Sapatada no Bradesco e na Febraban

 

 

“Cypriano brigou com o rei”. Caiu. O filósofo Petronius – sob Nero – disse que mais louco do que o rei é quem briga com o rei. Loucura cypriânica.

Nos bastidores empresariais e políticos a informação que rola é a de que a queda do presidente do Bradesco, Marcio Cypriano, substituido, no final de semana, às pressas, por Luiz Carlos Trabuco Cappi, decorreu do atrito havido entre Cypriano e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na quarta-feira da semana passada, durante reunião entre governo, empresários e banqueiros. Em busca de solução para a taxa de juros, o presidente Lula determinou aos seus comandantes da economia alcançarem consenso entre agentes econômicos sobre o assunto, visto que se encontra apavorado com possível escalada do desemprego, cujas consequências são perturbações sociais e políticas insuportáveis.

O presidente do Bradesco e diretor da Febraban considerou, na ocasião, o BC culpado pelos juros altos. Meirelles contratacou destacando que culpados são os bancos, que cobram o spred mais alto do mundo – ou seja, o custo de intermediação bancária, influenciado pelo risco. Evidenciou lavagem de roupa suja, de forma espetacular. Sendo Meirelles a voz do presidente, Cypriano detonou o presidente, o rei. Dançou.

Por que os banqueiros entraram nessa, se são os que mais faturam? Têm lucro médio de 25% a 30%, ao longo dos últimos 20 anos, enquanto as atividades industriais asseguram 8% de rentabilidade e as comerciais, 15%, em média. Os juros engordam os lucros bancários e emagrecem os lucros da produção e do consumo.

A tentativa de culpar Meirelles/Lula demonstrou, no fundo, o insconsciente bancário: os banqueiros estão atacando Lula e sua política econômica. Cypriano vocalizou, inadvertidamente, esse inconsciente, que, na verdade, representa oposição à estratégia macro do presidente, econômica e políica, envolvendo, aí, naturalmente, a candidatura Dilma Rousseff, repaginada esteticamente para enfrentar em 2010 o PSDB, que já apela politicamente para o protecionismo, para garantir empregos, como faz, em desespero, o governador José Serra, de São Paulo, diante do recuo da produção industrial de 0,6% em novembro, relativamente, a outubro, e da greve dos trabalhadores da GM, protestando contra demissões. Clima tenso.

A escorregada feia de Cypriando revelou, ainda, o temor dos bancos diante da situação em que são colocados pela população, de maneira geral, como agiotas, que, agora, na crise, se negam a manter oferta de crédito, embora o governo tenha criado situação para favorecer essa possibilidade, irrigando o mercado de dinheiro público, elevando a dívida pública interna, sobre a qual faturam alto com a taxa selic.

Lançaram os homens do dinheiro culpa na sua própria representação, isto é, o BC, obediente aos interesses da banca, no momento em que o presidente Lula amplia o debate sobre a taxa de juro, envolvendo na discussão não apenas o Banco Central e os banqueiros, restritos no âmbito do Copom, mas, também, os agentes da produção, democratizando o debate.

O cachimbo deixou a boca torta. Os banqueiros revelaram-se incapazes de perceber as nuances políticas que estão levando o governo a ampliar a estatização bancária, gerando o oligopólio financeiro estatal, porque o seu oposto, o oligopólio financeiro privado, na crise, se mostrra incapaz de enfrentar os desafios capitais, no sentido de assegurar a produção e o consumo, razoavelmente, em ação.

As notícias que encheram os jornais, dando conta da saída do ex-presidente e da entrada do novo, Trabuco, ganharam mais força no noticiário do que as informações da crise mundial. Tremenda encenação midiática. Freud disse que as palavras servem para esconder o pensamento.

A autoridade do governo foi colocada em jogo pelos banqueiros. E o troco veio. Cypriano e a Febraban, onde o espírito de animosidade da bancocracia relativamente ao governo extrapolou o inconsciente para ganhar o público, revelaram-se politicamente inexperientes, ao não perceberem que, no contexto da turbulência econômico-financeira, a política econômica está dando lugar à economia política. 

Resultado: Lula mandou uma sapatada no Bradesco e na Febraban.

 

 

Poder bancocrático sob crítica

As tensas relações entre os banqueiros e Meirelles, ou seja, entre os banqueiros e o presidente da República, no compasso das decisões governamentais que vão aumentando o poder financeiro estatal para ir abrindo espaço à ampliação da produção e do consumo obstaculizados pela escassez de crédito, tendem a se ampliar e a abrir discussões sobre a influência excessiva do pensamento bancário na condução da política econômica nacional há mais de 25 anos.

O poder bancocrático é tão poderoso que até a Constituição o trata de forma especial. O artigo 166, parágrafo terceiro, itém II, letra b, estabelece como causa pétrea o direito dos bancos de não terem contingenciados os recursos destinados ao pagamento dos serviços da dívida governamental. Tudo pode ser contingenciado orçamentariamente – educação, saúde, segurança, infra-estrutura, compras governamentais. Somente, os pagamentos de juros ficam a salvo. Contitucionalmente, garantidos. Bancocracia constitucional.

Os professores da Universidade de Brasilia, Adriano Benayon, economista, e Pedro Resende, cientista da computação, realizaram pesquisa sobre esse capítulo constitucional e revelaram a grande influência que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, teve, quando deputado constituinte pelo PMDB, para materializar , na Constituição, o interesse dos banqueiros. Contribuiu, decisivamente, segundo os dois professores, para sedimentar o poder bancocrático no contexto dos poderes republicanos.

