Capacetes azuis em Gaza, urgente!

A partir da posição emitida pelo presidente Lula em ato público no dia 30 de dezembro, em Recife, declarando que “a ONU não tem coragem de intervir no conflito de Gaza porque não quer enfrentar os EUA”, tornou-se mais evidente a percepção de que  há conflitos de várias dimensões ou de várias categorias ceifando ´vidas pelo mundo afora. Em inúmeros outros conflitos registrou-se a intervenção de tropas de paz da ONU, os famosos capacetes azuis, mesmo que nem sempre estas intervenções tenham alcançado imediatamente o seu objetivo, mas, em muitos casos, permitiram condições que facilitassem a solução negociada e pacífica destes conflitos.
 
Para o senador Critovam Buarque (PDT-DF), que já presidiu a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o governo brasileiro deveria tentar convencer as partes envolvidas da necessidade do envio de tropas de paz para o Oriente Médio. “Por que não não colocar soldados da ONU para preservar as fronteiras reconhecidas pelas Resoluções da entidade, ainda que sejam as fronteiras provisórias?”, indaga, lembrando que ali mesmo, na região do Sinai já houve a presença dos capacetes azuis, incluindo tropas brasileiras, que hoje encontram-se no Haiti, mas já estiveram em Angola, na Yugoslávia, detendo as ações armadas até que sejam encontradas soluções definitivas no campo diplomático.
 
O senador trabalhista tem avaliação positiva sobre as ações adotadas pela política externa brasileira sobre o conflito, mas lembra que há outras iniciativas a serem adotadas. Cita, por exemplo, o acordo firmado entre o Mercosul e Israel  que, segundo disse, é bem mais favorável a Israel do que acordo firmado entre este país  a União Européia , que não inclui nas relações comerciais os produtos fabricados nas regiões ocupadas por Israel mas que são direito palestino conforme as  Resoluções da ONU que preconizam o estabelecimento de dois estados naquela área.  Cristovam entende que este acordo firmado pelo Mercosul com Israel  constitui um erro que contradiz as próprias resoluções da ONU e que, segundo disse, pode perfeitamente ser corrigido tomando em consideração os critérios usados pela UE, que respeitam as resoluções da ONU.
 
 
O Embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim El Zebem, em entrevista concedida à TV Comunitária de Brasília, enfatizou que não existe guerra em Gaza e sim um genocídio. “Guerra é quando existe enfrentamento de dois estados, dois exércitos. Ali só há um estado e um exército, enquanto o povo palestino não dispõe nem de seu estado, nem de exército”. Zebem avaliou como muito acertadas as iniciativas do governo brasileiro que em nota oficial condenou o uso desproporcional da força e deplorou a incursão terrestre quando todo os países do mundo estavam apelando para o cessar-fogo. Para ele, o presidente Lula acertou quando afirmou que “de um lado estão os palestinos com um palito de fósforo e do outro os israelenses com um arsenal dos mais poderosos do mundo, inclusive atômico”.
 
 O Embaixador entende que hoje a causa palestina é cada vez mais conhecida do mundo todo, especialmente na América Latina, sobretudo, conforme frisou, pela nova realidade política de governos progressistas e populares na região. De fato, confirmando a análise do representante palestino, há poucos dias o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, expulsou o embaixador sionista em Caracas e denunciou que no golpe de estado de abril de 2002 a embaixada israelense conclamava o povo venezuelano a derrubar o governo constitucionalmente eleito. Mesmo assim, Zebem denunciou que alguns países sul americanos estão comprando armamentos israelenses, incluindo aviões sem pilotos, reservando ao direito de não informar que países seriam estes. ” Israel está fazendo um demonstração macabra de sua indústria bélica”, declarou, acrescentando que é exatamente em função do complexo militar industrial, sobretudo o norte-americano que se torna praticamente impossível alterar a posição dos EUa de vetar toda e qualquer resolução da ONU que tente parar os crimes cometidos pelo estado israelense. Zebem também destacou existir uma fortíssima vinculação entre a indústria bélica e os conglomerados de comunicação privados internacionais, que sempre atuam em favor das posições israelenses.
 
