pela mulher graças ao seu sentido de organização que visa proteção da espécie. O homem, essa anta de chuteira - personagem de Jaguar - levou a terra ao desequilíbrio ambiental, econômico e social.
O meio ambiente pede socorro. Os desequilíbrios ambientais violentos sacodem multidões, dando alertas sobre a irracionalidade do modelo econômico anti-social de reprodução acelerada do capital financeiro especulativo sem regulamentação, cuja essência é a super-exploração da natureza para atender as demandas consumistas dominadas pela ganância do lucro em escala global e pela inescrupulosidade dos políticos, alimentados pelos caixas dois eleitorais, garantidos por legislação permissiva. Seguir esse caminho, como disse o presidente General Figueiredo, é dar um tiro no côco.
A força de Peron

O desequilíbrio econômico supurou espetacular e terrivelmente na especulação sem regras que estimulou ganâncias cujo resultado é a moeda podre sem lastro empoçada na sala dos poderosos, fedorenta, em decomposição. Obama joga na circulação o dólar sem lastro para tentar salvar a moeda podre, os derivativos, que estavam realizando a reprodução acelerada do capital, sem o concurso do trabalho. Para tal engenhosidade, o trabalho em vez de gerador de valor, transformou-se em estorvo maior do desequilibrio econômico.
O desequilíbrio social, como fruto do exercício do poder capitalista machista no comando da moeda deslastreada, abatida pela fermentação apodrecida pelo excesso de acumulação, começa ganhar conteúdo político explosivo, no compasso do desemprego, que derruba brutalmente a renda do trabalhador, jogando-o na miséria e na agitação ideológica. Como a população dos grandes centros urbanos sob capitalismo auto-destrutivo passou a depender da renda gerada na moeda especulativa, derivativa, desregulamentada, se há o crash , o fluxo dessa renda cessa e os setores produtivos que eram movimentados por ela, igualmente, são destruidos pela onda deflacionária. Bingo.
Ou seja, o sistema , sob os designos da sua autoregulação machista suicida, depende, agora, de organização, para ajustar a total anarquia e desorganização. A figura da mulher, nesse ambiente, surge no imaginário, como um atributo da natureza ao genero feminino como guardião da salvação, principalmente, porque o foco das políticas salvacionistas do sistema estão nos programas sociais, cujo fomento gera consumo, que produz arrecadação, que garante investimentos públicos, como demonstra o Bolsa Família, em seu caráter de estratégia de desenvolvimento da periferia capitalista descapitalizada pela histórica exploração externa.
Contra a anarquia, a mulher
A anarquia capitalista machista requereria o seu contrário, a organização feminina, o senso de responsabilidade instintiva de preservação da espécie, destruído pelo macho todo poderoso, que perdeu sua instintividade natural, como destaca o professor Tomio Kikuchi, em “Estratégia”(Ed. Musso). Nesse ambiente, Rose Muraro, com seu excelente pensamento dialético em ação, diz que a hora da mulher, em termos históricos, chegou. Demorou.
Justamente, nesse momento de grandes indefinições, o governador José Roberto Arruda(DEM-DF), lança Flávia Arruda, sua mulher, na cena pública como agente, consequentemente, político para gerir programas sociais. Nasce, sob os auspícios do titular do Buritinga, o Instituto Fraterna, comandado por Flávia, destinado a promover programas sociais, servindo-se de holding de coordenação geral dos demais programas do gênero existentes no Distrito Federal. Um lance político a la Peron, que eternizou sua mulher, Evita, na cena política argentina, por meio dos programas sociais.
