Peru de natal na bandeja dos banqueiros

Os grandes bancos já estão jogando contra Lula. É o peru que está sendo preparado para ser destrinchado na ceia do Natal. Não interessa mais a sua estratégia política para a bancocracia.

Primeiro, não atenderam o pedido do governo para salvarem os bancos pequenos, com recursos repassados pelo próprio governo, seja dos compulsórios, seja das reservas bancárias.

Segundo, resistem à utilização dos depósitos compulsórios para irrigar os setores produtivos, que correm perigo de falência, dada a escassez de dinheiro na circulação.

Obrigaram as autoridades a partirem para estatização via Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal dos pequenos bancos. Caso contrário, estouraria crise bancária nacional, contaminando a economia, com corrida aos caixas bancários etc. 

Nasce, nesse contexto, tremenda intriga contra o ministro Guido Mantega, da Fazenda, com discurso desenvolvimentista. O alvo, claro, não é ele, é o presidente. Tenta deslocar Mantega, para impor impor o poder do jurista-mor, ministro Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, fortalecido pela medida provisória 442, que coloca na mão do técnico o comando do político.

O Congresso engolirá a jogada bancocrática que está por trás da MP?  

Do que os bancos não estão gostando? Ora, da orientação cada vez mais intervencionista do Palácio do Planalto em mandar o Banco Central direcionar o crédito dos depósitos compulsórios para os setores produtivos específicos, evitando especulação com o dinheiro do contribuinte. Estão sob fiscalização e cobrança de resultados, sob ameaças. Detestam.

Faltaria,  apenas, o presidente determinar o nível máximo de juros a ser praticado, como existia na Constituição, fixando 12% ao ano, para evitar que o custo do crédito atual, no calor dessa crise, mate as empresas de uma vez.

Por que não seguir o exemplo sensato dos governos europeus e americano diante dos bancos que se mostraram, como os daqui, excessivamente, gananciosos?

Como manter o juro mais baixo nesse ambiente de balburdia em que o custo do dinheiro tende a ficar cada vez mais alto como prêmio pelo risco geral que aumenta em todas as direções?

O juro sempre sobe na crise, nos países ricos. Mas, nessa, não, em termos relativos. Por que? Porque o governo interveio. Se é ele que emite dinheiro, por que não determina a sua distribuição, conforme o interesse público, se o momento de gravidade – e o momento é grave – exige?

Questão de poder político.

O governo tem que usar o recurso do contribuinte, como os depósitos compulsórios, para participar, com ele, do capital dos bancos, sinalizando o custo do dinheiro, compatível com as necessidades competitivas do setor produtivo nacional.

Afinal, a crise abre, também, grandes oportunidades, para quem tem matéria prima e base produtiva forte, como nós, grandes vendedores de máterias primas e grandes importadores para uma forte base industrial.

Os bancos privados, com responsabilidade de realizar  a tarefa de equalizar o crédito, dentro de uma estratégia desenvolvimentista, trariam como resultado juro mais baixo ou, ao contrário, muito mais alto?

A razão fundamental para a necessidade da intervenção direta do governo no processo é porque no ambiente extraordinariamente tenso em curso, onde a confiança foi eliminada, o agente da transformação não pode ser privado, mas público.

Interesse privado restabeleceria confiança pública?

 

 

O agente público, atuando em nome do interesse público, é o único que pode restabelecer a confiança. O governo americano, através do secretário Henry Paulson, tentou privatizar a distribuição do recurso público aprovado pelo Congresso. Não conseguiu. A Europa interveio. A China faz o mesmo. Em condições extraordinárias, somente providências extraordinárias resolvem impasses.

Por que teria de ser diferente no Brasil?

O que está em risco total é a estrutura produtiva e ocupacional brasileira. Custou muito esforço e sacrifício, para construí-la, desde Getúlio Vargas até agora. Tal estrutura está ameaçada pela ganância bancária.

Onde já se viu o governo liberar compulsório a custo zero para os bancos privados emprestarem a 6% ao mês! Na Índia, é 8%… ao ano. Na China, excluída a inflação, zero. Nos Estados Unidos e Europa, idem. Descontada a inflação, o juro está negativo, para combater o perigo recessivo global previsível.

Evidentemente, o governo tem que direcionar e comandar a execução do dinheiro do compulsório, de forma altiva, fundamental, para dar rumo político de salvação da nossa base produtiva.

Caso contrário, vem aí tremenda desnacionalização.

