Política se impõe à economia em bancarrota

Quarta-feira decisiva para a democracia ocidental. A euforia altista do mercado financeiro, na terça, 30, depois da depressão total, na segunda negra, num sintomático dia 29, assombrando os americanos com o fantasma de possível repeteco do crash de 1929, em doses ampliadas, mostrou que os fatores psicológicos passaram a comandar os fatores econômicos. O espírito(a política) sobrepõe à matéria(o econômico).

A prova disso foi a explicação geral no mercado de que a onda altista em seguida à onda baixista se apoia na crença dos especuladores na capacidade de ser alcançado acordo político no Congresso americano em torno da solução para o impasse detonado pela bancarrota financeira americana e européia. Esperança como arma estratégia. Funcionará?

O econômico deixou de confiar em si, apelando para a política. De repente, o econômico subordina-se totalmente ao político, visto que aquele deixou de ser solução, para se transformar em problema, no contexto de um capitalismo sem lei, sem regulamentação, sem freio, completamente louco.

Os economistas, simplesmente, faliram com suas teorias equilibristas, neoequilibristas, supostamente, autônomas, auto-ajustáveis, deixadas ao livre curso dos interesses egoístas, que representam o suprassumo do espírito investidor em busca do lucro máximo possível e imaginável, tendo como alvanca abstratas expectativas supostamente racionais. Mostrou-se o oposto, ou seja, falsamente racionais. O racional revelou-se irracional. Contra a irracionalidade econômica, a economia política.

A explosão do mercado imobiliário, regado por títulos financeiros podres, produtos de imaginações expressas em derivações financeiras destinadas a trazer para o presente lucros concebidos para o futuro e vice-versa, mostrou que os mecanismos matemáticos, dominados por técnicos competentes e imaginativosa serviço da reprodução ampliada do capital na especulação, levou a sociedade a uma esquizofrenia financeira que se autonomizou como algo exterior à própria realidade. Alienação total.

Simplesmente, o espírito de contestação diante dessa autonomização ancorada em regras pré-estabelecidas a partir de dado modelo experimental abstrato tornou-se incômodo para o status quo financeiro, que transcendeu ao mundo político e pensou eternizar na imaginação da autotutela. Loucura.

 

A liberdade está acuada pelo capital especulativo em crise

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fracasso de tal empreitada, bastante vivo à vista de toda a humanidade, nesse momento, traz de volta a economia subordinada ao interesse público-político, fruto do antagonismo decorrente das categorias sociais divergentes no seio do próprio capitalismo que trafega no interior dos partidos na democracia.

Aí, o contraditório dialético é a lei e , naturalmente, não combina com o automatismo do pensamento único mecanicista neoliberal que eliminou a política do cálculo econômico, ou seja, da própria democracia. A ira dos congressistas contra os desmandos dos todos poderosos financistas de Wall Street demonstra o óbvio: o Congresso tornara-se marionete do mercado financeiro.

No entanto, o caos financeiro busca quem para ser solucionado? O Congresso. A crise bancária, cuja face é a escassez de dinheiro, para azeitar as relações econômicas gerais, em clima de relativa confiança, vê no Congresso, e não mais no mercado, sua própria salvação.

O mercado, nesse contexto, para o grosso da sociedade, apavorada pelo fato de ser chamada a arcar com grandes prejuízos, perdeu utilidade, na medida em que virou problema que deixou de ter solução por si mesmo, como apregoavam os seus oráculos.

A solução foi buscada no plano político legislativo, porque nem o Executivo se mostrou capaz de dar conta do recado, visto que sua responsabilidade na crise é total, em razão do relaxamento geral que promoveu com a desregulamentação das regras financeiras no mercado da reprodução ampliada do capital na super-especulação.

 

Capital escraviza e aflige a população

 

O Executivo corre o risco de desmoralização completa, e o Legislativo, diante do impasse, se vê entre dois fogos: ou se agiganta e honra a democracia ou sucumbe como mera casa de lobistas a serviço dos grandes interesses anti-populares de Wall Street e abre espaço espaço para sua própria superação dialética.

Ou ele salva o contribuinte dos prejuízos, relativamente, ou os contribuintes poderão buscar um novo salvador, para além do plano democrático.

As crises monetárias, por alterarem o poder de compra da moeda, deixa o contribuinte predisposto, psicologicamente, a alterações brusca de humor que se refletem em radicalismos políticos. Hitler, como dissemos em comentários anteriores, nasceu numa dessas.

A sutileza de Lenin, ressaltada por Keynes, em 1922, de que o líder soviético percebeu nas crises monetárias a alavanca do socialismo, é o alerta geral que apavora o partido republicano, nos Estados Unidos, temeroso do avanço do estado americano, sob orientação de Lenin, na economia no compasso da bancarrota financeira. 

Fazer o que? Deixar a vaca ir para o brejo?

O desafio dos congressistas americanos, portanto, é grande. A esperança alimentada pelo próprio Congresso de que pode ser o salvador da pátria coloca na mão da democracia americana novo caminho em que o Legislativo passa a comandar amplamente o Executivo, de joelhos, sob o fracassado W. Bush.

Como o mercado, o Executivo, também, faliu, com sua moeda estatal guerreira, predisposta, sempre, ao unilateralismo imperial. O fôlego para tanto, parece, chegou ao fim.

Ou pode vir por aí, como muitos temem, um último rugido do machismo imperialista, tentando criando um novo 11 de setembro, para gerar confusão geral na plataforma global em decomposição econômica debaixo da anarquia financeira?