Sócrates resolve fácil crise Brasil-Equador

A metade é maior que o todo, disse Sócrates(470-399 a.C), de acordo com relato de Platão(428/427-347 a.C) em “A República”.

Por que? 

A metade, diz, fiscaliza o todo, enquanto o todo, sozinho,  não consegue se auto-fiscalizar, pois passa a ser dominado pela sua intrínseca prepotência.

“Quem tem o todo, só arruma adversário”, destaca o experiênte empresário socrático Sebastião Gomes.

Essa é questão chave na vida sul-americana, nesse momento, em que as tensões econômicas e políticas ganham dimensão extraordinária no compasso da crise internacional, como acontece com Brasil e Equador, envolvendo conflitos econômicos e financeiros que abalam as relações dos dois países e ameaçam a união sul-americana.

Como superá-los: pelo pragmatismo político-econômico unilateral ou multilateral?

As empresas multinacionais estarão em xeque no novo contexto internacional em suas atuações em terceiros países, ampliando seus mercados e sua escalada lucrativa, se tentarem agir unilateralmente no ambiente de implosão do capitalismo global no qual a produção, promovida de forma anárquica, deixa de se realizar no consumo, no ambiente em que o crédito entrou em colapso.

A China jogou essa estratégia. Chamou as multinacionais para serem sócias dos chineses empreendedores. Na América do Sul isso jamais aconteceu. Os chineses seguiram o conselho de Lenin, dado durante a Nova Política Econômica(NEP), favorável à criação das empresas mistas, e de Sócrates, optando pela metade.

O exemplo vale para as multinacionais brasileiras, como a Petrobrás, no câmpo energético, e as empreiteiras, como a Norberto Odebrecht, no campo da construção pesada.

O velho unilateralismo levou ao crash atual, muito mais amplo do que o colapso de 1929. Ele produziu a anarquia instaurada pela desregulamentação total dos comportamentos capitalistas unilateralistas, sob dominino do pensamento meramente financeiro, de reprodução do capital. Jogatina e corrupção sem fim.

Os novos governos estarão comprometidos, sob pressão da opinião pública, em resolver tais entulhos históricos.

A desorganização da economia mundial, explícita na crise, por conta do comportamento anárquico neoliberal, representa derrota da própria ação econômica unilateral e impõe, como necessidade de sobrevivência geral, o seu contrário, a ação multilateral.

O multilateralismo expressaria, na prática, a tentativa de organização da produção e do consumo como forma de salvar o sistema que, sob liberdade total sem o concurso de regras, rendeu-se à danação de Marx: o desenvolvimento exponencial das forças produtivas entrou em choque com as relações sociais da produção, gerando deflação destrutiva de capital e trabalho, bloqueados pela eliminação do crédito.

 

Novos tempos, novos paradigmas

O caso da empresa nacional Odebrecheth, que há 25 anos atua na economia equatoriana, realizando obras públicas, para governos de matizes ideológicos neoliberais, é paradigmático. A subida de novo governo coloca em cena conflitos que envolveram a empresa e os governos anteriores em situação que tribunal internacional está avaliando a pedido do presidente Rafael Correa, em meio a uma efervescência nacionalista, que levou o país a uma Assembléia Constituinte, configurando nova correlação de forças internas, a exemplo do fenômeno que avança em praticamente toda a América do Sul, nesse momento histórico de explosão do capitalismo desenvolvido, envolto em bancarrota.

A empresa brasileira, acusada de relaçõese promiscuas com autoridades equatorianas, apeadas do poder pelo voto popular, toca empreendimentos, no país, da ordem de 650 milhões de dólares, grandes obras de engenharia, estradas, hidrelétricas, túneis, viadutos, obras de infra-estrutura urbana, com recursos oferecidos por banco estatal brasileiro, o BNDES, como complemento dos investimentos. Já estava ela sob foco das novas autoridades eleitas, quando uma de suas obras , a hidreletrica de San Francisco, rebentou, criando problemas, que se transformaram em pressões politicas sobre o próprio governo, especialmente, durante a última campanha eleitoral.

