Discurso de Alencar sobe ao poder

A bancarrota financeira global, que se intensificou, nos Estados Unidos, com o socorro emergencial do governo W. Bush ao Citibank, um ícone bancário de varejo, orgulho americano em todo o século 20, agora, no chão, levou o presidente Lula, no Brasil, a mudar o cenário econômico e político, depois da reunião de terça feira, 25, na Granja do Torto, quando reuniu todos os ministros para, juntos, traçarem os novos rumos da economia. Redobrou sua aposta super-otimista na economia brasileira, a ser embalada por propaganda consumista, em meio à crise de crédito, e colocou em cena o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva, adversário maior dos juros altos, praticados pelo Banco Central.

O titular do Planalto percebeu que sua aposta no consumo somente será possível se os juros no crédito direto ao consumidor diminuir. Caso contrário, ficará desmoralizado frente ao contribuinte, abrindo espaço aos adversários, como os governadores de Minas Gerais, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, que já levantam a bandeira de José Alencar, na praça, visando a sucessão de 2010. Perderia credibilidade para sustentar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, pois os juros altos vigentes , ao inibirem o consumo, aprofundarão a desaceleração da produção, da arrecadação tributária e dos investimentos públicos, prejudicando o Programa de Aceleração do Crescimento(PAC), tocado pela ministra, como motivação maior para fazê-la sua sucessora.

A decisão presidencial de orientar o e a presidentes do Banco do Brasil, Antônio Lima Neto, e da Caixa Econômica Federal, Maria Fernanda Ramos Coelho, para que reduzam as taxas de juros, em encontro no Palácio do Planalto, na semana passada, antes da reunição na Granja do Torto, representou, na prática, tabelamento indireto do custo do dinheiro nos bancos oficiais, cujos efeitos poderáo ser, naturalmente, aumento da concorrência bancária. Ao mesmo tempo, significou pressão sobre o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, para diminuir a taxa básica de juro selic, atualmente, em 13,75%, na próxima reunião do Conselho de Política Monetária, no início de dezembro.

Lula, finalmente, rendeu-se ao discurso do vice-presidente José Alencar, que, fragilizado pelo ataque do câncer, de que padece, encontrou e ainda encontra forças suficientes para atacar o também canceroso problema que destroi as fibras da economia nacional, a elevada taxa de juro, a maior do mundo, na atualidade capitalista global. Uma contratição frontal relativamente ao que vigora nos países capitalistas em geral, cujo custo do dinheiro é jogado para baixo, como antídoto à recessão que avança inexoravelmente por todos os cantos da economia mundial.

Favorecem a estratégia presidencial os últimos números da Fundação Getúlio Vargas, dando conta de que o Índice Geral de Preços(IGP-M) de novembro alcançou 0,38% contra 0,98% de outubro. Trata-se de recuo sensível em relação aos 0,67% aferidos pela pesquisa Focus, apurada pelos banqueiros, que serve de orientação para o Banco Central agir na condução da política monetária. Nesse contexto de desaceleração relativa dos preços, o titular do Planalto parte para o tabelamento indireto dos juros, colocando na parede o titular do BC.

No Congresso, na quarta, 26, Meirelles,  sob pressão dos senadores, fez pouco caso dessa desinflação relativa de novembro, deixando indecisão no ar sobre se tal notícia poderia ou não refletir positivamente na diminuição dos juros, no momento em que os governos nos países ricos, temerosos quanto ao avanço da deflação, joga o custo do dinheiro para baixo, fortemente.

A tensão entre o Planalto e o Banco Central promete seguir em frente, nos próximos dias, com o tabelamento dos juros, enquanto, no mercado financeiro, configura confronto de gigantes: de um lado, o oligopólio financeiro privado, que mantém o juro alto, apesar de o governo injetar dinheiro na circulação, mediante liberação dos depósitos compulsórios, na tentativa, sem sucesso, até o momento, de diminuir seu preço, e, de outro, o oligopólio financeiro público, com os bancos estatais, sob pressão governamental, impondo, efetivamente, a sua baixa.

Os efeitos, no Banco do Brasil, começaram a ser sentidos, por enquanto, timidamente, mas já representam fato novo na economia, que o presidente quer reanimar na base da pressão e da propaganda, tentando virar o jogo no gogó. A taxa mínima de juros dos cartões de crédito, no BB,  recuou de 4,23% para 3,79% ao mês, nos financiamentos rotativos, nos quais os consumidores pagam uma parte dos débitos no vencimento das faturas, e de 4,99% para 2,92% ao mês nas compras parceladas. Nos descontos de cheques, operações utilizadas pelo comércio que trabalha com predatados, os encargos recuaram de 2,32% para 1,98% mensais.

Nos empréstimos para capital de giro de empresas e nos financiamentos a exportações(adiantamento de contrato de câmbio, ACCs), os juros baixaram de 2% para 1,96% ao mês. Foi o primeiro corte de juros pelo BB em mais de um ano, relativamente, às taxas que passam a valer a partir de hoje.

