Obama impedido de repetir Roosevelt

O sonho da economia global, nesse momento, é que Barack Obama, que promete mudar com o mundo que mudou, se transforme em Frank Delano Roosevelt.
 
O presidente democrata , diante da crise de 1929, puxou a demanda global com gastos em programas sociais, entre 1933 e 1936, e em seguida, a partir de 1938/39, em guerra, para tirar o capitalismo do crash, à moda keynesiana. O déficit americano, em 1946, chegou a 144% do PIB.
 
A opção pela política monetária ativa em substituição ao velho padrão ouro do século 19, que fixava regras rígidas, para ditar o fluxo de moeda, a fim de controlar deficit de balanço de pagamento dos governos, colocou a economia americana na vanguarda do desenvolvimento econômico global, sob comando do dólar. A moeda americana já dava as cartas depois da primeira guerra mundial e tornou-se soberana depois da segunda grande guerra.
 
A esperança de que Obama faça a mesma jogada de Roosevelt, expandindo os gastos públicos – não necessariamente em guerras, mas em outras demandas estatais a serem descobertas, quem sabe jogar dinheiro pela janela ou ampliar os investimentos inflacionários no espaço etc, porque guerra virou opção incompatível com a nova pregação multilateral obamiana – , implicaria conjugá-la em dois momentos históricos distintos.
 
A distinção é matematicamente simples. Nos anos pós-guerra, a saúde da economia americana era uma, mais potente, viril. Não haveria déficit, mas superavit, além de ampla confiança na moeda. Agora, não há superavit, mas déficit, enquanto a confiança na moeda periclita. No início do século 21, depois de tantas guerras e desgastes, geradores de déficits, que levaram o capitalismo para a jogatina financeira suicida como fator de reprodução do capital, o fôlego não é mais o mesmo.
 

Tio Sam precisa de viagra

Se Roosevelt poderia fazer o que fez, sem precisar de viagra, porque eram mais que suficientes, para tanto, a juventude, a energia e a potência americana no pós-guerra, que estabeleceu a divisão internacional do trabalho sob controle do dólar, Obama, ao contrário, não estaria com essa bola toda.
Depois de tantos déficites acumulados ao longo de mais de sessenta anos, Tio Sam precisaria de uma injeção de potência cavalar. Poderia ser fatal , sabendo que estado do carro é precário, com lataria estourada em cima de pneus totalmente carecas. Essa é a diferença substancial entre Obama e Roosevelt.
 
Sob Roosevelt, Tio Sam, no pós-guerra, era a grande potencia mundial. Sob Obama, seis décadas depois, envelhecido, corcunda, adiposo, asmático, sexualmente baleado e enfartado – como se encontra nesse momento, no auge da crise capitalista – , o titio precisa de ajuda do Boston Medical Group.
 
Enfim, Roosevelt ergueu o que viria a ser o unilateralismo econômico americano ao longo do século 20. Obama não aguentaria essa barra. Terá que optar pelo multilateralismo, como anuncia Hillary Clinton, Secretária de Estado do novo governo. Os deficits acumulados criaram os limites expressos pela desconfiança do mercado na capacidade de endividamento do tesouro americano. 
 
 

Bancarrota à vista

Nas próximas semanas, podem quebrar mais bancos nos Estados Unidos. Haveria necessidade urgente de novos socorros estatais, levando a uma completa estatização bancária dos grandes segmentos de crédito. A era da dominação dos bancos privados dando orientação ao FED, banco central americano, como ocorre desde 1913, quando foi criado, pode estar chegando ao fim.
Pode fragilizar a posição dos bancos, no compasso da bancarrota, impulsionada pelos créditos podres, principalmente, se o fôlego do governo para absorvê-los não for suficiente, levando o mercado a uma corrida especulativa.
Os próximos anúncios de contabilidades bancárias atuarão como terremotos, mostrando o tamanho fenomenal dos créditos podres irresgatáveis. O governo estaria diante de dois pólos: de um lado, os bancos pedindo socorro; de outro , a população criticando os privilégios concedidos aos bancos por meio de emissão monetária estatal salvacionista com o suor da comunidade.
Opção radical nesse sentido baixaria imediatamente o capital político inicial de Barack Obama. Correria esse risco perigoso para salvar os especuladores, vistos criticamente pelo povo americano?
Se houver percepção aguda pela sociedade de que o buraco sem fundo exigirá empobrecimento social relativo para salvar os bancos, pode emergir pressão política contrária à continuidade de medidas salvacionistas no Congresso.
 
