Moratória obamista e lulista em marcha global

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vai ficando cada vez mais claro qual a saída dos novos líderes mundiais, seja nos países ricos, seja nos países emergentes e pobres, para enfrentar a crise bancária internacional que levou o crédito ao colapso: o calote. Para afastar o estigma desse nome pavoroso para o mercado, quebrado, e para os comentaristas econômicos em geral, que se mostram como virgens na expectativa da primeira noite de núpcias, quando se pronuncia tal substantivo, torna-se necessário substituí-lo por moratória, para ficar mais politicamente correto.

Nos Estados Unidos, antes mesmo do desfecho eleitoral, o surpreendente John MacCain, que fez discurso belíssimo, reconhecendo a derrota, fato que o engradeceu, já destacara a necessidade de perdoar as dívidas dos mutuários do setor imobiliário, atolados, incapazes de combinar queda dos preços dos imóveis que compraram com os valores das prestações em altas, determinadas pelos juros flutuantes e por uma legislação draconiana, incapaz de sentir pena dos queimados no incêndio financeiro.

Obama, assim que eleito, apressado e sob pressão dos acontecimentos econômico-financeiros extraordinários, que tiram o sono de todos, dele, principalmente, de agora em diante, arregaçou as mangas. Dispõe-se a seguir as recomendações de MacCain., que perdeu a guerra, mas ganha a paz com sua ousada e salvadora proposta. Pode ser aplaudida, porque atende a conveniência de todos, devedores e credores.

Haverá, certamente, sob o novo presidente, moratória obrigatória para os endividados. Tal alternativa representa, para os Estados Unidos, sobrevivência econômica fundamenal. Dois terços da economia americana dependem do crédito direto ao consumidor. Os consumidores, encalacrados, com seus diversos cartões de créditos impossibilitados, nesse momento, de serem renovados e, consequentemente, poderem renovar os estoques das estoques das indústrias e do comércio, fazendo a produção realizar-se no consumo, poderão jogar a maior nação capitalista do mundo no abismo, já, se não puderem, com tranquilidade, irem às compras.

A sugestão maccainiana, assumida pela onda obamiana em ascensão irresistível, é a salvação geral. Fica, assim, demonstrada a essência do discurso da vitória de Obama, de chamamento à união, dado que sua principal ação política será a de seguir à risca a recomendação do seu adversário. 

O capitalismo financeiro, de joelhos, demonstra que precisa do calote como oxigênio, para continuar sua dura luta de acumular riqueza e pobreza, simultaneamente, levando-o, ciclicamente, aos desastres. Sensacional.

 

Adam Smith destrona Keynes

Emerge, no contexto dos Estados Unidos, não a solução de Keynes, de elevar os gastos do governo, para puxar a demanda global, mas a recomendação simples e eterna de Adam Smith, de renegociação das dívidas, já que estas, como destaca em “A riqueza das nações” jamais são pagas, mas roladas.

Como seguir o modelo keynesiano na América, se o que entrou em crise foi exatamente o remédio aplicado pelo grande economista inglês John Maynard Keynes, como solução aplicada, depois de 1936 pelo presidente Roosevelt, algo que Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, previu em 1980, sendo reconhecido, por isso, pelo economista Edmar Bacha, prefaciador do livro, considerando ousadíssima a pregação laurista, afinal, confirmada na grande crise bancária americana de 2008?

Expandir os gastos governamentais, que elevaram, nos últimos 50 anos, a capacidade de os Estados Unidos dominarem o mundo com moeda estatal sem lastro, ancorada na força militar e no jogo dominador da taxa de juros, que impõe, deterioração nos termos de troca na relação favorável aos ricos e prejudicial aos pobres, como reconhece Keynes, representa saída que esbarra em um déficit público próximo dos 6% do PIB.

Tal solução tornou-se principal responsável pelo enfraquecimento relativo do dólar e razão pela qual o mercado mundial cogita de nova arquitetura financeira mundial, depois do estouro monetário global, paralisador da locomotiva econômica internacional, simplesmente, porque a moeda americana vai deixando, no compasso da sua desmoralização, decorrente dos volumosos déficits, de ser equivalente monetário geral nas trocas comerciais.

Não custa lembrar que a onda inflacionária recente começou com a resistência, há pouco mais de oito meses, dos árabes, no sentido de elevarem os preços do petróleo, cotado em dólar, para fazer frente ao aumento do valor das suas importações européias, cotadas em euro. Para compensar a defasagem cambial entre o euro, avançando, e o dólar, recuando, os espertos árabes elevaram o preço do seu produto, do qual depende a manufatura mundial. Resultado: inflação global e explosão da bolha imobiliária.

 

Árabes começaram o jogo da depressão econômica

O petróleo, que, recentemente, chegou a quase 150 dólares o barril, puxando os preços das commodities, recuou, no compasso da desaceleração econômica mundial, para menos de 70 dólares, demonstrando o fator especulativo presente na onda de desvalorização da moeda americana, sob desconfiança dos agentes econômicos em geral.

Obama conseguirá reverter esse processo, mediante unilateralismo econômico, ou o multilateralismo é inevitável, para fixar nova conjuntura internacional, cujo início poderá ser dado , no próximo dia 15, na reunião do Grupo dos 20, a subsitutir, provavelmente, o grupo dos 7?

