Sarney enrola Lula e abala PT

Vai ficando evidente que o ex-presidente, senador José Sarney(PMDB-AC) deu uma tremenda manobrada, espetacular, em cima do presidente Lula, no episódio da sucessão parlamentar 2009. Pode ser que a situação mude até segunda feira próxima quando serão realizadas eleições na Câmara e no Senado, mas, por enquanto, vai configurando possível vitória sarneysista, na marcha dos prognósticos.  Se o deputado Michel Temer(PMDB-SP) emplacar, na Câmara, onde a maioria do partido e as coligações que realizou se mostram forças amplas e consistentes, será a hecatombe petista e nascimento do parlamentarismo peemedebista, em nova etapa histórica da Nova República em meio a crise global capitalista deflacionária, com Sarney virtualmente de primeiro ministro.
Delfim Netto disse que Sarney, em matéria de política, faz croché com sete agulhas. Sabe tudo do ofício. Começou na bossa nova da UDN golpista de Carlos Lacerta, na década de 1950, depois,  rendeu-se, no lombo da Arena, ao militarismo golpista udenista por 20 anos(1964-1984), dobrou, em seguida, montado no PDS-PFL, a esquina da democracia como primeiro presidente da Nova República(1985), substituindo Tancredo Neves, dramaticamente, morto, e, praticamente, no PMDB, dominou o Congresso Nacional ao longo dos governos neorepublicanos. Primeiro, exercendo o poder executivo, depois, no comando do Legislativo, na Era Lula, exponenciando-se  com o senador Antônio Carlos Magalhaes, na Era FHC. Foi presidente do Congresso na etapa inicial da era Lula e pode repetir a dose na etapa final lulista. Um negociador político da mais alta cepa, urdido na segunda metade do século 20, entrando século 21 adentro. Fora do comando do poder direto, cria seu espaço; no efetivo exercício dele, amplia-o, extraordinariamente. 
 
Se ele faturar mais essa presidência do Senado, pontuando de forma sensacional sua carreira de político conservador, reacionário e renovador, simultaneamente, no cenário político nacional, como, verdadeiramente, única, repetiria pregação do senador Lauro Campos, relativamente, ao senador Antônio Carlos Magalhães, na Era FHC. 
A dobradinha FHC-ACM, disse Lauro, exercitou a ditadura compartilhada sob o regime político neorepublicano eternamente provisório subordinado à bancocracia. Claro, FHC, na segunda metade do seu mandato, enxotou ACM, sob danação da anti-ética política que tomou mandato parlamentar do senador baiano do PFL-DEM, depois, retomado, democraticamente.
 
Emergiria, agora, no mesmo diapasão, a dobradinha Lula-Sarney, na reta final da era lulista, podendo o ex-presidente, poderoso senador do Acre, igualmente, compartilhar uma neo-ditadura provisória neorepublicana na etapa final do falido neoliberalismo que dominou amplamente a Nova República, revertendo-se agora em apelo salvacionista para o nacionalismo protecionista? 
Os fatos apontam para essa possibilidade, embora a política seja pura mudança, impondo, frequentemente, surpresas.
 
A Nova República – democracia política eternamente provisória – ,mais uma vez, tende a permanecer nas mãos dos caciques políticos conservadores da política nacional que inteligentemente souberam adequar-se às novas circunstâncias sempre que são impostas novas e problemáticas formas de reprodução do capital na periferia capitalista.
Curtido, primeiro, no ambiente dos decretos leis militares, depois, no reinado das medidas provisórias neorepublicanas, adequadas aos interesses dos banqueiros, que, de fato, deram as cartas nos governos da Nova República, prisioneira do neoliberal fracassado Consenso de Washington, José Sarney  arrancou com grande disposição de velha raposa astuciosa para tentar conquistar novo mandato no Senado, depois que, ingenuamente, o presidente Lula abriu o galinheiro do PT para ele.
 
Ao deixar correr solto o conto do vigário do aparente desejo sarneysista de não disputar a presidência do Senado – um não desejo desejado – , salvo se fosse chamado para construir consenso, o presidente Lula caiu na conversa de Sarney.
 

Omissão lulista bloqueia Tião

O sonho de Sarney foi embalado pela omissão lulistada mesma forma que tal omissão, igualmente, virou fantasma para a candidatura Viana.
A esperta disposição manifesta por Sarney ao presidente de não disputar não mereceu resposta manifesta do titular do Planalto em forma de apelo e sugestão de cobrança em favor do candidatao Tião, um homem do norte, como Sarney. Ou seja, candidato da coalizão ao Senado com apoio do senador maranhense não disposto a disputar.
A ingenuidade petista-lulista se manifestou na crença em uma regra congressual não escrita de que os poderes nas duas Casas do Congresso não podem ficar em mãos de um só partido. Se o PMDB já tinha costurado , com Michel Temer(SP), a candidatura na Câmara, no Senado, seria a vez do PT. Sarney não acreditou nas coisas não escritas.
Lula acreditou num pressuposto abstrado. Se, como Sarney, não acreditasse, estaria armando estratégia favorável ao senador Tião Viana(PT-AC). Como acreditou, desarmou a candidatura vianense. Vale dizer, condenou Tião Viana à instabilidade, abalando sua força.
Mas, como  “tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda”(Hegel), a aparência sarneysiana deu lugar à essência sarneysiana, enquanto a essência lulista, minada pela omissão política, transformou Tião Viana na aparência sem essência.
 