Enquanto praticamente todos os países do mundo apelam para um imediato cessar-fogo, para o levantamento do bloqueio israelense à Faixa de Gaza e pelo cumprimento das Resoluções da ONU, especialmente pela reconhecimento do direito ao Estado Palestino independente e autônomo, o encarregado de negócios  da Embaixada de Israel no Brasil afirmava que o Hamas é um grupo que não pode ser reconhecido, dando a entender que a ação militar destina-se a depor o governo do Hamas que foi eleito pelo voto direto dos palestinos. De fato, em nenhum documento oficial do governo israelense aparece o reconhecimento territorial histórico dos palestinos tal como deliberado pela ONU quando da criação do Estado de Israel. Encurralados em uma exígua faixa territorial do tamanho similar ao município de Guarulhos ou 16 vezes menor que o Distrito Federal mas com uma população de i milhão e meio de habitantes, os palestinos governados pelo Hamas se vêem numa situação de um gueto, tal como a vivida pelos judeus encurralados pelos nazistas no Gueto de Varsóvia, na Segunda Guerra, com uma enorme e trágica diferença:  enquanto o Gueto de Varsóvia não foi bombardeado, a Faixa de Gaza vem sendo submetida a bombardeios indiscriminados, o que, numa densidade populacional tão alta, significa bombardeio generalizado de população civil, com grande matança de crianças, inclusive a partir de armas condenadas pelas Convenções de Genebra, com as bombas de fósforo.
 
Assim, podem ser notadas enormes discordâncias entre as posições assumidas pelo Brasil e aquelas emitidas por Israel  para justificar está bárbara ação que não pode ser tipificada como uma guerra. Especialmente a partir da posição brasileira apresentada pelo chanceler Amorim em viagem a diversos países do Oriente Médio, inclusive ao governo israelense, reivindicando a inclusão do Hamas nas negociações oficiais. Os documentos oficiais israelenses afirmam ainda que suas ações militares não visam apenas a questão palestina mas também atingir o Irã. De fato, transpirou em setores da imprensa endinheirada norte-americana, em boa medida sob controle estrito do setor financeiro, que tem forte presença sionista, que Israel teria solicitado ao governo Bush autorização para atacar também as instalações nucleares iranianas, tendo recebido um desencorajamento por parte do governo que termina seu mandato como dos mais impopulares da história política dos EUA. Além disso, mais do que por prudência ou por sensatez –  aliás, o governo Bush demonstrou não ter nenhuma coisa nem outra  –   vale destacar o posicionamento político e militar da Rússia, cada vez mais presente em temas estratégicos internacionais. Medvedev além de enviar substantiva ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, gesto que foi acompanhado pelo Brasil e pela Venezuela, determinou a instalação de mísseis e anti-mísseis de última geração no Irã, atitude que foi avaliada pelos especialistas militares de várias posições ideológicas como de grande alcance, lembrando que se a Yugoslávia tivesse estas armas na década de noventa não teria sido submetida ao descomunal bombardeio da Otan, que destruiu boa parte de sua capacidade militar e sua infra-estrutura. Estes movimentos significativos no tabuleiro de xadrez mundial estariam a indicar que, se por um lado Israel, embora cada vez mais isolado, só se movimenta com esta ferocidade em razão da criminosa sustentação dos EUA, por outro, a aproximação de países como Rússia, China e Brasil do Irã, e, também a decisão do Irã de ingressar como membro associado da Alba, com expressivos investimentos para a industrialização da Venezuela, da Bolívia e da Nicarágua,  indicariam a conformação de um grupo de países que têm atuado com razoável sintonia e identidade, ainda que preservem suas diferenças políticas. Esta polarização de ser valorizada e apoiada pelas forças progressistas dos diversos países, pois representam uma política de isolamento dos EUA e de Israel, e uma  maior cooperação entre países e povos que estão preconizando um novo equilíbrio e novo desenho no mapa político internacional.
 
Beto Almeida
jornalista