EUA vendem UE e compram BRICs

 

A primeira grande crise monetária do século 21 coloca os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – como principais alvos de desejo do neo-semi-falido Tio Sam, que abandona a neo-semi-falida Europa às traças financeiras destrutivas.

Numa nova concertação monetária poderia pintar a moeda BRICs, sigla inventada pelo banco Goldman Sachs, no estudo “Dreaming with BRICs: the path of 2050”, em que prevê, nos próximos 40 anos, a predominância desse novo grupo no cenário global, deslocando os outrora poderosos absolutos, Estados Unidos e Europa?

O Grupo dos 7 mais ricos(EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Japão e Canadá), que se reuniu, na sexta e no sábado, em Washington, mostrou o óbvio: os ricos europeus não sacariam parte de suas reservas para salvar os Estados Unidos, baleados, na crise, fazendo dobradinha entre o Banco Central Europeu(BCE) e o Banco Central Americano(BCA), para resgatar títulos podres dos bancos falidos.

Resultado: fracasso da reuniâo. O Grupo dos 7 – são eles os patronos do unilateralismo e, não apenas, os americanos – esfarelou-se.

A Europa se recolhe para lamber feridas abertas

 

Os europeus, largados por Tio Sam, voltaram, correndo, para casa, partindo para ação emergencial conjunta – arrumar algo em torno de 2,3 trilhões de dólares(1 trilhão de euros), para irrigar o sistema financeiro europeu em bancarrota – , para não entrarem em crise política aguda.

Se estavam, inicialmente, tendentes a cada um ir para o seu canto, dentro da comunidade européia, depois do fracassado encontro de Washington, na tentativa de coordenação entre os ricos, para agirem conjuntamente, alarmaram-se diante da possibilidade de ficarem sós. No calor da crise, os líderes europeus sentiram a barra. Não haverá saída para eles, senão agirem, conjuntamente, CQC, custe o que custar.

Como, isoladamente, faliram, restaram-lhes, financeiramente, ampliar a união europeia, mesmo que a institucionalidade política do continente não tenha ainda vigando inteiramente. Ela se tornou imperativo categórico.

Do contrário, poderão pintar, nos países europeus, individualmente, tendências políticas nacionalistas variadas em seu conteúdo ideológico, como resposta radical da ira popular contra os governos irresponsáveis que levaram a economia ao desespero especulativo, suspendendo regras e regulamentações, cujo efeito é pobreza reltiva emergente.

Hitler surgiu depois da crise monetária de 1931, na Europa, começando pela Austria, espalhando, em seguida, por todo o continente, gerando tendências fascistas e nazistas irresistíveis.

Repetiriam os líderes europeus a dose hitlerista, como reação ao avanço do pensamento socialista, sintonizado com a pregação de Lenin de que as crises monetárias são parteiras do socialismo?

Se a União Europeia fracassasse, agora, novos hitleres poderiam botar a cabeça de fora. A Europa unida poderia impedir avanço do nazismo. Favoreceria o socialismo, de forma controlada, numa nova versão avançada da social-democracia, em versão avançada relativamente à moda chinesa?

 

W. Bush jogou os europeus a sua própria sorte

 

O presidente W. Bush, parece, jogou calculado. O que teria a ganhar, entrando no barco furado europeu, a menos que a Europa colocasse grana na praça americana, para ajudar Washington a pagar os pepinos da bancarrota do dólar derivativo?

O que tem a Europa a oferecer, se não tem mais grana? Petróleo? Alimentos? Metais? Só teria tecnologia e cultura. Esta, rica, única; aquela, avançada, porém, democratizada, patrimônio de todos, não apenas europeu.

Como o titular da Casa Branca percebeu que não tiraria mais carne do osso, correu, então, para os braços do Grupo dos 20. O semi-falido esfarrapado Tio Sam, no sábado, à noite, no meio dos emergentes foi histórico. Ficou entre os quatro mais ricos em ascensão, os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China. Somados, correspondem a quase 25% do PIB mundial. Tio Sam detesta pobre e adora rico.

Aos europeus, neo-semi-pobres, tchau; aos emergentes, neo-ricos, olá, gente!

W. Bush pontificou ao lado dos ministros dos países em desenvolvimento demonstrando que são eles a companhia que, realmente, interessa ser cultivada pelos Estados Unidos. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, colocará o retrato na parede. Como presidente pró-tempore do G 20 ficou de peito cheio ao lado do falido Tio Sam. História.

A Europa ficou para trás. Perdeu serventia para os americanos. Afinal, os europeus não podem mais continuar bancando o financiamento de parte importante do deficit americano de 6% do PIB dos Estados Unidos, algo em torno de 800 bilhões de dólares de um total de 13 trilhões de dólares. Esse jogo foi possível de ser jogado desde Bretton Woods, em 1944, quando Washington, com o dólar todo podereso estabeleceu a nova divisão internacional do trabalho. O dólar de hoje é uma sombra daquele passado glorioso.

