Lula, bem vindo ao jornalismo!

  
 
                                                ” A minha cama… é uma folha de jornal”
                                                                                              Noel Rosa
 

 

Depois de Fidel Castro com suas indispensáveis “Reflexiones del Comandante”, e do presidente da Venezuela, com suas densas argumentaçõs em “Las líneas de Chávez”,  teremos agora a coluna que Lula vai publicar regularmente em jornais espalhados por todo este país, cujo título, conforme está na Mensagem do Executivo enviada ao Congresso, será “O presidente responde”. Talvez poucos jornalistas tenham lido o documento, o que não é raro em se tratando de jornalistas, há muitos que não lêem estes documentos. Será interessante ter na mesma página que ataca o Lula, suas respostas, suas interpretações, e suas análises para fenômenos políticos e sociais..


 

Trata-se de decisão política relevante, com muitos significados e, sobretudo, abrindo novas janelas para os que lutam para transformar os meios de comunicação, o jornalismo em particular, em instrumentos de civilização e democratização. Primeiramente porque o jornalismo ganha em conteúdo informativo, pois, ninguém duvida, trata-se de um “colega” altamente informado. E ganha também porque raramente alguém com a rica experiência de vida e de história que ele possui, com o olhar crítico popular sobre um jornalismo feito pelas elites e para as elites, tem acesso a escrever.

 


Não carece repetir a volumosa tendência antilulista predominante no jornalismo atual, o que tem levado o presidente a criticar com alguma freqüência a mídia, a baixaria televisiva e também um certo jornalismo por lhe causar azia. Pois, a decisão de se transformar um colunista político de jornal indica, primeiramente, que Lula dá um novo passo concreto para  transformar o panorama comunicativo brasileiro, muito embora até mesmo muitos de seus aliados tenham dificuldades em reconhecer mudanças em curso na área, certamente porque a ditadura midiática rigorosamente hegemônica e onipresente, ofusca, confunde e cega.

 

Recapitulemos. Em 2002, um Seminário Nacional de Cultura e Comunicação, realizado em 5 regiões do Brasil, produziu um documento chamado ” A imaginação a serviço do Brasil”, incorporado como programa na campanha Lula-Presidente daquele ano. Este documento programático foi duramente criticado pela mídia conservadora, Veja à frente, como de inclinação “bolchevique-caipira”.. O documento trazia a proposta da TV Pública a partir da fusão entre Radiobrás e TVE, mais tarde realizada pelo presidente Lula, após convocar o primeiro Fórum Nacional de TVs Públicas ocorrido no Brasil. Trazia ainda a idéia de uma nova relação com as tvs e rádios comunitárias, que só agora, vencendo as dificuldades, começa a se delinear, sobretudo a partir da proposta de descriminalização(rádios-com) e também das várias políticas de audiovisual que podem também alcançar as tvs comunitárias.

 

 

 

 Há muitíssimo o que caminhar, mas o sinalizado não está incorreto. Os muitos Pontos de Cultura criados expandem a produção audiovisual comunitária e regional, colocando, é verdade, um bom problema: o de se encontrar espaços de divulgação. Não sem razão a TV Brasil está fazendo a licitação para instalar repetidoras em 200 cidades de grande e médio porte, o que significa sim disputa de audiência. Tímida? Pode ser, mas a direção é corretíssima, confere o que está na Constituição que pede comunicação plural, regionalizada, educativa e civilizatória. Sim, mas tem que chegar aos grotões. Sei o quanto é difícil pedir paciência em comunicação diante do pavoroso audiovisual embrutecedor, mas o fundamental agora é ajudar a construir esta TV Brasil e até muitos dos críticos já se calaram……


 

Pois, Lula agora vai um pouco mais além: ele próprio transforma-se em colunista de jornal o que de certo modo já responde a uma descabido pito acadêmico que erroneamente considerou sua crítica a um jornalismo que faz mal ao fígado, como se fosse elogio à não-leitura. Se desprezasse a leitura, não se transformaria ele próprio em jornalista, disposto com o gesto a enfrentar o debate pouco equilibrado em curso no jornalismo brasileiro, com os conglomerados midiáticos unidos numa linha editorial predominantemente oposicionista ao seu governo.

 
Se o próprio presidente da república sente a necessidade de responder ele próprio às desinformações e manipulações ou às sonegações praticadas pela grande mídia contra si e seus atos         inclusive aquela que recebe enorme quantidade recursos financeiros do governo que ataca, até mesmo para produzir, por exemplo, programas como o Telecurso , de boa qualidade educativa, mas inexplicavelmente exibido de madrugada      imagine-se a vulnerabilidade do cidadão comum indefeso diante do poderio demolidor imagético dos meios.!!!!
 

                                               Vargas, Lula, Guevara e a comunicação

 

 

 

Lições da história, os presidentes mudam a comunicação. Casos positivos: Perón criou a TV que já nasceu pública na Argentina; Guevara tomou o exemplo da Agência Latina de Perón e criou a Agência Prensa Latina em Cuba:  o general Alvarado no Peru foi além  nacionalizando os meios de comunicação e entregando-os aos sindicatos que, sem saber operá-los, os devolveu ao Estado. Chávez criou a Telesur. A grande transformação comunicativa de sentido público havida no Brasil  ocorreu na Era Vargas. Juntamente com a industrialização, a nacionalização do sub-solo, a criação das empresas estatais estratégicas, do Instituto do Açúcar e do Álcool para abrir a era da energia da biomassa, e  da legislação trabalhista que começava a tirar os trabalhadores da senzala oligárquica do direito trabalhista-zero, Vargas sentiu também a necessidade de mudanças no plano comunicativo e cultural. Tendo criado o  Instituto Nacional do Livro, o Instituto Nacional do Cinema, do Teatro, o ensino público obrigatório,  o presidente gaúcho, que também havia sido redator de jornal no movimento estudantil, assume a criação da Rádio Nacional, da Rádio Mauá  a Emissora do Trabalhador    do jornal A Manhã, a União, na Paraíba, tendo inclusive nacionalizado outros periódicos como “A Noite”  e, até mesmo “O Estado de São Paulo”,  durante o período em que o Tenente João Alberto, ex-integrante da Coluna Prestes esteve à frente do Governo Paulista.


 

Vargas criou ainda outras publicações, mas duas delas merecem registro: “O Pensamento da América”, destinado à integração latino-americana e a Revista Cultura, cuja excelência, em ambas, devia-se à qualidade de seu quadro de redatores, entre os quais  Carlos Drummond de Andrade, Gustavo Capanema, Nestor de Hollanda, Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, etc Estas publicações desapareceram soterradas pela mesma ação demolidora do patrimônio nacional que buscou acabar com a Era Vargas.

