Fracasso de Obama impõe multilateralismo

O pacote Obama está dançando porque os Estados Unidos não são mais capazes de sairem da crise sozinhos. Previsto para jogar 900 bilhões de dólares na praça, para reanimar a produção e o consumo, de um lado, e equacionar o falido sistema financeiro, afetado por créditos podres, de outro, o pacote econômico financeiro se mostra tímido e incapaz de lançar novas expectativas para o capitalismo em crise. A comprovação veio com o pragmatismo da bolsa. Wall Street despencou. Os demais mercados, idem. Obama eleva a desconfiança, quando se esperava dele a restauração da confiança perdida.Evidenciou o óbvio: os Estados Unidos precisarão dos aliados. Urge consertação global, germe de futuro governo mundial, multilateral.
 
Sobretudo, evidenciou-se que o presidente americano está amarrado a uma conjuntura internacional que somente será restaurada se houver consenso internacional. As dificuldades encontradas por Obama para  aprovar o seu pacote no Congresso representam derrota política, como destacou o repórter Merval Pereira, na GloboNews, e , sobretudo, expõem as contradições internas da disputa pela renda nos Estados Unidos, expressa nos antagonismos partidários. Como será feita a divisão dos recursos para a produção e o consumo e quem bancará os creditos podres?
 
Os antagonismos políticos dentro da sociedade americana disputam os despojos do império sem ainda estarem inteiramente conscientes de que não serão suficientes os recursos, sequer para pagar as dívidas das famílias. Os vencimentos das dívidas são os assombrações maiores, tanto para as famílias, como para as empresas. O quadro, como destacou Yoshiaki Nakano, em “A recessão da deflação de ativos”(Valor Econômico, 10.02), impõe a lógica depressiva de a sociedade armar-se não mais para consumir mas para poupar a fim de liquidar papagaios.
 
 
Nova psicologia social
 
A psicologia social desatada pela crise financeira global joga para baixo a característica básica do capitalismo americano, o consumismo estimulado pelas ilusões de Hollywood. Preocupados com as dívidas, como seguir o glamour caro holiudiano?
 
O estouro especulativo ultrapassou as possibilidades de o pacote Obama emplacar positivamente na medida em que ele inverte a lógica das expectativas, assustando a população, já que não tem condições de tranquilizá-la. Ele teria que se socorrer nos aliados que estiveram ao seu lado até agora, para continuar comprando os títulos da dívida pública americana. Do contrário, adeus “American way of life”.
 
Desde o pós guerra, a situação vinha sob controle monetário do dólar lastreado no endividamento dos Estados Unidos, despreocupados com os deficits fiscais e comerc iais, visto que sua moeda passou  ser emitida sem lastro real. Inicialmente, o governo americano ancorou ela no ouro, mas, em 1971, rompeu a relação dela com o metal, deixando-a autonomizar-se sem maiores regras de prudência financeira.
 
A bancarrota financeira, agora, depois de abusos imprudenciais acumulados, põe ponto final a esse privilégio do dólar , mantido até agora, de ser o bam-bam-bam das relações de trocas, afetado pela desconfianças lançadas pelos créditos podres. O governo, para acabar com os títulos bichados, orçados em mais de 4 trilhões de dólares, teria que se endividar em uma escala cujos efeitos seriam lançar desconfianças insuperáveis do mercado na moeda americana. O pacote Obama deixou claro que o mercado visa essa possibilidade terrível, de bancarrota do dólar, depois da bancarrota do mercado imobiliário.
 
Se a moeda americna está contaminada pelos créditos tóxicos e o governo americano encontra-se diante de aliados reticentes e, igualmente, quebrados, indispostos a apostarem no endividamento crescente de Tio Sam, como alternativa para o capitalismo, o pacote de Obama somente daria certo em caso de uma consertação global. Emergiria governo global.
 
 
 
Novo modelo monetário
 
Uma coordenação monetária global pode ser antecipada, se o pacote Obama não der certo. A crise deflacionária incontrolável vai levando a situação nesse sentido, principalmente, quando o próprio governo americano comprova que não tem cacife suficiente para bancar os créditos podres, quando chama a iniciativa privada para dividir o prejuízo.
É o fim da utilidade do estado keynesiano como única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, na condição de irrigador e enxugador de moeda na circulação capitalista. Se ele precisa do setor privado para fazer essa tarefa, deixa de ser o único ou revela a sua impotência para continuar exercendo essa tarefa, na escala em que se deu desde o pós guerra até agora.
 
