O golpe do dólar a galope

Cuidado!

A valorização do dólar frente ao real pode representar tremenda armadilha, enquanto vai impondo desorganização geral na economia, com destaque, nesse momento, para a deterioração das relações Brasil-Argentina, por exemplo.

O ritmo da desorganização imposta por tal valorização coloca a produção, o consumo e o trabalho diante de conflitos inevitáveis, cujo resultado será sucateamento do patrimônio nacional.

A quem interessa isso?

Não seria um golpe essa valorização? Tira-se o dinheiro daqui, a pretexto de liquidar posições em dólar lá fora,  para desvalorizar o real, a fim de que, no momento seguinte, com a moeda nacional fragilizada,  seja possível arrematar ativos na bacia das almas.

Por que o aplicador sairia daqui, onde está faturando, com a economia funcionando, tornando-se  âncora contra depressão global, para tomar prejuízo onde a economia parou, como na Europa, nos Estados Unidos e no Japão?

O dólar aqui aplicado tem mais risco de ganhar ou de perder? Estaria mais ou menos seguro se for para praças onde a paralisia econômica se instalou?

Essa é a questão objetiva

Os governantes dos países ricos pregam o oposto do percurso do dólar que sai do Brasil para outras paragens, nesse instante. Eles defendem investimentos nos países emergentes para que se transformem em consumidores dos produtos industrializados, estocados nos países ricos, gerando prejuízos com sua manutenção, sinalizadora de deflação.

A desvalorização do real abre espaço para os investidores, sob os juros altos, dominarem amplamente o cenário nacional, comprando barato empresas nacionais com o dólar cuja fuga é estimulada para que tal objetivo seja mais facilmente alcançável.

Onde estaria o risco de manter aplicações produtivas no Brasil, se nosso mercado interno torna-se a âncora geral das atividades produtivas diante do fechamento dos mercados externos, afetados pela escassez consumista decorrente do colapso do crédito?

 

Golpe armado à luz do dia

As empresas estão perdendo dinheiro lá fora e ganhando aqui dentro, até agora. Olha o caso da GM. Nos Estados Unidos, falência; no Brasil, vendas em andamento, em meio à recuperação do crédito pós-colapso de 15 de setembro, quando as linhas creditícias para o país foram interrrompidas, completamente.

A lógica diria que se o aplicador está ganhando aqui e correndo perigo de perder lá fora, por que ir prá lá, onde, possivelmente, tomará prejuízo, em vez de ficar por aqui onde está ganhando? Tem caroço nesse angu.

Onde estão as melhores oportunidades de investimento no mundo nesse momento?

Na Europa, onde circula o papel podre que os americanos repassaram nas transações imobiliárias por meio de derivativos dolarizados?

Nos Estados Unidos, onde os consumidores estão sob ataque da justiça , para reaver seus bens que não estão sendo pagos em face da escassêz creditícia?

Onde Gerdau Johanppeter manteria, prioritariamente, seus investimentos, nas suas siderúrgicas brasileiras, cuja produção atenderá as demandas do PAC ou nas que possuem nos Estados Unidos, onde a escalada do desemprego e do consumo sinaliza queda da taxa de lucro empresarial?

Brasil e América do Sul são os melhores alvos dos novos investimentos mundiais. Dispõem de base industrial moderna e matérias primas abundantes para abastecê-la.

 

Vantagem comparativa inigualável

Importantíssimo: na crise, o Brasil não é comprador, é vendedor. Se vende para si mesmo, da produção metálica e petrolífera, para a indústria de transformação, sem precisar pagar fretes internacionais, dispõe de vantagem comparativa superior aos países carentes desses fatores produtivos, relativamente, escasses, cuja cotação tende a se elevar, diante da manufatura, cuja cotação tende, graças à concorrência imposta pelo aumento exponencial da produtividade, a diminuir.

Vantagem não apenas econômico-financeira, mas geo-estratégica-política. Tais evidências fundamentais são fatos que levam ao questionameto da razão do porque da excessiva valorização do dólar, que se desmoraliza, crescentemente, quanto mais se ampliam os deficits americanos, generalizando consciência da falta de qualquer lastro real para moeda de Tio Sam.

Brasil e América do Sul, cujo lastro não é moeda podre, mas riqueza real, dispõem de vantagens comparativas que precisam ser exploradas por decisões políticas.

Se os governantes dos países ricos rompem regras pré-estabelecidas, para buscar o crescimento como forma de fugir da ameaça da pobreza, por que os governados dos emergentes se renderiam a elas, para se afundarem?

Se eles, os ricos, com suas moedas abaladas pelo excesso de oferta monetária derivatizada dolarizada, descartam tais regras, continuar a adotá-las por parte dos emergentes seria pura burrice.

Petróleo, metais, energias renováveis, terra, regime regular de chuvas que assegura até três safras anuais, biodiversidade infinita, turismo tropical, base industrial forte, classe empresarial diligente etc são lastros reais disponíveis pelo Brasil e pela América do Sul sobre os quais podem ser sacadas moedas fortes. Trata-se de riqueza mais valorizada que os papéis fictícios que tendem a virar poeira nas praças americana e européia.

