13 out
2008EUA vendem UE e compram BRICs
Categoria: (Cultura, Economia, Política) por Cesar Fonseca em 13-10-2008

A primeira grande crise monetária do século 21 coloca os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – como principais alvos de desejo do neo-semi-falido Tio Sam, que abandona a neo-semi-falida Europa às traças financeiras destrutivas.
Numa nova concertação monetária poderia pintar a moeda BRICs, sigla inventada pelo banco Goldman Sachs, no estudo “Dreaming with BRICs: the path of 2050″, em que prevê, nos próximos 40 anos, a predominância desse novo grupo no cenário global, deslocando os outrora poderosos absolutos, Estados Unidos e Europa?
O Grupo dos 7 mais ricos(EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Japão e Canadá), que se reuniu, na sexta e no sábado, em Washington, mostrou o óbvio: os ricos europeus não sacariam parte de suas reservas para salvar os Estados Unidos, baleados, na crise, fazendo dobradinha entre o Banco Central Europeu(BCE) e o Banco Central Americano(BCA), para resgatar títulos podres dos bancos falidos.
Resultado: fracasso da reuniâo. O Grupo dos 7 – são eles os patronos do unilateralismo e, não apenas, os americanos – esfarelou-se.
A Europa se recolhe para lamber feridas abertas
Os europeus, largados por Tio Sam, voltaram, correndo, para casa, partindo para ação emergencial conjunta – arrumar algo em torno de 2,3 trilhões de dólares(1 trilhão de euros), para irrigar o sistema financeiro europeu em bancarrota – , para não entrarem em crise política aguda.
Se estavam, inicialmente, tendentes a cada um ir para o seu canto, dentro da comunidade européia, depois do fracassado encontro de Washington, na tentativa de coordenação entre os ricos, para agirem conjuntamente, alarmaram-se diante da possibilidade de ficarem sós. No calor da crise, os líderes europeus sentiram a barra. Não haverá saída para eles, senão agirem, conjuntamente, CQC, custe o que custar.
Como, isoladamente, faliram, restaram-lhes, financeiramente, ampliar a união europeia, mesmo que a institucionalidade política do continente não tenha ainda vigando inteiramente. Ela se tornou imperativo categórico.
Do contrário, poderão pintar, nos países europeus, individualmente, tendências políticas nacionalistas variadas em seu conteúdo ideológico, como resposta radical da ira popular contra os governos irresponsáveis que levaram a economia ao desespero especulativo, suspendendo regras e regulamentações, cujo efeito é pobreza reltiva emergente.
Hitler surgiu depois da crise monetária de 1931, na Europa, começando pela Austria, espalhando, em seguida, por todo o continente, gerando tendências fascistas e nazistas irresistíveis.
Repetiriam os líderes europeus a dose hitlerista, como reação ao avanço do pensamento socialista, sintonizado com a pregação de Lenin de que as crises monetárias são parteiras do socialismo?
Se a União Europeia fracassasse, agora, novos hitleres poderiam botar a cabeça de fora. A Europa unida poderia impedir avanço do nazismo. Favoreceria o socialismo, de forma controlada, numa nova versão avançada da social-democracia, em versão avançada relativamente à moda chinesa?
W. Bush jogou os europeus a sua própria sorte

O presidente W. Bush, parece, jogou calculado. O que teria a ganhar, entrando no barco furado europeu, a menos que a Europa colocasse grana na praça americana, para ajudar Washington a pagar os pepinos da bancarrota do dólar derivativo?
O que tem a Europa a oferecer, se não tem mais grana? Petróleo? Alimentos? Metais? Só teria tecnologia e cultura. Esta, rica, única; aquela, avançada, porém, democratizada, patrimônio de todos, não apenas europeu.
Como o titular da Casa Branca percebeu que não tiraria mais carne do osso, correu, então, para os braços do Grupo dos 20. O semi-falido esfarrapado Tio Sam, no sábado, à noite, no meio dos emergentes foi histórico. Ficou entre os quatro mais ricos em ascensão, os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China. Somados, correspondem a quase 25% do PIB mundial. Tio Sam detesta pobre e adora rico.
Aos europeus, neo-semi-pobres, tchau; aos emergentes, neo-ricos, olá, gente!
