Desemprego põe Meirelles na corda bamba

O avanço do desemprego na economia em desaceleração, sinalizando recessão, passou ameaçar o emprego do presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles. O crescente prestígio popular do presidente Lula(78% de aprovação na pesquisa DataFolha) corre perigo. Meirelles terá, na próxima quarta feira, o desafio de comandar mais uma reunião do Conselho de Política Monetária(Copom), sob pressão total dos empresários, trabalhadores, governo e coalizão governamental, no Congresso. Todos levantam uma só bandeira: redução das taxas de juros como antídoto à queda geral do nível de atividade econômica em marcha.

Nesse momento, as indagações generalizadas se voltam para a intensificação das especulações financeiras em cima da moeda nacional. O real já se desvalorizou quase 50% ao longo de outubro e novembro, mas a inflação, ao contrário de explodir diante do aumento da sua fragilidade, diminui, de acordo com os números anunciados ao longo da semana, embora as pesquisas dos banqueiros, seguidas pelo BC, sinalizassem o contrário.

Por isso, a surpresa geral está perpassando o mercado, sentindo cheiro de pólvora no ar. Por que o dólar, na quinta feira, 04, pulou para mais de R$ 2,50? Por que o Banco Central somente atuou no final do pregão, para evitar a especulação, quando, nas semanas anteriores, estava jogando no ataque? Hoje, novamente, R$ 2,50, R$ 2,60. Especulação pura. Estaria interessado em manter pressão sobre a moeda nacional, para evitar redução das taxas de juros, já que dólar alto significaria, teoricamente, mais inflação à vista? Jogada especulativa para evitar a redução das taxas de juros na próxima semana, a fim de continuar mantendo os altos lucros dos bancos, enquanto o setor produtivo vê o barco da economia afundar?

Essas perguntas estão na cabeça dos políticos da aliança governista, no Congresso, que começam a ficar desesperados diante do aumento do desemprego, que, no início de 2009, pode ampliar consideravelmente.Seria desgaste total para o presidente e sua candidata à sucessão nas eleições 2010, ministra Dilma Roussef, ao mesmo tempo em que estaria ampliando as chances dos adversários, José Sera, governador de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, que disputam, dentro do PSDB, a vaga para candidatura tucana.

 

Desemprego em marcha, prestígio em alta

Durante a semana, as notícias pioraram , consideravelmente, pintanto anúncio tétrico: a Companhia Vale do Rio Doce(Vale), uma das maiores mineradoras do mundo, demitiu 1.300 trabahadores e colocou em férias coletivas outros 5.000. Os preços dos minérios, com recessão mundial, cairam e a produção siderúrgica, consequentemente, encolheu. Resultado: a empresa, outrora estatal, privatizada na Era FHC, rendeu-se à lógica das demissões trabalhistas quando a procura cai diante de uma oferta abundante. Entre a deflação visível e a demissão de trabalhadores, não titubeou.

O governo Lula tentou minimizar o assunto, jogando com o otimismo, enquanto a realidade desmentiu-o. No Congresso, onde depunha, na terça feira, 02,sobre a situação atual, a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, não conseguiu vender o produto que o seu chefe tem ofertado em abundância no mercado em desaceleração: esperança em doses exageradas. Sua contenção, relativamente, ao avanço das demissões, ficou transparente, evidenciando que o governo busca correr contra o prejuízo, preparando série de medidas fiscais, como diminuição de impostos e adiamento de pagamento de tributos, enquanto a queda dos juros não vem.

O incômodo governamental aumentou, substancialmente, com a conjugação dos discursos dos empresários e dos trabalhadores, no mesmo diapasão. Embora os representantes de seis entidades sindicais tenham se reunido na Esplanada dos Ministérios, na quarta, 03, para fazer pressão sobre os parlamentares, a fim de livrarem da cassação o deputado Paulinho da Força(PDT-SP), envolvido no escândalo de jogo de influência para liberar empréstimos do BNDES, os sindicalistas corporativistas aproveitaram, também, a oportunidade para defender a redução urgente das taxas de juros e a diminuição do superavit primário. Somente com dinheiro mais barato na praça e menos recursos destinados ao pagamento dos juros da dívida, para que sobre mais aos investimentos, destacaram os líderes sindicais, será possível evitar a recessão e depressão econômica em rítmo crescente.

Na mesma linha, os líderes empresariais, sob coordenação da Confederação Nacional da Indústria(CNI), defenderam, igualmente, diminuição das taxas de juros, mas sem falar em ação semelhante sobre o superavit primário(receita menos despesas, excluindo os juros), como antídoto ao desemprego. Se este não for contido por medidas preventivas, urgentes, poderá disparar, nas próximas semanas, entrando 2009 adentro com previsões catastrofistas.

 

Banqueiros abandonam Planalto

Sob pressão total dos trabalhadores e dos empresários, do capital e do trabalho, bem como dos integrantes da coalizão governamental, no Congresso, o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, começou a ratear em seus argumentos. Sua sustentação favorável ao juro real mais alto do mundo como fator de contenção inflacionária ficou prejudicado. Os números da inflação de novembro, comparados ao de outubro, mostram recuo, mesmo em face do avanço do dólar.

