Brasília fatura festival de Trieste

 

É muito difícil entender as razões dos outros, se permanecemos no ponto de vista individual. O individualismo, não raro, coloca o indíviduo, com seu narcisismo, no exterior da realidade. Os outros são o inferno dele, como disse Sartre. O ser humano detesta o sucesso do outro. Não se perdoa um grande favor etc e tal. No individualismo, no egoísmo, próprio do sistema capitalista, egocentrista, o outro é um estorvo. Faz sombra. Dessa visão unilateral, culturalmente desenvolvida, para dispersar o homem de seu próprio ambiente, seu próprio eu, constroi-se consciência derrotada pela impossibilidade de ver o todo, pois o que lhe interessa não é o todo, mas o seu. Assim, querer entender a vida do outro, somente se for possível penetrar na consciência do outro.

Esse é um dos méritos mais importantes do filme do jornalista, fotógrafo e documentarista, Armando Lacerda, autor de “Jururã, o espírito da floresta”, com competente montagem de Liloye Boubli, que faturou nesse final de semana o Festival Latino Americano de Trieste, Itália, organizado pela União Latina, com sede em Paris, depois de ter sido elogiado no festival de Veneza e no do Rio de Janeiro, enquanto foi olimpicamente desdenhado pelo Festival de Brasília, mesmo sendo um filme financiado pelo Pólo de Cinema do Distrito Federal. Incrível a incompetência da Secretaria de Cultura e da organização do festival. Agora, certamente, terão que correr atrás do prejuízo.

O olhar do índio é o comandante do ponto de vista indígena sobre sua própria experiência diante do massacre sofrido pela civilização em busca da expansão dos seus negócios em escala crescente no contexto da globalização dos mercados. Essa é síntese fílmica de um trabalho cultural que insere Brasília no cenário da cultura internacional.

É um jogo que massacra o índio desde os descobrimentos. Uma alma massacrada, atemorizada, aterrorizada, sob constante perigo de morte a cada passo. A voz deles é a voz dos outros sobre eles. Os índios vivem tão atormentados, ou mais, que os judeus, assassinados por Hitler.

O ódio hitlerista à competência judaica de acumular riqueza e dominar políticamente o meio ambiente social-democrata ganhou ares de rascismo. Como os judeus, os índios são vítimas do mais cruel racismo, pois sua proposta de vida, a solidariedade, choca, frontalmente, com o seu oposto, a ganância. Pior do que os judeus: são tutelados. Não possuem sequer identidade como categoria social, para se disporem do direito positivo nascido dos romanos e aperfeiçoado pelo código napoleônico, erigindo o poder burguês, no século 18.

Os personagens do documentário de Armando Lacerda são heróis permanentes, que lutam, bravamente, contra o perigo, constanre, de extinção da raça, patrocinada pela civilização que alcançou os mais altos graus de aperfeiçoamento civilizatório dado pela superestrutura jurídica do estado capitalista. Diante dos índios, tal superestrutura simplesmente é colocada a serviço do lucro como deus da salvação.

O resultado, para o lado oposto dessa extroversão do poder legal, é uma tragédia exposta aos interesses que manipulam a legalidade constituída. Os alimentos faltam, a água está sendo contaminada, as reservas invadidas, saqueadas, as mandiocas comidas pelo gado dos invasores, a fome ronda… O suícido indígena aumenta diante da sua própria impotência. O Estado nacional, a propósito de tutelar o índio, confere autotutela aos que invadem as terras indígenas, destruindo-as, brutalmente.

O Estado nacional visto pelo olhar do índio é o Estado anti-nacional que não garante a sobrevivência indígena de maneira dígna. É como o jurista especulador que esfola o lombo do povo com os juros compostos. Uma farsa de civilização escravocrata como proposta de modelo de vida, totalmente, inviável, para a saúde da natureza.

 

Uma história de destruição e morte

 

O panorama é tétrico, para as comunidades indígenas, principalmente, depois dos anos de 1940, quando o Estado nacional getulista amplia as fronteiras nacionais, para interiorizar o capitalismo nacionalista , que alcançaria sua gloria com JK, em Brasília. O espirito nacionalista fascista-getulista, diante da guerra, ganha dimensão política extraordinária no sentido de fortalecer o estado, para preservar o território nacional de interesses externos que se digladiavam no conflito bélico e ideológico.

Com JK, a expansão continuou eufórica, à custa de endividamento externo, que traria desenvolvimentismo, mas, também, colonialismo financeiro via juros altos. O país foi cortado de norte a sul e de leste a oeste pelas rodovias , a fim de criar o mercado consumidor para os automóveis de luxo fabricados pelas indústrias importadas que haviam entrado em decadência na crise de 1929.

