O candidato do partido Democrata dos Estados Unidos, Barack Obama, que poderá ser o novo presidente da República, se as pesquisas de opinião forem confirmadas nas urnas, nessa terça-feira, deu o mote para o novo tempo, cuja essência é união nacional.
Promete o primeiro presidente negro americano a possivelmente chegar à Casa Branca que se eleito convocará as forças políticas da nação, para governar o país atolado na maior crise econômica de sua história, tão ou mais intensa do que a grande depressão de 1929. Reconheceu que sem tal chamamento não conseguirá governar. Vibrante.
A tarefa de Obama ou de John MacCain, caso este seja o vencedor – esperamos que não! – é hercúlea. A impossibilidade de o governo americano, sozinho, resolver a parada da grande crise financeira internacional, detonada a partir dos Estados Unidos, com estouro do setor imobiliário, super-alavancado nas especulações do subprime, cujos efeitos destrutivos espalharam, perigosamente, pela Europa e Ásia, já ficou patente. Não conseguirá enfrentar o pepino econômico, acompanhado dos compromissos de enfrentar duas guerras em curso, emitindo moeda sem lastro, desgovernada pelos fantásticos acontecimentos.
O presidente W. Bush demonstrou toda a sua impotência, no auge do momento histórico. Compareceu tantas vezes em público , para falar da necessidade de união, capaz de ajudar os Estados Unidos a enfrentarem os descaminhos econômicos, politicos e sociais explosivamente emergentes que não restou dúvida alguma de que somente a união internacional, num contexto multilateral, conseguirá superar os impasses.
Vale dizer, o unilateralismo arrogante norte-americano é coisa do passado. Ele jogou a moeda nacional numa tremenda buraqueira, marcada pela desconfiança generalizada no seu poder de continuar sendo o equivalente universal nas relações de trocas comerciais globais. Resta buscar novos socorros, a fim de encaminhar soluções convergentes, no plano internacional, no sentido de fixar nova divisão do trabalho no plano geral do mundo.
Evidente contradição presidencial
Obama, com visão de estadista, ao se dispor a chamar os aliados internos, democratas e republicanos, para o acordo, sendo o vencedor do pleito de hoje, dá a dica do que pretende, igualmente, realizar no plano das relações externas, dando novo conteúdo aos planos de política global dos Estados Unidos.
Certamente, MacCain, caso seja eleito, não teria outra alternativa, também, algo que não explicitou, embora se esforçasse para parecer distante dos compromissos assumdos por W. Bush, seu aliado partidário, porque, talvez, carregue no seu peito a arrogância típica dos herois de guerra americanos, falsamente, conscientes de que a América pode tudo sozinha, o que não ocorre mais.
Resta aguardar os acontecimentos.
O que essa estratégia obaniana diz para o presidente Lula, que, também, enfrenta desafios homéricos, no calor da crise, depois que a ficha lhe caiu, desbancando otimismo excessivamente cândido segundo o qual o Brasil estaria livre das consequências do maremoto financeiro global, que fez sumir da praça o crédito, jogando o capitalismo, mundial e nacional, em completa incerteza?
Claro, não há solução fora de uma união nacional. Tal evidência é tão gritante que joga dúvida sobre a real capacidade do titular do Planalto quanto a sua competência política, por não ter aventado essa possibilidade até o momento, se, quando ele viaja ao exterior, não cansa de pregá-la.
Durante a abertura dos trabalhos, na reunião da ONU, a pouco mais de um mês, falou de união internacional, novas relações globais, multilateralismo como solução etc e tal. Nas reuniões com os líderes sul-americanos, idem. Na Europa, na Ásia e na Áfria, da mesma forma, fala no mesmo tom. Na semana passada, em El Salvador, na cúpula Ibero Americana, e em Cuba, com o presidente Raul Castro, da mesma forma, repisou.
No plano interno, porém, joga com autoritarismo presidencialista e excessivo otimismo, como o Cândido de Voltaire, enquanto empresários se descabelam diante dos grandes bancos, que colocam o titular do Planalto na condição de peru de natal a ser destrinchado.
Sem um entendimento global, não haverá solução satisfatória.
Afinal, o que está em xeque-mate é um arranjo internacional, forjado no pós-guerra, no rastro do poderio econômico, político e militar norte-americano, tendo o dólar como a representação desse real poder, a coordenar o mundo ocidental, políticamente, em nome da democracia, para barrar o avanço do comunismo soviético.
Essa arquitetura geoestratégica, que, ao longo dos últimos quarenta anos, foi se deteriorando, quanto mais os Estados Unidos foram acumulando deficites gêmeos – comercial e fiscal – para gerar exportações dos aliados para o mercado americano, francamente importador, tendo como contrapartida o compromisso dessa aliança de países ser expressa pela compra de títulos públicos americanos, nas carteiras dos governos, esgotou-se.
