Falcões impõem guerra a Obama

Despertar trágico do ano novo. O seu perfil essencial está sendo dado pela guerra-massacre aprofundando-se entre Israel e Palestina, na Faixa de Gaza, Oriente Médio, sinalizando tensões globais. Não se pode desvinculá-la de um contexto que se forma pelos próprios interesses que o compõem, no sentido de afirmar sua necessidade para o capitalismo em sua fase atual de desenvolvimento histórico em crise total.

Esse contexto tem a guerra como conteúdo essencial indispensável à reprodução do capital, como demonstrou a história ao longo de todo o século 20, relatada no excelente livro “Capitalismo global – História econômica e política do século 20”, de Jeffry  A. Frieden, Zahar, 2008.

Os falcões da guerra estão alvoraçados sem saber direito que perigos a bancarrota capitalista em curso, nos Estados Unidos e Europa, reserva aos interesses que preservam, ou seja, os interesses da economia de guerra. De qualquer forma, mandam seu recado ao presidente eleito Barack Obama de que tendências ao pacifismo internacional por parte dos Estados Unidos, sob governo democrata, poderia custar caro aos seus patrocinadores.

Obama se candidataria a ser novo Kennedy, para desarmar o complexo do estado industrial militar norte-americano, cujos designos tenebrosos foram levantados pelo ex-presidente Eisenhower, em 1960?

O conflito sangrento, que condena a inteligência humana, como destacou o escritor judeu, A.B Yehoshua, em entrevista ao Globo, representa o produto final de uma linha de montagem industrial. Ela envolve investimentos alavancados pelo estado capitalista que passou a depender, como previu Marx, não mais da produção das mercadorias produtivas, mas, fundamentalmente, da produção das mercadorias destrutivas, na guerra.

Tal essência emerge brutalmente no Oriente Médio no raiar de 2009, como alerta aos democratas americanos vitoriosos com Obama, cuja promessa de campanha foi a de acenar para a paz e abrir diálogo com os islâmicos, a começar pelo Irã, aliado do Hamas, pregadores da destruição de Israel, aliado das forças armadas americanas.

O adversário de Obama, John MacCain, diante da promessa obamista, destacou que ele estaria estendendo as mãos aos terroristas que destruiram as torres gêmeas em setembro de 2001.

Antes que o primeiro presidente negro eleito dos Estados Unidos efetive sua promessa eleitoral, os falcões da guerra se anteciparam, agindo por intermédio das forças armadas de Israel, detonando bombas contra os que consideram terroristas,  os integrantes do Hamas, pouco relevando que se trata de movimento político democraticamente escolhido pela população palestina  na Faixa de Gaza, com discurso radical contra os judeus.

Sua pregação, naturalmente, bateu bem como expressão dos protestos às péssimas condições de vida em que vivem 1,5 milhão de pessoas espremidas, como sardinha na lata, numa extensão territorial de 42 km de comprimento por 12 km de largura – ou seja, um distância do Plano Piloto a Taguatinga, ladeada pelas vias EPTG e Estrutural. Um curral no qual inexiste liberdade de ir e vir, com as atividades essenciais – comércio, desenvolvimento, investimentos, enfim, produção, consumo e empregos, educação, saúde – todas controladas pelos judeus, mediante ditadura militar.

Nesse limitado espaço geográfico, de maior concentração humana do planeta, a indústria armamentista americana, por meio das forças armadas de Israel, exercita seus últimos lançamentos, que constituem a dinâmica em movimento da linha de montagem científica-tecnológica-produtiva que mistura grandes indusriais, grandes banqueiros, poderosos generais, governos obedientes e um pensamento conservador utilitarista ideologicamente construído ao longo do século passado, para justificar sua própria lógica de existência essencial à promoção da reprodução e acumulação capitalista.

 

 

Precisão total no ataque

 

Os moderníssimos foguetes GBU-39, leves, 113 quilos, adequados ao bombardeio subterrâneo, com autonomia de 110 km, disparados a 20 km, monitorados por GPS digital, teleguidos por satélites, garantem , praticamente, 100% de eficácia para atingir o alvo, com precisão quase cirúrgica, como destacou Roberto Godoy, especialista em armamentos, na TV Estadão.

As armas modernas americanas, adquiridas por Israel, competem, desproporcionalmente, com as armas do Hamas, de precisão incerta. Dos 40 foguetes Qassan, mísseis primitivos, disparados na sexta, 26.12, somente um acertou, em terreno judeu, numa casa isolada, matando uma pessoa, sacrificada, talvez, por azar. Ou seja, eficácia quase zero, em comparação à precisão armamentista israelense.

Os palestinos, portanto, trabalham como cobaias para o Pentágono. Por intermédio do poder judaico, sustenta estrutura produtiva guerreira que representa alavanca mundial de vendas das produções armamentistas, a partir de Israel. Geopolítica da guerra.