Enquanto nos Estados Unidos, os gastos do governo em guerra, produtos bélicos e espaciais, puxavam o capitalismo, com a moeda estatal inconversível, na periferia capitalista era imposta a proposta industrial baseada na indústria de bens duráveis, que já haviam entrado em crise desde início dos anos de 1930.

Essa indústria impunha uma exigência: precisa de estradas em todo o território nacional. O modelo de desenvolvimento, baseado na fabricação de produtos de luxo, que requeria concentração de renda numa classe média capaz de consumi-los, seria, historicamente, o inferno astral para a vida das comunidades indígenas brasileiras.

Aonde chegou o consumismo dos bens duráveis, dinamizadores do capitalismo concentrador de renda, chegou a destruição dos índios. Sucumbiram-se à violência civilizatória, pois a civilização não tinha a proposta de negociação política com os índios, que já estavam há séculos em suas propriedades. A propriedade é dada pelo trabalho, suor do rosto, de acordo com a visão indígena. Confronto total, pois a visão do branco é oposto, ou seja, a propriedade é um roubo.

O discurso do branco foi a bala dos armados com armas de fogo contra os armados com armas da floresta, arco e flexa. Massacre.

A febre juscelinista de interiorização do país ampliou as fronteiras e mexeu com o estômago nacional. Os militares, como destaca Alisson Paulinelli, ministro da Agricultura do presidente Geisel, perceberam que era preciso aumentar a oferta de alimentos para garantir a base alimentar nacional ampliada pelo espírito investidor de JK que se espalhou pelo Brasil afora.

Tal expansão bateria de frente com os índios. Ela se daria com a ampliação das fronteiras nacionais do Centro-Oeste, utilização dos cerrados para plantar soja, desenvolvida pela tecnologia revolucionária da Embrapa etc. Os índios, que estavam na frente dessa armação política militar de ocupação das terras produtivas pelo setor privado, dançaram no jogo da civilização ocupacionista. 

Consciência internacional se rende ao líder xavante

A temática do filme de Armando Lacerda situa esse momento histórico no qual nascerá o cacique Mario Juruna, que terá vida de resistência à invasão do branco sobre as terras do índio, até se transformar em celebridade política nacional e internacional, depois que é descoberto pela grande mídia, em reportagens de Memélia Moreira, Eliane Lucena, Chico Dias e Marcio Braga, repórteres, respectivamente, da Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil.

 A história do branco é a epopéia da conquista do território dos índios, cuja alma se expõe no filme com uma dor amarga, mas, igualmente, expressando uma tenacidade incrível de uma civilização que se mostra não apenas disposta a resistir, bravamente, mas, também, negociar, porque sua índole não é a guerra, mas a paz.

Mas será possível a paz com as palavras do branco? Como diz o sábio Aniceto Suzavera, “o branco conta histórias, usa as palavras, que não têm ‘práticas’ nenhuma”. Por trás da representação, do aparente, está o latente, isto é, a destruição, a voz da destruição.

E a voz dos destruídos, quem contará? Qual a sua versão?

“Jururã, o espírito da floresta” abre espaço para o universo mental dos índios, a sua cabeça, a sua inteligência – sua bordina – , a sua racionalidade, sua paciência e sua explosão calculada enquanto busca socorro no próprio humanismo desenvolvido pela civilização que causa a destruição.

Teria sido inevitável a destruição dos indíos , como se dá na história brasileira, ainda, agora, quando as tensões guerreiras se apresentam no contexto das demarcações das terras indígenas?

O raciocínio do branco é unilateral. Jamais cogitou de negociar com o índio, de forma diplomática, respeitando o outro, sua civilização, seus costumes, sua lógica, sua visão prática. Primeiro, as balas, depois da escravidão.

O governo brasileiro, dos anos de 1950 em diante, incentivou a ampliação das fronteiras nacionais, no rastro das rodovias que rasgaram as terras indígenas, mas não cuidou de apreciar, valorizar e intercambiar com o pensamento político indígena, que obedece, racionalmente, a leis naturais. Precisaria ter ocorrido a destruição violenta de seres humanos indefesos?

Disse: “Por que brigar. Tem terra para todos. Tem terra para índio, para posseiro, para fazendeiro, para agricultor, até para multinacional. Falta organizar e planejar, para que todos possam trabalhar”.

Lamentou não participar da Assembléia Nacional Constituinte. Não fora reeleito para novo mandato depois do período que frequentou a tribuna como o primeiro índio brasieleiro a chegar pelo voto ao parlamento, entre 1983 e 1987. Sua missão disse, seria levar adiante os trabalhos da comissão do índio. Seria a base da conscientização política sobre a nessidade de consolidar partidariamente o pensamento indígena nacional.