W. Bush pontificou ao lado dos ministros dos países em desenvolvimento demonstrando que são eles a companhia que, realmente, interessa ser cultivada pelos Estados Unidos. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, colocará o retrato na parede. Como presidente pró-tempore do G 20 ficou de peito cheio ao lado do falido Tio Sam. História.
A Europa ficou para trás. Perdeu serventia para os americanos. Afinal, os europeus não podem mais continuar bancando o financiamento de parte importante do deficit americano de 6% do PIB dos Estados Unidos, algo em torno de 800 bilhões de dólares de um total de 13 trilhões de dólares. Esse jogo foi possível de ser jogado desde Bretton Woods, em 1944, quando Washington, com o dólar todo podereso estabeleceu a nova divisão internacional do trabalho. O dólar de hoje é uma sombra daquele passado glorioso.
Se os governantes europeus, no contexto da destruição monetária, continuassem bancando o jogo de sustentar parte dos deficits americanos, adquirindo títulos da dívida pública lançados pelo tesouro dos Estados Unidos, tendo como lastro o dólar deslastreado, fictício, provocariam crises políticas agudas, dada a consciência política desenvolvida européia. Por que salvar os americanos, se os europeus estão em processo de autodestruição?
Por outro lado, para os europeus, não teria sentido continuarem financiando os déficits americanos, se não haverá possibilidade de a economia européia prosseguir acumulando superavits comerciais na praça americana, em processo de esfriamento no compasso da grande crise monetária.
Se o que está pela frente é a recessão, o mercado americano não absorverá as mercadorias européias na escala necessária para permitir que a Europa continue, como vinha fazendo desde o pós-guerra, financiando Washington.
Neo-divisão internacional do trabalho à vista

Os Estados Unidos, no pós-guerra, com o dólar forte, promoveram divisão internacional do trabalho cuja configuração ficou clara: a moeda americana passaria a ser o equivalente universal nas relações de troca, impondo deterioração nos termos destas em favor dos EUA.
A economia americana seria francamente importadora do mundo, gerando superavit comercial na Europa e na Ásia, para salvar o capitalismo europeu e asiático das garras do comunismo. O Plano Marshall foi isso.
O preço a pagar pelos aliados seria o financiamento dos déficits americanos com o dinheiro adquirido com os superavits comerciais europeus e asiáticos. Jogo de duas mãos.
Tal preço representava a garantia de o capitalismo, super-armado com bombas atômicas e nucleares, ganhar a parada política, econômica e militar da URSS, enquanto era sustetanda a guerra fria e as demais guerras que viriam pela frente como a do Vietnam etc.
Quando os americanos, em 1979, diante a moeda ameaçada pela inflação decorrente do excesso dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, petrodóalres, nipodóares, na praça global, subiram a taxa de juros de 5% para 17%, quebrando a periferia capitalista, para dar sustentação e confiança à moeda equivalente geral nas trocas comerciais globais, o ex-ministro Delfim Netto, no governo Figueiredo, entendeu o jogo: “É o preço que os Estados Unidos cobram para sustentar a democracia representativa e a segurança do mundo contra os comunistas”.
E agora?
A nova ordem relativa do poder estabelecido

A bancarrota financeira global atual mostra quadro inverso. Os Estados Unidos, exaustos de tantos déficits gêmeos, como custo de sustentação do capitalismo global, gastando em consumo e armamentos, à moda keynesiana, abriram o bico.
Não têm mais gás para bancar, com rítmo acelerado, a economia de guerra.
Se a Casa Branca está gastando o que não pode para comprar títulos podres na praça americana, a fim de evitar quebradeira geral não apenas dos bancos, mas dos contribuintes, como continuar financiando guerras caras, como a do Iraque, que já consumiu mais de 2 trilhões de dólares, como destacou Josef Stiglitz, premio nobel de economia?
Por não poder mais suportar elevados deficits, na escala necessária, capaz de puxar a demanda global, a partir da economia de guerra keynesiana, é de se prever que uma nova geopolítica-estratégica econômica e militar emerja no Oriente Médio, com o Iraque, fragilizado, sendo atraído para o Irã, enquanto Israel terá dificuldades de continuar se financiando no tesouro americano, preocupado com a guerra maior, interna, desatada pela bancarrota financeira.
Sairia mais facilmente o Estado palestino? Tudo está virando de ponta cabeça.