 
É verdade que o sindicalista Lula fez muitas críticas a Vargas, quiçá pela proximidade que tinha com uma certa sociologia  paulista, inspirada em valores coloniais-oligárquicos, que mais tarde veio a privatizar a Vale do Rio Doce, a CSN, a Telebrás, a Portobrás, e, em boa medida a Petrobrás. Tentaram rebatizá-la de PetrobráX,  lembram-se? Faz muito tempo,  Lula chegou mesmo a declarar que “se Vargas era o pai dos pobres,  era a mãe dos ricos”. Talvez, com a experiência de quem tem que tocar o barco, não as repita hoje. Basta dizer, é o próprio presidente que hoje fala que nunca antes os banqueiros ganharam tanto dinheiro como em seu próprio governo.
 
Mais importante é, debaixo do tiroteio das declarações,  numa caminhada de décadas, que fazem a alegria de uma mídia que quer condenar para todo o sempre a Era Vargas,   descobrir linhas de coincidências históricas entre Vargas e Lula. Lembrando que Lula chegou a se emocionar quando visitou o túmulo de Vargas em São Borja, acompanhado de Leonel Brizola. E , mais recentemente, baixou decreto criando a Semana Vargas para que, segundo explicou, todos conheçam profundamente a obra daquele que foi o maior dos presidentes. Declaração dele.


 

Pois se Vargas criou a Rádio Nacional, a Rádio Mauá, a Voz do Brasil    instrumento de democratização da informação via rádio acessível a uma esmagadora maioria de brasileiros que ainda hoje, como há décadas, continua proibida da leitura de jornal  . Lula, com o mesmo sentido histórico, criou a TV Brasil, a tv pública brasileira, cujo projeto estava sendo trabalhado por Vargas como desdobramento da Rádio Nacional, tendo sido sepultado junto com o gaúcho, para a alegria do capital estrangeiro, das oligarquias nacionais, dos inimigos eternos dos direitos trabalhistas e também da comunicação pública. Hoje continuam tramando contra a Voz do Brasil, atacam o jornalismo chapa-branca, mas perdoam o jornalismo chapa-oligopólio.

 

 

 

 

Há outras identidades, mantidas as diferenças de épocas históricas:  Vargas deu início ao pró-alcool, montou o trem do álcool, Lula o retoma , o valoriza, o expande contra a pressão das potências estrangeiras, ambos os presidentes buscando a independência nacional energética. Vargas concretizou a campanha “O petróleo é nosso”, Lula afirma agora que “o Petróleo Pré-Sal é do povo brasileiro não das transnacionais” , as mesmas que levaram Vargas ao suicídio-golpe. E ainda convocou a UNE a sair ás ruas para uma nova campanha “O petróleo é nosso”. Vargas criou o BNDES, o maior banco de fomento do mundo, que FHC usou contra o Brasil na privataria, mas não conseguiu demolir.  Lula recupera parcialmente a função social do BNDES, o fortalece enormemente, fortalece o sistema financeiro público. Outras coincidências: a política externa da Era Vargas, como a da Era Lula, afirmativas da integração latino-americana, da soberania nacional,  da independência,  não são de tirar os sapatos e  rebaixar-se ante ordens de qualquer guardinha de alfândega dos EUA……


 

                         Jornal Público

 

Como o tema é comunicação, a partir da decisão de Lula tornar-se colunista, somos levados a pensar num sentido histórico para acreditar que estão sendo criadas as condições para que o mesmo desejo do presidente de democratizar informações, de intensificar o debate democrático de idéias possa ser feito não apenas com sua coluna, mas com a criação de novos instrumentos de comunicação dirigidos à grande massa que continua proibida de ler jornal. Ou seja, uma idéia leva à outra.

 

Se somadas todas as tiragens dos pouco mais de 300 jornais diários existentes no Brasil hoje não alcançamos o número de 7 milhões de exemplares. Ou seja, temos no Brasil indigência de leitura de jornais. Temos aí uma charada que o mercado, por si só, mostrou-se incapaz de resolver: como levar os brasileiros a ter pleno acesso à leitura, tornar acessível a eles uma tecnologia do século 16, a imprensa de Gutemberg.?

 

Seja bem-vindo o presidente Lula ao mundo do jornalismo, até porque com certeza se ocupará mais diretamente dos desafios da comunicação que ainda fazem com que o Brasil seja um país com informação controlada por uma ditadura vídeo-financeira .  Apesar de que exista uma capacidade ociosa crônica de 50 por cento de nossa indústria gráfica, parada enquanto o povo não tem o que ler! Isto ilustra quando Lula diz que ainda não resolvemos problemas de outro século….

 

                                               Lula e Evo: identidades no social

 

 

 
Quem sabe o colunista Lula não esteja já pensando    diante da expectativa positiva que criou ao anunciar que suas próprias palavras serão reproduzidas em centenas de jornais     em  como superar os limites  impostos pelo sistema de proibição da leitura. Diante de dilema similar de uma mídia de corte oligárquico, que ignora até mesmo que a Bolívia é hoje considerado “Território Livre do Analfabetismo” pela Unesco ou que já retomou corajosamente o controle nacional sobre suas riquezas minerais, Evo Morales viu-se impelido a lançar um jornal do poder público, já que o “livre jogo do mercado” conduz apenas à concentração, a um jornal para as minorias e a uma linha editorial rigorosamente antipatriótica. Mercado não democratiza, mercado concentra, carteliza, exclui, discrimina, sonega, embrutece…. Como hoje até mesmo os inimigos do estado estão agora “convertidos” a reconhecer o estado como solução para a grande crise do capitalismo,  no campo da comunicação podemos trabalhar com ainda mais desenvoltura as teses que reivindicam mais protagonismo do estado: só o fortalecimento da comunicação pública, sua qualificação, sua capacidade de disputar audiência, leitores, poderá finalmente possibilitar que a invenção de Gutemberg  seja acessível a todos os brasileiros, como aos bolivianos. Evo alfabetiza e democratiza a leitura. Lula cria a universidade da integração latino-americana UNILA e torna o ensino do espanhol obrigatório. Muitas identidades. A coluna de jornal de Lula é apenas o primeiro passo, no sentido correto.