Os concorrentes do govenador que se cuidem. Se, em 2010, ele não sair candidato à reeleição, ou se esta for trocada por prorrogação de mandatos por um ou dois anos, como se cogita nos bastidores, como antídoto dos políticos à crise mundial, para se manterem no poder, poderia estar sendo preparada sua sucessora, assim como o presidente Lula prepara para sucede-lo uma mulher, a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil. Para tanto, coloca sob responsabilidades de uma mulher os grandes investimentos públicos socias, habitação, e econômico, PAC, que geram emprego e renda como fatores anticíclicos no contexto da grande bancarrota global que devasta a economia capitalista, sinalizando novos ventos e tempestades políticas pela frente, no rastro do desemprego e da agitação ideológica que a falta de trabalho e renda provoca.
Poder feminino chegou para valer



Embora duas presidentes da República sulamericanas, Cristina Kirchner, da Argentina, e Michele Bachellet, do Chile, estejam balançando em seus cargos, podendo ser derrotadas nas próximas eleições, em virtude de as economias portenha e chilenas, dependentes das exportações, oscilarem , brutalmente, favorecendo os adversários, a presença feminina é crescente no cenário do poder na América do Sul e não vai arrefecer-se. Na média, no continente sulamericano, as mulheres representam 50% dos votos válidos. No Brasil, 51%.
Não se trata, evidentemente, de um problema de gênero, como pressuposto para o comando do poder político, mas de correlação de forças que se transformam no embate violento das contradições do sistema, jogando as relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas em terríveis contradições, no fogo da crise, cujos desdobramentos podem chegar à guerra. O Pentágono já acusa a China, que quer se livrar dos dólares e dos títulos americanos candidatos à desvalorização, por considera-la em preparação bélica e espacial. O pau está quebrando.
Nesse ambiente, o essencial não é o fato de que tenha chegado ou não a hora da mulher de alcançar o poder, nem que o poder sob os machos tenha sido enterrado para sempre. O óbvio já disse presente há tempos, que a mulher chegou para valer na política e entrará na dança da renovação dos poderes e dos mandatos sob democracia em escala acelerada. Poderá ganhar ou perder, o importante é ser atriz. O mais provável é que essa hora chegada se materialize em maior equilíbrio entre os pontos de vista da mulher e do homem na condução do poder nacional. Haveria mudança qualitativa e não meramente quantitativa.
No Brasil, que nunca foi governado por mulheres, pode estar chegando essa experiência histórica, para materializar a pregação de Rose Marie Muraro de que o capitalismo brasileiro necessita, sob os juros altos mais altos do mundo, comandados por oligarquia financeira que escraviza o povo, de uma mulher para organizar melhor a casa, que virou uma zona.
Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, profissional enérgica e disciplinada, para cumprir a determinação de ser a mãeo do PAC, está no páreo. Podem aparecer outras. A senadora Kátia Abreu(DEM-TO), por exemplo, pode ser considerada fenômeno político por ter alcançado o poder na Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária(CNA), ambiente historicamente dominado pelos machões. Sua palavra de ordem política, como líder, expressa o poder que se espalha em 27 federações , 2.142 sindicatos, 1 milhão de produtores sindicalizados, 24% do PIB, 37% da força de trabalho, 36% das exportações. No meio do poder mais machista, no dos homens ligados às raízes profundas da terra, dos que mais têm medo do chifre da mulher moderna liberada e exuberante, emerge o poder da liderança feminina para coordenar o pensamento de uma classe politicamente poderosa.
Evitas sulamericanas, presentes
Nos diversos partidos, a voz feminina se amplia. No Congresso, as novas Evitas sulamericanas se espalham. Em meio à emergência feminina na política, os líderes políticos, no comando dos executivos, vão, igualmente, modulando as tensões e as variações dos movimentos políticos, nacionais, internacionais e locais, para sentir a nova onda, e, se preciso, para continuarem no poder, manobram por intermédio da mulher.
Na Argentina, Nestor Kirchner, machista peronista, faz isso. Dá as cartas nos bastidores de Cristina. A mais recente foi antecipar as eleições de outubro para junho a fim de não ter o pleito sob tensões mais fortes detonadas pela crise. Tudo armação de Nestor, porque o pavio de Cristina é curto. No fundo, naturalmente, o quadro de Peron e Evita está na parede do quarto do casal Kirchner.
