Unasul silencia sobre massacre de Gaza

Uma das características positivas das grandes potências, no plano diplomático, é que elas agem proativa e prontamente com suas cabeças soberanas  diante dos acontecimentos capitais. Expressão do poder do dinheiro.

Os líderes europeus se mobilizaram rapidamente para manifestar-se sobre o massacre judeu em cima dos palestinos – a mais desproporcional de todas as lutas da história humana. Reconhecem o direito de Israel, condenam o que consideram terrorismo do Hamas, mas querem diálogo em vez de guerra.

A América do Sul, cuja pretensão é ser politicamente unida, por meio da Unasul – União das Nações Sul-Americanas – , que não pensa com sua própria cabeça, ficou sem falar nada, até agora. 

Revelou fraqueza política estratégica, por pensar ideologicamente com a cabeça feita pelos interesses do capitalismo cêntrico, essencialmente, divergentes dos interesses do capitalismo periférico. Elo mais fraco da cadeia capitalista, os interesses periféricos, manipulados por elites conservadoras, mantidas por sistemas políticos reacionários, ajustam-se, incondicionamente, aos interesses externos dominantes. Esperam pelo que vai fazer o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. São reativos, não proativos. Pior, confusos, com disputas de espaços de poder no cenário latino-americano à moda populista, quase sempre, em meio a uma democracia ajustada aos limites de uma superestrutura jurídica a serviço da reprodução do capital.

 

Democracia de massa contra guerra 

Já a mobilização dos líderes europeus mobiliza, por sua vez, a população, e vice-versa, no contexto da democracia de massa, que se ergue como resposta ao poder das armas exposto por Israel como instrumento ditatorial, supressor da política. O apoio popular a tal mobilização, certamente, será o termômentro de Obama. Os judeus correm perigo sob o movimento democrátrico massivo mundial ao perderem apoio por excessiva exibição de força.

Condicionados por evoluções políticas históricas do povo europeu, expiado por duas guerras mundiais, os líderes se obrigam a agir pelo consenso democrático de massa, o neo-poder global em jogo contra a guerra.

Por isso, ao mesmo tempo em que se condicionam a movimentação da massa, os líderes a agitam, para melhor se posicionarem no plano politico social, dominado pelo repúdio mundial ao massacre.

O pacifismo ativista entrou em campo. No domingo, as manifestações estiveram nas grandes capitais do mundo. Em São Paulo, 5 mil manifestantes. Mais um pouco, um milhão estarão nas ruas, competindo para ver quem bota mais gente para gritar contra o massacre. Israel ganha a disputa desproporcional contra o Hamas, mas perde de goleada a disputa no poder midiático.

As ruas, cheias de manifestantes, anti- massacre impõe a democracia de massa contra a guerra?

Os líderes sul-americanos, que, com a Unasul, pretenderiam ganhar status semelhante à União Européia, demonstram descordenação total nessa hora. Predomina o individualismo do presidente Hugo Chavez, da Venezuela, em expulsar o embaixador de Israel, e o do presidente Lula, que envia o chanceler Celso Amorim para fazer um desabafo isolado. Parecem os foguetes Qaasan detonados pelo Hamas contra Israel, que contra-ataca com a mais espetacular tecnologia da guerra, destruindo alvos e gente às pencas, como num jogo dirigido de video-game brutal.

Não buscam os líderes da América do Sul a construção do pensamento sul-americano dado pelas condições objetivas, em meio ao caos capitalista, cujas consequências viram o mundo de cabeça para baixo, alterando as correlações de forças políticas. Não estão, ainda, sob pressão da democracia de massa nas ruas.

Já os líderes europeus… O presidente da França, que depende do equilíbrio social entre árabes e judeus, dentro do território francês, se mandou, rapidamente, para o Oriente Médio. Mobilizou forças européias para construir com o Egito a proposta do cessar-fogo como primeiro passo para concialiação.

 

Europa teme expansão islamita

Na verdade, a Europa e os Estados Unidos temem a expansão islamita no Oriente Médio. O combustível para sua expansão é a continuidade dos massacres. O sentimento islamita, que o ocidente diz carregar, intrinsecamente, potencial terrorista, emerge como o único capaz de fortalecer a idéia para lutar contra as armas.

O islã – política e religião interligados –  tende a se tornar o liame capaz de ligar emoções em todo o Oriente Médio contra o imperialismo neo-sionismo israelita exterminador, cujas raízes são européias. A Europa se mobiliza para por freio às determinações do seu próprio filho ideológico transformado em estado de Israel.

O sionismo, como movimento nacionalista histórico dos judeus, é velho conhecido da Europa, porque se trata de movimento, tipicamente, europeu, apoiado pelas potências européias, que dividiram a Palestina, a partir de 1948.

O contrapolo do sionismo é o islamismo. Os resquícios do pensamento ocidental no Oriente Médio tenderiam a ser suprimidos, radicalizando a luta política, caso não seja criado o estado palestino, com fronteiras estabelecidas pela ONU.

Ou seja, os europeus sabem qual o potencial de fogo do conflito no Oriente Médio, onde o Islamismo pode espalhar-se e tornar-se ideologia fundamental dos estados árabes, fugindo, portanto, do controle ideológico utilitarista capitalista ocidental.

A indústria de guerra bate palma. Mercado garantido para as novas tecnologias da morte.

A diplomacia européia, em razão dessa circunstancia história indisfarsável, é ágil, proativa, sobretudo, agressiva, jogando sempre no ataque, estando em jogo interesses da Europa.

Sabem os líderes europeus que  a causa palestina pode radicalizar o jogo político na Europa nas próximas eleições. Somando-se os massacres de Gaza com os efeitos destrutivos da crise deflacionária global, que põe o capitalismo de joelhos, haveria grandes chances de pintar contexto totalmente surpreendente, de agora em diante.

Os europeus, curtidos na pele pelo mandamento de que é do sofrimento que nascem ideologias radicais, se cuidam. A Europa , nesse ambiente, pensa e age formulando ações e agitando o ambiente internacional em favor de acordo, porque o desacordo incendiaria politicamente a própria Europa.

 

Colonização mental

Na América do Sul, ocorre, justamente, o contrário. As lideranças sul-americanas, reativas, aguardam Barack Obama. Mente colonizada.

A Unasul mostra que não pensa com a cabeça sul-americana. Se pensasse, a presidente do Chile e pro-tempore da Unasul, Michelle Bachelet, teria, em nome dos 12 presidentes sul-americanos, ido a Israel e à Palestina, como fez Sarkozy. Imporia o jogo sul-americano, do qual dependerá, em grande parte, Obama. A próxima política energética obamista – 200 bilhões de dólares em investimentos – terá o Brasil como ponto estratégico.

A diplomacia sul-americana, historicamente, é um caos político, porque age mais no abstrato que no concreto, dada a baixa conscientização política social sul-americana, se comparada com a européia, por exemplo. Os fatos são eloquentes. O povo está na rua na Europa e nos Estados Unidos. No América do Sul, dispersão total, compatível com os interesses da elite, que não deseja agitação política, por hora, no compasso do calvário capitalista ocidental especulativo.

Temem, certamente, a liberação da força popular política sul-americana, impulsionada por posicionamentos mais fortes das lideranças, criando correlações de forças políticas sobre as quais perderiam controle.

O populismo sul-americano ainda reserva para si a predominância do mandonismo, mesmo sob a representação democrática. Basta olhar o Congresso brasileiro, regado pelo assistencialismo político escandaloso.