 

Que não se diga que os poderes públicos não podem editar jornal!!!. Será um decreto escrito nas estrelas? Ué, por que os críticos não ficam esbaforidos, nem indignados com o fato de que é o estado que banca grande parte do jornalismo privado?. Mas,   jornalismo público, não??? Aí seria um crime?????  Na França existe um jornal editado pela Previdência Social que chega a todos os segurados e não apenas com notícias previdenciárias. É um jornal, traz notícias, do país, do mundo, do futebol, das cidades, do clima, da economia, da cultura. Por que será impossível pensar que o Programa Bolsa Família, que leva farinha, café, macarrão a 13 milhões de famílias não pode também levar um jornal, talvez o único que os brasileiros pobres possam segurar em suas mãos não para forrar banheiro ou para servir de cama como na música de Noel Rosa. Mas, um jornal que respeite os mais pobres como cidadãos, que lhes traga informação sobre a vida, sobre o funcionamento da economia que eles, os mais pobres, movimentam.Um novo jornalismo precisa ser criado para falar não apenas de bolsa de valores que ninguém sabe o que é, mas para falar do preço da latinho e do papelão que movem milhões de seres na economia dos recicláveis . Que não fale apenas de crimes, mas fale dos programas públicos, das oportunidades, da música popular, dos heróis nacionais. Que explique sobre medidas simples para a prevenção de doenças contagiosas, como o câncer de pênis, que pode ser prevenido em boa medida com informação em saúde, mas que os jornais sustentados por anúncios da indústria de medicamentos não querem divulgar.  Que lhes dê a oportunidade de criar finalmente um hábito de leitura, convenhamos que isto é impossível se não existe um jornal de distribuição gratuita, com linguagem simples e clara    não nos faltará talento para isto, afinal já demos um Monteiro Lobato, um Paulo Freire, um Ariano Suassuna, somos um país de preciosos cordelistas e payadores, mas  que não têm onde escrever.


                                  

 

               PAC da informação e da cultura

 

Este é o grande desafio: está muito bem que Lula seja colunista de jornal, sobretudo por ser cidadão de excepcional inteligência política     muito mais bem informado do que os mais bem informados jornalistas      e com sua capacidade de discernimento e leitura do mundo e de escrever uma outra história política para o povo brasileiro ao ter criado instrumentos, a Cut e o PT, que estimularam a participação  direta dos mais pobres e excluídos na vida política e nos destinos do País.  Mas, esta coluna precisa também de um jornal para que seja lida por milhões, distribuído pelo mesmo mecanismo do Bolsa Família, pelas Redes do SUS, pelos sindicatos, fábricas, estádios de futebol, metrôs, ônibus e trens. Já que Lula se animou a entrar no jornalismo, tomara que seja o preâmbulo de um esforço para criar, além da TV Brasil, um jornal para os milhões de brasileiros proibidos da leitura. Aliás, a EBC é empresa de comunicação, não apenas de rádio e de televisão.

 

 

 

 

 

Esta proposta já havia sido levada pelo Sindicato dos Jornalistas do DF ao Congresso Nacional da categoria: um Programa Público de Popularização da Leitura e Edição de Jornal, aproveitando a capacidade ociosa da indústria gráfica. É o PAC da informação e da cultura. Gera emprego, mas sobretudo, gera um cidadão novo, informado, cidadão completo. “A gente não quer só comida”, diz a música. Ou como diz o meu chará “Saciar a fome de pão e a fome de poesia também”. Aquela masturbação acadêmica que procura a porta de saída do Bolsa-Família certamente não poderia rejeitar: além de nutridos,  seres humanos com acesso à leitura, para enxergar mais longe na vida e na história.. Os acadêmicos conservadores criticam o povo que não lê, então não podem rechaçar, devem apoiar,  que se trabalhe para demolir o sistema de proibição da leitura né?

 

Que não se venha a inverter o verdadeiro debate falando de diploma: o desafio é criar um jornal para milhões. Se o Bolsa Família é dos maiores programas sociais do mundo,  que ele seja enriquecido com a oferta de um jornal respeitoso ao pobre, civilizador, educativo, lúdico e informativo.

 

Quanto a diploma, é indispensável sim uma regulamentação, mas uma que permita à classes populares o exercício do jornalismo. Fica o tema para debate, mas definitivamente, o colunista Lula está dentro da lei, além do que seu único diploma, como declarou de modo comovedor, é o diploma de Presidente da República que lhe foi dado por 63 milhões de  eleitores-professores.

 

 

 

 

 

 

 

Lula acelera peronismo protecionista

Os inteligentes argentinos perceberam antes da oposição brasileira que a decisão de Lula de enfrentar a crise elevando agressivamente os gastos públicos como sustentação da demanda global coloca o Brasil, rico em matérias primas e base industrial sólida, como potencia econômica incontestável na América do Sul. Daí se disporem ao protecionismo peronista nacionalista como defesa frente a um país em que o governo joga a força estatal para bancar a produção e o consumo, subsidiando todo mundo.

A indústria argentina, naturalmente, não aguenta. Nem as estruturas industriais sul americanas , incapazes de suportar a concorrência com o Brasil, cuja capacidade de investimento, nos últimos cinco anos de bonança capitalista global, fortaleceu modernização industrial. Os investimentos em bens de capital estavam, até o estouro da crise, em outubro de 2008, crescendo 17% ao ano. Nessa batida modernizadora, a indústria nacional ganharia fácil o mercado sul-americana, em processo de integração em marcha, ao longo dos próximos dez anos.

A praça argentina hoje é dominada pelos produtos industriais brasileiros. A indústria do país vizinho maior importador da manufatura verde-amarela simplesmente não existe. Houve uma inversão relativa entre Brasil e Argentina no processo de industrialização sob as ditaduras militares, nos anos de 1970-80. No Brasil, os ditadores jogaram no nacionalismo econômico. Os Planos Nacionais de Desenvolvimento(PNDs) dos militares são os mesmos que ancoram o PAC lulista. Na Argentina, os militares se vestiram de Chicago boys, seguindo Pinochet, no Chile. Adotaram a prática econômica ultra-neoliberal. Destruiram a indústria portenha, como se fosse produto do comunismo soviético.

 

Destruição militarista

 Os militares argentinos foram realmente muito burros. O nacionalismo de Geisel versus o entreguismo neoliberal de Videla compuseram, na relação Brasil-Argentina um compartativo favorável aos brasileiros. A indústria de base argentina foi destruída pela ditadura militar quando a indústria de base brasileira era sustentada pelos militares, alavancando grandes obras para construção representação política militar expressa no Brasil Potência.

O ministro Mário Henrique Simonsen, em 1972, previu que no ano 2.000 o Brasil estaria cheio de problemas macroeconômicos, mas estaria montado numa infra-estrutura industrial que teria valor político estratégico na ampliação do mercado sul americano para os empresários brasileiros. Lula, na crise, bomba a indústria de estímulos que estão sendo enxergados pelos argentinos como fator descompensatório para os interesses da Argentina.

