Crise fortalece comunismo

A violenta crise econômica em marcha está transformando o Estado em grande banqueiro, grande empresário, grande investidor e instrumento de combate à inflação, irrigando e enxugando a circulação monetária para tentar manter funcionando a produção e o consumo, a fim de evitar explosão do desemprego e do regime capitalista. Mas, para salvar o capitalismo o governo está ganhando, com seu aspecto interventor, a feição comunista, pregada por Lenin, na revolução soviética. Em seu famoso livro “Tacão de Ferro”, prefaciado, de forma entusiástica por Trotski, Jack London, em 1910, traçou em linhas gerais o que está acontecendo, agora, no auge da crise capitalista. 

 

Em nome do interesse público, previu,  o governo é obrigado a dominar a cena econômica, transformando-se em grande oligopólio geral, porque o sistema, sob a lei de mercado, se auto-condena ao suicídio econômico no estouro especulativo suicida. Ergue-se o oligopólio estatal financeiro para dominar o falido oligopólio financeiro privado, atolado nos créditos tóxicos, totalmente, podres, obstruindo o canal global do crédito, da produção e do consumo, jogando o sistema da deflação autodestrutiva.
Entra o Estado em campo para evitar que a moeda seja destruída , como corre perigo o dólar, se a crise bancária avançar perigosamente, e se o pacote Obama não for uma brastemp, como parece que não é, dadas as controvérsias lançadas no Congresso, onde o presidente tem maioria. Imagine se não tivesse…
Configura-se a emergência do governo nos moldes comunistas leninistas em que a interferência estatal na questão financeira se faz absolutamente necessária, para regular as relações de trocas deterioradas pela especulação que detona a desconfiança geral na moeda, predispondo o ser humano, diante da queda do seu poder de compra, a reações radicais. Lenin , em 1914, no auge da pre-primeira guerra mundial, disse que as crises monetárias representam a melhor propaganda para o movimento socialista internacional.

Bancarrota empresarial

O setor privado, falido pela interrupção da circulação do crédito, do qual depende, porque o crédito apodreceu na especulação, entrou em estresse total, recorrendo-se, em última instância, ao espectro político leninista global em ascensão. Sua restauração somente torna-se possível mediante interferência do governo em face da falência privada. Antônio Ermírio de Moraes, maior empresário nacional, que o diga. 
Como instituição que paira acima dos interesses do capital e do trabalho, para evitar desarranjo geral que lança um contra o outro em total autodestruição em forma de desemprego e falência deflacionária de empresas, o governo, que emite e que enxuga moeda, por ser, segundo Keynes, única variável econômica, verdadeiramente, independente sob o capitalismo, vira salvador da pátria.
Mas, ele terá, certamente, que adequar-se às novas correlações de forças políticas geradas no processo, pois este não se faz no exterior da realidade, mas em meio ao antagonismo social, que, na crise, radicaliza. Nesse contexto, os próprios capitalistas pedem água ao Estado, para socorre-los em sua total anarquia produtiva, voltada à sobreacumulação de capital especulativo que, agora, destrói o próprio capital. 
Evidencia-se, pela boca os próprios neoliberais de ontem, a necessidade de o capitalismo ser melhor organizado pela ação estatal. Vale dizer: comunismo em marcha no rastro da crise capitalista global para tentar salvar o próprio capitalismo altamente desorganizado. Ou para destruí-lo?

