Crise prenuncia paz

 

O que a primeira grande crise monetária do século 21 está demonstrando, sobejamente? Que a mediocridade humana passou da conta.

Com seus exclusivismos, individualismos, egoísmos, narcisismos, amor próprio exarcerbados, o ser humano, que detesta o outro, que não perdoa um grande favor por pura inveja, reconhece, subitamente, no colapso, que é pequeno demais, que não dá conta do monstro que criou para si, tocado pela alienação ideológica do capital.

Prisioneiro dos baixos instintos detonados pela ambição, manobrou, historicamente, sob o capitalismo, situação global que destroi ele mesmo, porque, ao não pensar no outro, mas, em si, preferencialmente, colocou no chinelo a pregação de Adam Smith.

Deu em lambança geral  a tese do formigueiro, que inspirou o autor de “A riqueza das nações”, do formigueiro humano, que, trabalhando, como formigas, acumularia riquezas equitativamente, distribuindo-as como se trabalha para realizá-las, coletivamente, de modo a que o preço se equilibraria por meio de uma abençoada mão invisível. 

 

Formigas atômicas anti-solidárias 

Diferentemente das formigas, que trabalham, instintivamente, a besta humana acreditou na supremacia absoluta da racionalidade perdendo a instintividade. Quanto mais se afastou da natureza, mais perdeu os instintos, como destaca o professor Tomio Kikuchi, em  “Estratégia”. Sem sensibilidade instintiva, dada pela natureza da qual o ser humano é extensão como pretensa forma de protegê-la, julgou-se superior a ela, destruindo-a.  

Detestou ser considerado natureza. Partiu, idiotamente, para seu próprio aniquilamento. Muita inteligência acumulada pelos desvios ideológicos do utilitarismo mecanicista.

Na bombástica crise monetária neoliberal,  os vaidosos correm, prá lá e prá cá, buscando gente, para juntar, em torno de uma só causa. Qual? A salvação de todos. O que isso demonstra? Incapacidade do individualismo.

Depois da crise de 1929, cada país foi para o seu canto, tocar seu nacionalismo nazi-fascista. Foram, cada qual, buscar seu Hitler, seu Mussolini, seu Getúlio, seu Roosevelt, seu Stalin etc. Roosevelt, no seu livro “Mil dias”, reconhece que o que fazia nos Estados Unidos, na sua ocasião, era a mesma coisa que Hitler e Stalin estavam fazendo, só que ele atuava de maneira mais organizada… 

E agora, na grande crise de 2008, muito mais global do que a de 1929?

Vai pintar neo-nazismo, neo-fascismo, se o que está entrando em crise é justamente a moeda fascista, estatal, sem lastro, keynesiana, impulsionadora da economia de guerra, da qual os Estados Unidos lançaram mão para neutralizarem avanço do comunismo, durante todo o século 20. Roosevelt teve amplas razões para compará-lo a Stalin e Hitler.

O nazismo perdeu a guerra, mas ganhou a paz.

 

Individualismo dançou na ganancia bancária

Os gritos nacionalistas não se ecoam, fortemente, nesse instante, porque a experiência de cada um tentar se salvar sozinho já foi negada historicamente. Repetir falsa e farsamente a história?

Tudo é relativo. Além do mais, a bomba atômica, expressão maior da economia de guerra, erigida pelos Estados Unidos, na força do dólar, que agora pede água, não confere mais poder geoestratégico.

Perdeu sua função, de fazer afirmação pela força por parte de quem a detém. Soltar a bomba seria mais uma vez tentar destruir o outro sem imaginar que o si mesmo explodiria também. O si e o outro são o outro e o si, interativamente, dialeticamente. Sucata atômica.

Para beleza geral, fortalecendo o discurso da paz,  os americanos, pelo menos, por enquanto, não terão fôlego para continuar mantendo em pé o estado industrial militar dos Estados Unidos, assim denominado por Eisenhower, em 1960, para ser o gendarme do mundo contra o avanço comunista.

Qual seria a opção preferencial do império americano, sob Barack Obama, Democrata, ou sob John MacCain, assim que pisarem o pé na Casa Branca, a partir de 2009? Jogar a poupança popular, expressa na capacidade do estado americano emitir moeda, na guerra do Iraque e na do Afeganistão, para abater Bin Laden, ou tentar, urgentemente, salvar os americanos do terremoto financeiro que, como uma guerra autodestrutiva, empobrece os outrora ricos e poderosos?

A guerra não é mais externa, mas interna. Até agora os governos nacionalistas americanos construiram seus heróis nas guerras externas. Poderão, de agora em diante, virar bandidos a serem caçados, como acontece, politicamente, em relação aos banqueiros nos Estados Unidos.