Traduziu tal estado de coisas, ao final de quase cinco décadas, em expansão extraordinária do capitalismo, que, dialeticamente, acumulou, igualmente, tensões destrutivas, visto que o sistema contraditório, caminha para a expansão e destruição ao mesmo tempo.
A tese gerou antítese, que busca síntese no arranjo político, seja interno, seja internacional.
Banqueiros agiram no vácuo político lulista
Dançada tal estrutura, tanto os americanos como seus aliados em geral, todos, enfim, se encontram , excessivamente, estressados.
Tal estresse se traduz na consciência de se realizar nova arquitetura mundial, ou seja, nova negociação política, tanto no plano geral, como no particular, no interior dos países, impõe-se como imperativo categórico, como diria Kant.
Afinal, o geral se espalha para o particular e o particular guarda as tensões do geral, que se desorganiza, exigindo novos paradigmas.
Lula, porém, não estendeu a conscientização que demonstra ter no plano externo para o plano interno. Internamente, faz-se necessário e urgente nova concertação política, não apenas dentro da aliança governista, construída na coalização, mas, principalmente, no âmbito de diálogo com a oposição. Todos estão no mesmo barco em posições diferentes, mas integradas, em ritmo dialético, para o bem e para o mal.
Teria o presidente brasileiro que dispor da mesma extroversão politica manifestada por Obama, de chamar para conversar as forças nacionais para um grande encontro: políticos, empresários, trabalhadores, com seus antagonismos característicos, decorrentes da estruturação de uma sociedade baseada no egoísmo, na ambição, no orgulho e no narcisismo vaidoso excessivo, irmanados, conflitante e contratidoriamente na busca do lucro a partir do espírito empreendedor criativo-destrutivo.
A sobreacumulação excessiva de capital demonstrou seu potencial de alta destruição.
Lideranças foram escanteadas
Por enquanto, o presidente perde tempo e acumula prejuízos políticos, em vez de faturar, enquanto a crise vai provocando estragos.
Primeiro, não convocou os banqueiros a Brasília para uma conversa franca e dura, como faziam os governos militares, a fim de que assumissem, com o governo, responsabilidades comuns, pois, afinal, a atividade bancária é uma concessão do Estado para a iniciativa privada, que, em momentos críticos, como o atual, teria que abandonar interesses meramente pessoais, de classe, de modo a assumir compromissos gerais. Dançou ao ficar sabendo da união, não dele com os bancos, mas dos bancos grandes entre si contra ele.
Segundo, menosprezou a classe política. Mandou duas medidas provisórias, ao estilo autoritário presidencialista, ao Congresso, sem antes reunir com os presidentes do Senado, senador Garibaldi Alves(PMDB-RN) e da Câmara, depuado Arlindo Chinaglia(PT-SP). Se tivesse trabalhado, nessa linha, teria adiantado providências, sem maiores tensões no Legislativo.
Terceira mancada: os governadores, aliados e adversários, protagonistas fundamentais das eleições municipais, não foram contatados, politicamente, em encontro na Capital da República, para uma ação comum.
Esperto, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, no vácuo vacilante lulista – onde está sua assessoria? – , convocou governadores dos estados mais ricos do sul-sudeste, para discutir a crise global. Detonaram os termos básicos da reforma tributária em discussão no Congresso, sob impulso do Planalto.
Faltou coordenação política planaltina?
Nessa quinta feira, o titular da República reúne, atrasado, o Conselho Político de Desenvolvimento Nacional, para debater os assuntos candentes, de maneira, lamentavelmente, atrasada. Teria que ter feito isso, emergencialmente, rompendo agendas.
Gastou verbo, adjetivo e substantivo pelo mundo afora, clamando providências, mas, aqui, dentro, somente buscou despistar, tentando criar um ambiente falsamente otimista, deixando agirem, descordenadamente, o ministro da Fazenda, com um discurso desenvolvimentista, de um lado, e o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, de outro, com discurso monetarista, de outro, ancorado em poder excepcional, que o fez fazer o contrário do que as lideranças políticas mundiais, no calor da crise, realiza.
O titular do Planalto deixou os problemas políticas extraordinários para serem resolvidos pelos técnicos. Os banqueiros, politicamente, dando uma de estatistas, no plano dos seus interesses, jogaram para valer impondo derrotas estratégicas às manobras palacianas descordenadas.
A ação política presidencial, depois desse vendaval todo, soa como corrida atrás do prejuízo, em vez de ser a de antecipação de quem dispõe de visão relativa de estadista.
Demorou.
O fato é gritante. Tudo está sendo desmoronado com a violenta crise de crédito que começa a destruir empregos, salários, consumo, produção e, consequentemente, capital político presidencial.
Obama, se eleito, vai ganhar corpo, em termos comparativos, pois, certamente, sua primeira palavra à nação dividida pela eleição e apavorada com a crise, que destroi a reputação americana de potencia global, será justamente clamar por união nacional.
Lula terá que correr atrás de Obama.