 

Teste para democracia americana

O debate democrático, no ambiente economicamente caótico, tenderia a chocar com os fatos contingentes que exigem pressa e põem pressão incensante, estressante, politicamente, explosiva.
A complexidade do novo contexto em que vive a economia exige decisões rápidas, mas as respostas, em ambiente democrático, não vêm com a velocidade requerida pela situação contingencialmente explosiva. Vem aos poucos, no compasso dos antagonismos sociais que permeiam o debate nacional a desembocar-se no Congresso.
Contradição em marcha que colocaria em teste a democracia americana. A marcha do processo deflacionário, mais ou menos intensa, seria o termômetro.
A agitação que a própria dinâmica produz implica representação econômica e política americana totalmente oposta àquela representação que vigorou no tempo de Frank Delano Roosevelt.
Sob Roosevelt, o capitalismo americano tinha futuro radioso pela frente; com Obama, a radiosidade futura é opacidade congestionante do presente que não deixa ver o horizonte com nitidez.
Os relatórios dos bancos centrais dando conta de crescimento entre zero e  1% dos EUA e Europa, em 2009, significa bola de neve.
 
Com Roosevelt, o dólar, que derrubava a libra e o capitalismo inglês, todo poderoso no século 19, tinha a confiança do mundo. Com Obama, o dólar torna-se a própria desconfiança do mundo.
Sem poder sacar contra o futuro, Obama, ao contrário de Roosevelt, que tinha o vigor e a juventude da moeda americana no pós guerra, tem que buscar aliados. O poder absoluto de Tio Sam se transformou em absolutamente relativo.
A relatividade cadente do poder americano inicia na Era Obama nova fase histórica mundial.
 

Tensões protecionistas balizarão dólar

As controvérsias levantadas pelo Congresso sobre a real capacidade financeira do tesouro para sustentar a demanda americana, que puxaria, por sua vez , a demanda global, evidenciam os limites da própria capacidade americana de exercer o velho papel de locomotiva econômica do mundo.
Um deficit gêmeo – fiscal e monetário  – da ordem de 6% do PIB, em meio à recessão global, representa barreira à ousadia monetária de Tio Sam. As palavras de Lawrence Summers, principal assessor econômico da Casa Branca, com Obama, são de alerta sobre a fragilidade e os limites das finanças americanas nesse momento. Tio Sam está baleado.
 
Por isso, as esperanças em Obama podem ser dissipadas, se predominar o comportamento protecionista da elite econômica americana que vigorou depois da primeira guerra mundial e da crise de 1929.
 
A novidade tende a ser a de que o livre comércio pode não ser mais totalmente interessante para a economia americana, se as grandes indústrias tentam recuperar mercado diante da avalanche de importações baratas, fortemente competitivas com a produção interna nos Estados Unidos.
O livre comércio era bancado pela capacidade infinita de endividamento do tesouro americano, para sustentar saldos comerciais positivos para os aliados e negativos para os EUA, sob o dólar-ouro.
A continuidade desse jogo, iniciado no pós guerra, está em questão. Para complicar, a emergência do desemprego eleva a taxa de nacionalismo econômico.
 
A rejeição relativa ao livre mercado, que deixaria de ser interessante para os Estados Unidos, financeiramente, falidos, sinalizaria, por sua vez, tensões cambiais a serem produzidas pelo acirramento da concorrência internacional, cuja expressão maior poderia ser desvalorizações aceleradas de moedas nas trocas comerciais globais, como fatores compensatórias.
Todos buscariam se salvar.

Construção abstrata, midiática

Todo o complexo econômico americano, sob o governo Obama, no ambiente da crise mundial em curso, desenha conjuntura qualitativamente oposta à que vigorou no tempo de Roosevelt, acrescentando dificuldades e não facilidades.
 
A força da economia americana em 2008, em termos de potencial de endividamento, mediante crença regeneradora do mercado financeiro, não é mais aquela do pós-segunda guerra mundial.
Não existe mais a ilimitada força propulsora de plena confiança dos aliados, que depositaram todas suas esperanças na economia americana para liderar o mundo.  
Um novo Bretton Woods, hoje, teria desfecho diametralmente oposto.
Em 1944, sob o dólar forte, inaugurava-se uma nova divisão internacional do trabalho, ditada pela força econômica dada pelos gastos governamentais em programas sociais e guerra. Em 2009, sob dólar fraco, ocorre o funeral daquela divisão, que abre discussão para novo modelo monetário global, enquanto Obama sinaliza diálogo pacífico.
O complexo industrial militar americano que Roosevelt ergueu depois do New Deal, para dinamizar a economia de guerra, como principal política anti-desemprego, vai berrar.
Ou seja, a aproximação tentada entre Obama e Roosevelt representa construção abstrata, midiática, salvacionista, que tem grandes chances de dar errado.
Tornaram-se estreitos os limites da capacidade de endividamento de Tio Sam e a confiança que ele desperta no mercado, estando abarrotado de dívidas, que levam o ativo americano – cercado de monumental quantia de créditos podres – a apresentar risco que assombra geral a economia mundial.