A não solicitação de  Lula a Sarney relativamente a um compromisso de apoiar candidato da coalizão governista foi lida pela águia política maranhense como o pulo da onça no cangote do bezerro: “Ele não me pediu apoio para o candidato dele; significa que não preciso apoiá-lo”, psiocologizou certamente a sabedoria política manhosa sarneysiana. E estamos conversados.
A partir daí, Lula ficou marolando o assunto, sem sair do lugar. Era o que Sarney queria. Desgastaria Tião Viana, disseminando sua instabilidade-debilidde intrínseca, ao mesmo tempo em que proporcionaria oportunidade cada vez mais ampla para a retórica sarneysiana, engordando-a no vácuo criado pela indecisão do titular do Planalto.
Os petistas não aprenderam com o fiasco na sucessão vitoriosa do deputado pernambucanao Severino Cavalcanti. Deixaram, de novo, de aprender, dessa vez, acreditando em conversa de papai noel. Abriram a guarda para Sarney que passou a atacar por todos os flancos, tricotando com sete agulhas, materializando a pregação delfiniana. Enquanto isso, Tião Viana, sem experiência, espeta o dedo com duas agulhas rombudas, sem a lima necessária, dada por Lula para afiá-lo no jogo sucessório parlamentar 2009.
Lula foi neutralizado pela malícia política do ex-presidente. Esta se expressou em efeito paralisante sobre o presidente em relação ao senador aliado Tião Viana, que ficou sem jogo. Afinal, seu líder maior se recusou a jogar. Em política não tem três erros. Errar uma vez é pecado mortal. Duas, é a morte certa. Tião Viana, com cara de padre piedoso, escorregou no quiabo de Sarney, espalhado com sabedoria no caminho entre a liderança do PT e o Palácio do Planalto.
 
Tião, frango de granja, saiu correndo para um lado, sem apoio de Lula, enquanto Sarney, frango caipira, catador de minhoca, saiu por outro, certo de que Lula ficaria em cima do muro, para não desagradar o PMDB.
Sobretudo, o ex-presidente jogou com a carta maior do partido, tornado mais poderoso depois das eleições municipais do ano passado, conferindo-lhe base capaz de sustentar candidatura presidencial. A capitalização dessa força é a âncora fundamental da candidatura Sarney.

Camelo velho conhece o deserto

O que fará o PSDB? Esperará o voto do governador José Serra, que tem suas divergências profundas com o senador maranhanse, por ter armado cama de gato contra a filha dele, inviabilizando sua candidatura em 2002, envolvendo-a em denúncias de corrupção praticada pelo seu marido, em armação espetaculosa comandada pela polícia federal em plena campanha eleitoral?
Certamente, Serra, de olho em 2010, não teria porque não aproveitar a oportunidade de ouro para remover mágoas passadas em troca de oferta de juros políticos futuros.  Atuaria de modo contrário, criando contencioso sem necessidade, que viesse, amanhã, fazer entrar areia nos seus planos grandiosos de governar o Brasil com eventual apoio de Sarney?
 
Ou Sarney estaria pensando em Minas Gerais, para formar a dobradinha Aécio Neves-Roseana Sarney 2010, a fim de dar um troco em Serra, atraindo o governador mineiro para o PMDB? 
Resta saber qual seria o compromisso de Sarney com a candidatura Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, preferida do rei.
Se for verdade que o presidente Lula ficou pê da vida com a disposição de Sarney de votar atrás e se dispor a disputar a eleição, estaria o possível novo presidente do Senado livre de compromisso explícito com a ministra em 2010. A insatisfação lulista soou temor por eventual vitória sarneysista, pois poderia colocar areia na candidatura da ministra. Cabeças inchadas em profusão  no Planalto.
Lula, certamente, continuará com muito poder, mas Sarney, consciente da hierarquia equivalente entre os poderes da República, não deixaria de exercer sua soberania. E essa será dada pelo pragmatismo político, expresso no apoio da opinião pública. Se as pesquisas favorecerem Dilma, ok; senão… 
Se nem o próprio PT, até o momento, disse sim à Dilma, por que a velha raposa seria a primeira a fazê-lo, sem antes saber o que reserva o futuro? 
O camelo velho, que conhece de cor e salteado o caminho do deserto, que enrola Lula e anula o PT, caminha mais uma vez para atravessar o deserto do Senado , sem beber água suja, profetiza o empresário Sebastião Gomes.