17 out
2008Bancarrota empresarial na sucessão presidencial
Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 17-10-2008
Bancarrota empresarial – ao lado da bancarrota dos pequenos bancos, que se tenta salvar, privatizando-os com dinheiro do contribuinte, dos depósitos compulsórios, por meio dos bancos grandes privados, mediante vantagens fiscais e altamente liberais, ou seja, prática de juros altos – pode ser o principal desafio a ser enfrentado pelo presidente Lula nos dois últimos anos de sua gestão em plena sucessão presidencial. Turbina-se um horizonte de grandes tempestades entre empresas, alcançadas pelo terremoto financeiro especulativo.
As duzentas maiores empresas brasileiras que , junto com poucas estrangeiras, movimentam a Bolsa de Valores de São Paulo, semi-faliram ou faliram na especulação com o subprime nacional, desenvolvido especulativamente no mercado de dólares na Bolsa de Mercadoria de Futuros, o maior cassino da história nacional.
São cerca de R$ 3 bilhões de prejuízos, segundo se comenta nos meios empresariais.
Os empresários apostaram no dólar barato no futuro e compraram títulos a juros caros no presente, para ganhar na especulação. Jogada histórica fixada como forma de compensação pelos ganhos insatisfatórios na atividade produtiva, atacada de morte pelos juros altos de carga tributária excessiva, que jogam a lucratividade para baixo. Dançaram. Em uma semana, emergiu uma desvalorização da moeda nacional de quase 40%, na onda dos desastres. Facada.
Intranquilidade econômica e financeira que afeta a tranquilidade política governamental mantida até agora relativamente ao futuro. Votorantim, Sadia, Aracruz Celulose, Vale, Petrobrás, Perdigão e o rol de pequenas e médias no elo da cadeia mais fraca do capitalismo nacional entraram em grandes prejuízos, que obrigarão o governo a intensas negociais econômicas e financeiras, sob intensas pressões, tanto por parte do capital como do trabalho, no contexto sucessório.
Algumas empresas, nesse ambiente de alta volatilidade, poderão morrer; outras, somente se salvarão se forem socorridas pelo BNDES, o hospital das empresas brasileiras, desde quando criado em 16 de junho de 1952, pelo presidente Getúlio Vargas.
Greves podem ser fato político novo
As negociações nesse sentido, mobilizarão, sem dúvidas, no Congresso, empresários e trabalhadores, todos ameaçados, jogando lenha na fogueira da sucessão do presidente Lula, desatada pela primeira grande crise monetária global do século 21, cujos primeiros lances já ocorrem durante as eleições municipais, quando o governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, pede juros baixos já, para evitar a catástrofe empresarial. Falar em aumentar juros, pelo BC, nesse ambiente, para adequar-se às metas inflacionárias fixadas pelo próprio mercado financeiro, via pesquisa Focus, bíblia do BC, seria arriscado, politicamente.
Os empresários e os trabalhadores estão em polvorosa. Se as grandes empresas nacionais que dinamizam a bolsa foram dinamitadas pela crise, significa que a Bolsa, igualmente, expressão real dessas empresas, está sob perigo de explosão, se é que não foi implodida com as ações em queda. A emergência da falência empresarial joga desconfiança generalizada na bolsa onde as ações dessas empresas estavam pontificando espetacularmente.
A BVSP chegou a superar a casa dos 70 mil pontos, quando, como reconheceu o presidente do Itaú, Roberto Setúbal, tem caixa para apenas 45 mil, no máximo, onde passou a ficar, com tendência para cair. Ilusão de riqueza e poder. Crash.
Tal situação cria ambiente político de alta tensão na economia ameaçada por perspectivas futuras sombrias que desarmam o espirito animal investidor dos empresários.
O PAC, combustível eleitoral do presidente, para tentar fazer sua sucessora, a ministra Dilma Roussef, conforme admitiu o ministro da Justiça, Tarso Genro, pode ficar estressado, como destacam os próprios empresários, embora o governo sustente, compreensivelmente, posições altamente otimistas.