Enfraquecidas, porque foram pegas na especulação com o dólar barato no futuro, para ganharem juros especulativo no presente; estouradas na dívida, porque não conseguem ter rentabilidade suficiente para reproduzir o capital, devido à sangria dos juros e dos impostos, e, ainda por cima, ter que, fragilizadas, enfrentar a concorrência violenta da China, no auge da crise bancária, as empresas, com as pernas bambas, poderão dançar.

O setor produtivo nacional dispõe nesse momento de todas as nossas vantagens comparativas: somos francamente vendedores de matérias primas e fracamente consumidores delas para dar valor agregado ao produto nacional.

Os bancos teriam suficiente discernimento político para ver que o que o país precisa, agora, que é de mais produção, para aproveitar as oportunidades que a crise nos está oferecendo, ou matarão as galinhas dos ovos de ouro? 

 

Discurso de Alencar deve tomar o poder

O presidente dispõe de grande popularidade, mas fez um discurso bancocrático, até agora, penalizando as empresas. Como a crise fez emergir novo cenário, que destruiu possibilidades de ganhos especulativos, para compensar baixa rentabilidade produtiva, faz-se necessário novo discurso. Este já está dado. É o do vice-presidente José Alencar Gomes da Silva.

É com ele que as empresas terão salvação. Elas, sem ele, podem ficar fracas. As empresas são o coração nacional. Se pararem, pára o corpo, morre o paciente.

O exemplo está vindo dos países, que eram desenvolvidos, mas que passaram a sofrer a ameaça do empobrecimento, sob coordenação estatal estratégica e geopolítica, como antídoto à desmoralização das suas moedas na especulação, caso explícito do dólar.

Trata-se de salvação, tanto do setor produtivo, como do governo, pois ambos são unha e carne. O dinheiro tem que ficar mais barato para aumentar a produção e a circulação, que eleva a arrecadação do governo.

A intervenção estatal no comando do dinheiro do compulsório, de forma, determinada, politicamente, tendo em vista preservação da saúde do setor produtivo nacional, representa garantia para o próprio governo de manter a circulação dos negócios. Na circulação, a arrecadação se amplia e garante os recursos públicos para os investimentos.

Como aumentar a circulação dos negócios, se os juros e a carga tributária são proibitivos e a escapatória da especulação, como complementação da taxa de lucro empresarial, não existe mais?

Evidentemente, a disposição governamental, necessária, em hora grave, incomoda, de forma extraordinária, quem, como os banqueiros brasileiros, escraviza a sociedade brasileira, especialmente, a classe média e os mais pobres. No crédito direto ao consumidor, são sangrados em mais de 200% ao ano. A escravidão do capital é total.

Como eliminá-la, deixando a discussão para o plano técnico? 

Gordon Brown, primeiro ministro inglês, levantou sua popularidade, que estava baixa, suscitando sua queda, na crise, na Inglaterrra, com discurso nacionalista, interventor na atividade bancária, para restabelecer a confiança perdida no endividualismo ganancioso.

 

Saúde das empresas está em risco

 

Cuidar do setor produtivo tem que ser a prioridade total, para que o governo disponha de volume suficiente de arrecadação, capaz de sustentar programas sociais que, por sua vez, garantem expansão do mercado interno.

É bom para as empresas e sobretudo para os bancos. Lamentavelmente, o governo Lula, embora tenha fortalecido os programas sociais, não fez nada para as empresas, porque as prioridades foram para o pagamento dos juros e aumento de impostos.

Como sustentar o PAC nesse contexto de arrecadação que pode ficar cadente, se as empresas cairem mortamente doentes?

O compulsório e as reservas cambiais são as poupanças públicas acumuladas para enfrentar a crise com custo barato do dinheiro, mesmo , porque maior oferta de recursos joga o preço para baixo.

O presidente não deve ficar dando muito ouvido aos conselheiros assustados.

Se tivesse dado atenção a eles quando ficaram criticando o Programa Bolsa Família, onde estaria a inflação, sem consumo, que levaria às desvalorizações monetárias, para aumentar exportação?

O programa Bolsa Família valorizou o real, evitou a hiperinflação e criou a base sobre a qual devemos apoiar e fortalecê-la, pois o capital se faz é em cima do nosso consumo, e não em cima de dinheiro emprestado dos outros. Chega.

A hora é de jogar o compulsório e as reservas  na agricultura, na indústria, no comércio e na infra-estrutura. Portos modernos, para abrigar grande silagem, de modo a que o país disponha de mercadorias nos portos, para vender ao preço do dia para o mundo, e, ao mesmo tempo, dispor de estratégia produtiva que se transformaria em antídoto contra inflação. Como fazer isso, se as estradas estão uma porcaria?

Cuidado, presidente, sua cabeça está a premio. A sua e a da ministra Dilma Roussef.