Mito que se desgasta e se renova

 

 
OK AMIGOS… PERDÃO PELO DESABAFO… MAS NÃO CONSEGUI ME CONTER… BEM QUE EU TENTEI… MAS NÃO DEU!
 
Ouço todos falarem da passagem de Madonna pelo Brasil há muito tempo. No primeiro dia de venda de ingressos, o público mostrou toda a ansiedade que a diva pop trazia com sua vinda ao país desde sua última aparição, há 15 anos atrás. A venda pela internet não funcionou, por telefone entrou em colapso e quem conseguiu ingressos para os shows da cantora enfrentou mais de 12 horas de fila. Isto aconteceu há 3 meses atrás, porém há ingressos para vender até hoje.

Atualmente moro em Buenos Aires e, assim como milhares de pessoas, também tive a curiosidade de conferir de perto o porquê de tanto alarde. Confesso que o que mais me chamou a atenção, mais até do que o show em si, foi a repercussão gerada em torno dele (ou dela?).

A antipatia da cantora durante a sua passagem pela cidade portenha só foi superada pelo cancelamento dos shows, avisado para as pessoas somente dez horas antes dela subir ao palco no primeiro dia do evento, e justificado pelo atraso da chegada de equipamentos de som. O público retribuiu. Ninguém estava lá na porta do hotel Four Seasons para tentar ver Madonna na varanda da sua mega-ultra-gigante suíte. Eu estava e lembro de ter visto um produtor da Globo passar sufoco atrás de um personagem para ilustrar sua matéria que mostrava aos brasileiros o quanto animado estava aquilo tudo.
A assessoria de imprensa da Madonna divulgou um comunicado dizendo que ela chorou muito ao ter que adiar os espetáculos aqui em Buenos Aires, frustando a expectativa de muitos fãs para o que seria sua primeira aparição na América – Latina. Eu tenho lá minhas dúvidas.

Antes do show começar, ao esperar pela cantora quase uma hora e meia no silêncio, o público deu sinais de cansaço desconfiando de que estava ali somente para fazer figuração paras as filmagens do novo DVD.

Finalmente, uma Madonna loira, magra e sarada travestida de Wylly Wonka anuncia sua chegada com um estrondoso e ensurdecedor tic-tac dando seu primeiro recado: “Para mim o tempo não passou”. Atitude digna de dar gosto a qualquer vovó Peter-Pan deformada de botox, mal resolvida com o passar do tempo. Reflito. “Será que ela conseguirá ser feliz quando estiver com 80 anos?” Penso mais um pouco. “Que nada, deve ser inveja de mulher.”

Na seqüencia, em “The beat goes on”, a pop star rodeada por muitos bailarinos e um Rolls Royce, suplica no telão. “Você não tem a vantagem do tempo/você tem que dizer o que pensa/com a cabeça distraída você não consegue chegar a lugar algum/é hora de ler os sinais.” Suspeito não conseguir espaço no meio daquela quantidade de luzes, sons e pessoas para um bom momento introspectivo e cometo a heresia de desobedecer a diva. Continuo pulando.

Com o passar do tempo e da euforia, o que presencio é quase um ataque de megalomania, com Madonna falando de si mesma para si mesma o tempo todo, num ensaiado, coreografado e pirotécnico espetáculo. E então acontece a piada da noite. Em “She’s not me” a cantora luta boxe com “várias ela mesma” brigando pelo namorado como sugere a letra do hit. E daí vem o êxtase. Ela beija na boca a personagem-bailarina vestida de “Madonna-like a virgin”. Mais um movimento cuidadosamente calculado para surpreender. Dessa vez quem desobedece a diva é a platéia. Ninguém parece se importar muito.

Em “Human nature” assistimos Britney Spears no telão tentando se passar por Madonna. Ao final da faixa Madonna berra duas vezes “I´m not your bitch”. A resposta vem, acompanhada de uma leve crise de identidade, estampada em megaclose no telão “It´s Britney bitch!” Fica em aberto o “enigma dialético-existencialista pop”. Tem mais Madonna em Britney ou mais Britney em Madonna?

Entre um bloco e outro, uma troca de roupa e outra, somos distraídos com muitos vídeos. Alguns foram feitos exclusivamente para a turnê, alguns vieram da criatividade dos outros, como nos exemplos da linda imagem apresentada pela grife Prada em um desfile e os grafismos de Keith Haring em “Into the groove”.

Nos novos arranjos para as músicas antigas, Madonna dá sinais de pouca habilidade vocal. Facilmente identificada em “Borderline” que chega a dar falta de ar ao vê-la tentar, sem conseguir, alcançar as notas. Ah! Mas quem estava lá para vê-la cantar? Faça-me o favor!

Chego à conclusão de que preferia a Madonna de antes, aquela rebelde traumatizada porque o pai, muito católico, casou com a empregada depois que a mãe morreu de câncer. Aquela era menos programada e mais autêntica.

No entanto, tenho certeza de que o público brasileiro será mais disciplinado. E corresponderá mais à altura ao ataque megalomaníaco da “cantora-diva-santa” que consegue “se reinventar a cada turnê” e  também, se recusar a aceitar o tempo passar. Até me atrevo a dizer que a gravação do DVD teria sido bem melhor no Brasil. Posso até imaginar todos  lá na porta do Capacabana Palace para ver Madonna comendo biscoito admirando o mar com seus filhos através da janela das suas sete suítes.

E quando ela for embora, aquele beijo que ela deu em uma mulher durante o show será a atitude mais transgressora que já se conseguiu presenciar nos últimos tempos!