Na medida em que o Brasil, mediante política macroeconômica keynesiana anticíclica, bombeia de crédito subsidiado a produção nacional como arma de proteção contra os abalos produzidos pela crise americana, os argentinos vêem esse bombeamento como arma mortífera para a economia portenha. A Argentina é um elo mais fraco da cadeia capitalista periférica sul-americana do que o Brasil, porque o seu parque industrial foi destruido pelo militarismo argentino neoliberal, oposto ao militarismo brasileiro nacionalista.

Os militares brasileiros ergueram uma infra-estrutura industrial nos anos de 1970-80, cujo percurso, nos últimos 24 anos de Nova República, foi submetido ao neoliberalismo do Consenso de Washington, para tirar dinheiro da periferia,capaz de salvar o dólar dos excessos de deficits. Eterno sanguessuguismo do capalismo cêntrico sobre o capitalismo periférico. O neo-nacionalismo lulista, agora, impulsionado pela própria crise que coloca novas responsabilidades sobre o Estado nacional, torna-se, dessa forma, um peso insuportável para os argentinos, candidatos à desindustrialização acelerada.

 A longa reunião realizada entre as autoridades econômicas e diplomáticas brasileiras e argentinas, em Brasília, na terça, 17, representou um momento de estresse na relação entre os dois países dada pela crise mundial. Os interesses da infra-estrutura produtiva e ocupacional brasileira, caracterizada por base industrial competitiva, cujos interesses se encontram estreitamente relacionados com o capital externo, entraram em duro choque com os interesses da infra-estrutura produtiva e ocupacional argentina, estruturalmente, fragilizada. Os sócios externos dos capitais comerciais fortes argentinos passaram a ser os próprios brasileiros ou argentinos investidores no Brasil.

 

Moeda sul-americana, urgente

A interatividade econômica Brasil-Argentina colocou o comércio exterior brasileiro dependente dessa relação, quanto mais estiverem obstaculizados os canais americanos e europeus, paralisados pela recessão na Europa e nos Estados Unidos. Não interessa para nenhumdos lados, mas as contradições dos interesses no interior do modelo econômico colocam indústria e comércio argentinos em choque entre si relativamente ao Brasil. O comércio argentino prega a integração. A indústria, a separação. Dificilmente será possível a vitória de um lado sobre o outro , sem que ambos se desabem. Daí dispor de chances de crescer a proposta de nova moeda sul-americana para mediar as relações comercinais na América do Sul. Haveria compensações recíprocas na intermediação monetária integracionista capaz de remover os desbalanços provocados pelas oscilações cambiais sob domínio do dólar cuja sáude tende a ser contestada quando mais a recessão mundial se aprofunda. Argentinos e brasileiros estão condenados a marcharem juntos.

Possível conflito comercial mais agressivo entre Brasil e Argentina, no contexto da crise global, é caixão. Trata-se do mais perigoso obstáculo levantado pela nova conjuntura à integração sul-americana. Haveria tendência de agressividade comercial. O peronismo protecionista nacionalista tenta resgatar o militarismo entreguista que desbalanceou estruturalmente a relação Brasil-Argentina.

Para os argentinos, o inferno é Lula, nesse momento, jogando, agressivamente, para inveja da oposição, nas providências para a enfrentar a crise, sobretudo, pressionando os bancos estatais a sairem em bloco oligopolizado para bombear o crédito à produção e ao consumo obstaculizado pelo juro praticado pelo oligopólio financeiro privado. O titular do Planalto tenta erguer o oligopólio financeiro estatal para ombrear com o oligopólio financeiro privado, enquanto os argentinos traduzem essa luta interna brasileira como ameaça total à estabilidade econômica portenha. Perigo político de morte para Cristina Kirchnet.

CPI para PMDB corrupto que vira ARENA

Os impérios começam a desmoronar por dentro. Foi assim com Roma, com a Inglaterra. Está sendo assim com os Estados Unidos. Quando a disputa pelo botim não atende a todos, os descontentes com a situação botam a boca no trombone.
A plateia, de fora, espera ou exigirá aprofundamento das denúncias do senador Jarbas Vasconcelos(PMDB-PE) de que seu partido, o mais poderoso do país, que manda no poder,  joga com a corrupção?
 
Os tiros jarbistas no PMDB acertaram, também, em  Dilma Rousseff. Considerou o parlamentar o PAC, que ela comanda, um amontoado de obras que guardam interesses políticos e empresariais conhecidos. Sabendo-se que com esses interesses políticos se relacionam os aliados governamentais e que o PMDB é o maior aliado da coalização lulista, Jarbas Vasconcelos estaria envolvendo em corrupção o próprio PAC. O PMDB , que nasceu MDB, para, durante a ditadura, combater a ARENA, partido dos militares e dos cambalachos, no Congresso, ganha, 24 anos depois do nascimento da Nova República, herdeira dos estragos antidemocráticos militares autoritários, a cara da própria ARENA militarista.
 
O instrumento econômico anticíclico colocado em marcha pelo governo Lula, o PAC, para tentar reverter a tendência recessiva da economia, desacelerada por conta da bancarrota financeira internacional, tornou-se suspeito, depois da entrevista bombástica de Jarbas à revista Veja. Os dois principais líderes do partido, o senador José Sarney(PMDB-AP) e deputado Michel Temer(PMDB-SP) , ficaram mudos durante todo o final de semana. Não tiveram coragem, até o momento, de rebater. Enfiaram a cabeça na areia, como avestruzes. A nota oficial da direção do partido é uma vergonha. Autocondena a agremiação à necessidade de submeter a uma CPI.
 
Se O PAC esconde interesses políticos e econômicos dos aliados peemedebistas, arrolados em corrupção por membro peemedeb ista, e se o partido é, essencialmente, corrupto, Jarbas Vasconcelos coloca no palco político nacional a necessidade de ser feita uma radiografia do PMDB.
 
Somente uma Comissão Parlamentar de Inquérito completaria essa tarefa. Possível? Impossível? Precisaria de fato consumado, para avançar. Investigações sobre os interesses que estão por trás do PAC se fariam necessárias, especialmente, porque cerca de 80% delas são comandadas pelos aliados peemedebistas, dentro do cronograma de Dilma Rousseff.
 