A Europa e a Ásia – Japão, antes, e China, depois – poderão dizer não à continuidade do processo do pós-guerra. Ganharão o que, se o mercado americano vai dar uma esfriada legal?
Teriam que retirar das suas reservas acumuladas para financiar o tesouro americano. Sem capital de giro, enfiarão a mão no bolso?
As posições, de lado a lado, dos Estados Unidos e da Europa, ficaram rígidas. Os europeus, entregues à sua falta de segurança na ausência do mercado americano, em baixa, e resistentes a sacarem suas poupanças, que viraram pó, na crise, perceberam a necessidade de correrem do jogo proposto por Washington.
Chavez pode ir à Casa Branca baleada pela crise

A Casa Branca lavou as mãos e correu para conquistar os novos aliados, emergentes, que serão, também, alvos do interesse europeu. Os BRICs e a América do Sul têm muito mais a oferecer a eles do que eles aos BRICs e aos sul-americanos.
Surgem nova correlação de forças políticas e econômicas no cenário das trocas comerciais.
Os preços das matérias primas, das quais toda a manufatura global depende, tendem a aumentar, por serem, relativamente, escassos. Já os preços das manufaturas, por serem fartas, dado o aumento exponencial da produtividade, impulsionada pela ciência e tecnologia, colocadas a serviço da produção, tenderão a cair, relativamente.
Ou seja, os pesos relativos das matérias primas, de um lado, e os preços relativos das manufaturas, de outro, serão alterados em favor dos primeiros e em prejuízos dos segundos, como destacou o ex-presidente FHC em recente reunião com os tucanos em Brasília.
Nesse ambiente, os Estados Unidos se interessarão por uma nova ALCA, não com a cara que antes pretendia imprimir, ou seja, preponderância do discurso de Tio Sam sobre o quintal de sua suposta propriedade, a América do Sul, historicamente, mas com a fisionomia nova, que os neo-aliados emergentes estabelecerem, na base do consenso.
A ira de Hugo Chavez contra Tio Sam pode dar lugar a uma flexibilidade na era pós-Bush. Da mesma forma, Tio Sam não terá mais vigor para impor a Cuba eterna discriminação, porque os aliados de Cuba, no continente, colocarão, na mesa, a exigência de supressão do bloqueio comercial contra a resitente e brava Ilha caribenha socialista fidelista.
América do Sul e Caribe, cujos ministros da economia, recentemente, se reuniram pela primeira vez, na história – conforme disse o ministro Celso Amorim ao repórter Roberto D’Avila – estão diante de novas possibilidades, prontas a sairam da condição de subordinação para a de coordenação dos seus interesses, fora das influências externas, a partir de um conjunto de interesses convergentes sul-americano-caribenho?
Nova configuração geoestratégica, portanto, coloca os Estados Unidos, não mais como aqueles que vê a América do Sul, a Ásia e a África, como dependentes de Washingotn, aliados menores, mas, maiores, isto é, caminhando para serem independentes de Tio Sam.
Tempo de subordinação abre para o de coordenação
A Casa Branca, como demonstrou W. Bush, na reunião do G20, quer ficar perto dos que têm a oferecer vantagens. Que vantagens a Europa oferece ao capitalismo americano? Os bancos europeus faliram. O mercado consumidor da Europa, para as mercadorias americanas, é insuficiente. Insumos básicos, nada. Enfim, mala sem alça. Igualmente, Tio Sam, para os europeus, virou avião jumbo sem asas.
Otelo destesta Iago e Iago não tolera Otelo.
Já a America do Sul possui tudo o que os americanos desejam. O que vai ser mais vantajoso, de agora em diante, para a economia americana? A aproximação com quem tem bala ou a com quem está desarmado e falido, querendo comprar fiado?
Como vão precisar de energia em escala crescente, a fim de se livrarem da dependência do petróleo, que exige guerras, cujos custos não podem pagar, na escala em que sustentaram até agora, os Estados Unidos, como alternativa, ampliarão suas alianças com a America do Sul. Os BRICs são sua salvação.
Pode pintar, inclusive, como destacou Delfim Netto ao jornalista William Waack, a necessidade de o governo brasileiro impor uma tarifa de exportação sobre o álcool para evitar que toda a produção, nos próximos tempos, se destine ao mercado americano, colocando pressões inflacionárias sobre o mercado brasileiro de etanol.
