Energia vira moeda forte na crise global

A criação em andamento da moeda arábe, anunciada semana passada pelos sheiks do petróleo, ligados à OPEP, representa fato novo no cenário da bancarrota capitalista global.  Energia vira moeda. Boas notícias para a América do Sul e o Brasil, que, com o pré-sal, entra na área da moeda-petróleo.

Ao mesmo tempo, a China manda recado ao governo Lula de que está disposta a embarcar, com suas trilhonárias reservas cambiais, na exploração petrolífera nacional. Ou seja, os chineses abrem os olhos para participarem do cartel da OPEP por intermédio da parceria com o Brasil.

Sinais de mudanças qualitativas no cenário internacional nos próximos tempos em que as economias desenvolvidas, afetadas pela crise de crédito, vão perdendo espaço para os emergentes em ações parceirizadas.

A moeda nacional – ou moeda sul-americana – , da mesma forma que a moeda árabe, ganharia status internacional, se o governo Lula, por conta do pré-sal, se filiasse à OPEP. A valorização dela teria o tamanho do potencial da reserva petrolífera trilhonária.

Os árabes querem com sua própria moeda fugir da volatilidade cambial e monetária que está rolando em profusão nas relações de troca depois que o crédito secou nos países capitalistas mais desenvolvidos.

Antes do vendaval detonado pela implosão do mercado imobiliário americano, eles haviam decidido dar os passos iniciais nesse sentido, por meio da elevação dos preços do barril de petróleo até perto de 150 dólares.

A justificativa para essa pressão altista não foi apenas o então aquecimento do mercado da oferta e da procura do óleo, mas a decisão dos governos árabes de compensarem a perda que estavam tendo nas relações de trocas globais.

Como os países do golfo pérsico têm suas importações européias cotadas em euro e suas exportações de petróleo em dólar, estariam, sempre, perdendo valor dado que o euro é mais valorizado que o dólar.

Jogo de compensações. O aumento do preço do petróleo em doses desproporcionais, como justificativa de compensação para a deterioração nos termos de troca dos árabes com seus parceiros, detonou, por sua vez, a inflação mundial.

Agora, no crash global, a inflação se transforma em deflação nos países ricos e fuga de capitais dos países pobres, desvalorizando a moeda nacional e impondo pressões combinadas de inflação com hiper-deflação.

Nesse novo cenário, os árabes tendem a perder duas vezes. Continuarão  a dançar na troca de dólar por euro e, principalmente, na queda dos preços do barril de petróleo na praça global.

Se não podem ganhar na elevação do preço, como compensação pela perda cambial, nem impedir a baixa do preço do produto na recessão em marcha, os governos do golfo se voltam, então, para a valorização do seu produto. Este adquiriria representação monetária, cujo lastro seria o próprio produto, do qual o mundo depende para sobreviver.

O petróleo, enfim,  viraria moeda árabe, sinalizando novo momento do sistema monetário internacional no mundo capitalista em bancarrota. 

 

O poder real e poder fictício

O cenário, para os árabes, é de prejuízo iminente. Primeiro, porque estão perdendo renda, que toca os projetos internos de desenvolvimento, por conta da deterioração nas relações de troca, e, segundo, porque a queda de preços impõe ainda maior deterioração comercial e cambial.

Que fazer?

Os sheiks, ao que tudo indica, estão se dispondo a uma nova radicalidade para a ação da OPEP como alternativa para valorizar, relativamente, seu produto, do qual depende a manufatura global. 

Repetiriam 1973?

Naquele ano, diante dos preços baixos, munipulados pelas empresas multinacionais, americanas e européias, para garantir consumismo barato de energia e combustíveis nos Estados Unidos e Europa às custas dos árabes, estes decidiram criar a OPEP. Causaram revolução econômica. Os governos do golfo fizeram valer o poder de oligopólio, e o mundo se condicionou à nova realidade, desde então.

Os árabes aprenderam que o poder do petróleo é maior que o peso do papel-moeda. Lá, em 1973, agiram para criar o cartel da OPEP, mas continuaram subordinados à área de influência do dólar. Agora, quando falam em criar sua moeda, a moeda-petróleo, estariam pensando e agindo na reafirmação do poder do petróleo no sentido de acelerar uma nova correlação de forças monetárias globais, quando o dólar balança?

Nasceria novo referencial monetário internacional para balisar as trocas comerciais globais, se for efetivada a moeda árabe. O dólar, como confirma a crise, está perdendo esse referencial, como algo absoluto, de acordo com a divisão internacional do trabalho, estabelecida no pós-guerra pelo acordo de Bretton-Woods, em 1944.