Aconteceu, no Equador, o mesmo que, praticamente, no mesmo período, aconteceu em São Paulo, ou seja, obras mal feitas que estouraram, gerando mortes e problemas para a população, cujas consequências estouraram nas costas das autoridades paulistas. Quem era responsável pelas obras? Odebrecht, entre outros sócios empreiteiros. 

O caso, no Brasil, foi parar na justiça brasileira. O caso equatoriano ganhou foro internacional. O presidente Correa reclamou junto a uma corte externa, sob o argumento de que, internamente, poderia ser acusado de manipular os juízes equatorianos a seu favor. Prometeu que, se a corte internacional der ganho de causa a sua ação, puniria a empresa e os financiamentos do BNDES, no valor de 250 milhões de dólares.

Ou seja, não se trata de uma briga entre países, mas entre o governo do Equador e uma empresa internacional, que não agiu , com competência, em relação a determinada obra, embora , relativamente, a outros empreendimentos tenha angariado sucesso, não apenas lá, mas em diversos outros países sul-americanos e europeus.

 

Nova mentalidade empresarial se impõe

Como Rafael Correa está em processo eleitoral, já que, em fevereiro, haverá, no Equador, eleições gerais, e o presidente continua sob pressão dos oposicionistas, seu posicionamento político não poderia ser outro senão seguir adiante sob pena de dançar na mão dos adversários, que sensibilizaram a opinião pública diante da incompetência empresarial da firma nacional que construiu obra comprometedora aos interesses da sociedade. 

O que faltou à Norberto Odebrecht?

No caso da hidrelétrica de San Francisco, competênica; no plano econômico-empreesarial-político, visão socrática, para atuar em terceiros mercados, num ambiente social e político em transformação em toda a América do Sul, cujas consequências, de agora em diante, fixa novo paradigma, já que o mercado sucumbiu-se, graças às suas contradições, à necessidade do socorro estatal, como fator de sobrevivência. 

Os empresários de determinado país, que atua em outro, terá, necessariamente, que levar em consideração os novos tempos, que impõem a eles sabedoria de buscar, onde atua, o exercício da pregação socrática: a parceria. 

Odebrecht não vislumbrou o novo paradigma sob nova correlação de forças políticas no país em que atuou com grande extroversão empresarial, cujos resultados são controversos diante de laxismos de governos corruptos com os quais a empresa relacionou ao longo de duas décadas e meia.

Durante todo esse tempo, somente cuidou de manter o todo do seu negócio. Agora, expulsa, perde o todo, porque não soube dividir. 

 

Parceria Brasil-Argentina sinaliza novo tempo

Como estão se expressando os novos tempos, com seus novos paradigmas, na America do Sul? Basta observar o esforço realizado, contra o interesse do capital externo e da grande mídia a ele ligado, em favor da criação de uma moeda comum para mediar as relações de troca entre Brasil e Argentina, que poderá ser o germe da moeda sul-americana, cujo lastro é poderoso, ou seja, as imensas riquezas a América do Sul, historicamente, sustentáculos da acumulação de capital nos países ricos e desenvolvidos.

A concorrência acirrada impediu, até agora, a integração mundial do comércio porque não se chegou ao pensamento multilateral traduzido na integração do capital internacional com o capital nacional para tocar empreendimentos comuns no âmbito de cada país. 

Como a Norberto Odebrech não abriu espaço para a integração empresarial com suas colegas equatorianas, perdeu espaço no plano político.

Resultado: deu, ao cometer erros de engenharia em projeto desenvolvido no Equador e outras irregularidades levantadas pelo governo equatoriano, depois de instalada comissão para investigar denúncias feitas pela oposição,  durante campanha eleitoral, motivo para ações políticas radicalizadas por parte de poder constituído. Este, sob o impacto das denúncias, viu-se, em tempo de eleições, pressionado a agir.