Surrealismo puro. O presidente do Congresso, senador José Sarney, representaria, para Jarbas, retrocesso, imobilidade política, que interessa à corrupção chamada PMDB. O retrocesso seria a corrupção. Se Sarney é o retrocesso e o retrocesso, a corrupção, Sarney seria a corrupção. Interessaria ao próprio presidente do Congresso se despir das suas vestes políticas para se dispor à investigação de si próprio em seu próprio altar como resposta à acusação jarbista? Ou vai engolir a seco?
 
 
 
Fogo às próprias vestes
 
A pecha de corrupto para o partido obriga a agremiação a dar uma resposta conclusiva à sociedade. Os peemedebistas seriam extrovertidos o suficiente para assinarem  pedido de CPI, como resposta à necessidade de investigação do partido, pelos representantes da sociedade, frente a acusação de tal gravidade?
 
Jarbas disse que não dará nome aos bois. Teria, apenas, dado pontapé inicial, para que os grupos sociais, politicamente, organizados façam pressões adicionais. Ex-governador pernambucano, conhecedor profundo dos meandros do jogo de interesse que tem feito o PMDB preferir faturar o poder nos bastidores do que à luz da disputa majoritária, Jarbas Vasconcelos não apenas crucifixa o seu partido, colocando-o em saia justa, quando ganha o poder absoluto no parlamento, dispondo-se a dominar todo o governo Lula, mas, sobretudo, lança chamas mortíferas sobre a ética peemedebista, simplesmente, inexistente, que destruiria a honorabilidade do PAC, com o qual o presidente Lula pretende fazer a ministra Dilma Rousseff sua sucessora na eleição presidencial 2010. Também, não ficaria impune quem, como os peemedebistas, ao longo dos últimos anos comandaram a comissão de orçamento por onde as grandes jogadas financeiras corruptas, sintonizadas com o executivo, foram armadas e concretizadas.
 
A nota da executiva nacional do PMDB joga água na fervura. Diz que Jarbas fez generalizações. O parlamentar reafirmou as acusações e disse que tinha que preservar sua estratégia, não especificando, nomes. As acusações podem ser genéricas, mas a ação partidária corrupta genérica é, sobretudo, uma ação humana. Como certamente a convocação de uma CPI para discutir os bastidores podres do PMDB não seria efetivada pelo espírito corporativo congressual genericamente corrupto, torna-se necessário abafar.
 
O abafamento emerge-se como expressão da falta do que responder? Não, há provas? Ora, não vale ser investigado em CPI o que disse há poucos meses o ministro Temporão, da Saúde, a respeito da Funasa, pela qual o partido, segundo ele, manobrou corruptamente, promovendo altas malandragens? As criações intermináveis de cargos em comissões para ajeitar manobras articuladoras nas mesas da Câmara , na eleição de Michel Temer, sob orientação dos peemdebistas, não mereceriam ser investigadas?
 
A eleição de Sarney foi uma negociação interminável de cargos. O PSDB pediu alto, embora reclame dos escândalos. Santo do pau oco. FHC comprou votos para a segunda eleiçãoNovos cargos, novas despesas, estes têm sido os resultados das eleições para não-renovação do parlamento pelos próprios parlamentares. Os salários extras criados pelas comissões acomodatícias dos interesses partidários seria a corrupção mencionada por Jarbas Vasconcelos. A generalidade das acusações seria facilmente identificável.
 
 Uma das histórias mais escandalosos do Congresso, que envolveram, diretamente, o PMDB, como protagonista, ocorreu no auge da redemocratização, quando a constituição cidadã era escirta pelos congressistas, em 1988. Um dos seus expoentes, o ex-deputado Nelson Jobim, do Rio Grande do Sul, comandaria manobra para inscrever no texto constitucional o artigo 166, parágrafo terceiro, item II, letra b, que torna cláusula pétrea o pagamento dos juros aos banqueiros, na medida em que proibe contingenciamento de recursos destinados ao serviço da dívida.
Vestido de redemocrata, o partido ajudou, decisivamene, a construir, na Nova República, herdeira da ditadura, a bancocracia nacional. Privilégio para os banqueiros em prejuízo da sociedade. A denuncia realizada e documentada pelos professores Pedro Resende e Adriano Benayon, da Universidade de Brasília, comprovaria que os caminhos do PMDB seriam obscuros na fixação da preferência pelos interesses da bancocracia neorepublica à qual se renderam todos, tanto o PMDB, como os tucanos e finalmente, os petisas, aliados, agora, dos corruptos, do PMDB, assim visto por uma das suas maiores expressões históricas, o senador Jarbas Vasconcelos.
 
Tucanos estão doidões
 
À oposição interessaria investigar se o PMDB é corrupto?
 
Os oposicionistas perderam totalmente o discurso no estrondo do modelo neoliberal ao qual tucanamente se aninharam na Era FHC. Sem discurso, sem proposta para a grande crise, FHC, agora, discute a discriminalização da maconha. Os tucanos querem enfrentar a situação de cabeça feita.
 
O senador Arthur Virgílio(PSDB-AM) entra em choque com o governador de São Paulo, tucano José Serra, por considerar errada sua crítica à política monetária do governo Lula, ancorada nos juros altos. Depois de criticarem o PT de antiético, os tucanos embarcaram na canoa do petista senador Tião Viana contra o conservador José Sarney. Contradição.
 
Agora, a insistência extemporânea, irrascível, tucana, no monetarismo neoliberal totalmente desmoralizado na cena nacional e global, dada sua condição de inútil – jogando por terra a ideologia capitalista utilitarista – , quando essa solução virou problema, apenas, demonstra que os tucanos estão muito doidões no embalo da discriminalização da erva do norte, como diz Paulinho da Viola em samba famoso. Entrariam na investigação contra o PMDB naquela base, baseadamente.
 
Tremendo enredo carnavalesco. Vai ficar por isso, mesmo? Não teria sido à toa que Jarbas teria feito sua grave denúncia à véspera do carnaval no ambiente do fumacê discriminalizatorio fernandista.
 
Jarbas seria, junto com o senador Pedro Simon(PMDB-RS), últimos dos remanescentes ulissistas em ação no Congresso, criadores do MDB , depois do PMDB, obrigados, hoje, a suportar a arenização peemedebista. Ambos estão entre aqueles que jamais engoliram Sarney. Quando Tancredo Neves morreu, em 1985, repudiaram o que consideraram manobra jurídica do ex-ministro da Casa Civil do governo do general João Batista Figueiredo, de impedir que o sucessor de Tancredo fosse o presidente da Cãmara, no caso Ulysses Guimarães, escanteado por José Sarney, vice na chapa de Tancredo. Ironia da história. O bravo PMDB teria que se subordinar a um integrante da adversária Arena, servidora do militares, travestida de PFL, na pele sarneysista, outrora servidor da ditadura. Hoje o PMDB, com Sarney, vira a Arena repudiada pelos velhos ulissistas.
Deslocado dentro do PMDB, dominado por Sarney e Temer, Jarbas, com seu desabafo,  cria fato político relevante. Seria seu lance para marcar posição capaz de levá-lo à candidatura de vice em eventual chapa com o governador José Serra, a quem já apoia antecipadamente? O jogo jarbistas já se inseriria na sucessão lulista.
 