A euforia recente, que levou o setor produtivo a acreditar demasiadamente no futuro, levando o presidente Lula a um surto otimista excessivo, vê-se diante do seu reverso. O clima anterior, de promoções altamente marquetizadas de lançamentos de ações na bolsa, obedecendo a regulamentação moderna, pautada pela transparência, levou à suposição de paraísos e prosperidades sem fins, capazes de garantir auto-sustentabilidade.
Alta especulação, transparência total. Sucessos atrás de sucessos. E , agora, a transparência vai ficar diante de todos, quando os balanços contábeis registram fracassos atrás de fracassos?
Nus em cima do palco.
O dragão chinês é ameaça geral

Nesse ambiente, em que as quedas violentas das ações das empresas sinalizam fragilidade financeira dos empresários, as ações delas continuarão despencando junto com a oferta de emprego e renda que estavam bombando o consumo interno. Para piorar essa situação, as empresas brasileiras, de pernas bambas, terão cima, de enfrentar, além dos juros e da carga tributária elevados, a concorrência chinesa, que passou a assustar geral.
Montada numa reserva cambial de quase 2 trilhões de dólares, a China chega super-avalizada, para impor seu preço super-baixo aos mercados concorrentes. Solidariedade socialista-capitalista chinesa?
Calçados chineses estão sendo adquiridos por preços com descontos de até 70%! Quem vai comprar sapato nacional, cujo custo de fabricação é elevado, graças aos juros altos e a excessiva carga tributária?
Antes as empresas buscavam compensação, pelo estrago dos juros e dos impostos na produção, jogando na bolsa. Com a explosão do mercado bursátil, essa possibilidade esgotou. As empresas financeiramente sucateadas, compradas no dólar barato no futuro que explodiu de preço no presente, tendo, além disso, a China fungando no cangote, estão se rebentando, no ambiente de altíssima concorrência global.
Se o BNDES não socorrê-las, os trabalhadores das empresas irão para a rua demonizar Lula e sua candidata à sucessão Dilma Roussef. O desemprego estará batendo às portas no novo tempo de vacas magras.
O que preocupa sobremaneira o Palácio do Planalto nesse momento é a saúde da indústria automobilística. Se ela fraquejar, a vaca pode entrar no brejo. O berço político do presidente Lula está na corda bamba.
O carro-chefe da indústria nacional balança as pernas.
As 24 diferentes montadoras instaladas no país movimentam 1,3 milhão de empregos, englobando 500 autopeças, para manter uma capacidade instalada de 3,5 milhões de véiculos, vendidos em 3,6 mil concessionárias espalhadas Brasil afora. São 45 plantas industriais estabelecidas em 7 estados brasileiros e em 26 municipios, para vender automóveis, comercial leves, caminhões, ônibus, tratores e colhetadeiras. Trata-se de um parque industrial que recolhe uma receita total de R$ 21 bilhões em IPI, ICMS, PIS e Cofins, cuja saúde pode ficar abalada.
O empoçamento do crédito balança essa estrutura produtiva e ocupacional da qual depende todos os demais segmentos da economia, numa cadeia produtiva que caracteriza o capitalismo nacional dependente de poupança externa, historicamente. Afinal, não houve, no Brasil, a aposta da formação do capital o país, como fizeram os asiáticos, dependentes, no entanto, do mercado externo americano e europeu.
Sem a renda extra oriunda da especulação, que estava bombando o consumo das classes altas e das médias, favorecidas pelo jogo especulativo, as empresas serão obrigadas a suportarem taxa de lucro cadente na produção interna sob intensa concorrência entre 24 competidores. Luta de gigantes.
Nesse contexto, a classe empresarial se inquieta extraordinariamente, destaca o primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do DF, Ricardo Caldas, porque a desconfiança evita que os bancos negociem com as empresas, retendo os recursos, dado o alto risco que imaginam correrão diante de clientes de cuja saúde financeira desconfiam.
Estatização já
Para Ricardo Caldas, a saída inglesa é ideal, no ambiente de tumulto geral, em que ninguém acredita em ninguém. O governo participa com os recursos públicos no capital dos bancos – no caso brasileiro, lançando mão dos depósitos compulsórios – , para recapitaliza-los e dessa forma adquire força para conduzir, de maneira mais organizada, o próprio custo do dinheiro, a fim de bancar novas relações de trocas entre setor privado e setor financeiro. Fora disso, acredita, os juros não cairão. Ao contrário, subirão.