A Boeing Company, que lançou os foguetes GBU-39, para serem apresentados como atratividade mundial, causando escândalo e revolta social, nas principais capitais do mundo, nos últimos dias, depende,  mais do que nunca, do mercado de guerra, no qual floresce o complexo industrial militar.

A preservação do Oriente Médio como palco da guerra, para atuar como bombeamento de tensões, que se espraiam para outras geografias, representa mecanismo essencial de reprodução do capital, alavancado pelos gastos do governo.

A mobilização guerreira, como arma de combate às agressões ao status quo guerreiro por forças do Hamas – grupo radical de resistência islâmica -cujas energias revolucionárias brotam em terreno fértil em meio a uma população, social e economicamente, segregada, como se estivesse no campo de Auschwitz, obede a uma cientifica formulação política fundamentalmente utilitarista. Diante de um nação sem estado soberano, dominada pelas tendências políticas radicais terroristas – que perdurarão enquanto não se efetivar o Estado da Palestina -, o utilitarismo guerreiro caracteriza a oposição de um não-estado a sua política como manifestação marginal.

Da marginalidade ao terrorismo é questão de semântica construída nos laboratórios da propaganda política guerreira, ao sabor dos interesses da guerra.

 

 

Golias engole Davi

 

O estado de espírito da guerra tornou-se, para o complexo estado industrial militar norte-americano, fundamental, porque representa fonte de renda tributária para o governo continuar sustentado tal complexo como organismo que se alimenta de si mesmo. Um conceito na construção dialética do si por si mesmo.

A produção da indústria armentista – bélica e espacial -, que tem o estado como consumidor de mercadorias produzidas para a guerra, adquiridas por moeda estatal sem lastro, que entra na circulação, dinamizando a produção e o consumo, tornou-se indispensável para o capitalismo como atenuador das contradições do próprio sistema.

A guerra, que aumenta a produção sem aumentar a oferta – quem consome guerra não é o consumidor comum – , atua como fator antíclico para contornar as crises capitalistas, caracterizadas, essencialmente, por acumulação excessiva de capital, cronicamente, tendente à deflação.

Vestindo o perfil anticiclico das crise do capitalismo, as guerras, bancadas pelos gastos do governo, em nome da destruição, repreenta salvação por sua própria negatividade, na medida em que produz ineficiência necessária, para equilibrar-se com o excesso de eficiência acumulada pelo setor privado, como disse Malthus. No ritmo da ciência e da tecnologia, os empresários elevam  exponencialmente a produtividade, jogando os preços para baixo, sinalizando deflação, quanto mais acumula o capital podutivo.

Os Estados Unidos, com a sua sofisticação tecnológica, desenvolvida no departamento bélico e espacial, para produzir ineficiências cientificamente programadas, precisam fortalecer, em Israel o Golias, para enfrentar Davi. Produção que gera renda para consumo compensatório à diminuição do consumo privado, afetado pela crise de crédito. Nesse jogo, não tem dado outra; Golias massacrra Davi. A história bíblica está permanentemente sendo negada na sua representação imaginada pelo incorrigível romantismo humanista.

 

 

O capital vai à guerra

 

O Estado, como consumidor necessário, com sua moeda estatal sem lastro,  para dar suporte à economia de mercado, tendente ao colapso, representa, como disse Keynes, a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, na medida em que tem a autonomia para elevar quantidade da oferta de moeda na circulação capitalista.

Outra coisa não faz o presidente Lula, quando, enfrentando a oposição, engorda o Fundo Soberano Brasileiro com emissão de títulos da dívida pública, que se monetizam no mercado.

O autor de “Teoria Geral do Juro e da Moeda”, não brincou em serviço, ao perceber que a economia de guerra dinamiza o capital: “Duvido que o governo seja capaz de elevar seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força” , disse o grande economista em artigo no jornal “New Republic”, em 1941, segundo relata Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”. Roosevel captou o recado e mandou ver nos gastos do governo para tirar o capitalismo americano da crise de 1929.

Portanto, 2009, 80 anos depois do crash de 29,  começa com o recado da guerra como fator indispensável à reprodução do capital, principalmente, no momento em que o sistema entra em bancarrota, obedecendo à predição de Marx, de que as possibilidades do socialismo somente aconteceriam onde estivessem plenamente desenvolvidas as forças produtivas.

Tal desenvolvimento, no seu limite, produz, segundo o autor de O Capital, a contradição entre o desenvolvimento das relações sociais da produção , de um lado, e o das forças produtivas, de outro, fazendo emergir destruição tanto do capital como do trabalho via deflação.

Alguma dúvida de que esse mal ataca, no momento, a economia dos países capitalistas desenvolvidos? Onde, senão na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, tais condições pre-concebidas por Marx se encontram, plenamente, maduras?

Interessariam aos falcões da guerra o avanço da discussão socialista, no rastro da debacle financeira capitalista, senão como fator de estímulo ao rearmamentismo guerreiro de resistência? 

