Lula aposta na inflação para bancar Dilma

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para o bem e para o mal, a ordem maior do presidente Lula aos seus interlocutores empresários, na quinta, 11,  é uma só:  gastar, gastar, gastar , elevando inflacionariamente a oferta-emissão de moeda na circulação capitalista nacional da ordem de R$ 8,4 bilhões, como compensação em forma de desoneração tributária, para os empresários, e diminuição de impostos, para a classe média, de modo a sustentar o consumo interno, no crediário, especialmente, por meio dos bancos estatais, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, a juros mais baixos, simulando neo-tabelamento.

Evita, com a opção pela inflação, o perigo da deflação, que ameaça as empresas , principalmente, automobilísticas, cujos pátios estão lotados, sem vendas por falta de crédito direto ao consumidor, sob pressão altista da temperatura político-sindical decorrente do medo do desemprego, que, por sua vez, apavora o titular do Planalto. 

O governo ficou numa sinuca de bico: os bancos privados, mesmo com os recursos do depósito compulsório disponíveis a juros zeros, recusaram-se ao apelo governamental, tanto para salvar os bancos pequenos, como para irrigar o mercado com juro mais barato. Jogaram suas disponibilidades nos títulos da dívida pública interna e continuaram sustentando crédito caro. Sem a oferta, antes farta do crédito externo, o governo não teve outro jeito, senão injetar – eufemismo aparente para encobrir o essencial, latente, isto é, o verbo emitir, segundo o economista Carlos Eduardo Carvalho – para ativar a economia, inflacionariamente.
Passou a predominar dois discursos contraditórios: um, o que justifica o juro alto como arma para combater a inflação, agora, sob pressão da fuga de dólares, que levou o Banco Central a segurar em 13,75% a taxa básica, selic, na reunião do Copom, na terça, 10, embora os preços, de acordos com as pesquisas, estejam em queda: outro, que justifica maior oferta de dinheiro estatal para dinamizar a produção e o consumo, ou seja, que gera inflação para combater emergência perigosa da deflação. 
O governo terá que se equilibrar entre inflação e deflação em doses político-artísticas, no compasso do enfraquecimento do real, que, em processo de sobredesvalorização, perde o encanto popular-político-eleitoral, demonstrando que se foi o tempo em que a moeda nacional era orgulho nacional, impulsionadora do populismo eleitoral-cambial. Agora, dialeticamente, virou-se em seu contrário, em ameaça eleitoral, expressa em anti-populismo político-eleitoral-cambial.

Bombeamento estatal financeiro-eleitoral

Diante do estrangulamento geral do crédito nos bancos privados, responsáveis pela paralisação do crediário e desaceleração da produção e do consumo, o governo entrou em campo para ativar a produção e o consumo via crédito mais barato pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal ao mesmo tempo em que renuncia à arrecadação de tributos.
 
A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, candidata do presidente a sua sucessão, em 2010, defendeu, enfaticamente, maior intervenção estatal no mercado de dinheiro por meio dos bancos estatais. Como o governo prometeu, além das medidas anunciadas, novas, que estimularão novos setores encalacrados, é de supor que a opção governamental por neo-tabelamento indireto do crédito visa forçar a concorrência privada a ir para o mesmo caminho. 
Uma guerra de gigantes à vista: de um lado, o oligopólio financeiro estatal; de outro, o oligopólio financeiro privado. A emissão-injeção de dinheiro cria o ambiente dominado pela característica principal que o governo vai adquirindo, de ser o carro-chefe da economia com dinheiro estatal. O poder emissor governamental se transforma no salvador geral.
O perigo é o vício adquirido pelo Partido dos Trabalhadores, no poder, de confundir expansão dos gastos públicos com farra estatal com dinheiro do contribuinte para inchar a máquina do poder para os companheiros, ampliando, consideravelmente, os cargos de assessoramento superior, cuja ocupação exclui concurso público, promovendo desperdícios incalculáveis.

Estado Social e Estado Econômico 

O presidente Lula, do alto da sua confiança ilimitada nas potencialidades do Brasil, detentor das principais matérias primas mundiais que movimentam a manufatura capitalista global em crise, bota   para quebrar, na base do keynesianismo, tentando combinar o desenvolvimento simultâneo do Estado Social e do Estado Econômico. 
De um lado, cuida do econômico, desonerando impostos; de outro, fortalece o social, diminuindo o IRPF, ao criar faixas intermediárias de renda, com alíquotas mais baixas. Uma no cravo , outra na ferradura, para bancar uma oferta extra de quase R$ 10 bilhões na circulação, cujos efeitos, naturalmente, serão sustentação da arrecadação, com a qual garante obras do Programa de Aceleração do Crescimento(PAC).
Até a chegada dos petistas, aliados ao PMDB, ao poder, em 2003, vigorava, amplamente, o poder predominante do Estado Econômico. A entrada em cena do Estado Social, mediante aposta lulista nos investimentos sociais, para aumentar a demanda interna, desovar os estoques e valorizar a moeda, evitando desvalorizações cambiais inflacionárias, criou o fato novo. Este se transformou em equilíbrio na condução do poder entre o social e o econômico por meio de orientação política popular, característica essencial do pensamento lulista. 
No primeiro mandato, o poder lulista conseguiu, graças ao aquecimento da economia mundial, que irrigava o mercado interno, promovendo onda consumista, o equilíbrio entre o Estado Econômico e o Estado Social, mas com a emergência da bancarrota financeira dos Estados Unidos, esse equilíbrio foi violentamente rompido, graças à suspensão do crédito direto ao consumidor. Esgarçou-se, completamente, dessa forma, a base fundamental da armação estratégico-equilibrista-político-econômico-lulista, cuja tentativa de salvação é a opção pela inflação para conter deflação. 