A América do Sul estará preparada para viver novos contextos políticos altamente transformadores da mentalidade subordinativa histórica que as liderança sul-americanas, ancoradas nos velhos coroneis e em políticas industriais semi-integradas, dependentes, para incorporar-se do oposto, isto é, de mentalidade coordenativa, em torno da União das Nações Sul-Americanas?
Nova lider sul-americana diante de grandes desafios

Por que Michelle Bachelet, presidente do Chile e pró-tempore da Unasul, ainda não reuniu os líderes sul-americanos, para esse debate, depois de três semanas de terremotos financeiros globais, lançando novas sementes da ordem internacional?
A Unasul, que mostrou sua efetividade na superação parcial da crise boliviana, evitando destruição fascita do governo de Evo Morales, por uma oposição separatista disposta a ir ao extremo da radicalidade, terá pela frente a tarefa de coordenar a América do Sul no novo cenário global.
Trata-se de alcançar os propósitos sul-americanos maiores: moeda sul-americana, banco sul-americano, segurança sul-americana, tribunal su-americano, parlamento sul-americano, que originarão pensamento sul-americano.
Qual o lastro real sul-americano, no compasso da crise? A riqueza real sul-americana: biodiversidade infinita, petroleo – renovável e não-renovável – , metais, alimentos, terra, água e sol que garantem até três safra anuais etc. Ou seja, moeda que se sobrevaloriza diante da moeda equivalente internacional, o apodrecido dólar derivativo, que se sobredesvaloriza, pois seu lastro é, tão somente, ficção.













O presidente Lula e o governador José Serra emergiram como polos opostos na crise bancária mundial que ameaça a economia brasileira. Depois de a bancarrota financeira global detonar os pequenos e médios bancos, está levando para o abismo, também, as grandes e médias empresas, que estavam alavancadas na especulação.
O jogo de equilíbrio das empresas entre especulação e produção foi para o espaço com a emergência da crise bancária.
Nas próximas semanas, com os possíveis agravamentos e rescaldos da grande crise monetária global, cujos prejuízos são calculados, até agora, em 14 trilhões de dólares, cinco brasis, a onda de desastres financeiros pode avançar em meio ao discurso desenvolvimentista do presidente Lula como arma para manter o otimismo nacional.
Nesse sentido, saiu na frente o governador José Serra, de São Paulo. Na quarta, 09, depois de encontrar-se com o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, preferida pelo titular do Planalto para sucedê-lo, conforme disse o ministro da Justiça, Tarso Genro, ele abriu fogo contra a política monetária comandada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
A economia brasileira, ameaçada pelo juro alto, entra de cabeça na política e na campanha eleitoral. A crise bancária internacional, que paralisará a economia mundial, pelo menos, nos próximos doze meses, ou mais, coloca em pauta, urgente, para a classe política e econômica, no Brasil, a questão da taxa de juro, a mais alta do planeta terra.
Na prática, José Serra adota o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva, no momento, em que as tensões máximas nos agentes econômicos se voltam para os desastres financeiros que se agravam ainda mais diante de juros excessivamente altos, como o brasileiro.
Se por um lado melhoraram os controles e fiscalizações sobre regras bancárias, por outro lado, adotou-se política monetária que colocou a economia sob intensa especulação financeira em cima da dívida pública. Crítico dessa estratégia neoliberal desde quando participava do governo neoliberal de FHC, José Serra, na crise bancária, renova o seu ataque, com as condições históricas, agora, jogando a favor do seu discurso. Coloca Dilma Roussef na defensiva e toda a coligação governamental. O PMDB, que sai forte das eleições, jogaria contra a proposta de Serra?
Na desaceleração global, que afeta o Brasil, os consumidores, endividados, são candidatos a serem sacrificados no altar dos juros compostos. Alberto Einstein, indagado sobre o que seria mais veloz no movimento da natureza, não teve dúvida. Os juros compostos, respondeu. José Serra entra na lógica política-crítica einsteiniana, aberta pela primeira grande crise monetária do século 21.