Moratória estatal comunista

Assim como nos Estados Unidos o presidente Barack Obama está entre a estatização bancária ou a quebradeira dos bancos, tecnicamente, falidos pelos excessos de créditos tóxicos, podres, em carteira, podendo gerar estouro mundial, no Brasil, também, diante da rápida desaceleração econômica e da resistência dos bancos em ampliar o crédito a juros mais baixos, sinalizando quebradeira de empresas grandes, pequenas e médias, o presidente Lula, pressionado pela avanço do desemprego,  está sendo obrigado a avaliar medidas econômicas salvacionista, que, na prática, representam moratória público-privada com dinheiro público  como antídoto à violenta bancarrota global. Comunismo em marcha com dinheiro do contribuinte.
A queda de 12% da produção industrial em dezembro de 2008 relativamente a novembro e de 14,5% em comparação a dezembro de 2007 está impondo a necessidade de o governo promover amplas renegociações das dívidas de empresas e de governos municipais e estaduais, todos falidos. Para tanto, deverá lançar mão, a partir de agora, das reservas cambiais que estão em torno de 207 bilhões, antes que elas possam virar pó, se o dólar despencar em face de quebradeira bancária americana em marcha acelerada.
Depois de salvar, temporariamente, grandes grupos econômicos que , na fase áurea da economia, abusaram das dívidas e das jogadas especulativas-derivativas, como foram os casos das empresas Votorantim, Aracruz Celulose, Sadia  entre dezenas de outros casos, as autoridades econômicas preparam novos socorros emergenciais, assumindo, agora, dívidas externas de 4 mil empresas exportadoras que perderam gás financeiro por falta de crédito interno e externo. Moratória em forma de estatização da dívida externa privada. Comunismo estatal a serviço do lucro privado?  São 36 bilhões de dólares de buraco financeiro, reservados pelo BC para socorro.

Lula saca reservas contra crise

Ao mesmo tempo, o governo está sendo chamado a renegociar, urgentemente, dívidas dos governos estaduais e municipais, que, na crise de realização da produção no consumo, perdem receitas e se vêem impedidos de cumprir seus compromissos com o governo federal relativamente aos seus endividamentos. Tornam-se necessárias, dessa forma, amplas renegociações, que, como a história tem demonstrado, se estendem no tempo. Na sequência da moratória privada, entra em campo a moratória pública. Comunismo público-privado. Nova China em ascensão?
Dependurados nas dívidas junto ao INSS, prefeitos não podem dispor de cadastro limpo, legalmente, exigido, para realizar convênios com o governo federal que repassa por intermédio deles verbas para realizar obras conjugadas – governo federal-prefeituras. O dinheiro repassado para dinamizar investimentos públicos, entre eles os referente ao PAC, engordado em mais de R$ 142 bilhões, para bombar a candidatura da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, significa aquecimento da produção e consequentemente da arrecadação tributária dos estados e municípios etc. 
Trata-se, portanto, de socorrer prefeituras e governos estaduais, renegociando prazos e juros de dívidas federativas que nunca são inteiramente pagas, mas, eternamente, esticadas, para abrir espaço para novos negócios que seriam trazidos pela circulação do dinheiro previsto para o PAC.  Agora, a negociação se faz com prazos de 20 anos – outros 20 já haviam sido dados – e juros pela TJLP(6,5%/ano) em vez de Selic(12,75%), sendo a fatura bancada, claro, pelo tesouro. O resultado é ampliação do endividamento governamental e maiores tensões financeiras que se traduzem em juros altos, bloqueadores das atividades produtivas em geral. O comunismo renasce cheio de dívidas e pepinos gerais.
O governo, em rítmo comunista, endivida-se, forçosamente, como arma para tentar dinamizar a economia. Prefeituras precisam estar saneadas para enfrentar novos projetos, novas dívidas, novas inadimplências , dentro da lógica do modelo de desenvolvimento concentrador de renda e poupador de mão de obra, enfrentando suas violentas contradições no balanço da crise global, sob batida estatal pró-comunista. Lenin está chegando ao poder.