Keynes em dose maciça

Sem o crédito internacional, não restou outra alternativa, senão aumentar a emissão de dinheiro estatal, como fator de compensação. A crise fez parar de chover nas cabeceiras. Ao aumentar, compensatoriamente, oferta de moeda na economia, induzindo ao crédito mais barato, via bancos estatais,  Lula age conforme pensamento de Keynes. 
As emissões monetárias, segundo o grande economista inglês, são as únicas variáveis econômicas verdadeiramente independentes sob o capitalismo, cuja eficiência , em forma de irrigação do mercado, produz o que os empresários esperam, ou seja, o aumento da eficiência marginal do capital, isto é, o lucro. 
Isso ocorre, diz ele, porque o aumento da oferta de dinheiro pelo governo na circulação, como faz Lula, agora, cria os quatro fatores indispensáveis que levam ao lucro capitalista: 1 – diminui os juros, 2 – perdoa as dívidas contraídas a prazo, 3 – reduz salários e 4 – eleva os preços. Ou seja, os empresários, nesse contexto, não precisam enfiar a mão no bolso, para investir, pois essa tarefa passa a ser do Estado. Talvez, por isso, despertem neles o que Keynes chamou de “espírito animal” investidor. 
Claro, os empresários, ao final da reunião com o presidente Lula, elogiaram a decisão governamental de jogar perto de R$ 10 bilhões na circulação, com promessas de, provavelmente, jogar outro tanto, nas próximas semanas, numa praça seca de dinheiro, visto que a reserva existente está empoçada nos grandes bancos, que emprestam caro e a prazo reduzido, em decorrência do aumento dos riscos trazidos pela repentina paralisação econômica internacional.

Cartilha consumista lulista

O pacote de consumo lançado na quinta, 11, é a cartada lulista para tentar segurar o tsunami econômico que começou em forma de marolinha. A criação de duas faixas intermediárias de aliquotas, de 7,5% e de  22,5%, para intercalar com as duas que existiam na tabela do IR anterior, de 15% e 27,5%; a redução de 7,5% para zero da alíquota do IPI para os carros populares, 1.0, bem com a diminuição escalonada do imposto sobre as outras cilindradas; a redução em 50% do IOF, de 3% para 1,5% – mantido adicional de 0,38% para compensar perdas com eliminação da CPMF – e o compromisso de usar dinheiro das reservas cambiais para ajudar as empresas exportadoras, estranguladas pela escassez de crédito, no ambiente global, cuja competição aumentou, selvagemente, representaram o esforço inicial do presidente Lula, para, com a emissão-injeção estatal de dinheiro, na produção e no consumo, sustentar a credibilidade do real, que está se afundando com a fuga de dólares, desde o início da crise em setembro. 
Resta, agora, saber qual será o fôlego financeiro governamental, para bancar o ritmo da economia elevando o nível de endividamento. O jogo keynesiano colocado em cena pelo presidente na tentativa desesperada de conter o perigo do desemprego exige capacidade crescente de endividamento do Estado. Na prática, a dívida passa a exercer, dialeticamente, a função de combater a inflação, ao enxugar, permanentemente, parte da oferta estatal monetária para evitar enchente inflacionária.
O fôlego financeiro lulista é o principal calcanhar de Aquiles do Planalto nos dois anos finais da Era Lula. O presidente faz aposta perigosa, inversa à que persegue os países capitalistas desenvolvidos, nesse momento.  Estes, no desespero, reduziram as taxas de juros, tornando-as negativas, se descontada a inflação, que desaparece em forma de deflação, enquanto mantêm a carga tribtária elevada, capaz de garantir os investimentos públicos. Ou seja, afrouxam a política monetária e tentam manter estável a política fiscal. 

Discurso Serra-sindicatos assusta Planalto 

O remédio inflacionário keynesiano, adotado pelo presidente Lula, é versão piorada do remédio  aplicado pelos países ricos, consubstanciando o revigoramento do papel do Estado como não apenas indutor, mas fazedor, promotor e realizador de investimento, via emissão monetária, fórmula única capaz de levar os empresários ao investimento, incorporando-se do espírito animal investidor.
Está em cena um novo Estado nacional, emissor, indutor, interventor  e fazedor, enfim, empresário e banqueiro. Lula joga antecipadamente o jogo do presidente eleito americano  Barack Obama, que promete emitir 1 trilhão de dólares para dinamizar a infra-estrutura americana, de cabo a rabo, com moeda estatal, de modo a gerar cerc a de 2,5 milhões de empregos, para compensar as demissões em massa decorrentes da desaceleração do modelo neoliberal cujo motor explodiu.
Os congressistas americanos condicionam a aprovação de empréstimos salvacionisas para empresas automobilísticas falidas mediante fiscalização do governo dentro das empresas, ao agir em duas pontas, tentando salvar capital e trabalho, já que temem, como Obama,  emergência social radical trabalhista, se o desemprego continuar ampliando-se.
Da mesma forma, Lula está colocando dinheiro e exigindo que a contrapartida seja sustentação da taxa de emprego. Caso contrário, a situação política, em meio à desaceleração econômica, ficaria amplamente favorável para a oposição. 
Os sindicalistas, na última semana, passaram a brandir o mesmo discurso do governador de São Paulo, José Serra, que luta para sair candidato do PSDB, disputando primazia com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. A ordem presidencial para gastar implica, necessariamente, conter, também, a onda serrista-sindicalista, que pode ser fatal à candidatura de Dilma Roussef em 2010.