A mercadoria efetiva, riqueza real, lastro palpável, que serviu para a criação do cartel da OPEP, impondo, a partir dos anos de 1970, nova conjuntura energética global, pode estar, em 2008,  no auge das incertezas no cenário capitalista global, agindo para fazer valer, de novo, esse mesmo poder, com avanço qualitativo? A disposição de criar moeda árabe diz que sim.

 

Pobreza relativa do ricos e riqueza relativa dos pobres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A moeda árabe seria, naturalmente, a representação prática do poder do petróleo. O dólar sofrerá natural abalo. Qual o lastro do dólar? Dívidas imobiliárias em profusão que desvalorizam a moeda americana, afetada pela reprodução exponencial dos derivativos dolarizados. Ou seja, não tem lastro real. Perigo total, como prenunciam os próprios árabes, que se lançam à construção de sua própria moeda, para valorizar seu próprio produto. A riqueza fictícia monetária passa a receber outro tratamento no cenário das relações de troca, vindo a emergir a moeda-árabe-petróleo.

Os Estados Unidos e a Europa estão sem sua riqueza visível para dar substância a suas moedas, visto que tanto o euro, como o dólar, estão, na crise, abalados pela bancarrota do mercado imobiliário americano. Os americanos venderam papel podre para os europeus, que distribuiram esses papéis bichados na praça. Tudo falso. Riquezas imensas perdidas, sonhos estourados, fim de ilusões, caída na realidade trágica.

Evidenciou-se o óbvio: os americanos, que haviam perdido para os concorrentes seu mercado de bens e serviço,  perdem, agora, seu mercado de dinheiro. Consequentemente, empobrecem. A prova é a antecipação do discurso da nova Secretária de Estado, do governo Obama, Hillary Clinton, pautado no multilateralismo e não mais no unitarismo bushiano.

O incontrolável aumento do desemprego nos Estados Unidos é o sintoma geral de que a base de sustentação do dólar, o consumo americano, que realiza as importações globais, fragilizou-se.

Obama buscará reafirmar a força do dólar por meio do fortalecimento da capacidade da economia de gerar empregos, ampliando keynesianamente os gastos públicos. Caso contrário, sem a renda proveniente da produção, estimulada pela teta estatal, a moeda americana faliria. Derrocada imperial.

Empobrecimento relativo acelerado, no rítmo de aceleração do desemprego. É disso que Barack Obama quer fugir, preocupadissimo, como demonstra o seu semblante pós-eleitoral.

 

Moeda e agroenergia sul-americanas já

Nesse ambiente de total incerteza, os espertos árabes, donos das principais reservas mundiais de petróleo, perceberam que manter o óleo negro indispensável sob referência do dólar é correr risco ascendente no contexto das relações de trocas globais.

Como o mercado despencou e ficou difícil, senão impossível, continuar praticando preços altos, resta aos governantes árabes apegar-se a sua riqueza real e, ao mesmo tempo, colocar preço nela por meio de representação própria, ou seja, moeda árabe.

O petróleo, sendo poder monetário, pode ser lastro de uma representação monetária regional. Por que não? Esse fato, que a grande mídia pouco explorou durante a semana, tem potencial de fogo para influir na aceleração da criação da moeda sul-americana.

A América do Sul tem a riqueza potencial energética que assegura a estabilidade do mundo, em termos de desenvolvimento sustentavelmente equilibrado. Não teria, igualmente, chegado a hora de os sul-americanos, como os árabes, também, botarem preços nas suas mercadorias essenciais?

O pré-sal, nesse novo contexto, representa, efetivamente, base de sustentação monetária do país. Não seria à toa, portanto, que a China manda o recado ao governo Lula, mostrando-se interessada em ser parceira na exploração do óleo nas profundezas do pré-sal.

O poder energético, como não cansa de pregar o professor Bautista Vidal, agora na defesa da criação da empresa brasileira de agoenergia, emerge como poder monetário, no compassos de derrocada do neoliberalismo, que jogou o capitalismo na anarquia total, produzindo a contradição capital do sistema, expressa pelo choque entre as forças produtivas e as relações sociais da produção.

A hora da moeda sul-americana e da Empresa Brasileira de Agroenergia é agora. Lastreada pela riqueza mineral, energética e industrial da América do Sul, a moeda sul-americana, como a moeda árabe, em nascimento, teria influência decisiva no contexto multilateral pós-explosão neoliberal. Muda o conceito de riqueza monetária: o papel-moeda fictício sem lastro emitido pelos países ricos tenderiam a perder substancia para emissões sustentada em lastros reais, concretos.