Lula, como FHC, fez o jogo dos bancos o tempo inteiro, enquanto promoveu política social para alavancar mercado interno. Este, agora, diante da crise bancária, somente, terá fôlego, se o custo do dinheiro cair.
O PT vai segurar Meirelles? Ou vai pedir ao presidente Lula providências, diante do perigo de os juros altos levar à falência significativa parte do sistema econômico?
Relaxar e gozar(com a inflação), máxima de Marta Suplicy, candidata do PT à prefeitura de São Paulo, pode estar ser o jogo determinante para evitar a recessão e a quebradeira.
Há 41 anos, num 8 de outubro como hoje, a humanidade recebia a notícia da covarde execução de Ernesto Guevara por um agente da CIA na Bolívia, horas após ter sido aprisionado por uma patrulha do exército boliviano controlado pelo exército dos EUA. A troca rápida de telefonemas entre os comandos militares de La Paz e Washington deixou antever a pressa em eliminar a presa, antes que todo um mundo de manifestações gigantescas se levantassem mundo afora para exigir a libertação de Che. Já era prova do temor às suas idéias, ao seu exemplo, à sua função na história.
Uma das facetas desta extraordinária personalidade é o jornalista Che Guevara. Não é o caso de detalhar aqui sobre suas atividades como fotojornalista e seus escritos denunciando as injustiças das veias hemorragicamente abertas da América Latina antes mesmo de vincular-se ao movimento revolucionário cubano no México, após escapar da invasão ianque à Guatemala rebelde do coronel Jacob Arbenz;. Mas, o organizador revolucionário também na área da comunicação logo se expressou quando, ainda durante os combates em Sierra Maestra, Che organizou a fundação de um periódico, cuja impressão foi possível em gráfica montada com equipamentos levados a lombo de burro e em várias viagens clandestinas para o quartel-general da guerrilha comandada por Fidel. Logo depois, um passo ainda mais audaz: a fundação da Rádio Rebelde, também em território liberado de Sierra Maestra. Os transmissores foram igualmente para lá conduzidos em lombo de burro e as emissões puderam ser captadas por rádios venezuelanas que, por sua vez, retransmitiam muitas dessas alocuções de Fidel e de Che, possíveis de serem captadas por rádios da Argentina. A Revolução Cubana começava a construir seu sistema de comunicação social revolucionário.
O Che médico já atendia aos camponeses nas zonas liberadas de Sierra Maestra. A consulta gratuita era acompanhada de fervorosa e apaixonada argumentação em defesa da revolução cubana, na qual, também se explicava o peso das condições sócio-econômicas na causa e determinação das enfermidades. A tal ponto que um menino camponês que observava atentamente as consultas de Che disse a sua mãe: não leve a sério este médico, ele diz para todos que a culpa dos problemas é do capitalismo….
Os 350 mil homens e mulheres cubanos que foram a Angola para lutar em defesa do bravo povo de Agostinho Neto, agredido pelo exército nazista do apartheid sul-africano, era um prolongamento lógico e inevitável do pensamento internacionalista de Che Guevara, alma da consciência internacionalista proletário do povo cubano e uma decisão de estado, comandada diretamente por Fidel Castro. Como disse Mandela, foi na Batalha de Cuito Cuanavale, no sul de Angola, em 1988, “o começo do fim do apartheid”, abrindo uma nova era para o sul do continente africano, cujo mapa político registra governos progressistas e antiimperialistas que desenvolvem a cooperação para enfrentar a herança nefasta do colonialismo. O internacionalismo proletário, a solidariedade internacionalista, são políticas do estado socialista cubano, em cuja fase inicial tinha um Che como ministro, infatigável na luta contra a falta de especialistas, agravada pela fuga de cérebros, o terrorismo lançado contra Cuba, as limitações tecnológicas, a herança colonial e, a seguir, o bloqueio. Ali estava um exemplo vivo de administrador socialista, sempre incorporando a participação coletiva, considerando respeitosamente a diferença de opiniões, mas, intransigente na defesa da estatização, do monopólio do comércio exterior, da planificação estatal. Não é que Che fosse um romântico que desprezasse o poder, ao contrário, desprezava sim o poder pessoal, era atento as perigos profissionais do poder, mas era, sobretudo, um intransigente construtor do poder proletário, lutou incansavelmente pela tomada do poder das mãos dos capitalistas, pela destruição de todo poder do capital.