Inconsciente frustrado do oligopólio privado

A guerra entre o oligopólio financeiro estatal e o oligopólio financeiro privado está aberta no compasso da grande crise mundial cujos reflexos se intensificam no Brasil no ritmo da redução dos investimentos públicos e privados, detonando aumento do desemprego, cujas consequências conduzirão a uma nova conjuntura política com desfecho, ainda imprevisível, sobre a sucessão presidencial 2010, em torno da qual, no entanto, os candidatos se assanham.

O senador Tasso Jereissati(PSDB-CE), ao levantar , com ares de escândalo, o empréstimos de R$ 2 bilhões, realizado pela Petrobrás, junto à Caixa Econômica Federal, colocou em cena a essência da questão, embora tenha jogado, apenas, com a aparência.

A aparência é escandalizar que a Petrobrás, ao buscar grana na CEF, estaria mal das pernas. Tentativa de baixar os preços das ações, para comprar em seguida, comprando na bacia das almas?

O mercado, diante da acusação do senador empresário tucano, muito ligado aos interesses bancários, ficou relativamente excitado, no primeiro instante. Depois, pensou. Está vendo que é maluquice política. Calculada, é claro, mas que pode ser ridícula. Demonstra apenas o óbvio: os tucanos e a oposição em geral estão sem bandeira. Não podem nem torcer, explicitamente, contra, pois, nas atuais circunstâncias, seriam considerados traídores.

Não se trata, na verdade, da aparência, do perigo de estouro financeiro da Petrobrás, que, precisando, desesperadamente, de dinheiro, estaria, ao recorrer ao banco público, demonstrando fragilidade financeira. O que está por trás da preocupação do senador, ou seja, a essência,  naturalmente, está latente, isto é, o verdadeiro incômodo do oligopólio dos bancos privados de terem perdido a Petrobrás como cliente.

As palavras, segundo Freud, servem para esconder o pensamento.

 

Oligopólio estatal x Oligopólio privado

Por que a Petrobrás, em vez de ir, por exemplo, ao Unibanco-Itáu, recentemente, fundidos, tomar os R$ 2 bilhões, direcionou-se, ao contrário, à Caixa Econômica Federal?

Se tivesse batido na porta daquelas duas respeitáveis entidades financeiras privadas, que almejam ganhar espaço global , com sua recente fusão, teria suscitado tamanha controvérsia, como a levantada por Jereissati?

Haveria algum vacilo do Bradesco, do Santander, do Citibank etc em correr para emprestar não apenas R$ 2 bilhões, mas R$ 5 bilhões ou R$ 10 bilhões, para um cliente excepcional, maior empresa de Petróleo da América do Sul, quarto faturamento das Américas, de 6,3 bilhões de dólares líquidos, no primeiro semestre de 2008?

O lucro em dólar da empresa, segundo a Economática, cresceu 48% , na comparação 2008/2005.

Só um louco recusaria essa demanda da empresa estatal por empréstimo, preferindo, como faz Jereissati, sair gritanto na praça que a petroleira estaria quebrada, por , simplesmente, pedir dinheiro emprestado. Jereissati estaria rasgando dinheiro? Vê se ele faz isso com um grande cliente do seu negócio?

No capitalismo, como Jereissati sabe muito bem, o capital, não apenas ganha emprestando, mas ganha, também, tomando emprestado. A Petrobrás estará ganhando dinheiro com o empréstimo da Caixa, da mesma forma que a Caixa estará faturando em cima do empréstimo à Petrobrás.

Se a Petrobrás, aos olhos do mercado nacional e internacional, representa liquidez certa, emprestar, para ela, seria, do ponto de vista do banqueiro, sempre excelente negócio, ontem, hoje e sempre. Ou não?

Se Jereissati sai berrando irregularidades no ato de emprestar à Petrobrás pela Caixa, claro está, subliminarmente, subinconscientemente, que o que ocorre na cabeça do nobre senador é o que acontece com qualquer empresário que perde grande negócio para outro concorrente. Cabeça inchada.

Age como a raposa que diz que as uvas que estão no bico do passarinho estão podres. Ao dar resposta, elas cairiam no papo da malandra.

 

Desejo entreguista frustrado

Os tucanos, porta-vozes do grande capital financeiro, no Congresso,  estão inconformados com o avanço do oligopólio financeiro estatal, impulsionado justamente porque o oligopólio financeiro privado posicionou-se de forma excessivamente reticente em dispor dos meios financeiros – os depósitos compulsórios a juros zero – que o Estado colocou ao seu favor para salvar os bancos pequenos e irrigar o mercado, no momento em que o crediário desapareceu e a ameaça à economia como um todo, emergiu irresistível, apesar do otimismo excessivo do presidente da República.

Se não deu conta do recado, na hora H, preferindo jogar o dinheiro não no crediário, mas na especulação com os juros, o oligopólio financeiro privado deixou o governo na sinuca de bico, somente podendo dela sair, jogando na mesma moeda, ou seja, impulsionando o oligopólio financeiro estatal, como contrapartida à altura. Os banqueiros e os tucanos são os principais causadores da escalada estatizante do crédito nacional, na base do oligopólio.

