Sucessão lulista em ritmo marxista

A emergência simultânea da deflação, nos países ricos, e da inflação, nos países pobres e emergentes, está criando um monstro devorador da produção capitalista, destruindo capital e trabalho, com tal força, que , no rastro da derrocada impressionante de empresas, bancos e grandes negócios especulativos, emerge ressurreição dos socialistas e do pensamento marxista, cujo diagnóstico está batendo firme com a realidade dos países desenvolvidos.

Somente eles , historicamente, apresentam as condições básicas que Marx descreve em O Capital, para permitir a ultrapassagem do capitalismo ao socialismo, ou seja, desenvolvimento máximo das forças produtivas em confronto com as relações sociais da produção. A sucessão presidencial no Brasil em 2010 sofreria o impacto direto das inquietações ideológicas que se formam nos países capitalistas desenvolvidos.

Nada mais parecido com o diganóstico marxista que as economias européias, americana e japonesa, na fase atual da implosão do capitalismo financeiro especulativo cuja produção deixa de se realizar no consumo, de forma satisfatória, para reprodução ampliada do capital sobreacumulado que perdeu a especulação como instrumento de acumulação, detonado na escassez de crédito internacional em meio ao excesso de dinheiro disponível, guardado pela desconfiança generalizada na saúde do sistema.

Todas as três grandes economias, interligadas, desde a segunda guerra mundial, pela divisão do trabalho, estabelecida em Bretton Woods, em 1944, demonstram, em alto grau, explosivo, o confronto entre a estrutura da produção, altamente concentradora de renda e poupadora de mão de obra, de um lado, e as relações sociais da produção, totalmente, ameaçadas pela emergência do desemprego em massa, de outro.

 

O Capital vira sensação editorial

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bancarrota automobilística é a comprovação da tese marxista. O colapso das três grandes montadoras americanas, Chrysler, Ford e GM, demonstra o acerto do diagnóstico de Marx, cuja essência é a previsão de que o sistema, no confronto dos seus opostos, joga a economia na deflação, derrubando o capital e o trabalho, ao mesmo tempo em que provoca, nos países emergentes, inflação monetária incontrolável, dada a fuga de capital que sobredesvaloriza  as moedas nacionais, de forma, igualmente, incontrolável. O dólar pode chegar a R$ 3,00 , nos próximos dias.

A emergência irresistível e dialética de tal antagonismo induz à discussão ideológica e ao incremento dos movimentos sociais, algo que os analistas euorpeus e americanos já anunciam, amplamente.

Neos-maios de 1968, politicamente, agitados, poderiam estar a caminhando, eletrizando, nos países ricos, onde a contradição chegou ao grau máximo, o ambiente a caminho da radicalização ideológica, lançando, consequentemente, faíscas emocionais que poderiam contaminar o mundo inteiro ligado pela internet, de forma on line.

Barack Obama é fruto da crise envolvida pela mundo digital. Ganhou a eleição com discurso de esquerda liberal, nos moldes americanos, tendo como base de sustentação e alavancagem a tecnologia da informação, que aliou à sua característica de político nascido em núcleos comunitários.

Criou a comunidade polticamente eletronizada americana com eficiência científica e tecnológica que deixou rastro para organizações políticas cujos efeitos tenderão a ganhar novas cores ideológicas no compasso da destruição da produção e do consumo na escalada deflacionária-inflacionária.

Obama corre contra o tempo

Se Obama, com o seu liberalismo de esquerda americana, claramente, limitado para superar as contradições globais que emergiram, não der conta do recado, para equilibrar o jogo ideológico em favor dos Estados Unidos, guardião global do sistema capitalista, sob o dólar, desde o pós guerra, a partir de Bretton Woods, o espaço para novos discursos políticamente avançados à esquerda, tanto nos Estados Unidos, como na velha Europa, estariam, amplamente, abertos.

Nesse ambiente de deterioração política e econômica deflacionária-inflacionária, que destroi capital e trabalho, o discurso marxista renasce porque estaria em seu verdadeiro elemento, ou seja, sob o pleno desenvolvimento da contradição explosiva entre a implosão das forças produtivas, em grau máximo, de um lado, e as relações sociais da produção, em estado semelhante, de outro, potencializadas pelo avanço do desemprego.

 

Fraudes históricas marxistas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A experiência socialista apenas seria possível nesse estágio, segundo o autor de O Capital. As experiências que ocorreram mundo afora em nome do marxismo, na Europa do leste e na América do Sul ao longo do século 20, não poderiam ser consideradas marxistas, pela exegese de Marx, porque nos países onde se deram – União Soviética, Chile, Brasil, México, Espanha, Portugal, Grécia, Polônia, Tchecoslováquia etc – não existiam, ainda, as condições satisfatórias, econômicas e politicas, isto é, pleno desenvolvimento das forças produtivas em confronto com as relações sociais da produção em estado de ebulição política.