Esperteza da Febraban

A elasticidade da capacidade governamental para endividar-se no momento de crise estende-se, ainda, à possibilidade de aceitar a proposta dos bancos privados de criar fundo de crédito para emprestar dinheiro para as pequenas empresas sujeitas à inadimplência. Espertamente, os banqueiros querem fazer favor com o pescoço do enforcado, pois pregam que o risco seja bancado pelo governo na intermediação do dinheiro – cerca de R$ 5 bilhões –  que emprestarão, cobrando juros de mercado, ou seja, extorsivos. As pesquisas do Banco Central, demonstrando que os juros no crédito pessoal e no cheque especial alcançam até 1.400% ao ano, colocam os banqueiros nacionais como maiores agiotas do mundo, candidatos ao fuzilamento em praça pública, se um novo Lenin subir ao poder, como resultado da implosão capitalista.
Cairá o Planalto nesse canto de sereia neoliberal da Febraban, ou vai ampliar a estatização bancária leninista , como forma compensatória pelo recuo dos grandes bancos privados em exercer, como concessionários do Estado,  o papel de emprestadores com recursos do depósito compulsório a custo zero como forma de minimizar a crise do crédito?
O contexto econômico em franca deterioração desenha o governo Lula em transformação quantitativa e qualitativa, tomando forma  de banqueiro-empresário-investidor – retrato acabado da proposta comunista de 1917 – , ao mesmo tempo em que vira instrumento de combate à inflação, evitando a expansão da deflação, como aconteceu em dezembro e janeiro, materializando a recessão braba em marcha no setor industrial. 
A resposta de Lula – neo-Lenin? – foi a de redobrar as apostas no aumento dos gastos públicos, lançando mão, de agora em diante, nas reservas cambiais de 207 bilhões para bancar moratórias público-privadas explícitas e implícitas, enquanto avança na estatização bancária forçando os bancos públicos a cobrarem juros mais baixos, para forçar o oligopólio financeiro privado a entrar na concorrência do mercado de dinheiro. Está, por enquanto, perdendo a parada
Volta a ocorrer fenômeno semelhante ao registrado na crise monetária dos anos de 1980, quando, diante da redução da oferta de crédito internacional às empresas privadas, o governo, emergencialmente, lançou mão das empresas estatais, para levantar recursos nos bancos internacionais, a fim de fechar deficits do balanço de pagamento. A crise internacional de 2008/2009, ao fechar, dessa vez, o crédito até para as grandes empresas governamentais, obriga o governo a lançar mão de suas reservas cambiais salvacionistas ou a emitir dinheiro para engordar o Fundo Soberando Brasileiro(FSB), para tentar bancar o PAC, tendo como contrapartida perigosa o avanço excessivo do endividamento governamental..
 

Milagre do PAC rousseffiano leninista

O governo, como banqueiro irrigador e enxugador de dinheiro, entrou num rítmo sobre o qual não tem controle. Ao salvar os bancos inadimplentes, de um lado, e os empresários e executivos estaduais, de outro, configurando a moratória público-privada em ascensão, amplia-se, por sua vez, o deficit público, cujos limites extrapolados deixarão os credores da dívida pública interna ainda mais desconfiados da saúde financeira governamental, reconhecidamente, precária.
 
Nesse contexto, no qual busca espaço para preservar o seu principal triunfo, o PAC, o Planalto, com recursos limitados pela enorme dívida interna, que impõe desembolsos, em forma de juros, da ordem de R$ 200 bilhões por ano, tenta fazer das tripas o coração. Promete colocar mais R$ 120 bilhões nos cofres do BNDES, para sustentar a dinâmica econômica privada e anuncia, como fez na quarta, 05, mais R$ 142 bilhões para o PAC, previsto para ser desembolsado até 2010. Parece mágica.
 
Os números do PAC, apresentados pela ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, demonstram falibidade do programa ao longo dos dois anos de sua existência. O orçamento fiscal de 2008 destinou ao PAC R$ 18, 9 bilhões, dos quais R$ 17 bilhões foram empenhados, mas somente R$ 3,8 bilhões , efetivamente, pagos. Mais papel que realidade. 
No acumulado de 2007 e 2008, os empenhos somaram R$ 33 bilhões, sendo pagos a metade, R$ 18 bilhões. Ou seja, somente 50% de execução. Tal fato demonstra excessivo otimismo governamental quando diz que vai gastar em 2009 e 2010 R$ 145 bilhões, aproximadamente. 
Difícil dissociar tal otimismo inflado dos propósitos lulista de embalar a candidatura Dilma, que avançou dos 10% na pesquisa Sensus, evidenciando dispor de dispor de vigor para crescer. No compasso da crise, o presidente Lula vai tentando chupar cana e assoviar ao mesmo tempo.
De um lado, joga com a moratória público-privado, como esforço de estabilização econômica anticíclica; de outro, tira leite de pedra, inventando recursos para bombar o PAC e candidatura da sua preferida na sucessão presidencial 2010.