 

O pensamento político indígena é riqueza sul-americana

 

A voz política indígena é ancestral e nos Andes é forte, tanto que está no poder, na Bolívia, chegou, agora, ao poder no Paraguai e tem participação forte, igualmente, no Peru, na Colômbia e na Venezuela. Juruna via longe, pois sua meta era a supressão da tutela constitucional sobre o índio. Sua cabeça não cabia nesse molde escravocrata,nem a dos seus parentes, pois têm consciencia de que constituem uma nacionalidade.

Os depoimentos de  cacique Salvador, de Vitória Pedzerone, Aniceto Suzavera, Diogo Amho, José Maria Paratsé, cacique Damião , Juliano Xavante entre outros são o olhar e o ponto de vista político do índio, em um documentário que expõe plasticamente com vigor a beleza da vida natural e singeleza de um pensamento simples, sábio e consciente.

A passagem de Juruna pelo Congresso é a passagem de um grande estadista, que impressiona pela sua exuberante racionalidade dada pela vivência prática de um povo sofrido pela desvastação capitalista especulativa que domina a história nacional.

Darci Ribeiro sacou a genialidade de Juruna e abriu espaço para ele na política, idéia acatada por Brizola, que, merecidamente, representou primeira consciência político partidária nacional a reconhecer direitos políticos dos índios.

O Congresso devia alto tributo ao cacique Mário Juruna – Jururã entre seus pares – , porque traiu a causa indígena. Não respeitou a vontade nacional que levou o índio ao parlamento cuja missão, a de criar espaço político para os índios, nos partidos, como representatividade efetiva, merece o desprezo das cúpulas partidárias nacionais, adversárias arrogantes do pensamento indígena que reivindica maioridade política.

Juruna mostrou inteligência poderosa que incomodou os poderosos. Falou como representante de uma nacionalidade para outra nacionalidade. Comportamento altivo, dado pela consciência dessa nacionalidade e da necessidade de preservá-la.

Naturalmente, em defesa da sua nacionalidade, incomodou. Peitou de frente os militares, abrindo discussão internacional da causa maior indigena, isto é, a defesa da demarcação das terras.

 

O Congresso traiu a causa indígena até agora

 

No Tribunal Bertran Russel, na Holanda, em 1983, chegou como ídolo de povo resistente à ditadura militar. O governo não conseguiu evitar sua viagem, dadas as pressões de organismos políticos europeus e americanos, dispostos e ouvir do líder discurso autêntico, socialista, humanista, espiritualista.

O filme de Armando Lacerda mostra, sobretudo, o humanismo indígena e a contribuição política que ele pode dar ao progresso do pensamento político humanista nacional. Da extrema exploração, da extrema pobreza, nascem os pensamentos mais nobres e gerais que abrem luz à humanidade.

A voz experiente e lúcida de Aniceto Suzavera, que veio, com Juruna, à pé da sua aldeia, São Marcos, até Goiânia, para chegar a Brasília, a fim de iniciar, nos anos de 1970,  a epopéia de Juruna, no cenário político nacional, a partir das denúncias dos massacres contra os índios,  é um caminho seguro para construção de diálogo político capaz de construir sociedade mais solidária.

O filme impõe uma necessidade, a de que haja reativação e fortalecimento do pensamento indígena no cenário político nacional, especialmente, no momento em que a humanidade vive os estertores de um modelo de vida ocidental que está falindo, por destruir a natureza, graças ao predomínio do egoísmo e do individualismo exacerbado.

A vida de luta, nobre e dura, dos índios, que os leva, no cotidiano, a um comportamento social solidário, oposto ao individualismo incontrolávelmente egoista, coloca em cena uma proposta racional que deve ser mesclada à irracionalidade civilizatória, para dar uma demão na razão e no bom senso.

A visão indígena, pelos personagens do filme, apresentando em cores vivas por uma comidade confiante na conquista da sua felicidade, é contribuição cultural indispensável à construção da própria nacionalidade.

Como disse, orgulhosamente, Juruna em discurso antológico: “Se o Brasil tivesse mais de 50 Juruna, já teria mudado há muito tempo”. O documentário é o resgate para a história de um líder político nacional de primeira linha a ser cultuado como herói.

Uma resposta para “Brasília fatura festival de Trieste”

  1. Muito bom, excelente, que o filme Juruna: o espírito da floresta tenha sido homenageado com honras.
    Parabéns para todos que contribuiram e se esforçaram pa que isso acontecesse, principalmente ao Armando Lacerda.
    Eu conheci a luta do Mario Juruna de perto, e continuo atuando no indigenismo, embora muito decepcionado com as atuais manifestações de governo sobre os povos indígenas seja do Executivo , do Legislativo e até mesmo do Judiciário.
    Mais filmes sobre sitencia indígena deveriam vir a tona para o público brasileiro e internacional, pois o que está registrado na história é que os Estados Nacionais e Estrangeiros, com suas filosofias e crenças econômicas – capitalista – promovem a invasão e destruição dos povos indígenas.

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