A confusão gerada pelo pacote Obama representa a confusão do governo americano em abordar a crise sem visão e humildade suficientes, capazes de convocar os parceiros globais mais importantes para dividir o prejuízo e as novas regras limitativas ao poder do dólar e, também, do euro, em uma nova conjuntura internacional.
 
Na prática, os aliados já se desesperam em favor de tendência para materializar novo Bretton Woods. Assim como a Inglaterra, depois da primeira guerra mundial, perdeu o mercado para os Estados Unidos, em decorrência das crises monetárias detonadas pelo enfraquecimento da libra esterlina diante das falências dos devedores dos bancos ingleses, da mesma forma, o dólar, que iniciou, no pós-guerra, o século 20 americano, perdeu gás, graças ao excesso de endividamento, estimulador de bolhas especulativas que acabaram detonado o sistema financeiro americano.
 
Depois da segunda guerra mundial, a macroeconmia capitalista – a nova divisão internacional do trabalho – estruturou-se em cima da capacidade de o governo americano emitir moeda enxugada pelos títulos da dívida americana enquanto os aliados comprariam tais títulos em troca da garantia das exportações aliadas para o amplo mercado consumidor dos Estados Unidos.
 
Os deficts comerciais e fiscais americanos dinamizaram a economia global enquanto o tesouro dos Estados Unidos acumulava superavits financeiros, graças ao poder de senhoriagem global do dólar como moeda dominante na intermediação das trocas internacionais. Os créditos podres, cuja destinação o pacote Obama não consegue definir com clareza,  lançam dúvidas terríveis nos aliados dos americanos, aumentando a resistência deles à tarefa de continuarem financiando o governo americano quando o sistema financeiro dos Estados Unidos se encontra quebrado e o governo se mostra impotente para dar suporte a ele em forma de ampliação da capacidade de endividamento dos Estados Unidos.
 
Conscientes dessa dificuldade do governo americano, atolado em deficits, que se aproximam dos 7% do PIB, podendo desgovernar-se para 10%, os aliados, sem o mercado americano para desovar suas mercadorias, como antigamente, recuam, estrategicamente, na tarefa de continuar bombeando a dívida americana em troca de títulos do tesouro dos Estados Unidos, como faziam até antes da crise estourar em setembro do ano passado.
 
 
 
O rei está nu
 
Obama, a caminho do fracasso, se não encomendar sua alma a um novo Bretton Woods, para que os aliados, igualmente, falidos, criem novo sistema monetário internacional, capaz de eliminar os créditos podres, na canetada, com os americanos rendendo-se a um novo poder monetário compartilhado, poderá, já, já, enfrentar estouro bancário americano, que , por sua vez, explodirá a Europa, entupida de créditos podres, passados pelos bancos americanos.
 
Pode pintar umas quatro moedas. Continuaria o dólar, ancorado na riqueza americana, que é poderosa, mesmo baleada, graças ao poder de inovação tecnológica adquirido pela sociedade em seu conjunto. Ao lado da moeda americana, relativamente reavaliada em seu poder de troca, estariam, também, uma moeda européia, uma asiática e, provavelmente, uma sul-americana, se a América do Sul se unir para valorizar o seu potencial econômico em nova conjunutra internacional pós-dólar todo poderoso. Seria possível ainda uma moeda árabe, ancorada no poder do petróleo.
 
O pacote Obama, que abre expectativa de novo contexto, na medida em que obnubila o horizonte, ainda impossível de ser dimensionado em sua total complexidade, demonstra que o unilateralismo foi para o baú da história. Somente pelo multilateralismo será possível resolver o colapso americano e europeu, ou seja, a derrocadas das duas mais fortes moedas capitalistas erigidas ao longo da história do capitalismo, depois do predomínio da libra, nos séculos 18 e 19.
 
Nova divisão internacional do trabalho, no compasso dos desajustes do capitalismo, sinaliza necessidade de nova concertação internacional, governo mundial. A alternativa seria retorno ao protecionismo, isto é, ao retorno do fascismo e possível terceira guerra mundial. Enfim, destruição atômica. O rei está nu.