Caso contrário, a economia, nas duas últimas semanas, teria mergulhado em estresse total. Um dos freios à essa possibilidade está sendo expresso, justamente, na escalada financeira estatizante. Na terça, no Valor Econômico, o presidente do BC, ministro Henrique Meirelles, diz ver com bons olhos o avanço do crédito estatal para produzir concorrencia no mercado de dinheiro.

Quem diria! O monetarista roxo saudando o keynesianismo creditício estatal inflacionário para sair da crise.

Certamente, o colapso econômico teria ocorrido, se houvesse sido concretizada a proposta dos tucanos na Era FHC , de transformar a Petrobrás em Petrobrax e o Banco do Brasil em algum banco privado, como era do desejo deles, de forma ardente.

Não tivesse, nesse momento, os bancos oficiais presentes para atuar no merc ado, na hora da crise, mas, sim, tão somente bancos privados, o panorama poderia ser bem outro, dadas as resistências privadas ao chamamento governamental. O ministro do Planejamento, Paulo Bernandes, em entrevista ao Estado, disse que os banqueiros deixaram a desejar. Esqueceram que são concessionários do Estado para promover o interesse público. 

Por ter tal interesse sido desdenhado pelos banqueiros, o governo fortaleceu a estatização bancária em ascensão como contrapolo. Ou seja, contra o oligopólio privado que atua contra o interesse público, justifica-se a criação do oligopólio público em favor do interesse público.

Concretiza-se a pregação de Jack London, em “Tacão de ferro”, com prefácio de Trotski, em 1910, em que antecipa a emergência final , no sistema capitalista, do confronto de gigantes oligopolizados estatais em nome do interesse público em face da não observância desse interesse pelo oligopólio privado.

 

O jogo eleitoral está no ar

O que incomoda Jereissati, nessa conjuntura, é que o governo tenha, naturalmente, orientado à Petrobrás que tome recursos de quem – como a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o BNDES – está contribuindo para tirar o pais do atoleiro da escassez do crédito, e não de quem fugiu da raia, para cuidar, tão somente, dos seus interesses privados.

Jereissati toma as dores da bancocracia.

Se a banca agiu dessa forma, prejudicando a política governamental, por que seria pelo governo privilegiada na concessão de empréstimos para a poderosa empresa estatal? As tensões entre o governo federal e os banqueiros esquentaram ao máximo ao longo das últimas semanas. Jogo duríssimo de oligopólios.

A estratégia tucana ficou clara: busca investigar a vida da Petrobrás, na tentativa de especular quanto à saúde financeira da empresa, mas, na prática, está, mesmo, é enciumado e incomodado por ter a Petrobrás, sob orientação do governo, direcionado à Caixa Econômica Federal para tomar dinheiro.

Os bancos privados perderam excelente negócio. Vão perder mais, claro, pois o governo federal e os governos estaduais vão depositar seus créditos nos bancos estatais, para pedir em compensação empréstimos garantidos por arrecadações tributárias.

Novo jogo que implica lógica de juro mais barato para dinamizar a circulação capitalista da produção e do consumo a fim de gerar tributos aos caixas dos governo.

Essa lógica não foi colocada pela oligarquia financeira privada. O seu oposto, o oligopólio estatal, ocupa espaço.

 

A briga vai continuar

A medida provisória 443, que dá poderes ao governo de fortalecer a estatização, ao mesmo tempo em que transforma a Caixa Econômica Federal em banco de investimento é o novo alvo dos tucanos.

Mas, eles estão amarrados por interesses que se cruzam entre o governador de São Paulo, José Serra, e o presidente Lula, no episódio de compra do banco paulista Nossa Caixa pelo Banco do Brasil.

Vão prejudicar o governador que levantaria dinheiro com a desestatização bancária estadual em favor da estatização bancária federal cujos efeitos seriam aumento dos investimentos públicos paulistas que fortaleceriam o titular dos Bandeirantes, na sua escalada rumo ao Planalto?

Detonar a possibilidade de a Caixa Econômica Federal transformar-se em banco de investimento, para competir com os bancos privados em empréstimos às grandes empresas, como acaba de fazer com a Petrobrás, é o alvo tucano preferencial, sob impulso dos banqueiros.

Tasso Jereissati colocou o assunto de forma indireta. Quer atingir a Petrobrás, mas o alvo é a Caixa.

A oligopolização bancária estatal ganha espaço que se traduz, como ressaltou o presidente do Banco Central, em indução ao aumento do crédito. Banqueiro privado no Brasil perdeu o jeito de ganhar dinheiro com juro baixo ao setor produtivo. Ficou gordo e pouco ágil, depois que se acostumou a dispor de lucratividade especulativa em cima dos títulos do governo que pagam os juros reais mais altos do mundo. Prá que trabalhar com risco?

Na crise financeira atual, em que o setor privado demonstra ser incapaz de enfrentar os problemas emergentes, que colocam em contradição radical a produção e o consumo, são justamente os instrumentos excomungados pelo entreguismo tucano  – os bancos públicos – os responsáveis por estarem segurando a barra depois do desmoronamento moral, ético, econômico e financeiro do modelo neoliberal.