No contexto da desconfiança generalizada no poder de agregação da moeda americana, cujo resultado, ao final, foi a bancarrota imobiliária, nos Estados Unidos, os devedores, no processo desaceleração econômica, perderam fôlego para continuar sustentando o modelo de desenvolvimento que se apoia no crédito direto ao consumidor em escala exponencial.

John MacCain(da velha escola republicana caloteira americana, algo que sedimentou-se ao longo do século 19, quando os Estados Unidos deram vários calotes na praça mundial, bem como, também, no século 20, como ocorreu com Richard Nixon, em 1971, que, ao desvincular o dólar do ouro, deu, igualmente, tremendo beiço na praça global) foi ao ponto essencial: não há saída fora do calote.

Barack Obama, se quiser ver os americanos, de novo, voltarem às compras, a fim de evitar que a decadência economica dos Estados Unidos prossiga, não terá outra opção: unir, como destacou no seu discurso, republicanos, vencidos, e democratas, vencedores, em torno de um só propósito salvador: limpar os passivos gerais, para que, limpos, possam dar passagem a novas dívidas adamsmitianas.

 

Mantega salva São Paulo e montadoras do crash

O presidente Lula vai na mesma linha caloteira, usando o instrumento estatal, para permitir renegociação e perdão de dívidas. Salva os bancos pequenos e adia pagamento de impostos para que os empresários disponham de capital de giro para tocar seus negócios.

Tentou jogar cooperativamente com os grandes bancos privados. Estes, vendo riscos e fantasmas por todos os lados, pularam fora.

Teria o titular do Planalto outra salvação, relativamente, às indústrias de bens duráveis brasileiras, que estão à beira da falência, como as fabricantes de automóveis, eletroeoletrônicos, eletrodomésticos, microeletrônicos, DVDs, celulares etc e tal, nos seus negócios, diante de consumidores incapazes de saldar compromissos, no contexto da nova ordem desestabilizada pela crise?

A principal cidade brasileira e sul-americana, São Paulo, que sedia a indústria automobilística, responsável por quase 15% do PIB, candidata-se a um monumental crash, se não for socorrida tal indústria com oferta de crédito farto, para continuar a roda consumista. Elas, que criaram seus próprios bancos, agora, falidos, para financiar os consumidores, jogaram a toalha.

Com a impossibilidade desses bancos tamboretes de continuarem buscando no exterior crédito barato para financiar carros, no mercado interno, emergiu a falência inevitável. O presidente Lula, depois de tentar se socorrer junto aos grandes bancos, pensando serem estes seus aliados, na hora do aperto, mesmo dando a eles o dinheiro do compulsório para ser emprestado a juro zero, ficou na rua da amargura.

Que fez a banca? Deu uma banana para o titular do Planalto. Passo seguinte, para se fortalecerem, os poderosos banqueiros do Unibanco e do Itaú uniram suas forças para uma fusão bancária gigante, a fim de se fortalecerem diante do ímpeto estatizante da administração lulista, expressa na medida provisória 443 em tramitação no Congresso. Não cairam na armadilha planaltina os bancocráticos sorridentes e poderosos.

 

Falta de compromisso com a sociedade

Lula não quis ou não pode seguir o conselho de Lenin, que em “A catástrofe iminente e as formas de conjurá-la”, pregou, no auge da crise financeira que atingiu a União Soviética, boicotada pelos banqueiros internacionais e seus aliados internos, o mesmo que Gordon Brown fez, agora, no auge da crise bancária: partiu para a estatização do crédito como solução. Capitalismo vira comunismo e comunismo, capitalismo, em meios as contradições que levam os dois sistemas a entrarem em conflito encarniçado.

Por que iriam os grandes bancos assumir tamboretes quebrados , colocando em seus ativos sadios passivos podres? Ativos sadios, vírgula, pois o Unibanco, sócio da maior corretora mundial, a AIG, quebrada, socorrida pelo tesouro dos Estados Unidos, também, poderia ser alvo de corrida dos correntistas aos seus caixas, agora salvos pela incorporação dos seus ativos pelo Itaú.

Fugiram os dois bancos como o diabo da cruz de qualquer compromisso salvacionistas dos pequenos bancos, seus concorrentes. Quem já viu concorrente forte salvar concorrente fraco, senão metendo-lhe o pé nos traseiros ou incorportando-o aos seus domínios, como fez o Itaú com o Unibanco?

Ao mesmo tempo, recuaram, igualmente, em emprestar o dinheiro do compulsório como alternativa para esquentar o crédito direto ao consumidor para dar sustentação às demais indústrias de bens duráveis e semi-duráveis, da mesma forma que continuam fazendo corpo mole em sustentar a dinâmica do comércio exterior, mesmo sob protestos dos ministros da área econômica e dos políticos no Congresso.

Restou ao governo entrar na fogueira sem nenhuma proteção, com seus bancos oficiais, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, para resgatar do incêndio as montadoras, as construtoras e demais que estão abrindo o bico, pedindo, desesperadamente, água. Lá, na frente, quem sabe, se pintar um governo neolibertal, outra vez, na linha tucana de FHC, os grandes bancos, diante dos bancos oficiais encalacrados, engoliriam os bancos oficiais. Pode ser? Sim e não, depende das circunstâncias.

Ficou claramente demonstrado o compromisso dos grandes bancos com a sociedade: dela querem somente o sangue, como bons vampiros sanguessugas. Buscam unir-se não para a cooperação, mas para fuga, enquanto são paparicados pelos puxa-sacos de sempre.