O governo, apavorado, está, por enquanto, cuidando de salvar os bancos pequenos, colocando dinheiro da poupança nacional, ou seja, os recursos recolhidos, compulsoriamente, sobre depósitos à vista e a prazo nos bancos grandes privados, na tentativa de fazer com eles cumpram a tarefa. Henry Paulson, secretário de Estado dos Estados Unidos, tentou essa saída. Não deu certo. Dará aqui?
Pode dar certo para os grandes bancos, que caminharão para a oligopolização bancária privada nacional, mas daria, do ponto de vista empresarial, em forma de redução do custo do dinheiro, para ativar a produção?
Os juros estão subindo com a insolvência do mercado empoçado por falta de confiança do setor privado nos bancos e dos bancos no setor privado. A confiança seria adquirida por intermédio da gestão, puramente, privada?
A estatização, à moda inglesa, seria a solução, para criar ambiente mais adequado para organizar o sistema bancário e restabelecer a confiança nas relações comerciais em geral?
Ricardo Caldas acredita que esse deve ser o caminho do governo, se quiser manter aquecidas as obras do PAC, depois da bancarrota bursátil.
No novo ambiente, disse, não dá para conviver com o juro alto e com carga tributária extorsiva, combinando-se, para manter baixa a rentabilidade, que inviabiliza investimentos. O gargalo é esse.










O candidato do Partido Republicano, John MacCain, se prevelecer o rítmo das pesquisas, até a hora da votação, poderá dançar, perdendo para Barack Obama, do Partido Democrata. Sua proposta, altamente, impactante, no entanto, poderá permanecer, porque teria batido fundo no coração das famílias americanas, cujos lares são assediados pelo desemprego, detonado pela economia monetária especulativa que o governo não consegue mais bancar, dando tranquilidade ao contribuinte e aos aposentados. Todos estão ameaçados por uma neo-pobreza relativa.
Como sustentar os gastos públicos inflacionários no Iraque, se o governo precisa gastar muito mais, agora, para salvar o contribuinte da guerra monetária destrutiva interna?
A história já demonstrou que em tais situações, as comunidades se viram, criam suas próprias moedas, assim como os governos criam as suas.
Quanto de dinheiro do compulsório vai para o programa Bolsa Família, para manter a demanda interna aquecida, já que a externa entrará em recessão, com a desaceleração global? Quanto irá para a agricultura familiar, para os mais pobres plantarem e colherem sua renda, com a poupança pública dos compulsórios? Quanto se destinará para a reforma agrária? E para a indústria, o comércio? Não há uma discussão ampla sobre o assunto. Falham os poderes públicos. Só R$ 5 bilhões, do total de R$ 150 bilhões, vão para a agricultura! Pouco demais. Onde estão os políticos, para evitar que o presidencialismo autoritário brasileiro faça o que lhe der na telha, favorecendo os bancos?
O Congresso brasileiro está fazendo papel de palhaço no cenário da crise bancária. Depois reclama que Hugo Chavez chame os congressistas brasileiros de papagaios do Consenso de Washington.
E Lula? Sob o presidencialismo autorítário, regado por medidas provisórias ditatoriais, que colocam o Congresso de joelhos, não dá maiores satisfações à sociedade, por meio doLegislativo, sobre o que fará com os R$ 150 bilhões. Quem acredita na pureza dos banqueiros?

A oligarquia da Venezuela registrava um dos mais elevados consumos de caviar e champanhe do mundo, mas não fabricava fósforos, não possuía sequer economia agrícola, apesar da exuberância de suas terras, clima, água e da enorme quantidade de mão-de-obra atirada no abismo do desemprego, devorada por uma gigantesca criminalidade que só agora vem sendo realmente combatida de verdade, através da industrialização , do desenvolvimento agrícola e das obras de infra-estrutura, capazes de gerar emprego em massa. Nesta empreitada o Brasil é importante parceiro da Venezuela. É neste ponto que se revela a atualidade de Vargas, o que dá razão às constantes referências que Hugo Chávez ao ex-mandatário brasileiro, que, acossado por um golpe orquestrado pelo capital externo contra seu governo nacionalista, preferiu dar um tiro no peito a aceitar ser deposto.