Perón percebeu, em 1940-45, o poder e o potencial político de Evita e jogou suas fichas nela para organizar os trabalhadores e ao mesmo tempo controlá-los. O desenvolvimento urbano, de forma caótica, nos anos de 1930, na Argentina e no Brasil, abalados pelo avanço do pensamento nazista, fascista e comunista, colocara Peron em dificuldades para acalmar as classes mais pobres, que sofriam as dores da crise de 1929. Evita entra na jogada e se transforma em sucesso.
Nas crises, nascem as Evitas. Não estaria descartada a possibilidade de exemplos semelhantes se repetirem nas ondas de novas crises agudas. O mundo, na bancarrota financeira, detonada em 2008/2009, balançando geral as estruturas, entra em nova cena, depois de 80 anos do crash de 1929. Os horizontes estão escuros. Os partidos políticos, simplesmente, não existem e as lideranças atuais, igualmente, inexistem. São figurações em meio à derrocada do estado burguês sob capitalismo financeiro globalizado, ocupado pelo dinheiro do caixa 2.
O controle do poder sob a organização social que se desorganizou pode abrir espaço para as mulheres de forma muito acentuada, dadas as características femininas salientadas por Rose Muraro, no plano da articulação das políticas públicas, como grande mãe para dar de comer aos filhos aflitos. A diferença, agora, é que os tempos mudaram. Poderiam manipular os homens e não mais serem manipuladas por eles, os grandes culpados pelos desastres ambientais, econômicos, políticos e sociais.
Os programas sociais são as portas abertas à atuação política das mulheres na nova fase da política mundial. Por isso, não deve causar surpresas extravagantes o fato de que Flávia Arruda esteja, com toda corneta, possível adentrando-se na imaginação dos políticos do Distrito Federal como mulher de futuro político, ao colocar-se à frente, claro, sob supervisão do governador José Roberto Arruda(DEM-DF), do Instituto Fraterna, instituição sem fins lucrativos,com proposta de ação estratégica que viabilize a implantação de políticas públicas para o Distrito Federal. Contribuiria, de forma efetiva, para dar organicidade a toda a rede de instituições sociais. Poder político inquestionável.
O governador até agora tinha utilizado para conduzir a política social a secretária de Assuntos Sociais, deputada Eliana Pedrosa(DEM-DF), mas seu envolvimento em suspeitas de corrupção em licitações manipuladas para favorecer empresa familiar a fim de administrar o ceminário Campo da Esperança, onde se enterra a classe média, caveirou geral. A deterioração do quadro econômico leva o governador a fortalecer programas socias para sustentar o consumo, a arrecadação e, consequentemente, os investimentos públicos, como movimento anticíclico da crise, ao mesmo tempo que , nesse contexto, busca faturar politicamente , jogandoe na cena política Flávia Arruda. Pinta na cena brasiliense um tango argentino.
Jogo do amor e da política
O avanço do desemprego, que reduz o consumo, arrecadação e investimentos públicos se soma, na crise, à redução dos repasses federais por intemédio dos fundos de participação municipal e estadual. Ou seja, governadores e prefeitos, sem recursos e endividados, por dívidas sobre as quais incidem juros compostos, estão diante de futuro sombrio, com a queda da economia. Sobram-lhes o investimento social para se equilibrarem em meio à derrocada do econômico. O econômico, para se salvar, passa a depender do social, em jogo dialético. As receitas neoliberais dos governadores, como foi, até agora, a do governador José Roberto Arruda, de apostar no enxugamento da máquina, para depois utilizar o dinheiro economizado em investimentos públicos, estão indo por água abaixo, diante da emergência destrutiva do processo deflacionário. Os planos do titular do Buritinga correm perigos. Ele se vangloriou, justamente, do esforço fiscal e programou retomada dos investimentos com as economias acumuladas que se transformam em fumaça, exigindo austeridade, cortes e, consequentemente, tumultos políticos. Como diz Marx, quando tudo vai bem, não há porque distribuir; quando tudo vai mal, não há o que distribuir. Restam arrochos fiscais, supressão de despesas, congelamento de reajustes salariais etc e tal. Só pepino brabo que destroi reputações e votos.