Já a Caixa Economia Federal deverá anunciar sua nova tabela de juros, na próxima semana, beneficiando, primeiramente, empresas de pequeno e médio porte, as mais prejudicadas pelas restrições de crédito, no país, embora sejam responsáveis pela maior oferta de emprego na economia. Ao mencionar “nova tabela” a presidente da CEF comprovou a jogada lulista: tabelamento de juros contra a crise para forçar concorrência bancária.

 

Oligopólio estatal financeiro fortalece Dilma

Os bancos públicos, dessa forma, por meio de decisão governamental, de caráter ,  nitidamente, intervencionista, partiram para disputa de mercado com os bancos privados, que fugiram de qualquer compromisso com o governo, apesar de instado por este, a trabalharem com juro mais baixo, mediante oferta de depósitos compulsórios a juro zero, para evitar bancarrota empresarial. Lula não apenas força a concorrência, mas abre espaço, também, para fortalecer a candidatura de Dilma Roussef, se o crediário começar a esquentar, novamente.

Estaria em curso no confronto de gigantes oligopolizados, governo e setor privado, avanço da concorrência cujo beneficiado, enfim, poderia ser o contribuinte?

O oligopólio financeiro estatal, engordado com a compra do banco paulista Nossa Caixa pelo BB junto ao governo de São Paulo, como resposta à união oligopólica dos bancos Itaú e Unibanco, passa a induzir, claramente, o comportamento das taxas de juros, tentanto impor competição.

Conseguirá?

Se o oligopólio bancário privado não diminuir os custos dos empréstimos no crediário, de agora em diante, correria risco de perder espaço para o oligopólio estatal, quanto mais o titular do Planalto insistir, avançando em propaganda, junto à população para que continue consumindo, na crença de que a crise mundial não afetaria, para valer, a economia brasileira, a partir de 2009.

A aposta do presidente na economia, redobrada com a indução para baixo dos juros ao consumidor a serem praticados pelos bancos estatais, tenta, dessa maneira, inverter tendência aferida, na semana passada, por pesquisas setoriais comandadas pela Confederação Nacional da Indústria(CNI), sinalizando tempos difíceis.

Não há dúvidas: Lula parte para um confronto mais direto com os bancos privados e, por tabela, com o Banco Central, colocando-se ao lado das posições desenvolvimentistas do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que insiste, junto com governadores oposicionistas tucanos Serra e Aécio, em política monetária e fiscal mais flexível.

 

Mantega: mais poder depois da reunião do Torto

O titular da Fazenda, nesse aspecto, estaria ajudando o presidente Lula com seu propósito de, animando a economia, empinar a candidatura Dilma, o que dificilmente aconteceria, se forem mantidas elevadas as taxas de juros sob monetarismo ortodoxo bancado pelo ministro Henrique Meirelles.

O exercício de política fiscal mais frouxa, com injeção de recursos públicos  para garantir investimentos na produção e no emprego, somado a pressões sobre bancos públicos, para exercitar juros mais baixos, representa nova postura lulista na condução da crise econômica.

A atuação presidencial determinada, depois da reunião de terça-feira, significa a nova aposta governamental, ou seja, abandono da crença de que o custo do dinheiro cairia pela força do mercado, dada, apenas, pela injeção maior de depósitos compulsórios em mãos dos bancos privados. Na semana passada, foram colocados mais R$ 6 bilhões, na circulação, mas a taxa de juros, em vez de cair, subiu. O crédito para as empresas pulou de 45% para 60%. Foi a gota dágua na paciência lulista. A intervenção no mercado de crédito é o novo perfil da administração petista na crise global. Meirelles ficou contra a parede.

Apesar de a medida provisória 443, editada às pressas pelo Planalto, ter dado poder extraordinário ao Banco Central para enfrentar a crise, no campo da política monetária, resultados estão se revelando contraditórios. Quanto mais o governo coloca dinheiro no mercado, mais o custo dele, nos últimos dias, sobe.

Seria tal subida dada pelo risco do Brasil aos olhos dos investidores?

Parece que não, porque os fundos de investimentos, depois de patrocinarem fuga de dólares, agora voltam, diante do real sobredesvalorizado, para comprar ativos nacionais na bacia das almas, demonstrando que a economia nacional representa baixo risco para o investidor.

Se o risco Brasil não espanta investidor, pelo contrário, atrai, e se a inflação de novembro sinaliza recuo, o remédio presidencial, para o juro que insiste em subir, deixa de ser o mercado, para dar lugar à intervenção.

O avanço da estatização bancária oligopolizada, para garantir crediário a custo razoável, via tabelamento indireto, passa a ser o jogo principal do presidente Lula, para o bem e para o mal, na linha josealencariana.