Meirelles prejudica Lula e detona Dilma

 

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está demonstrando que não tem competência suficiente para enfrentar a grande crise financeira que afeta o mundo e o Brasil, com uma violência que dispensa adjetivos.

O desemprego está batento à porta, com as empresas entrando em crise de realização do consumo na produção. O consumo desapareceu diante da escassêz de crédito, antes farto, mediante busca dele pelos bancos, grandes, pequenos e médios, para financiar o consumidor no crediário.

Sem o crédito, evidentemente, o capitalismo, que é regado no crediáro, vai para o buraco. A continuar a situação como está, o colapso vai ser geral, as grandes cidades, onde estão localizadas as empresas virarão um caldeiraão do inferno. Logo, logo surgirão greves.

Aliás, elas já estão pipocando. Na Espanha e na Argentina, operários estão indo às ruas protestar. O problema tende a se alastrar, gerando tensões políticas que poderão levar ao radicalismo perigoso e insustentável.

Nos Estados Unidos, se o presidente eleito, Barrack Obama, não pressionar o presidente W. Bush para tomar providências urgentes, os desempregados e desesperados das grandes indústrias irão para as ruas.

Nesse contexto, os governos, frente às pressões populares que se avolumam, estão recomendando uma receita inevitável, pautada pelo bom senso. Há necessidade de aumento dos gastos públicos. No Brasil, Meirelles condena tal estratégia.

 

Visão monetarista anula PAC

Na reunião dos ministros dos países do Grupo dos 20, em São Paulo, no último final de semana, evidenciou-se essa recomendação como um grito desesperado.

Quem, na economia movida papel-moeda, tem o poder de emitir dinheiro? O governo. Ele é que irriga a praça de moeda, para puxar a demanda. Só ele pode ser suficientemente proativo, para dinamizar a produção que está parada.

As mercadorias estão sobrando nas prateleiras dos supermercados. Inflação? Como, se não há consumo suficiente? Juros mais altos, para conter pressões inflacionárias?

Se as empresas estão sufocadas, mais aumento do preço do dinheiro gerará maiores custos que serão repassados para os preços.

Conter o consumo, agora, com juro alto, como tenta fazer o ministro Meirelles, é receita não anti-inflacionária, mas uma mistura explosiva de aumento de custo, inflação, com falta de consumo, deflação.

O Banco Central adota receita suicida, seguindo na contramão de todo o mundo. Na prática, ele está prejudicando o país e condenando o presidente Lula a uma situação vexatória, enquanto seus adversários, os governadores de Minas Gerais e São Paulo seguem recomendação oposta à receita meirelliana, para ter suas arrecadações, com incremento do consumo, aumentadas. Já a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, que precisa de mais arrecadação, para dinamizar o PAC, vê-se diante do perigo de desaceleração dos investimentos públicos.

O país dispõe de riquezas incalculáveis, reserva abundande, depósitos compulsórios elevados. São quase R$ 600 bilhões disponíveis. Para onde vai esse dinheiro?

Se depender do titular do BC, ficará entesourado nos bancos. Estes jogarão suas reservas, num ambiente de crise, não na produção, mas na especulação, como está acontecendo, enquanto as empresas morrem à mingua.

 

Adversários faturam politicamente na crise

O que o Banco Central precisaria fazer, nesse instante, é fixar normas para distribuir esse dinheiro, carimbando-o, emprestando por intermédio dos bancos públicos, pois, se ficar na mão dos banco privados, permanecerá empoçado. Eles deram provas disso, resistindo a cooperar com o presidente, para salvar os bancos pequenos e as empresas, com recursos mais baratos.

A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o BNDES, bancos oficiais, estão plenamente disponíveis para emprestar as reservas brasileiras para o setor produtivo, alavancando o mercado interno, como antídoto ao fechamento do mercado externo, que está paralisado, já que a moeda internacional, o dólar, está, claramente, deixando de ser equivalente confiável para as relações de troca.

Os deficits americanos inconcroláveis, não apenas empobrecem os americanos, mas deixam sua moeda como candidata a se transformar em papel podre.

O real vale muito mais que o dólar, nesse momento, porque o seu lastro disponível não é riqueza fictícia, especulativa, moeda pobre, mas matérias primas – petroleo, alimentos, , metais, energia, água, terras, biodiversidade, base industrial forte, mão de obra preparada e empresários competentes e diligentes.

Por que, baseada nessa riqueza real, o governo não emite para dinamizar, ainda mais os investimentos, atraindo, para cá, investidores internacionais e os nacionais?

Quem tem a moeda forte não são mais os países ricos, atolados na crise. Os Estados Unidos inundaram a Europa de papéis podres do mercado imobiliário que quebrou. O lastro do papel jogado para os europeus e asiáticos são empresas imobiliárias falidas. Tudo virou fumaça.

As grandes empresas americanas de automóveis, diante de uma moeda sem lastro, estão quebrando. Onde elas estão sobrevivendo? No Brasil.

Aqui, o lastro monetário dispõe de riqueza real. A tese de que o lastro monetário é dado pela taxa de juro fixada pela jogo da oferta e demanda da moeda predominante está deixando de ser verdade, porque essa moeda dominante está perdendo valor. Virou discurso. Se o governo emitir moeda, tendo seu lastro real como sustentação, vira o jogo.

 

América do Sul, nova rica do mundo

A alternativa a esse desastre monetário é a riqueza real sul-americana. Na América do Sul, os investidores internacionais dispõem dos melhores negócios do mundo para serem realizados. As matérias primas, que sobem de preço, porque são escassas, para movimentarem a manufatura global, que cai de preço, devido à concorrência internacional, estão no continente sul-americano.