Serão, no caso do DF, cortados 800 milhões de reais de despesas. As reações sociais, que fazem desaparecer capital político acumulado pelos líderes, já começaram. Como os salários não serão reajustados nem serão contratados novos servidores, mesmos os já concursados, o desgaste se amplia, em meio às pressões políticas. Chiadeira por todos os lados. A crise comeu a reserva acumulada que iria incrementar obras públicas e, consequentemente, votos.
O governador José Roberto Arruda, nesse novo cenário, veste novo paletó: abre o espaço político para Flávia Arruda. A capacidade de crescimento dela dependerá da sua garra feminina e do peso político do marido. Pode ou não se transformar em uma Evita brasiliense, pois o foco de sua ação será os mais pobres e necessitados.
Os efeitos políticos poderiam ser sua ascensão como ídolo popular , se for um sucesso sua empreitada. Evita Perón, na Argentina, assumiu a sua condição de mãe adorada dos mais pobres e conquistou o coração deles, por um lado, e o ódio dos adversários, de outro. Virou mito. Cristina Kirchner, supervionada por Nestor, nos bastidores, tenta o evitismo peronista. A crise, no entanto, impõe-se como obstáculo. No DF, o campo, no ambiente da depressão econômica em marcha, está aberto para Flávia Arruda se transformar ou não em nova Evita sulamericana.












Não é à toa que o Banco Asteca, do México, do ex-presidente Salinas de Gortari, apostou suas fichas no consumo no Nordeste, financiando compras mediante garantia dada pelo cartão de crédito de alimentação do Bolsa Família. O mesmo deve ser feito relativamente à construção das casas. As prefeituras, que doarão os terremos, terão, por sua vez, de ser bastante fiscalizadas, pois a crença popular nos políticos estão em baixa, graças a uma legislação eleitoral que os torna prisioneiros dos caixas dois eleitorais. Olha aí a política federal dando batidas em cima de uma grande empreiteira, Camargo Correia, suspeita de corrupção no envolvimento com a classe politica. Todo o cuidado é pouco. As associações, trabalhando em mutirão, têm condições de exercer a fiscalização, enquanto dinamizam o mercado interno, na base do movimento econômico de massa. Fica-se livre dos sanguessugas do juro alto. Se o dinheiro for para as empresas, que financiarão os pobres, com empréstimos cujos custos se tornem crescentemente insuportáveis, como aconteceu em planos habitacionais anteriores, o processo fracassará, pois poderia pintar inevitavelmente as relações dos políticos com as empresas em larga escala, colocando em risco a idéia do programa. A população de baixa renda, de 1 a 3 salários mínimos , com o dinheiro que ela pode pegar, por meio de associações comunitários , em movimento comunitário nacional, fará, traquilamente, sua casa com custo baixo. É preciso evitar o que ocorreu em Alexania, Goiás, e em muitos outros lugares: um prefeito recebeu recursos do estado para construir 300 casas, construiu, apenas, 150 e embolsou o resto do dinheiro. A comunidade organizada em associações não deixaria que isso ocorresse.