Marx cresce enquanto a ideologia utilitarista capitalista decresce. O Utilitarismo, essência ideológica do capital,  sob a crise, está deixando de existir. Tudo que é útil, disse Keynes, é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade, concluiu. Para os trabalhadores que estão perdendo empregos em escala incontrolável por políticas fiscais, na Europa e nos Estados Unidos, onde os pressupostos marxistas mais se desenvolveram, a ideologia utilitarista perde, na prática, a sua utilidade, deixando de ser verdade.

Rompido o véu ideológico, graças à evidência da inutilidade ideológica que estava animando as consciências na sociedade dominada pelo crediário que desapareceu, abre-se tempo de inquietação política.

As categorias sociais antagônicas buscarão a predominância dos seus interesses não mais lançando mão do que deixou de ser útil, mas daquilo que poderia ser para elas, em suas características sociais peculiares, uma nova utilidade política.

Socialismo? Capitalismo reformado, para dividir melhor a renda? A página da história está aberta pela crise para ser reescrita.

 

Legislativo tenta se salvar do incêndio moral

A subida da temperatura política, nos países ricos, por conta da dinâmica deflacionária, e nos pobres, por conta do seu oposto, a inflação, colocaria a sucessão do presidente Lula em novo patamar ideológico, criando ambiente inverso ao do debate conservador levado até agora pela classe política governada por medidas provisórias.

O Congreso, nesse ambiente, já começou a mostrar suas inquietações rumo a uma superação do marasmo político em que se encontra, para não ser ultrapassado pelos acontecimentos.

O presidente do Congresso, senador Garibaldi Alves, radicalizou contra o presidente Lula, devolvendo ao Planalto a medida provisória número 446, que anunciava o escândalo da salvação financeira das associações “pilantrópicas”, firmando comportamente ético do Legislativo frente ao Executivo, buscando sair do lamaçal anti-ético emque se encontra a instituição, que se vergou à governabilidade provisória, cuja sustentação se dá pela cooptação subordinativa do legistativo ao executtivo em troca de favores politicamente anti-éticos.
Ao mesmo tempo, os congressistas, diante da bancarrota das empresas, que poderá ser ampliada nos próximos meses, ao longo de 2009, decidiram apressar a discussão da reforma tributária, para criar o imposto sobre valor agregado, substituo do ICMS, que se transformou em transtorno nacional. Lutam para vencer o empecilho ao desenvolvimento das forças produtivas no país, emperrada pela burocracia tributária ineficiente e cara, para garantir competitividade nacional no cenário global.

O novo movimento do poder legislativo, em plena crise, impulsionado por Garibaldi, no plano ético, e pelos deputados, no plano econômico, demonstrou tentativa de fuga parlamentar da pecha social de ser instrumento institucional inútil.

Garibaldi, com sua jogada política, emerge, no Rio Grando do Norte, como candidato ao governo em 2010, e os parlamentares, dando uma meia sola no sistema tributária, dariam satisfações ao setor produtivo, que, diante dos juros altos e dos impostos escorchantes, estariam dispostos a apoiar um discurso nacionalista mais radical tipo Hugo Chavez, se trabalhasse mais atentamente seus interesses.

Planalto leninista

O titular do Planalto, nesse novo contexto histórico, pode cair para a esquerda de forma mais intensa. Sua ação no plano econômico já demonstra tal opção, ao aprofundar medidas leninistas, como oligopolização do crédito pelos bancos estatais e intervenção direta no setor econômico, para animar o crédito e a produção, a fim de evitar que a ausência daquele inviabilize esta, jogando a sociedade na tensão do aumento do desemprego irremediável e da agitação político-ideológica consequente.

Ou seja, clima propício ao avanço do pensamento socialista e comunista, que, em Sáo Paulo, nesse final de semana, é reanimado por ideólgos de esquerda de vários países, para simularem o futuro sob capitalismo submetido à danação marxista, pauta obrigatória para a sucessão 2010.

Quem percebeu , com tremenda sagacidade, o momento, foi Delfim Netto, que, antevendo debate ideológico inevitável, em vez de avançar nas análises futuristas da crise em curso, decidiu trabalhar, olhando para o retrovisór histórico, contra o que considera possível retorno do socialismo, que apelida, sarcásticamente, de leninismo autárquico.

Embora se mostre equivocado, nesse aspecto – como desenvolvemos no post “Marx acertou. Delfim está apavorado” – o ex-ministro, ex-deputado e tremenda cabeça política, Delfim Netto, enxergou o óbvio: o marxismo está voltando com toda a força. Deseja condenar o passado, para inviabilizar o futuro no que considera passado. Ao abandonar a disposição para investigar o futuro e centrar ataque no passado socialista, revela, inconscientemente, o essencial, isto é, que o socialismo torna-se opção alternativa ao colapso capitalista. A prática já está demonstrando: os empresários e banqueiros,sem falar dos trabalhadores, correm para o colo do Estado como tábua de salvação diante da eficiência do capital de sustentar , na produção, sua própria e ampliada reprodução.