Não é à toa que a GM está quebrando nos Estados Unidos, mas sobrevivendo no mercado interno nacional. Diante desse cenário, resta ao presidente Lula jogar na linha pregada pelos seus colegas europeus: acreditar no mercado interno brasileiro, aplicar aqui nossas disponibilidades financeiras – depósitos compulsórios e reservas cambiais.

Temos que ciscar para dentro, construir nossa infra-estrutura. Portos, estradas, plataformas, grande silagem, para que nossos produtos estejam disponíveis, aos preços do dia, para os compradores, nacionais e internacionais. 

O que vale não é dinheiro entesourado, que gera pobreza, para a maioria da população, porque não circula, e riqueza, apenas para meia dúzia de agiotas bancocráticos. O fundamental é dispor de produtos que, ao circularem, aumenta a riqueza social e a arrecadação do governo, com a qual realiza novos investimentos.

Trata-se de colocar dinheiro para dinamizar o consumo e a produção, para que haja ampliação da arrecadação. Não se deve distribuir as reservas disponíveis, para as empresas, mas para o consumidor.

As empresas, com o dinheiro em caixa, sem consumidor, fica com ele especulando. Na mão do consumidor, ele vai para a circulação, que favorece o governo, elevando os ingressos tributários no caixa do tesouro nacional. Tesoureiro que fica tomando conta do caixa não enxerga essa possibilidade-oportunidade.

 

Mais circulação, mais arrecadação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O exemplo do Programa Bolsa Família está aí mesmo. O dinheiro do pobre faz o nobre, mas o do nobre não faz o pobre. Tem razão o banqueiro dos pobres, Muammad Yunes, ao ironizar que o dinheiro dos ricos estão colocando o mundo em impasse, enquanto reclama que o governo brasileiro ainda não aprendeu emprestar para os pobres, que, consumindo, giram a produção.

Quando o governo emitiu dinheiro para colocar poder de compra nos cartões de crédito dos pobres, destinando-os ao consumo, a circulação de dinheiro aumentou e a arrecadação, consequentemente, subiu, a inflação caiu e a moeda estabilizou-se.

O mesmo deve ser feito, agora, com o dinheiro dos compulsórios, recolhidos em proporção exagerada, para gerar escassez e juro alto para os bancos, e das reservas cambiais.

Com esses recursos, Juscelino Kubistchek faria umas dez Brasília.

O ministro Meirelles é um bom tesoureiro, mas, de desenvolvimento, não entende nada. Está, simplesmente, condenando o governo a que serve ao completo fracasso. Favorece o destino político dos adversários do presidente e coloca em risco o daquela que quer fazer sua sucessora, a ministra Dilma Roussef.

O presidente Lula dispõe de reservas financeiras fantásticas que , se colocadas na produção, contribuirá, não apenas para promover o desenvolvimento nacional e sul-americano, em meio à crise global, mas, também,ajudará os demais países do mundo desenvolvido, que estão empobrecendo e passando a depender, fundamentalmente, dos emergentes.

Os Estados Unidos estão deixando de ser os grandes consumidores do mundo e ao mesmo tempo perdem mercado, interno e internacional. A primeira ministra da Alemanha, Ângela Merkel,  deu o recado claro: os ricos estão deixando de consumir, passaram a depender, com as mercadorias estocadas em seus países, do consumo dos países emergentes. Estes precisam de novos investimentos para serem os consumidores das mercadorias estocadas nos países do primeiro mundo, a caminho da penúria.

 

Ricos empobrecem, pobres enriquecem

A América do Sul, com sua imensa riqueza, é a nova rica do mundo e dispõe de cacife suficiente para dinamizar a economia mundial, não mais  como simples fornecedora de matérias primas baratas, explorada, colonizadamente, como sempre aconteceu ao longo da história.

Fundamentalmente, o desenvolvimento do mercado consumidor sul-americano e suas matérias primas passaram a ser indispensáveis à manufatura mundial, que está empoçada, junto com o crédito, nos países ricos.

Na reunião, em Washington, no próximo final de semana, do Grupo dos 20, esse recado deve ser dado, claramente, pelo presidente Lula, que, por sua vez, deve levantar, com vigor, o tema dentro da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, em favor de uma ampla coordenação sul-americana em prol do desenvolvimento sustentado sul-americano.

Trata-se de dar, logo, o pontapé da criação de um banco continental, de uma moeda sul-americana e, na sequência, de um parlamento sul-americano, para que haja imediata conscientização política da sociedade sul-americana sobre o papel que cabe à America do Sul, no novo momento mundial.

Ela pode se transformar na grande receptora dos novos investimentos internacionais, de modo a produzirem riquezas que contribuirão para minimizar os efeitos da grande crise em curso, que deixa os ricos mais pobres, enquanto os mais pobres dispõem de condições se se transformarem nos novos ricos, dentro de uma nova filosofia de cooperação internacional.

O ministro Meirelles, que só pensa em entesourar dinheiro, não demonstra suficiente descortínio para ver, além do controle de caixa, as grandes potencialidades e oportunidades econômicas brasileiras e sul-americanas, capazes de exercer, na nova conjuntura, papel decisivo, capaz de tirar o mundo do atoleiro criado pelos especuladores financeiros, aos quais Meirelles, com os juros altos, tem se aliado.

Ah, se o Brasil tivesse um JK, nessa hora!