Para cada 1 dólar que o governo colocar na agência público-privada destinada a comprar títulos podres que bloqueiam nos bancos o crédito, inviabilizando o capitalismo, os investidores privados(entre eles, os agentes dos banqueiros, claro) colocarão , igualmente, 1 dólar, só que esse 1 dólar privado terá garantia de 93% do dólar público, emitido pelo governo. Ou seja, de cada 100 dólares do fundo, o investidor entra com, apenas, 7 dólares. Se der tudo certo, lucro total; se entrar areia, o governo , o contribunte, banca tudo. Resta saber se o dinheiro que o governo colocar disporá de garantia, porque não tem lastro nenhum. Busca, apenas, obter confiança da praça global. Vale dizer: joga na circulação capitalista uma moeda sem garantia para salvar uma moeda(títulos) podre. Com isso, os banqueiros americanos conseguiram uma vitória parcial ao evitar a estatização bancária nos Estados Unidos. Perderiam poder se isso acontecesse. Na prática, eles são os verdadeiros comandantes da moeda americana, por intermédio do controle do FED, banco central do país, desde sua criação em 1913. Nos EUA, não é o tesouro nacional que emite moeda, mas o FED. O tesouro emite papel que é comprado pelo FED, como destaca o professor-economista Adriano Benayon, especialista em comércio internacional. Caso houvesse estatização bancária em meio a bancarrota financeira, poderia haver mudança radical na estrutura do poder sobre a moeda, o poder real. Se o governo assumisse diretamente o controle dos bancos privados falidos, o tesouro disporia não apenas da atribuição de emitir títulos, mas, igualmente, a de emitir moeda. Emitiria e enxugaria. Ficaria com o FED a tarefa de controlar a economia por meio da taxa de juro, apenas, como faz, incompetentemente, no Brasil, o Banco Central, conforme ressalta Delfim Netto, no Valor Econômico, demonstrando a presunção da tecnocracia como fator determinante na condução da economia, até levá-la ao precipício. Limitar o FED apenas ao controle dos juros, destituindo-se, na prática, seu poder de emitir, em meio a uma estatização bancária dramática, seria o fim do predomínio de Wall Street sobre o Congresso e a Casa Branca. Obama teria força de quebrar a espinha da bancocracia, sem que pudesse acontecer com ele o que aconteceu com Kennedy?
A força dos bancos ficou evidenciada como princípio de comando das finanças americanas, embora tal influência esteja tecnicamente destruída pela falência financeira deles, que requer socorro estatal. Não foi, portanto, dessa vez, que a estatização vingou como salvação. O duelo de titãs, entre o Tesouro, ou seja, governo Obama, e o FED, os bancos, foi ganho, no primeiro round, pelos banqueiros. A luta, porém, não terminou. O plano pode fazer água, porque não está suficientemente calçado pela segurança, nem do público, nem do mercado, nem do governo, ameaçado pelo perigo de expansão dos déficits. Ao fixar um plano público-privado para salvar o sistema bancário, o governo rendeu-se ao discurso dos banqueiros para que a gestão do socorro não fosse exercida exc lusivamente pelo mando estatal, mas pelo novo caráter do poder financeiro americano, público-privado, embora o privado, no ato de tentar salvar o sistema, não entre com dinheiro, mas como mera representação sem valor, apenas para preservar as aparências. Os bancos conseguiram fazer valer o princípio – no momento, mera figura decorativa – da propriedade privada como valor suficientemente forte para ombrear com Estado, mesmo estando destruída sua reputação pela especulação. O argumento de que o plano Obama requer a indispensável presença do setor privado, representa não apenas a confissão americana de que o governo dos Estados Unidos está fragil, diante de déficits que podem alcançar 3 trilhões de dólares, mas, também, a concordância tácita com a farsa de que a utilidade do privado, que detonou a crise, se mantém intacta. Sustentou-se, tão somente em discurso, como necessária à sobrevivencia “eficiente” do sistema a presença do setor privado, embora este não esteja colocando dinheiro nem correndo risco no negócio que está participando, ou seja, na parceira público-privada.
