Bosque sagrado de Ulisses

“…Política não se faz com ódio…”,            

 Navegar é preciso, Viver não é preciso.  Ulysses Guimaraes  gostava de citar Fernando Pessoa,  para mostrar que o importante era prosseguir. Para Ulysses, de uma energia desmedida,  a luta era a seiva da vida. Eleito deputado por 11 mandatos consecutivos,  de repente, em plena atividade, Ulysses sumiu no mar. Em poucos meses, as manchetes dos jornais com o nome de Ulysses Guimaraes haviam também desaparecido.   A imagem da sua presença na vida política brasileira, contudo  nunca se apagou.

O trágico acontecimento aproxima-o do mito de Dom. Sebastiao,  rei de Portugal, que desapareceu em combate em  Alcácer-Quibir, em 1578, gerando uma mobilizaçao messiânica, consagrada no imaginàrio de seus súditos como “sebastianismo”, em que seu hipotético retorno  é reverenciado, cinco séculos depois, como se ele estivesse  voltando hoje do campo de batalha.
           

Na realidade, não temos um ulyssismo  explícito, como o sebastianismo, e não existe mais esperança de que o corpo de Ulysses Guimaraes possa ser encontrado. Sabe-se apenas que ele está lá, no fundo do oceano. Mas, também aqui, na terra, representado nos resultados da sua luta em favor das liberdades democráticas, da justiça social e dos direitos de cidadania. Esses princípios, inseridos por Ulysses na Constituiçao de 1988,  superaram o espaço da memória, incorporando-se em definitivo na vida cotidiana do povo brasileiro.

Poder-se-ia dizer que Ulysses morreu no mar, mas continua a navegar. Seus sonhos  concretizaram-se na Constituiçao de 1988, expressando a conquista irreversível da cidadania do povo brasileiro. Falava-se em direitos humanos, sustentabilidade, justiça social, mas não se sabia direito o que era aquilo. Ulysses se antecipou, e  colocou tudo lá na Constituiçao… e “se mais terra houvera lá chegara”.
            

 

Uma força irresistível da democracia nacional

Em homenagem  aos constituintes de 1988 que, sob a liderança de Ulysses, elaboraram essa verdadeira  “carta de alforria” do povo brasileiro,   criou-se o Bosque dos Constituintes, através do qual se procura preservar a memória daquela geração constitucionalista.

A Ulysses Guimaraes coube o plantio de um pau ferro (Caesalpinia ferrea), que ele o fez com as próprias mãos.

Está na entrada do Bosque:  frondoso, florido e imponente. Na descriçao da ciência, a Caesalpinia ferrea é uma    árvore de grande porte – chega a 28 metros -, nativa da  Mata Atlantica. Seu nome popular  teria vindo das faíscas e dos ruídos produzidos pelos machados que se atrevem a cortá-lo.

A madeira é  das mais duras. O tronco marmorizado, apresenta uma coloraçao clara, destacada das folhas. Na floraçao, entre agosto e outubro, produz também uma  vagem dura e resistente.  Sua madeira è usada principalmente na fabricação de violões e violinos.
            
              O Bosque dos Constituintes tende a tornar-se um lugar sagrado, um panteão, sem religiosidades messiânicas evidentemente, na medida em que for se concretizando sonhos de outros  constituintes de 1988, como Fernando Gasparian, que  manifestou o desejo de ter suas cinzas espalhadas pela área.

Alguns consideraram o plantio realizado ali como a representação final da sua vida política. Outros, caso de Cristina Tavares, morreram certos de que  Bosque refletia o fim das velhas oligarquias. Era um espécie de bastão  passado às futuras gerações.

Portanto, o Ulysses do mar, o mar levou. Mas, o Ulysses Guimaraes épico, guerreiro, o último  romântico visionàrio da política brasileira, seguidor fiel de Santo Agostinho – “ódio ao pecado , amor ao pecador “ , este ficou. É uma espécie de ulyssismo: sonhos que atravessam o coração dos cidadãos  livres deste Paìs.

Aquele pau ferro, com seus galhos voltados para cima, lembram Ulysses, pés na terra, braços abertos, apontando para o céu, e proclamando:  
         
                            “A Constituição passará, mas a memória
                            dos  constituintes de 1988 permanecerá viva
                                  neste Bosque por 300,400, 600 anos”,