Os problemas internos requererão gastos prioritários que resultarão em diminuição de recursos para os setores da guerra, antes prioritários, agora, podendo ficar secundários. A paz aplaudiria, ou não? A grande crise da economia de guerra entra em total contradição, abrindo espaço ao seu contrário, a paz, como solução. Show.

O caos capitalista seria seguido pelo caos nacionalista, o caos individualista? Seria optar pelo caos para se salvar do caos!

 

O susto cria novas realidades

02Os sucessivos encontros dos assustados e assustadas líderes, como Angela Merkel, da Alemanha, mostra que alguma humildade está pintando. Os europeus, que cairam no conto de Tio Sam, comprando papéis podres do mercado imobiliário, para distribui-los na praça européia, correram para juntar-se aos asiáticos, também, caloteados. Rearrumação geral da casa global em novas bases.

No próximo dia 15 de novembro, data, seguramente, histórica – aliás, os dias atuais estão burbulhantes, historicamente – os ricos, Grupo dos Sete, outrora grandes, vão se reunir com o Grupo dos 20, atuais emergentes, não se sabe até quando, para discutirem juntos a saída da abismal bancarrota financeira global.

O que isso sugere senão reconhecimento do fracasso doindividualismo a pedir socorro a um espírito cooperativo?

Os estados nacionais, isoladamente, fonte do poder nos séculos 18 e 19 , quando surgem com avanço do capitalismo, alterando , no século 20, o status quo das monarquias, com suas moedas de ouro e prata, demonstram ser, nesse instante, menores do que a crise.

Ela sobrepujou a todos, monstrando o poder educativo das tempestades. O todo orgulhoso de Wall Street, Henry Paulson, secretário do tesouro americano, coitado, abriu o bico e disse que ser humilde é a melhor saída. Fazer o que?

Depois da queda do muro de Berlim, todos lembram, Tio Sam arrotou unilateralismo eterno. Tal qual Hitler, que pregou poder de mil anos para o nazismo, sob hitlerismo suástico, o velho caquético do Norte, do alto dos escomboros do envergonhado muro, que veio ao chão, com o comunismo, pregou o fim da história. Pretensão infinita.

 

Feliz início da decadência do inútil

Esqueceu de ver que seria o inicio da decadência de sua própria história. W. Bush, completamente, desmoralizado, pede unidade mundial, porque todos, segundo ele, são os náufragos. Confissão do fracasso.

O mea culpa espetacular de Alan Greenspan é altamente educativo. Sua velhice lhe confere dignidade, para reconhecer o grande erro histórico que praticou. Não deixou a vaidade cegá-lo, pondo-o a negar evidências que a história confirmará – já está confirmando. Sensacional.

Foi uma enxurrada monumental de equívocos porque a abstração tomou conta da realidade, deixando todos iludidos com a falsidade de suas próprias fragéis certezas e convicções furadas. Trem bão essa crise, sô. Que purgante brabo, meu!

Os temerosos de que a democracia pode ruir, como o economista e sociólogo Eduadur Gianetti, têm que se antenarem, antes, na possibilidade de o individualismo, que destroi o sistema democrático, transformar-se em alternativas.

O próprio comportamento dos falsos líderes-profetas mundiais atuais, de correrem para se aninharem no colo um do outro, demonstrando impotência para enfrentarem, isoladamente, o monstro, é sintoma de comportamento comunitário buscado ansiosamente como antídoto ao comportamento individualista. Quem tem buraco tem medo.

Utilitarismo perde utilidade na crise global

O jogo da guerra está deixando de ser interessante para os sete grandes, porque terão que gastar muito internamente, transformando-se os conflitos bélicos em preocupões, no quadro de emergencias catastróficas econõmicas gerais, de segundo plano.

Os orçamento da guerra tenderiam a murchar em nome da paz para conter ameaça interna de guerra civil dentro dos próprios Estados Unidos, caso aprofunde a expropriação financeira das famílias americanas e européias.

Teria que haver guerra antes de haver paz? Tudo pode acontecer, com a emergência da irracionalidade econômica capitalista, que, como Marx demonstrou, sobrevive, sob a moeda estatal, dinamizando as forças destrutivas, na guerra.

O grande bem da grande crise é a negação explícita do modelo da economia de guerra, porque o seu promotor, o governo, mediante moeda estatal deslastreada, perdeu o fôlego financeiro, está sob desconfiança na praça.