O ideário de Vargas estava rigorosamente presente no mais recente encontro de Lula e Chávez em Manaus. Ante perguntas da imprensa sobre como enfrentar a crise financeira do capitalismo os dois mandatários coincidiram na condenação da irresponsabilidade do fundamentalismo econômico que transformou economia em cassino. E também quanto à necessidade de desenvolver o mercado interno, expandindo a economia real, verdadeira, produtiva, e consolidar a integração sul-americana, pois, conforme ressaltou o presidente brasileiro, “como maior economia na região o Brasil tem obrigação de ser solidário com os países de economia mais frágeis, para que todos cresçamos juntos” Desde Vargas não se ouve um presidente do Brasil falar com semelhante lucidez e visão estadista. Foi preciso um operário chegar ao Palácio do Planalto para que a política externa brasileira superasse a fase da diplomacia de pés descalços do ex-chanceler Celso Lafer e reaprendesse a praticar os conceitos de soberania, independência, solidariedade e desenvolvimentismo. Tudo junto, seguindo o estabelecido na Constituição Brasileira, muito citada, mas nem sempre cumprida: a integração latino-americana é objetivo da Republica Federativa do Brasil. Assim como os elogios de Chávez a Vargas, também produziram desconcertos as declarações de Trotsky que, em 1938, considerava positivamente os processos nacionalistas de Vargas como de Cárdenaz, que lhe concedeu asilo no México. Para Trotsky eram como uma espécie de “bonapartismo suy generis, com conteúdo progressista”, chegando mesmo a recomendar que diante de um eventual conflito entre Brasil e Inglaterra, os revolucionários deveriam posicionar-se ao lado do Governo Vargas, mantendo sua independência crítica, contra o imperialismo inglês. Não por acaso Chávez recorda tanto Trotsky, quanto Vargas, numa espécie de síntese das forças históricas que apontavam para o progresso naquela etapa.
Diante dos excelentes resultados que a relação bilateral Brasil-Venezuela, animada por uma madura relação dos dois presidentes, apesar da alta dose de intrigas midiáticas de que tem sido vítima, soa realmente incompreensível a insistência de segmentos importantes da sociedade brasileira, particularmente no estamento militar, em rejeitar este processo de crescente cooperação entre estes dois países, cujo passo seguinte, muito provavelmente, desaguará na incorporação da Venezuela ao Mercosur. Que os interesses imperiais se oponham a este curso cooperativo é compreensível. O império quer submissão, incomoda-se com qualquer cooperação, sobretudo, quando dela está ausente, quando nela não dá as ordens e quando ela fortalece a emergência de um novo mapa geopolítico regional, mas também internacional. Os empresários brasileiros que têm hoje extraordinárias oportunidades de vender equipamentos, serviços e tecnologia para a Venezuela, não possuem qualquer objeção lógica para rejeitar o ingresso da Venezuela no Mercosur. É meio suicida capitalista que não quer expandir mercado….Ao contrário, hoje os sinais de turbulência e instabilidade partem da economia norte-americana, cuja predominância sobre as operações brasileiras foi providencialmente reduzida, por uma opção política que questionou, embora timidamente, o “fundamentalismo de mercado”, e encoraja o fortalecimento de relações sólidas com as economias da América do Sul, recomendando apostar num novo curso de desenvolvimento regional, marcado pela integração, inclusive com a adoção de instituições financeiras e até mesmo de moeda própria, tal como o já criado Banco do Sul, lamentavelmente ainda não em operação.


Os ingleses, velhacos de guerra, entraram no vácuo deixado pelo dólar desacreditado e fizeram a grande experiência do século 21, no plano monetário, por enquanto. Isto é, colocam o euro como a nova representação monetária internacional, que tenderia a ser o novo equivalente geral das trocas internacionais, dando partida a uma nova concertação econômico-financeira global.