Moratória eleitoral antecipa sucessão 2010

O socorro financeiro em forma de desoneração fiscal dado pelo presidente Lula aos prefeitos de todo o país, na terça, 10, em Brasília, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, soou como moratória eleitoral que inaugurou extra-oficialmente a campanha sucessória 2010. Na prática, é uma extensão da política keynesiana que o titular do Planalto já vem fazendo para socorrer o setor privado, mergulhado na crise e nos juros mais altos do mundo, em meio à deflação destrutiva. Os bancos pequenos, as montadoras, a construção civil, os agricultores e uma penca de outros que estão na fila para tentar se salvarem do incêndio – todos estão mamando nas tetas. Inclusive, e principalmente, os grandes bancos, que abocanharam o compusório de mais de R$ 180 bilhões, jogando-o na especulação dos títulos públicos. Por que os prefeitos falidos não teriam, também, a sua vez de mamar? A hora chegou. A farra fiscal durante a semana fez a festa dos prefeitos.
 
O cenário eleitoral, fora do prazo legal, animou-se, excitadamente, nas barbas da justiça eleitoral, acionada, imediatamente, pela oposição. A campanha pode se transformar em guerra jurídica desde já. Fotos dos mais de 5.000 prefeitos e outros candidatos potenciais compondo moldura entre o presidente, do lado direito, e da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, preferida do titular do Planalto para sucedê-lo, do lado esquerdo, foram realizadas em série, por uma estrutura de marketing, previamente, montada. É a campanha na rua com dois anos de antecedência, totalmente, ilegal.
 
A moratória econômico-eleitoral concedida como medida anticíclica de combate à recessão, certamente, decreta, na prática, o fim da lei de responsabilidade fiscal – LRF – , criada na Era FHC, sob pressão do FMI, interessado em conter os gastos dos governadores e prefeitos, para sobrar mais dinheiro ao pagamento dos juros da dívida aos banqueiros, via crescentes superavits primários. A LRF não suportou o fim estrondoso do modelo neoliberal. Demonstrou a ação lulista que o discurso do equilibrismo orçamentário tucano virou, na bancarrota financeira deflacionária, relíquia bárbara.
 
 
 

Governo aposta na inflação

 

Os passos governamentais são opostos aos pressupostos da LRF, como expressou a disposição do Planalto de injetar – emitir – bilhões de reais para capitalizar o Banco do Brasil, conforme adiantou a repórter Cláudia Safatle, no Valor Econômico, sexta, 13. . O BB deverá ser o bombeador de dinheiro do Fundo Soberano Brasileiro, previsto para arrecadar 14 bilhões, a fim de acelerar investimentos públicos. Ou seja, contra a deflação em marcha, Lula aposta na inflação, elevando a dívida, que atua como irrigadora e enxugadora da circulação monetária para evitar enchente inflacionária. A moratória generalizada – pública, dos prefeitos, e privadas, das empresas e bancos – , como fator anticíclico, incha a dívida, que esconde a inflação, como forma de bancar com dinheiro estatal o aquecimento da produção.
 
Mais dinheiro em circulação, menor preço do dinheiro? Essa é a lógica na qual a equipe governamental se sintoniza em meio à crise financeira global. O titular do Planalto parte para a briga com os grandes bancos, na tentativa de forçar a baixa do custo do dinheiro, encarecido pelos juros e custos de intermediação(spreeds) extorsivos. Conseguirá?
 
Os adversários do presidente não são apenas os grandes bancos privados, que atuam em oligopólio financeiro, segurando o dinheiro, temendo quebradeiras. Os bancos estatais – Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES – igualmente não se alinham inteiramente aos propósistos expansionistas do crédito, como deseja o presidente. Resistem, lançam mão da burocracia e exigiam elevadas garantias. O discurso presidencial é um, a prática, outra.
 
Por sua vez, os empresários se desesperam e querem , também, um naco do compulsório para a produção e não para a especulação, como forma de dominuir os juros, como pregou o presidente da CNI, deputado Armando Monteiro Neto(PTB-RE). Batem de frente com os banqueiros que defendem os compulsórios recolhidos para ocorrer escassez de dinheiro que eleva seu preço e o lucro banc ário. Violenta disputa pela renda nacional entre o capital produtivo e o capital especulativo.
 
A solução que Lula encontrou para enfrentar o confronto foi a de dar mais um passo rumo à estatização bancária. Irriga o Banco do Brasil e manda a direção dele reduzir os custos de intermediação, os spreeds. É o vai ou racha. Nesse ambiente, os prefeitos, financeiramente abalados, levaram o seu cala-boca.

 

 PAC anti-crise eleitoral
 

 Sufocados pelas dívidas acumuladas com a Previdência Social, impossibilitados de pagá-las , especialmente, no momento em que a desaceleração econômica diminui a arrecadação tributária e consequente repasse, pelo tesouro, de recursos aos estados e municípios, os prefeitos, graças à medida governamental salvacionista da moratória, vislumbrarão novos horizontes.
 
Poderão contrair novas dívidas, novos convênios para transferencias de dinheiro público, habilitando-se, como disse o presidente, a executarem, em parceira com governo federal, obras do PAC, arma econômica contra a crise e instrumento de promoção política da candidatura Dilma.
 
Terão os executivos estaduais 20 anos para pagar o débito acumulado de mais de 30 bilhões de reais e redução dos juros da selic de 12,75% para 6% da TJLP. Poderão , a partir de agora, ir à luta para realizar novos convênios com o Executivo. Não foi à toa que dezenas de empresas consultoras se posicionaram no encontro dos prefeitos para oferecer os seus serviços a eles. Como essas consultorias são sempre controvertidas, suscintando intermediações ilegais de dinheiro público, poderia estar gestando, na antecipação eleitoral, futuros mensalões por aí.
 
A decisão presidencial, que aumenta o prestígio popular de Lula junto aos prefeitos, alinha esses ao PAC e à candidatura Dilma Rousseff. Aos prefeitos, Dilma, em tom de campanha, clamou pelo apoio dos municípios ao programa de investimento estatal anticíclico e assumiu compromisso com o que considera a base da nacionalidade, ou seja, a vida comunitária municipal. A moratória engrossou os aplausos.
 