Outro dado excelente da crise é que ela questiona as lideranças nacionais. Estas se revelaram um bando de incompetentes, os verdadeiros empecilhos ao avanço da humanidade, como sentenciou Trotski.

Os governos que tais desmoralizadas lideranças comandam foram estimulados, por legislação, amplamente, avalizadas por eles, a apostarem na ilusão especulativa em detrimento da visão realista dos fatos e de sua produção como fruto, não de construções cerebrais, formuladas nos laboratórios de macroeconomia, em esquizofrenia completa, mas da relação entre classes sociais antagônicas, que circulam, contraditoriamente, no interior dos partidos.

 

Falsas lideranças, maior problema nacional

Viajaram na maionese, todos a serviço da elaboração de produtos especulativos, derivativos, pura arquitetura maquiavélica jurista-bancária-fictícia. Esse mundo implodiu geral no colapso do subprime. Positivo, para as mentes em busca de clareza, liberadas da ideologia despistadora neoliberal.

No novo ambiente, em que as bases do velho status quo viraram fumaça, as formulações novas estão pedindo líderes, como papel em branco para ser escrito com criatividade. Tal hipótese ainda está por surgir, pois o que de novo existe na praça é velharia que tenta ressuscitar.

O presidene do Banco Central, por exemplo, acredita que o dólar continua forte. Por isso, quer utilizar o real para comprar moeda americana, a fim de lubrificar a praça que está especulando com ela, jogando contra a moeda nacional.

Meirelles, na prática, quando faz isso, está jogando, também, contra o real, ele e os banqueiros. Por que? As resistências dos grandes bancos em trabalhar com os depósitos compulsórios, em reais, para irrigar a praça, a fim de combater a inflação, demonstram insegurança que transferem para a moeda, detonando-a, na medida em que lançam desconfiança. Ou seja, total falta de compromisso com o real e total compromisso com o dólar.

Preferem apostar no dólar. Qual é o lastro do dólar, nesse momento? Nenhum. Pura moeda podre. Emite-se moeda sem lastro para cobrir papéis sem lastro que apodreceram.

Qual o lastro do real? Petróleo, metais, alimentos, terras, energia, biodiversidade incalculáveis, brasileiras e sul-americanas.

Não acreditar no real, em tal contexto, é não acreditar em si mesmo. O Congresso vai cair nessa conversa fiada do presidente do BC?

Apostar no rico que está ficando pobre e desdenhar da força do podre, emergente, que tem condições plenas de ficar rico? Falta total de autoestima e disposição política para lutar pelo que é autenticamente nacional, sua moeda.

Se depender das falsas lideranças nacionais, para sair da crise, o Brasil está lascado. Historicamente, essas lideranças sempre pensaram com a cabeça dos outros, dos europeus , dos americanos e de suas medicações extravagantes.

Ora, os outros, como reconheceu Greenspan, entraram pelo cano. O espírito de manada é o de entrar na tubulação geral?

 

Economia política do NÃO

“A crise completa – Economia Política do Não”(Lauro Campos, Boitempo, 2002) candidata-se a ser orientador geral dos fracassados líderes nacionais e internacionais, a partir de um pensamento autenticamente brasileiro-sulamricano, florescido, abundantemente, na Era FHC, enquanto exerceu senatoria, mas, completamente, escanteado pela grande mídia, que o considerava doido.

“Minha loucura é minha lucidez”, disse Glauber Rocha aos seus críticos, quando defendeu o nacionalismo de Geisel contra o neoliberalismo de Carter, em 1976, com a grande imprensa torcendo pelo americano, alienadamente. Agora, os mais inteligentes e espertos estão excitados com o “poder” do dólar, sem lastro, que precisa do real, como troca.

O Congresso começa a debater a grande crise a partir dessa semana com a corrente neoliberal falida, comandada pela grande banca, pedindo reais para comprar dólares, dos quais os japoneses, por exemplo, estão fugindo.

Por que ? Perceberam que as dívidas americanas de posse do tesouro do Japão são papeis podres. Preferem o yen, valorizando a moeda nacional na crise. Qual o lastro do yen? A vontade política japonesa, já que os japoneses não têm riquezas reais para alimentar sua própria manufatura.

Já o Brasil, dispõe das riquezas reais, mas não tem vontade política, subtraída pela subordinação de falsos líderes a uma conjuntura que explodiu e exige novos paradigmas.

Vendilhões dos templos assustados, sem condições de formulações sadias, porque pensarem sempre pela cabeça alheia, detonada pela crise.  Como construir o modelo da paz, se sua cabeça é formada pela economia de guerra? O fim desta é o prenúncio da paz ou da guerra. Negação da negação.