Se os governantes europeus, no contexto da destruição monetária, continuassem bancando o jogo de sustentar parte dos deficits americanos, adquirindo títulos da dívida pública lançados pelo tesouro dos Estados Unidos, tendo como lastro o dólar deslastreado, fictício, provocariam crises políticas agudas, dada a consciência política desenvolvida européia. Por que salvar os americanos, se os europeus estão em processo de autodestruição?

Por outro lado, para os europeus, não teria sentido continuarem financiando os déficits americanos, se não haverá possibilidade de a economia européia prosseguir acumulando superavits comerciais na praça americana, em processo de esfriamento no compasso da grande crise monetária.

Se o que está pela frente é a recessão, o mercado americano não absorverá as mercadorias européias na escala necessária para permitir que a Europa continue, como vinha fazendo desde o pós-guerra, financiando Washington.

Neo-divisão internacional do trabalho à vista

Os Estados Unidos, no pós-guerra, com o dólar forte, promoveram divisão internacional do trabalho cuja configuração ficou clara: a moeda americana passaria a ser o equivalente universal nas relações de troca, impondo deterioração nos termos destas em favor dos EUA.

A economia americana seria francamente importadora do mundo, gerando superavit comercial na Europa e na Ásia, para salvar o capitalismo europeu e asiático das garras do comunismo. O Plano Marshall foi isso.

O preço a pagar pelos aliados seria o financiamento dos déficits americanos com o dinheiro adquirido com os superavits comerciais europeus e asiáticos. Jogo de duas mãos.

Tal preço representava a garantia de o capitalismo, super-armado com bombas atômicas e nucleares, ganhar a parada política, econômica e militar da URSS, enquanto era sustetanda a guerra fria e as demais guerras que viriam pela frente como a do Vietnam etc.

Quando os americanos, em 1979, diante a moeda ameaçada pela inflação decorrente do excesso dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, petrodóalres, nipodóares, na praça global, subiram a taxa de juros de 5% para 17%, quebrando a periferia capitalista, para dar sustentação e confiança à moeda equivalente geral nas trocas comerciais globais, o ex-ministro Delfim Netto, no governo Figueiredo, entendeu o jogo: “É o preço que os Estados Unidos cobram para sustentar a democracia representativa e a segurança do mundo contra os comunistas”.

E agora?

A nova ordem relativa do poder estabelecido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bancarrota financeira global atual mostra quadro inverso. Os Estados Unidos, exaustos de tantos déficits gêmeos, como custo de sustentação do capitalismo global, gastando em consumo e armamentos, à moda keynesiana, abriram o bico.

Não têm mais gás para bancar, com rítmo acelerado, a economia de guerra.

Se a Casa Branca está gastando o que não pode para comprar títulos podres na praça americana, a fim de evitar quebradeira geral não apenas dos bancos, mas dos contribuintes, como continuar financiando guerras caras, como a do Iraque, que já consumiu mais de 2 trilhões de dólares, como destacou Josef Stiglitz, premio nobel de economia? 

Por não poder mais suportar elevados deficits, na escala necessária, capaz de puxar a demanda global, a partir da economia de guerra keynesiana, é de se prever que uma nova geopolítica-estratégica econômica e militar emerja no Oriente Médio, com o Iraque, fragilizado, sendo atraído para o Irã, enquanto Israel terá dificuldades de continuar se financiando no tesouro americano, preocupado com a guerra maior, interna, desatada pela bancarrota financeira. 

Sairia mais facilmente o Estado palestino? Tudo está virando de ponta cabeça.  

A Europa e a Ásia –  Japão, antes, e China, depois – poderão dizer não à continuidade do processo do pós-guerra. Ganharão o que, se o mercado americano vai dar uma esfriada legal?

Teriam que retirar das suas reservas acumuladas para financiar o tesouro americano. Sem capital de giro, enfiarão a mão no bolso?

As posições, de lado a lado, dos Estados Unidos e da Europa, ficaram rígidas. Os europeus, entregues à sua falta de segurança na ausência do mercado americano, em baixa, e resistentes a sacarem suas poupanças, que viraram pó, na crise, perceberam a necessidade de correrem do jogo proposto por Washington.

 

Chavez pode ir à Casa Branca baleada pela crise

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Casa Branca lavou as mãos e correu para conquistar os novos aliados, emergentes, que serão, também, alvos do interesse europeu. Os BRICs e a América do Sul têm muito mais a oferecer a eles do que eles aos BRICs e aos sul-americanos.

Surgem nova correlação de forças políticas e econômicas no cenário das trocas comerciais.