Na prática, o governo, ao promover moratória em forma de desoneração fiscal, não perde nada, pois não estava ganhando nada, visto que não havia recolhimento das prefeituras aos cofres da Previdência. Como o tesouro está com 200 bilhões de dólares de reservas, resolveu não cobrar a dívida. Canetada eleitoral contábil.
 

Serra estatizante e protecionista

 
Não passaram 24 horas depois do discurso político de Dilma Rousseff para milhares de prefeitos para que o governador de São Paulo, pré-candidato tucano à sucessão 2010,  levantasse o PAC paulista, com previsão de 20 bilhões de investimentos. Juntou os secretários e aliados políticos para destacar sua ação estatizante, que se completa ao posicionamento protecionista adotado há semanas em nome da preservação do nível de emprego no Estado de São Paulo. Obras que já estão em andamento foram relacionadas como se fossem investimentos novos, e pau na máquina, rítmo eleitoral, repetindo Dilma e o presidente Lula.
 
Os discursos, de Serra , de Dilma e de Lula são semelhantes. O Estado, que antes era problema, passa a ser solução. Para Serra, os recursos do estado dinamizarão a economia e estabilizarão o nivel de emprego. Seria a estratégia para conter o avanço do desemprego em marcha na recessão.
 
A entrada mais forte do estado na economia tornou-se lógica que vai da Casa Branca, onde reina o presidente Barack Obama, até à prefeitura de Salinas, comandada por José Antônio Prates, em Minas Gerais, passando por Brasília.
 
Serra constroi, com fazem Dilma e Lula, discurso estatizante e nacionalista, no momento, em que as empresas de São Paulo começam a enfrentar o protecionismo argentino e a agressividade chinesa em colocar produtos baratos no Brasil, deslocando a indústria nacional. Serra quer ação forte do governo.
 
O presidente Lula, por enquanto, mantêm-se com o discurso de abertura comercial, mas, se o desemprego avançar e as pressões se tornarem insuportáveis, o governador Serra começaria a dispor de apoio popular ao seu discurso protecionista tucano.
 
Ocorreria uma contradição em termos. Afinal, foram os tucanos, na Era FHC, que tomaram medidas radicais que desindustrializaram o Brasil, elevando os juros em nome do combate à inflação , ao mesmo tempo em que reduziram as tarifas de importação.
 
Os tucanos estão mudando aceleradamente. FHC, inclusive, passou a defender a discriminalização da maconha. Seria a melhor forma de enfrentar a  crise, de cabeça feita?
 
No meio do fumacê tucano, Serra corre para abrir picadas, enquanto tem, pelas costas, Aécio Neves, governador de Minas Gerais, fungando, sem saber se segue o conselho do ex-presidente Itamar, de romper o rubicão, como já fez Serra, ou se atende o canto de sereia do senador José Sarney, de filiar-se ao PMDB.
  
 

Sarney alia-se a MG contra SP e racha PMDB

 

O presidente do Congresso, senador José Sarney(PMDB-AM),  no contexto explícito da sucessão, não perdeu tempo. Armou suas jogadas.  Atraiu a Brasília o governador de Minas Gerais, adversário de Serra, na disputa dentro do tucanato, para ver quem será o representante do PSDB na sucessão presidente de Lula.
 
Sarney apoiou Aécio e lançou indiretas favoráveis à filiação do titular do Palácio da Liberdade ao PMDB, para sair, quem sabe, candidato dos peemedebistas em 2010. O titular do Legislativo deu a cartada que demonstrou os limites do seu relacionamento com o presidente da Câmara, deputado Michel Temer(PMDB-SP), considerado aliado de José Serra, e, também, com o próprio presidente Lula, quanto ao assunto sucessão.
 
Ou seja, uma parte do PMDB estaria com o governador de Minas Gerais, a outra com o governador de São Paulo. E quem ficaria com Dilma? Sarney ou Michel, sabendo-se os dois líderes que o PMDB é o principal partido da coalizão governamental, que o presidente Lula gostaria de alinhá-la à candidatura da ministra Dilma?
 
O jogo da sucessão, em processo de aquecimento, mostrou os lances políticos de Sarney de ficar entre Lula e Aécio, mantendo distância de Serra, de quem guarda ressentimentos decorrentes de suspeitas sarneysistas de que teria sido o governador de São Paulo o responsável por detonar a candidatura de Roseana Sarney, pelo PFL-DEM, em 2002, envolvendo-a em suspeita de corrupção.
 
O pano de fundo dos movimentos das candidaturas que se puseram, expontaneamente, no palco político nacional, é, como não poderia deixar de ser, a grande crise financeira mundial, que ameaça o capitalismo. A insegurança é geral.

Fracasso de Obama impõe multilateralismo

O pacote Obama está dançando porque os Estados Unidos não são mais capazes de sairem da crise sozinhos. Previsto para jogar 900 bilhões de dólares na praça, para reanimar a produção e o consumo, de um lado, e equacionar o falido sistema financeiro, afetado por créditos podres, de outro, o pacote econômico financeiro se mostra tímido e incapaz de lançar novas expectativas para o capitalismo em crise. A comprovação veio com o pragmatismo da bolsa. Wall Street despencou. Os demais mercados, idem. Obama eleva a desconfiança, quando se esperava dele a restauração da confiança perdida.Evidenciou o óbvio: os Estados Unidos precisarão dos aliados. Urge consertação global, germe de futuro governo mundial, multilateral.
 
Sobretudo, evidenciou-se que o presidente americano está amarrado a uma conjuntura internacional que somente será restaurada se houver consenso internacional. As dificuldades encontradas por Obama para  aprovar o seu pacote no Congresso representam derrota política, como destacou o repórter Merval Pereira, na GloboNews, e , sobretudo, expõem as contradições internas da disputa pela renda nos Estados Unidos, expressa nos antagonismos partidários. Como será feita a divisão dos recursos para a produção e o consumo e quem bancará os creditos podres?
 
Os antagonismos políticos dentro da sociedade americana disputam os despojos do império sem ainda estarem inteiramente conscientes de que não serão suficientes os recursos, sequer para pagar as dívidas das famílias. Os vencimentos das dívidas são os assombrações maiores, tanto para as famílias, como para as empresas. O quadro, como destacou Yoshiaki Nakano, em “A recessão da deflação de ativos”(Valor Econômico, 10.02), impõe a lógica depressiva de a sociedade armar-se não mais para consumir mas para poupar a fim de liquidar papagaios.
 