Durante a Nova República, refém do Consenso de Washington, erguido depois da crise monetária dos anos de 1980 – detonada pelos mesmos motivos que hoje detonam a crise financeira mundial, ou seja, excesso de dólares especulativos no mercado – , os banqueiros asseguraram condição privilegiada no comando da política econômica.

O prioritário, estabelecido pelo Consenso de Washington, era o que ficou estabelecido consitucionalmente. Ou seja, prioridade governamental para o pagamento dos juros, antes de dispor de recursos para os investimentos públicos, destinados a sustentar, equiibradamente, a demanda global da economia. Esta pagou o pato em favor do privilégio da bancocracia, expressão cunhada pelo senador Lauro Campos, na Era FHC.

Se Cypriano, na frente dos empresários e de outras fontes, comportou-se ousadamente na formulação de críticas a Meirelles pelo comportamento dos juros altos administrados pelo BC, imagine o que os banqueiros não falam entre quatro paredes aos diretores da instituição, que, na prática, tem sido indicado por eles, para orientar a política econômica? Já se disse que o BC é o clube dos banqueiros.

As relações entre Meirelles e o Bradesco e entre ele e a Febraban ficaram estremecidas, vale dizer, tudo que não é permitido para os interesses dos bancos, especialmente, em ambiente de instabilidade total.

As justificativas pela saída de Cypriano – teria atingido a idade limite de 65 anos pelo estatuto do banco, depois de permanecer durante dez anos à frente do Bradesco – falariam, exteriormente, aparentemente, ao fato, não interiormente, latentemente. Aparência versus essência.

Os banqueiros romperam com uma regra capital: a discrição. Sabem que a ausência de toda e qualquer contrariedade política explicita entre os bancos e a autoridade monetária, que concede aos banqueiros a concessão para a abertura do seu negócio, é o ideal. Romperam com ela?

 

O perigo de brigar com o rei

A retirada de Cypriano de cena mostra o desgaste que se formou nas relações entre bancos e governo.

O presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, que luta para conquistar novos espaços para o banco no cenário nacional, depois de cair para terceiro lugar no ranking, em 2008, não poderia algurar sucesso, se tiver pela frente controvérsias políticas com o Palácio do Planalto. Essa possibilidade seria fatal, especialmente, ao longo dos próximos dois anos, em que Lula se empenha em manter a economia funcionando, para garantir sua sucessão.

Brigar com o rei? Os bancos atuam mediante concessões do Estado. São inúmeros os exemplos históricos de governantes que tiveram atritos com banqueiros e modificaram suas preferências, erigindo novos eleitos e condenando velhos aliados, na tarefa de manter a relação umbilical entre estado e banca, que o financia, historicamente.

Banqueiros não têm partido político, não apitam, em público, em política, apenas enfiam a mão no bolso para financiar o estado, tendo como garantia as letras do tesouro, além da possibilidade de comercializar dinheiro, de diversas formas, no mercado monetário, à moda oligopolizada, em escala crescente. 

As tensões entre bancos e o governo – como se evidenciou no episódio Cypriano-Meirelles – , em meio a uma conjuntura cujos desdobramentos destrutivos e potencialmente explosivos, politicamente, são coqueteis molotov, representariam um epílogo extraordinário no governo Lula, dando outro colorido político à Nova República.

O pavio acendido por Cypriano teria pecado pela desconhecimento do time certo para agir? Denunciou potencial conspiração que deixou o poder lulista de barbas de molho.

O conservadorismo de Brandão entrou em campo, rapidamente, mas deixou uma ponta do rabo de fora, expondo astúcia e insatisfação bancocrática com o andar da carruagem de um estado financista oligopolizado em ascenção a ser colocado a serviço da candidatura da ministra Dilma Rousseff.

 

 

Remoção imediata do problema

A pronta substituição de  Cypriano por Trabuco conjuga controvertidamente com as previsões feitas pelo próprio presidente Lula de que a crise mundial, detonada pelo empoçamento do crédito ao consumidor, sinaliza explosão social em decorrência da expansão do desemprego.

A briga entre Cypriano e Meirelles representou cortina de fumaça desse pano de fundo, dando claridade à oposição entre as duas partes, visto que o oligopólio financeiro estatal avança porque o oligopólio financeiro privado não atende o interesse público no compasso da crise mundial.

Como possível avanço de demissões de trabalhadores vai deixando o ambiente politicamente delicado, tornou-se inconveniente aos banqueiros cutucar a onça com vara curta. O Copom, por exemplo, onde a influência dos bancos privados era amplamente predominante, pode, de agora em diante, ser politicamente relativizado pelo avanço da economia política frente à política econômica, de forma dialética, no compasso da crise.

A lavagem de roupa suja Cypriano-Meirelles demonstrou claramente a possib ilidade de atritos cujas consequências, para os bancos, represetariam dissabores. O novo presidente do Bradesco, Trabuco, chega para ficar calado.

Fatos políticos novos e inquietantes passam a conduzir as ações governamentais que necessitam de ambiente econômico financeiro concorde com sua estratégia de enfrentamento da crise.

Não haveria tal concordância se continuar tensa relação Planalto-Febraban-Bradesco. Cypriano espirrou como a concha entre a onda e o rochedo, levando tremenda sapatada.