A contestação à eficácia do plano Obama já está no ar, especialmente, relacionada à desconfiança dos países compradores dos títulos americanos. Cheia de dólares e títulos da dívida pública em suas reservas monetárias, a China, desconfiadíssima quanto à saúde da moeda americana, passou a reivindicar moeda mundial, para determinar as relações de trocas globais. Esse é o papo predominante que pode pintar na reunião do grupo dos 20, em Londres, em 2 de abril. Não há, eis a verdade, crença na capacidade unilateral de a moeda de Tio Sam dar, sozinha, conta do recado. Depois que o próprio governo americano, por intermédio do Banco Central, comandado pelos banqueiros privados, liberou geral as normas bancárias, para que a reprodução do capital se fizesse nas especulação e na ficção, sem mais necessidade do trabalho, como fator de riqueza – já que no trabalho os antagonismos relativos ao capital produzem acumulação excessiva que reduz a taxa de lucro do sistema , levando-o à deflação, como a presente crise mundial demonstra, sobejamente, o futuro do dólar, em meio à jogatina especulativa em que se transformou a economia americana, ficou comprometido.
A montanha de crédito podre tem que ser removida por títulos americanos que elevarão extraordinariamente os deficits dos Estados Unidos, cujas consequências são incógnita total. O medo dos chineses diz tudo. O Brasil, que está com suas reservas de 200 bilhões de dólares aplicadas nos títulos americanos, que coloque as barbas de molho. Será que vai dançar nesse dinheiro, sem utilizá-lo na alavancagem decisiva da infra-estrutura nacional, carente de estradas, portos, aeroportos, ferrovias, hidrovias, silos suficientes para dispor de mercadorias para vender ao preço do dia nos portos etc?
O presidente do Congresso, Senador José Sarney(PMDB-AP), e o da Câmara, Michel Temer(PMDB-SP), lideranças apagadas, devido ao descrédito em que o Legislativo se encontra perante a opinião pública, tentam manobra parlamentarista cujos efeitos, se pegarem, serão o de, sob presidencialismo falsamente democrático, esvaziarem a governabilidade provisória, por meio da qual a Nova República buscou sobreviver ao longo dos últimos vinte anos sob regime neoliberal, ditado pelo interesse dos grandes credores do Estado brasileiro, cuja saúde financeira pode entrar em bancarrota, se a crise global se aprofundar.
Essa inversão de papéis ocorreu, mais aceleradamente, durante a crise monetária dos anos de 1980, quando , a partir de 1979, os Estados Unidos, diante do perigo da inflação, decorrente do excesso de dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, na economia global, subiram a taxa de juros de 5% para 17% ao ano, para salvar a moeda americana. Resultado: a periferia capitalista, endividada, dependente da poupança externa, faliu. Falida a economia, faliriam, em seguida, os parlamentos, porque a economia sobrepujou a política.
O Congresso Nacional, nesse contexto, mergulhou , sob medidas provisórias, na inutilidade total. Sem poder – e sem querer , porque a vontade política congressual foi comprada a peso de ouro – , os congressistas ficaram sem ter o que fazer. Cabeça vazia, oficina do diabo. A corrupção na distribuição dos recursos orçamentários, mobilizados para atender bases parlamentares, passaram a ser a diversão dos congressistas. Para fazer isso, prá que 513 deputados? Não foi à toa, portanto, que o deputado Clodovil Hernandez(PR-SP) – 500 mil votos, recorde – , falecido, na semana passada, propôs projeto de lei que determina 50% de corte na representação parlamentar. Os congressistas deixaram de lado funções precípuas do legislativo, de legislar e fiscalizar o Executivo.
O jogo de Temer-Sarney, que peca por falta de liderança, se insere nessa tarefa geral de voltar a dar credibilidade ao Legislativo que, meramente, representativo, sem conteúdo participativo, deixa de ser útil. O esforço parlamentarista dos dois líderes do PMDB encontrará dificuldades para materializar-se. Afinal, o partido perdeu sua honorabilidade, fundamentalmente, porque entre suas preocupações fundamentais está a de não alcançar o poder, mas dominá-lo nos bastidores, submetendo os executivos à sua manobra corporativa, obscura, manchada de más intensões, que contribuem para a sua pouca ou nenhuma autenticidade.