Quem tem valor real? Os títulos brasileiros ancorados em riquezas nacionais palpáveis, ou os títulos dos países ricos ancorados em moeda carente de qualquer lastro, desacreditadas, despalpáveis?

 

JK não dormiria no ponto com dinheiro disponível

A bancarrota financeira demonstra que o objeto, a aparência, a moeda deslastreada, domina o sujeito, a essência, mercadorias determinadas pela relação capital-trabalho. Valor que se realiza dominado por anti-valor que de autodestroi.

Tal situação requer, sobretudo, decisão e coragem política para ser rompida.

A crise de liquidez mundial, nesse início de século 21, coloca em cena completa inversão dos fatos. Os ricos estão ficando pobres e os pobres dispondo de oportunidades de ficarem ricos.

Falta-lhes, apenas, decisão política, difícil de ser afirmada por cabeças – as lideranças nacionais – que sempre pensaram pela cabeça dos outros, colonizadamente.

Com quase R$ 600 bilhões de reservas e depósitos compulsórios disponíveis, JK ia jogar , pelo menos, a metade disso na infra-estrutura nacional, criando expectativas internas que eliminariam o sentimento derrotista que a crise americana espalhou pelo mundo.

O presidente Lula nem tem mais tempo de gastar esse dinheiro, senão comprometer os recursos, para que o seu sucessor, seja quem for, continue a obra. É hora de UNIÃO NACIONAL para traçar esse projeto, no momento em que o Brasil dispõe das vantagens comparativas indispensáveis.

Os economistas, nesse momento,  têm que ser colocados no baú das raridades. 

A inversão dos fatores dinãmicos da economia que a crise coloca em cena exige afirmação da riqueza real diante da falsa riqueza fictícia, que tenta escravizar, pelo pensamento, a produção e o consumo, como se fosse mais importante do que ambos.

Os árabes deram o exemplo dessa soberania política de afirmação da riqueza real árabe sobre a moeda que a cota, o dólar, no mercado internacional.

Antes do estouro monetário gerado pela implosão do mercado imobiliário americano,  contribuiu para que o estrago fosse apressado a decisão dos governos do golfo em aumentar o preço do barril de petróleo, de forma oligopolizada.

Compensaram , dessa forma, a defasagem cambial decorrente das importações cotadas em euro valorizado em relação ao dólar desvalorizado pelo qual o petróleo é cotado, internacionalmente.

Por que, dispondo de riqueza real, seriam prejudicados por uma riqueza que é mera ficção, a moeda desvalorizada pelos deficits americanos?

 

A armadilha da dívida em ação

O que tem a ver essa conjuntura com a fuga dos dólares do Brasil, deixando o real sobredesvalorizado, sob ameaça de um dólar artificialmente sobrevalorizado?

Não há lógica tal fuga, se a moeda americana, exposta aos deficits destrutivos do Tesouro dos Estados Unidos, encontra-se sob sério questionamento geral no plano global, como instrumento capaz de continuar dando as cartas no plano cambial como equivalente geral de trocas internacionais.

O desafio do presidente eleito Barack Obama é, justamente, esse: recuperar o dólar.

Como?

Viria por aí o repetecto do juro alto aplicado em 1979 por Paul Vocker, cotado para voltar, que quebrou a periferia capitalista na década de 1980, em nome do combate à desvalorização da moeda de Tio Sam, produzida pelos deficits gerados pela guerra fria e guerra do Vietnam, como armas para combater os comunistas?

Onde estariam os neo-comunistas, agora?

Mais uma razão para temer a onda de valorização excessiva do dólar. Quando vier a subida dos juros nos Estados Unidos, com Obama, para tentar salvar o dólar, podem apostar: as empresas dos países sul-americanos ficarão mais vulneráveis, para serem compradas pelos dólares que fugiram. Armadilha da dívida à vista

 

Sucateamento e dependência

 

Muito cuidado, portanto, com o dólar que está fugindo para enfraquecer, astutamente, o real, a fim de voltar depois comprando tudo barato.  A hora não é para brincadeiras. Está em jogo o patrimônio nacional, tanto as riquezas primárias quanto as secundárias e terciárias.

A visão jurista do Banco Central, de insistir numa meta inflacionária draconiana, quando o governo está com o cofre cheio de dinheiro , para investir, com o pre-sal para ser explorado, tanto por capital interno, como externo, é temerária.

Apostar no remédio doido de que juro alto combate inflação e descartar o bom senso de que seria melhor conter pressões inflacionárias apostando no incremento da produção e do consumo, com poupança nacional disponível, em forma de reservas e depósitos compulsórios, é dar tiro no pé.

Pior: é dar dinheiro para banqueiro entesourar. Entesourar, como disse, Sócrates, é empobrecer.

Somente o juro mais baixo e o gasto público mais alto , para girar a economia e manter crescente a arrecadação, capaz de produzir novos investimentos, representariam solução segura, em meio às incertezas gerais, mediante as quais as receitas tradicionais são amplamente questionáveis.

O mercado interno é a galinha dos ovos de ouro que o juro meirelliano podem matar.