Obama: decadência e pacifismo

Obama, até agora, exprime uma impossibilidade de superação da decadência. Essa superação não pode se realizar se o que ela produz, como negação de si mesma, é afirmação daquilo que a produziu.

Dito de outra forma: ao afirmar, em seu discurso, um retorno ao movimento de expansão positiva da sociedade norte-americana, Obama pretende instituir aquilo que está sendo negado pelo movimento de decadência que vivemos.
Mas isso é contraditório com a afirmação de que “a mudança chegou aos EUA”. A mudança real só é possível se for negação do movimento de decadência, se for produto (como negação) do movimento que se instaurou no seio da potência norte-americana, da forma como está colocada.
A negação da decadência surgirá num movimento que negue a expansão da indústria da guerra e da consciência da guerra. E o grande problema é que a negação dessa indústria da guerra não parece madura para ser instituída pelo presidente Obama.
Essa indústria fornece combustível essencial para o motor da sociedade de consumo, porque através dela o estado emprega indiretamente milhões de pessoas, através das empresas que lhe prestam serviços na fabricação e manutenção da força de destruição das armas, da vigilância permanente sobre cidadãos e inimigos potenciais.

Líder pacífico ou fantoche da guerra?

A negação da indústria da guerra e da decadência que ela produziu surgirá no tempo em que se tornar madura uma consciência realmente pacifista, que não seja mero contraponto produtivo – antagonista forjado para justificar o uso da violência.
O falso pacifismo – exemplo bem acabado de falsa negação da decadência – é aquele que propõe paz como negação de todos os conflitos, algo totalmente imaginatório, uma vez que a vida se instituiu e se nutre do conflito.
O verdadeiro pacifismo, como afirmação da esperança de um novo começo, nutrido da decadência absolutamente necessária em que estamos inseridos, é o reconhecimento do conflito e da convivência com os antagonistas como única forma possível de harmonia construtiva.
A consciência desse pacifismo surgirá no momento em que for possível transformar a máquina produtora de guerra em algo que produza uma nova forma de lidar com os conflitos, tanto internamente, na doença, quanto externamente, na guerra.
A reafirmação do expansionismo do padrão consumista que nos fascina hoje não aponta nessa direção.
Assim como não aponta nessa direção a injeção de mais crédito para a indústria automobilística, num momento em que o excesso de veículos transforma em inferno a vida das cidades no mundo inteiro.
Realimentar essa indústria é reafirmar a decadência e não superá-la.
Até onde chegou, Obama sugere mais um fantoche superdotado na arte da oratória, treinado e aperfeiçoado no domínio das palavras: um apresentador de TV que dispensa o teleprompter.
Se ele é mais do que isso, se por trás dele existe um movimento de superação da consciência decadente em que estamos mergulhados, ainda é cedo para saber.