 
Nova psicologia social
 
A psicologia social desatada pela crise financeira global joga para baixo a característica básica do capitalismo americano, o consumismo estimulado pelas ilusões de Hollywood. Preocupados com as dívidas, como seguir o glamour caro holiudiano?
 
O estouro especulativo ultrapassou as possibilidades de o pacote Obama emplacar positivamente na medida em que ele inverte a lógica das expectativas, assustando a população, já que não tem condições de tranquilizá-la. Ele teria que se socorrer nos aliados que estiveram ao seu lado até agora, para continuar comprando os títulos da dívida pública americana. Do contrário, adeus “American way of life”.
 
Desde o pós guerra, a situação vinha sob controle monetário do dólar lastreado no endividamento dos Estados Unidos, despreocupados com os deficits fiscais e comerc iais, visto que sua moeda passou  ser emitida sem lastro real. Inicialmente, o governo americano ancorou ela no ouro, mas, em 1971, rompeu a relação dela com o metal, deixando-a autonomizar-se sem maiores regras de prudência financeira.
 
A bancarrota financeira, agora, depois de abusos imprudenciais acumulados, põe ponto final a esse privilégio do dólar , mantido até agora, de ser o bam-bam-bam das relações de trocas, afetado pela desconfianças lançadas pelos créditos podres. O governo, para acabar com os títulos bichados, orçados em mais de 4 trilhões de dólares, teria que se endividar em uma escala cujos efeitos seriam lançar desconfianças insuperáveis do mercado na moeda americana. O pacote Obama deixou claro que o mercado visa essa possibilidade terrível, de bancarrota do dólar, depois da bancarrota do mercado imobiliário.
 
Se a moeda americna está contaminada pelos créditos tóxicos e o governo americano encontra-se diante de aliados reticentes e, igualmente, quebrados, indispostos a apostarem no endividamento crescente de Tio Sam, como alternativa para o capitalismo, o pacote de Obama somente daria certo em caso de uma consertação global. Emergiria governo global.
 
 
 
Novo modelo monetário
 
Uma coordenação monetária global pode ser antecipada, se o pacote Obama não der certo. A crise deflacionária incontrolável vai levando a situação nesse sentido, principalmente, quando o próprio governo americano comprova que não tem cacife suficiente para bancar os créditos podres, quando chama a iniciativa privada para dividir o prejuízo.
É o fim da utilidade do estado keynesiano como única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, na condição de irrigador e enxugador de moeda na circulação capitalista. Se ele precisa do setor privado para fazer essa tarefa, deixa de ser o único ou revela a sua impotência para continuar exercendo essa tarefa, na escala em que se deu desde o pós guerra até agora.
 
A confusão gerada pelo pacote Obama representa a confusão do governo americano em abordar a crise sem visão e humildade suficientes, capazes de convocar os parceiros globais mais importantes para dividir o prejuízo e as novas regras limitativas ao poder do dólar e, também, do euro, em uma nova conjuntura internacional.
 
Na prática, os aliados já se desesperam em favor de tendência para materializar novo Bretton Woods. Assim como a Inglaterra, depois da primeira guerra mundial, perdeu o mercado para os Estados Unidos, em decorrência das crises monetárias detonadas pelo enfraquecimento da libra esterlina diante das falências dos devedores dos bancos ingleses, da mesma forma, o dólar, que iniciou, no pós-guerra, o século 20 americano, perdeu gás, graças ao excesso de endividamento, estimulador de bolhas especulativas que acabaram detonado o sistema financeiro americano.
 
Depois da segunda guerra mundial, a macroeconmia capitalista – a nova divisão internacional do trabalho – estruturou-se em cima da capacidade de o governo americano emitir moeda enxugada pelos títulos da dívida americana enquanto os aliados comprariam tais títulos em troca da garantia das exportações aliadas para o amplo mercado consumidor dos Estados Unidos.
 
Os deficts comerciais e fiscais americanos dinamizaram a economia global enquanto o tesouro dos Estados Unidos acumulava superavits financeiros, graças ao poder de senhoriagem global do dólar como moeda dominante na intermediação das trocas internacionais. Os créditos podres, cuja destinação o pacote Obama não consegue definir com clareza,  lançam dúvidas terríveis nos aliados dos americanos, aumentando a resistência deles à tarefa de continuarem financiando o governo americano quando o sistema financeiro dos Estados Unidos se encontra quebrado e o governo se mostra impotente para dar suporte a ele em forma de ampliação da capacidade de endividamento dos Estados Unidos.
 
Conscientes dessa dificuldade do governo americano, atolado em deficits, que se aproximam dos 7% do PIB, podendo desgovernar-se para 10%, os aliados, sem o mercado americano para desovar suas mercadorias, como antigamente, recuam, estrategicamente, na tarefa de continuar bombeando a dívida americana em troca de títulos do tesouro dos Estados Unidos, como faziam até antes da crise estourar em setembro do ano passado.
 
 
 
O rei está nu
 
Obama, a caminho do fracasso, se não encomendar sua alma a um novo Bretton Woods, para que os aliados, igualmente, falidos, criem novo sistema monetário internacional, capaz de eliminar os créditos podres, na canetada, com os americanos rendendo-se a um novo poder monetário compartilhado, poderá, já, já, enfrentar estouro bancário americano, que , por sua vez, explodirá a Europa, entupida de créditos podres, passados pelos bancos americanos.
 
Pode pintar umas quatro moedas. Continuaria o dólar, ancorado na riqueza americana, que é poderosa, mesmo baleada, graças ao poder de inovação tecnológica adquirido pela sociedade em seu conjunto. Ao lado da moeda americana, relativamente reavaliada em seu poder de troca, estariam, também, uma moeda européia, uma asiática e, provavelmente, uma sul-americana, se a América do Sul se unir para valorizar o seu potencial econômico em nova conjunutra internacional pós-dólar todo poderoso. Seria possível ainda uma moeda árabe, ancorada no poder do petróleo.
 
O pacote Obama, que abre expectativa de novo contexto, na medida em que obnubila o horizonte, ainda impossível de ser dimensionado em sua total complexidade, demonstra que o unilateralismo foi para o baú da história. Somente pelo multilateralismo será possível resolver o colapso americano e europeu, ou seja, a derrocadas das duas mais fortes moedas capitalistas erigidas ao longo da história do capitalismo, depois do predomínio da libra, nos séculos 18 e 19.
 
Nova divisão internacional do trabalho, no compasso dos desajustes do capitalismo, sinaliza necessidade de nova concertação internacional, governo mundial. A alternativa seria retorno ao protecionismo, isto é, ao retorno do fascismo e possível terceira guerra mundial. Enfim, destruição atômica. O rei está nu.