Não bateram as pesquisas realizadas pelos bancos, por intermédio da Focus, que serve de balisamento para ação do BC. Em novembro, o IPC ficou abaixo de 0,3%, quando os bancos sinalizaram perto de 1%. Sem a pressão altista prevista pela pesquisa Focus, alvo de críticas de diversos setores da economia, os argumentos de Meirelles, enquanto avança o desemprego, perderam força.

Tal contradição ouriçou o Planalto, que está, especialmente, irritado com a banca privada, depois que ela se negou, no auge da crise, a colaborar com o esforço governamental, para, utilizando depósitos compulsórios a juro zero, irrigar o mercado com custo estável do dinheiro, bem como socorrer bancos pequenos em bancarrota.

Ao contrário, os grandes bancos, como Itaú e Unibanco, correram para a oligopolização bancária, enquanto elevavam os juros, mesmo com o governo aumentando a oferta de dinheiro na praça, por meio do BNDES. Não teve outra alternativa o governo senão partir, também, para a oligopolização financeira estatal.

Está no ar, no auge das tensões, o confronto entre o oligopólio financeiro privado, de um lado, e o oligopólio financeiro estatal de outro, cujos contornos somente o compasso da crise poderá dizer nas próximas semanas e meses. Na prática, o jogo da banca privada alimenta, entre os governisas, a convicção de que o jogo duro do BC na manutenção do juro alto beneficia os banqueiros e prejudica a estratégia política e econômica do presidente Lula, para enfrentar a crise e bancar a candidatura Dilma.

O titular do Planalto está numa sinuca de bico. Ao intensificar a pregação favorável ao consumo, estimulando os trabalhadores, temerosos do desemprego, a aumentar as compras no crediário, ele poderá ficar, completamente, desmoralizado, caso os juros continuem em alta, como evidenciam os números. As pequenas empresas, sufocadas para pagar o décimo terceiro salário, correm aos bancos para pegar dinheiro a 45%, 50%, 60% ao ano, enquanto o cartão de crédito avança para a casa dos 12%, 15% ao mês. Enforcamento total.

 

Mantega fatura desprestígio de Meirelles

O desespero das empresas diante do dinheiro caro ficou comprovado com o avanço das empresas de Factoring, cuja demanda, nos últimos 30 dias, subiu mais de 30% em dois meses. Além disso, os empresários ressaltam a necessidade de terem de retirar suas aplicações pessoais de fundos de investimentos de modo a fazer frente ao recuo dos empréstimos caros oferecidos pelos bancos.

Entre o desejo do presidente e a realidade configura-se a força desta diante daquele, expressa na onda de desemprego que se amplia. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, em sua tentativa de desmentir os fatos, deixou de ver recessão, inclusive, nos Estados Unidos, onde a situação está preta, para anunciar crescimento interno de 4% do PIB em 2009, está tendo que voltar atrás. O contraste emergiu forte entre seu otimismo sem freio e as previsões da ONU e do Banco Mundial que prevêm avanço de somente 1,5% a 2% do PIB brasileiro no próximo ano.

As reações governamentais, na verdade, se baseiam em argumentos prospectivos, porque, na prática, em outubro e novembro, mesmo diante da catástrofe capitalista nos países ricos, a oferta e a demanda, no Brasil, continuaram fortes, sinalizando a possibilidade de crescimento do PIB de quase 5% este ano.

 

Cabeça a prêmio 

 

A comprovação desse clima satisfatório se expressou na pesquisa DataFolha, na sexta, 05, dando conta do enorme prestígio do presidente Lula: 70% dos entrevistados concordam que seu governo está na faixa de bom e ótimo. Avançou 6 pontos percentuais em relação à última pesquisa. O entusiasmo com o presidente se revelou espetacular no Nordeste, onde o percentual de ótimo e bom pula para 81%.

Não foi à toa que o chefe do governo decidiu acelerar a discussão da reforma tributária, em tramitação no Congresso, cujo teor favorece os estados nordestinos relativamente aos do sul e do sudeste, tema que, no entanto, foi para o próximo ano, dada a emergencial situação econômica deteriorada, colocando em cena, de forma intempestiva, a conjugação dos discursos críticos dos empresários e dos trabalhadores, em desespero.

Debaixo desse clima, a situação do presidente do Banco Central ficou complicada.

O titular do BC, ao que tudo indica, sentiu a barra. Durante a semana, circulando no Congresso e nas entidades empresariais, para sentir o clima geral de deterioração e de críticas fortes quanto à condução da política monetária, reconheceu o perigo que ronda a sua porta e se dispôs, para tanto, a encontrar-se, de agora em diante, com os congressistas, para avaliações periódicas do quadro nacional.

Sua posição caminha para a insustentabilidade lógica. Ao longo da semana, não apenas vieram ao ar notícias sobre a inflação em queda, que contrastram com os juros altos, mas, também, as que dão conta de ações de governos pelo mundo afora jogando o custo do dinheiro para baixo, a fim de salvar as economias de bancarrotas iminentes, em escala inusitada.

Se, na próxima quarta feita, na reunião do Copom, a direção do BC não se mexer para diminuir os juros, mantendo posição conservadora, Henrique Meirelles poderá balançar fortemente, com empresários, trabalhadores e congressistas pedindo sua cabeça.