 

Getúlio agiu como Correa

Os passos de Rafael Correia, que irritam o governo brasileiro, nesse momento, em sua caminhada política nacionalista, são semelhantes aos dados pelo governo nacionalista de Getúlio Vargas, em seu início, em 1931, quando decidiu, sob pressão de acusações políticas, investigar sonegação de impostos e irregularidades generalizadas praticadas pelas companhias americanas distribuidoras de gasolina – Standard Oil Co. of Brazil, The Texas Co. Ltd, Anglo-Mexican Petroleum Ltd, Atlantic Refining of Brasil e The Caloric Company.

Levantado o assunto por comissão governamental, comandada pelo ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, Getúlio, conforme destaca Moniz Bandeira, em “Presença dos Estados Unidos no Brasil”(2005, Civilização Brasileira, pag 328),  tascou violenta multa nas empresas. A embaixada americana interferiu. Getúlio jogou pesado e rompeu prática que era corriqueira ao longo da República Velha, impondo novo paradigma.

O mesmo poderia estar rolando nas relações do governo equatoriano com empresas internacionais, antes de Rafael Correia assumir. Agora, sob pressão política, o titular do poder equatoriano, estaria agindo como Getúlio, sanando práticas que vigoravam antes, tornando o Equador casa de mãe joana da empreiteiras internacionais, que disputam o mercado de infra-estrutura nacional, tocado com moeda governamental.

O governo brasileiro, sob a excitação da grande mídia, que trombeteou calote equatoriano iminente, ao entrar em cena chamando seu embaixador em Quito, para discutir o assunto, age conforme velhos paradigmas.

Se Lula e Correia traçarem ação geoestratégica, para a atuação econômica conjunta dos dois países, a partir de novos paradigmas que o estresse capitalista global proporciona, numa linha socratiana, criariam novos fatos que repercutiriam amplamente na integração econômica sul-americana, em vez de, sob pressão da imprensa conservadora, buscarem, inutilmente, quem é o culpado numa pendenga governo-empresa, cujos contornos são bichados.

A presença da Odebrecht estaria garantida no país, parcerizada com grupos econômicos equatorianos, e a vida econômica nacional ganharia novo conteúdo, adequado ao espírito multilateral em ascensão, no rastro da decadência do unilateralismo econômico, implodido pela derrocada neoliberal global.

Quem vai lucrar com possível divisão dada por essa controvérsia, senão os interesses anti-sulamericanos históricos que sempre lutaram contra a possibilidade da união continental?

 

Eterno jogo de dividir para governar

Não se deve esquecer, a título de exemplo, da trama armada pelos Estados Unidos contra o Iraque, em 1990, no conflito deste país com o Kuwait, culminando com invasão das tropas de Saddan Hussein, em 1990.

Inicialmente, Washington botou fogo em Saddam para invadir. Depois que o ditador caiu na armadilha, jogando seus tanques em cima dos kuwaitianos, os americanos decidiram,numa coalizão de forças ocidentais, cmandadas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha, invadir o Iraque, em nome da defesa do Kuwait. 

Evitariam, disseram, expansão saddamhusseiniana no Oriente Médio, com apoio da Rússia etc.

O presidente Lula, como destaca o empresário Sebastião Gomes, poeria ter caído na mesma armadilha, se tivesse atendido os arroubos guerreiros do PSDB, quando da nacionalização do petróleo boliviano, pelo presidente Evo Morales, e colocado tropas nas fronteiras Brasil-Bolivia, como clamaram os tucanos, no Congresso, estimulados pelos editoriais da grande imprensa.

Era o que as forças aliadas externas desejavam.

O presidente da Venezuela, Hugo Chavez, naquela ocasião, caso Lula rendesse à pregação tucana, mobilizaria tropas venezuelanas para defender Morales, como antecipou em diversos pronunciamentos. Nada melhor para os adversários da Unasul.

Novamente, o tumulto se forma relativamente ao Equador, com os protagonista da máxima de dividir para governar incentivando ações politicamente confrontacionistas, belicosas.

Lula e Correia cairão nessa armadilha?

Ou como líderes políticos de um novo tempo abrirão novas perspectivas e expectativas de avanço nas relações diplomático-político-comerciais, pautadas pelo multilateralismo, que eliminaria perigo de guerra, alimentado pelo unilateralismo?

Está na mão deles o destino da construção da união sul-americana.