Pânico nacionalista testa união européia

Os desentendimentos iniciais entre os líderes europeus relativamente a um consenso capaz de levá-los a tomarem medidas conjuntas para evitar que os países se afundem no vendaval da bancarrota financeira representam perigo para a União Européia.

Podem ativar neonacionalismos cujos conteúdos políticos descabem para fechamentos internos, protecionistas, salvacionistas, incapazes de contribuir para uma visão do todo destinada à ação conjunta no continente.

A arquitetura da união da Europa correria perigo, diante da corrida dos governos, como aconteceu com o da Irlanda, de garantir 100% dos depósitos aos correntistas. Atraiu, dessa forma, dinheiro de outros bancos, em diversos países, que não poderiam ter esse privilégio por parte dos governos. Haveria, consequentemente, uma competição doida entre as entidades bancárias, cujo resultado poderia ser o imponderável.

Num primeiro momento, os principais líderes europeus, da França, Alemanha, Itália e Inglaterra, pisaram no tomate. Acharam que falariam pelo resto da comunidade. Dançaram. As notícias da volatilidade bancária, decorrente da corrida dos correntistas para tirarem dinheiro depositados, fizeram-nos voltarem, correndo, atrás, apavorados. A crise demonstrou ser maior que os quatro poderosos países.

Tiveram os líderes, então, que convocar os 27 países integrantes da comunidade européia. Tal reunião teve como resultado algo mais racional, em termos de proteção da garantia dos depositantes, na medida em que nota conjunta dos governantes assegurou que não haverá quebra de bancos. É uma aposta.

Os poderes públicos, como destacaram os líderes, salvarão as instituições, estatizando-as, se necessário, para, em seguida, vendê-las, se for o caso. Não há segurança de nada.

Essa decisão conjunta das lideranças européias alivou a ação deletéria, unilateral, do governo da Irlanda, que, ao garantir 100% dos depósitos dos correntistas, dividiriam os interesses europeus, de forma perigosíssima.

A situação ficou contornada, aparentemente, pois as tensões explodiram com a desesperada decisão do governo da Islândia de entrar firme para salvar o maior banco do país, afetado por corrida bancária.

Tudo está extremamente volátil e inseguro, mas a postura política das lideranças européias tenta construir um paredão contra o tsunami monetário, que se expressaria numa desperada debandada pelo dinheiro depositado pelos correntistas.

Somente os próximos dias mostrarão se estará sendo eficaz e efetiva a ação conjunta.

A comunidade européia carece de maior efetividade e eficácia, porque a União Europeia ainda não está políticamente consolidada.

Cada país, dispondo de suas instituições e controles nacionalistas, que, na presente crise, se afirmam autonomamente, na base do pensamento protecionista, mostra-se, contraditoriamente, impotente. Ainda bem.

A velocidade dos acontecimentos vai impondo sua própria lógica: não é mais possível ações individualizadas.

O Banco Central Europeu, que tem por objetivo, dar crediblidade à moeda europeia, o euro, coordenado política monetária capaz de assegurar o poder de compra dele, combinando ações estratégicas pautadas pelo Tratado de Maastrich, que fixa limites para a expansão orçamentária, tenta dar conta do recado, mesmo sem haver, ainda, historicamente, a união política no continente.

Nesse sentido, a decisão dos líderes, de garantir a sobrevivência dos bancos, levando o BCE a interferir, sempre que for necessário, dá novo caráter proativo à União Européia.

Os acontecimentos dramáticos forçam, em meio às novas circunstâncias, instâncias mais fortes de ação política sobre a realidade em convulsão econômico-financeira.

O velho nacionalismo europeu, que não morreu de todo com a emergência da União Europeia, tentou, na crise presente, colocar a cabeça para fora, em termos de ação unilateral. Não vingou, por enquanto.

O pânico ameaçou – e continua ameaçando – ações protecionistas, que, ainda, não são possíveis de serem removidas, mas a sabedoria européia, dada pela conquista história da sua própria unidade, está sendo aperfeiçoada na ação política como antídoto à crise econômica.

A economia política supera a política econômica.

Caso contrário, soluções radicais emergiriam, levando ao desconhecido em comparação ao vigente, ou seja, o regime social-democrata.

A unidade da União Européia representaria possibilidade de se caminhar para uma instância econômica mais ampla, já que os continentes, isoladamente, não dariam conta de conter a onda braba detonada pela bancarrota financeira americana?

 

Incertezas podem detonar radicalismos políticos 

A insegurança econômica generalizada traz perigos: detona radicalismos políticos, quanto mais o contribuinte percebe redução viva do poder de compra da moeda nacional, algo que representa, objetivamente, empobrecimento crescente e incontrolável. Lenin, diante das instabilidades monetárias européias no pós-guerra, cujos efeitos políticos representaram foralecimento dos nacionaismos fascistas e nazistas, destacou que tal ambiente significa propaganda efetiva para desenvolver o pensamento socialista internacional.