A indústria da guerra emergiu justamente para evitar o amadurecimento das condições que levam ao socialismo, segundo a tese marxista.

 

 

Limites estreitos para agir

 

Barack Obama pilotará uma conjuntura altamente explosiva, se a desaceleração econômica ganhar força auto-destrutiva, nos próximos meses, temor de muitos especialistas. Poderia, pressionado pelo Pentágono, redobrar sua aposta na pregação de Keynes, cuja essência é aumentar a produção de não-mercadorias, ou seja, a guerra, produtos bélicos e espaciais.

A Secretária de Estado do presidente eleito, senador Hillary Clinton, será a voz da guerra ou da paz?

O grande repórter inglês, Robert Fisk, do Financial Times, disse que escarafunchou todos os discursos de Obama até agora e não viu nenhum indício de plano para a paz no Oriente Médio. Apenas vagas referências à disposição de criar ambiente para aprofundamento do diálogo… Puro éter.

Como Obama priorizaria a paz , se só a agressão imperialista ao Iraque rendeu gastos públicos de cerca de 10 trilhões de dólares para dinamizar o complexo industrial militar norte-americano, segundo o economista Josef  Stiglitz, prêmio nobel de economia?

A guerra fria, que se estendeu dos anos de 1950 até final dos 80, jogou na circulação capitalista 15 trilhões de dólares, segundo o Instituto Pew, admirado por tal fenômeno não ter sido considerado pelos economistas, no período, como fator fundamental da praxis da macroeconomia capitalista.

Não fosse esse dinheirão todo, expresso em emissão monetária, que implodiu o padrão-ouro, nos anos de 1970, os Estados Unidos não teriam cumprido a previsão de Keynes, de que Tio Sam conheceria sua própria força se apostasse todas as suas fichas na economia de guerra. O estado industrial militar é o produto final da pregação keynesiana, como destaca Lauro Campos, em “A crise completa – Economia política do não”(Boitempo, 2002).

 

 

Jogo do engana que gosto

 

O avanço da guerra no Oriente Médio significa a garantia da preservação dos interesses do estado industrial militar americano. O resto é ficar na marolinha de fixar responsabilidades em torno da questão de (falta de)  princípio quanto a quem, nesse momento, começou a jogar pedra um no outro. Jogo do engana que gosto.

Exime-se da questão de fundo, ou seja, da existência de um contexto social, econômico e político, no qual se insere o conflito árabe-judeu, no laboratório explosivo da indignidade humana que se realiza na Faixa de Gaza.

Tal estrutura produtiva guerreira , para os palestinos, representa uma agressão permanente, porque produz, na Palestina, a falta total de perspectiva para a população, engaiolada sob experimentação de cientistas que testam armas de última geração contra armas obsoletas.

Encurralados, sob agressão, os palestinos se exercitam psicologicamente para o revide à castração da sua identidade como povo. Tudo se transborda em doses cada vez mais radicais, como comprova a preponderância do discurso do Hamas como expressão da maioria palestina.

Se eles se sentem agredidos permanentemente, sem liberdade para o comércio, para a cultura, para a política, para se organizar nos moldes da civilização, os foguetes lançados pelo Hamas  representam, evidentemente,  revide à essa permanente agressão, em forma de expansão das colônias judaicas sobre o território alheio e de escaramuças diárias contra a população na sua tentativa de afirmar o que não possui, o direito de ir e vir.

Isola-se a agressão, como fator em análise, não como fruto de uma conjuntura construída, historicamente, mas como se fosse fenômeno exterior à realidade, com vida autônoma, abstrata.

 

 

Senhora da guerra ou da paz?

 

A impossibilidade de os palestinos conquistarem o Estado Palestino, assim como aconteceu com os judeus, até antes de 1948, quando, com apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, principalmente, conquistaram o Estado Judaico, impõe-se como fator positivo para a indústria de armas.

Ela significa fogo de resistência palestina à indignidade humana que mantém o clima de guerra propício à reprodução do complexo industrial militar em escala global.

Sem se constituir em estado, a nação palestina, do ponto de vista da civilização organizada pelo direito positivo ocidental, simplesmente, inexiste.

Na marginalidade do concerto das nações, no mundo atual, a expressão política palestina torna-se essencialmente marginal, portanto, ilegal, enfim, terrorista.

Manter o clima de exclusão da nacionalidade, imposto pela conjuntura de guerra, germina, aos olhos dos falcões da guerra, semente terrorista, oxigênio para sobrevivença da estrutura produtiva e ocupacional guerreira em Israel.

Obama recebe o duro recado: se for falar com o Irá, que arma o Hamas, estará dando um tapa na cara do complexo industrial militar americano. Hillary Clinton, secretária de estado do governo obamista,  iria a Teerã ou ficaria, apenas, no circuito Washington-Telavive?