26 dez
2008Vive la France!
Cesar Fonseca em 26/12/2008

O fracasso financeiro neoliberal que ameaça destruir a economia real colocou o Brasil em alerta para proteger suas riquezas que, no ambiente da globalização e do salve-se quem puder, no compasso da grande crise em curso, tornam-se alvos generalizados dos investidores, especuladores e aventureiros.
A aposta nos investimentos em segurança nacional, mediante plano elaborado pelo Ministério da Defesa, para proteção das riquezas brasileiras – pré-sal, Amazonas, reservas hídricas, minerais, biodiversidade etc – , desponta como renascimento da indústria de defesa naval, bélica e espacial, agora, em parceria Brasil-França, com cláusula de ampla transferência científica e tecnológica, para absorção das forças produtivas.
Envolvendo 8,6 bilhões de euros(R$ 12 bilhões), para construção navios, submarinos, a diesel e nuclear, aviões, equipamentos bélicos e espaciais, o acordo Brasil-França cria ambiente para mobilização de capital, produção, emprego, consumo, que ajuda espantar o fantasma da desaceleração econômica, por força de ação binacional estatal.
Batem bem as preferências históricas francesas e brasileiras ligadas ao pensamento estatizante como alternativa à economia de mercado cujas contradições explodem em crises cada vez mais complexas impossíveis de serem resolvidas apenas pelas forças produtivas em seu pleno desenvolvimento capitalista contraditório e crítico.
Tende a ser ampliado, novamente, o parque industrial bélico-espacial, no Brasil, detonado pela Nova República, herdeira dos governos militares super-endividados e dominados pela expansão da inflação, depois da crise monetária dos anos de 1980.
Produzida pelo aumento de 5% para 17% dos juros nos Estados Unidos em 1979 como argumento para salvar o dólar, sob regras ditadas pelo Consenso de Washington, a crise monetária levou a periferia capitalista à falência e , no Brasil, obrigou o presidente Fernando Collor(1990-1992) a desativar a indústria de defesa nacional.
Nos anos de 1970, o parque industrial brasileiro de defesa militar havia expandido fronteiras, na América do Sul, Europa e , principalmente, no Oriente Médio. Caminhava para representar 10% de formação do PIB. Grandes capitais, privados e estatais, aplicados nos investimentos em construção pesada, fabricação de tanques, armas e aviões, bem como obras de engenharia, ao lado desenvolvimento do ciclo nuclear pela Nuclebrás, deram dimensão extraordinária ao potencial brasileiro, capaz de competir internacionalmente.
Destino selado no século 21
Os Estados Unidos, que estavam implicados com o acordo nuclear Brasil-Alemanha, fechado no governo Geisel, em 1976, levantaram bandeira proibitiva à periferia em bancarrota financeira de armar-se, bradando em defesa dos direitos humanos, com Jimmy Carter. Pressionaram e conseguiram, durante Collor, desativar a base industrial da segurança nacional. Não interessaria à indústria armamentista americana ter uma concorrente na América do Sul para fornecer o mercado do Oriente Médio, onde disputavam com europeus e russos. Fernando Collor fez o jogo da reação americana à expansão bélico-espacial brasileira.
As condicionantes impostas pelo sistema financeiro para limitar o desenvolvimento econômico nacional, que, na ditadura militar, tinha alcançado a casa dos 10% do PIB, entre 1966 e 1979, mataram o sonho do Brasil Potência, alimentado pelos militares enquanto estiveram no poder.
A prioridade macroeconômica passou a ser o pagamento dos juros da dívida, que cresceria, extraordinariamente, depois do plano real, em 1994, apoiado na sobrevalorização da moeda nacional, como arma de combate à inflação e de abertura da economia para o capital externo, expressa na aceleração da privatização tucana.
Os elevados superavit primários(receitas menos despesas, excluindo pagamento dos juros), impostos pelos credores, impossibilitaram a continuação dos investimentos em segurança nacional. Emergiu, consequentemente, a ideologia neoliberal anti-nacionalista, avessa aos propósitos da segurança alimentado pelos nacionalistas.
A crise neoliberal, que detonou nos Estados Unidos e contagia brutalmente a Europa, o Japão e a China, mudou a expectativa geral.
Os ricos estão ficando pobres e os pobres podem dispor de chances de ficar rico. O Brasil e a América do Sul, por exemplo, detentores de base industrial e de abundância de riquezas minerais, energéticas, alimentícias, estratégicas, das quais demanda a manufatura global, tornam-se alvos estratégicos.
A França, que nunca acreditou no neoliberalismo pregado por Washington, que está penando com a recessão, acelerou sua estratégia de conquista de espaço em meio ao apocalipse econômico, buscando aliar-se, mediante lances efetivos, com o Brasil. Destino selado no século 21.
Charme francês para fechar negócio
A pregação de Sarkozi, presidente francês, de que se faz necessário e urgente a presença do Brasil no Conselho da ONU, no rastro do faturamento dos 8,6 bilhões de euros para a indústria francesa programar a ressurreição brasileira na produção da segurança interna e externa, enquanto o mundo enfrenta recessão, dá o tom da nova disputa dos paíseis ricos entre si para realizarem sua produção de inteligência e conhecimento no espaço global. Desenvolvimento comum das indústrias francesa e brasileira, em projeto binacional, cria a nova plataforma de lançamento de produtos para disputar o mercado mundial;
O Palácio do Eliseu, pelo que tudo indica, venceu a concorrência, tanto com a Casa Branca como com o Krelim, na disputa pelo mercado de segurança e defesa brasileiro. W. Bush, prisioneiro das contradições desatadas pelas invasões no Iraque e no Afeganistão, descuidou-se, estrategicamente, da América do Sul e do Brasil. Putin, por sua vez, jogou com as armas do individualismo exclusivista excessivo.
A velha França vestiu a camisa da humildade e veio jogar a lição de Sócrates: “A metade é maior do que o todo”. Abriu mão do exclusivismo científico e tecnológico e reimpõe sua influência, que foi grande, no Brasil, até primeira metade do século 20.
O governo brasileiro, por sua vez, consciente do seu cacife, dado pelas riquezas incomensuráveis, nas quais estão de olho os investidores internacionais, exerce a sua nova influência global, rearmado pela indústria francesa.
Lula não se conteve: Vive la France, erguendo a taxa de champanhe com primeiro ministro francês.
Sarkozi, que cai nas graças da indústria e do trabalhador francês, depois dessa, relaxou. Foi com sua bela Carla Bruni para as praias baianas, nos braços de Iemanjá, saravá, pouco importando com o tititi da mídia francesa, que, criticando sua esticada praieira em tempo de recessão, parece não entendeu o grande negócio bilionário que ele fechou com Lula.