A social-democracia européia, diante da crise bancária, pode balançar ideologicamente. A onda nacionalista, protecionista, tende a produzir pensamentos ideológicos autoritários, como resposta à irritação social diante de perdas no poder de compra das moedas, empobrecedoras da comunidade. Não é à toa que volta a ser notícia, na Europa, os fatores que levaram Hitler ao poder. Tudo pode precipitar quando se percebe, por exemplo, manobras como a do secretário de Tesouro americano, Henry Paulson, que escolhe duas ou três corretores privadas de Wall Street, para gerenciar a distribuição dos recursos do grande pacote salvacionista do sistema frente à bancarrota. Revolta social a tamanho descaramento não estaria descartada.

Pintaria uma onda socialista, que tenderia a expandir, no rastro da decadência possível da social democracia em meio à bancarrota financeira?

Sobretudo, a grande questão que vai se levantando, forte, é: terão os estados nacionais, isoladamente, força para conter a onda destruidora de riquezas, com suas respectivas moedas, ou o estado nacional será ultrapassado pela necessidade de união de regiões que guardam interesses comuns, no cenário global, buscarem saídas solidárias e não individualizadas?

Interatividade no contexto globalizado

A quimera de uma solução mundial, coordenada, no contexto em que amplia o pensamento nacionalista, fruto do medo da crise, estaria descartada? Talvez o caos seja inevitável, para que da lama saia alguma coisa.

Nesse momento em que o vendaval das compras e vendas de dólares, para liquidar posições, servem para valorizar a moeda americana, especialmente, na periferia capitalista, dada sua condição de equivalente geral nas relações de troca – até quando ninguém sabe – , o panorama pode superdimensionar a aparência e obscurecer a essência. Depois que as posiçõese estiverem liquidadas, para frente e para trás, no mercado, presente e futuro, chegará a hora da onça beber água, relativamente à capacidade da moeda americana de continuar sendo o equivalente monetário global.

Os dólares derivativos disponíveis, depois das liquidações de posições na louca corrida dos agentes econômicos nesse momento, irão para onde, se correrão o perigo de virarem papel de parede, caso continuem empoçados pela paralisia do crédito internacional?

O potencial de insegurança política que tal situação provoca na alma popular dos povos europeus que já viveram destruições de riquezas semelhantes, no rastro das quais surgiram ditadores e regimes de força, poderá ser o rescaldo forte dos tempos presentes nas próximas eleições européias. Imagine se Ângela Merkel deixa a peteca cair, agora. Seria excomungada. Abriria espaço para os socialistas e comunistas, já que a pregação do fortalecimento do estado, num ambiente de fragilidade total do pensamento e práticas neoliberais, ganharia corações e mentes mediante discursos inflamados para aplacar desesperos populares.

Lideranças sul-americanas dormem no ponto

 

A América do Sul, nesse contexto, está andando devagar.  Tentarão enfrentar a crise, isoladamente, com base nas moedas nacionais, que, no momento da grande crise, deixa de ser representativas?

O teste sobre a união européia é sintoma de que o destino da América do Sul está em jogo. Se as incertezas rondam os países que se uniram em passado recente, imagine-se as que tomam conta dos países mais pobres sul-americanos.

Cada um pode estar potencialmente sob riscos muito mais sérios do que os países ricos, porque o estado nacional, em face da nova conjuntura, tem poder limitado. O exemplo patente é a reação americana.

O governo agiu descordenadamente no plano internacional, pensando que a Casa Branca e o Congresso, isoladamente, poderiam resolver a parada, e o resultado, nessa semana, demonstra o oposto. A ação congressual americana, sem coordenação com os demais países ricos, tornou-se inútil diante da voracidade do terremoto financeiro global.

Os líderes sul-americanos, em torno da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, estão diante de grandes desafios. Por que atrasar a discussão da criação do Banco Sul Americano que teria papel coordenador do poder monetário sul-americano, mediante moeda sul-americana, no cenário internacional, que se prepara para uma nova arquitetura monetária, dada a impossibilidade de a moeda americana continuar dando conta do recado.

Os presidentes Lula, do Brasil, Rafael Correia, do Equador, Hugo Chavez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, se reuniram na semana passada, em Manaus, mas esqueceram o principal.

No auge da crise global, em vez de lançarem uma nota conjunta sul-americana, de união do continente como pressuposto básico para enfrentar os problemas que emergem, deram enfase às suas respectivas ações isoladas. Ficaram sem conteúdo. Até quando?