A expansão do desemprego nos paises capitalistas desenvolvidos e emergentes tende a acirrar o que se imaginava, sob social-democracia representativa, presidencialista-parlamentarista, superado pelo capitalismo, ou seja, a luta de classes. Engano. Ao anunciar que jogará 1,5 trilhão de dólares na circulação capitalista americana, para a economia dos Estados Unidos continuar, via consumo, puxando a demanda mundial e fazer preponderar politicamente o pensamento dominante de Tio Sam na cena global em crise aguda, o presidente Barack Obama demonstra a tese do professor Lauro Campos, “Inflação, instrumento de controle social”. O Estado investe inflacionariamente para tentar, na crise de realização da produção no consumo, aliviar o que realmente é emergente e socialmente perigoso para o capitalismo, a explosão da luta de classes.
Na América do Sul, periferia capitalista dependente da poupança externa, que desapareceu, os movimentos de libertação econômica podem pipocar, se as dificuldades ficarem intransponíveis, no confronto que a crise promove das forças produtivas, expansivas em face do desenvolvimento científico e tec nológico, com as relações sociais da produção, estreitadas pela concentração de renda, levando à luta de classes. A Argentina, que depende das exportações, porque o neoliberalismo menemista destrui o parque industrial portenho, no tempo da Era FHC, no Brasil, não realiza a produção interna no mercado externo bloqueado pela crise. A receita interna implicaria em maior distribuição de renda. Mexeria no bolso dos grandes latifundiários. Luta de classes emergente.


O acirramento do antagonismo social se acelera com a intensificação do desemprego. A contradição – o confronto das relações sociais da produção, estreita, com o desenvolvimento das forças produtivas, largo – busca a superação dialética, política. Nesse ambiente, a inflação, no sistema capitalista, deixa de ser problema e se transforma em solução. Ela evita , pelo menos temporariamente, a luta de classes que as situações deflacionárias desenham explosivamente, sinalizando inevitável mudança brusca de regime político, no ritmo do empobrecimento coletivo. A inflação deixa de ser instrumento econômico e passa a ser arma política do capitalismo contra a emergência socialista, destaca Lauro Campos, em “Inflação, instrumento de controle social”, tese de mestrado de 1957, orientada pelo economista italiano Cláudio Napoleoni. Há 52 anos, o senador brasiliense e professor de 11 matérias de economia na Universidade de Brasilia, autor do clássico “A crise da Ideologia Keynesiana”(1982), já cantava a bola. Com tanta antecedência, em meio a um mundo enebriado pelo capital, só poderia ser considerado louco. “Minha loucura é minha lucidez”(Glauber Rocha). Ele previu a derrocada keynesiana americana e, agora, a solução, contraditoriamente, volta a ser Keynes, configurando a negação da negação do sistema.
O Estado burguês, que, segundo os teoricos marxistas, estaria a serviço dos ricos em prejuízo dos pobres, no processo de sobreacumulação do capital protegido por leis votadas em parlamentos cuja consciência é comprada por caixa dois eleitoral, está diante do seu maior desafio. Se não proteger os interesses dos mais pobres, pode sumir do mapa, se ocorrer uma nova versão mais ampliada de um maio de 1968 em escala global, sintonizada pela tecnologia da informação.
Keynes disse que na crise a moeda estatal inconversível – papel que vira papel moeda – é a única variável verdadeiramente independente sob o capitalismo, gerando o que chamou de “eficiência marginal do capital”, que desperta o espírito animal investidor do ser humano empreededor. Ao jogar dinheiro na circulação o governo, segundo o grande economista inglês, cria as quatro condições necessárias à produção da “eficência marginal do capital”, ou seja, o lucro: 1 – aumenta os preços, 2 – reduz os salários, 3 – baixa a taxa de juro e 4 – perdoa a dívida do empresário contraída a prazo. Vale dizer, o espírito animal somente desperta quando o investidor não precisa meter a mão no bolso. A inflação, ou seja, a acumulação, vira alternativa à deflação, a destruição. Escolha de Sofia.