Os preços das matérias primas, das quais toda a manufatura global depende, tendem a aumentar, por serem, relativamente, escassos. Já os preços das manufaturas, por serem fartas, dado o aumento exponencial da produtividade, impulsionada pela ciência e tecnologia, colocadas a serviço da produção, tenderão a cair, relativamente.

Ou seja, os pesos relativos das matérias primas, de um lado, e os preços relativos das manufaturas, de outro, serão alterados em favor dos primeiros e em prejuízos dos segundos, como destacou o ex-presidente FHC em recente reunião com os tucanos em Brasília.

Nesse ambiente, os Estados Unidos se interessarão por uma nova ALCA, não com a cara que antes pretendia imprimir, ou seja, preponderância do discurso de Tio Sam sobre o quintal de sua suposta propriedade, a América do Sul, historicamente,  mas com a fisionomia nova, que os neo-aliados emergentes estabelecerem, na base do consenso.

A ira de Hugo Chavez contra Tio Sam pode dar lugar a uma flexibilidade na era pós-Bush. Da mesma forma, Tio Sam não terá mais vigor para impor a Cuba eterna discriminação, porque os aliados de Cuba, no continente, colocarão, na mesa, a exigência de supressão do bloqueio comercial contra a resitente e brava Ilha caribenha socialista fidelista.

América do Sul e Caribe, cujos ministros da economia, recentemente, se reuniram pela primeira vez, na história – conforme disse o ministro Celso Amorim ao repórter Roberto D’Avila – estão diante de novas possibilidades, prontas a sairam da condição de subordinação para a de coordenação dos seus interesses, fora das influências externas, a partir de um conjunto de interesses convergentes sul-americano-caribenho?

Nova configuração geoestratégica, portanto, coloca os Estados Unidos, não mais como aqueles que vê a América do Sul, a Ásia e a África, como dependentes de Washingotn, aliados menores, mas, maiores, isto é, caminhando para serem independentes de Tio Sam.

Tempo de subordinação abre para o de coordenação

A Casa Branca, como demonstrou W. Bush, na reunião do G20, quer ficar perto dos que têm a oferecer vantagens. Que vantagens a Europa oferece ao capitalismo americano? Os bancos europeus faliram. O mercado consumidor da Europa, para as mercadorias americanas, é insuficiente. Insumos básicos, nada. Enfim, mala sem alça. Igualmente, Tio Sam, para os europeus, virou  avião jumbo sem asas.

Otelo destesta Iago e Iago não tolera Otelo.

Já a America do Sul possui tudo o que os americanos desejam. O que vai ser mais vantajoso, de agora em diante, para a economia americana? A aproximação com quem tem bala ou a com quem está desarmado e falido, querendo comprar fiado?

Como vão precisar de energia em escala crescente, a fim de se livrarem da dependência do petróleo, que exige guerras, cujos custos não podem pagar, na escala em que sustentaram até agora, os Estados Unidos, como alternativa, ampliarão suas alianças com a America do Sul. Os BRICs são sua salvação.

Pode pintar, inclusive, como destacou Delfim Netto ao jornalista William Waack, a necessidade de o governo brasileiro impor uma tarifa de exportação sobre o álcool para evitar que toda a produção, nos próximos tempos, se destine ao mercado americano, colocando pressões inflacionárias sobre o mercado brasileiro de etanol.

A América do Sul estará preparada para viver novos contextos políticos altamente transformadores da mentalidade subordinativa histórica que as liderança sul-americanas, ancoradas nos velhos coroneis e em políticas industriais semi-integradas, dependentes, para incorporar-se do oposto, isto é, de mentalidade coordenativa, em torno da União das Nações Sul-Americanas?

Nova lider sul-americana diante de grandes desafios

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por que Michelle Bachelet, presidente do Chile e pró-tempore da Unasul, ainda não reuniu os líderes sul-americanos, para esse debate, depois de três semanas de terremotos financeiros globais, lançando novas sementes da ordem internacional?

A Unasul, que mostrou sua efetividade na superação parcial da crise boliviana, evitando destruição fascita do governo de Evo Morales, por uma oposição separatista disposta a ir ao extremo da radicalidade, terá pela frente a tarefa de coordenar a América do Sul no novo cenário global.

Trata-se de alcançar os propósitos sul-americanos maiores:  moeda sul-americana, banco sul-americano, segurança sul-americana, tribunal su-americano, parlamento sul-americano, que originarão pensamento sul-americano.

 Qual o lastro real sul-americano, no compasso da crise? A riqueza real sul-americana: biodiversidade infinita, petroleo – renovável e não-renovável – , metais, alimentos, terra, água e sol que garantem até três safra anuais etc. Ou seja, moeda que se sobrevaloriza diante da moeda equivalente internacional, o apodrecido dólar derivativo, que se sobredesvaloriza, pois seu lastro é, tão somente, ficção.