Colapso da economia de guerra

A bancarrota financeira americana, que está levando a economia global à recessão e provocando tremendos equívocos em líderes políticos, como o presidente Lula, que quis parecer maior que os problemas do mundo, desdenhando fatos dramáticos, coloca ponto final na dinâmica da economia de guerra, bancada por moeda estatal sem lastro real, fictícia, que, agora, no estouro do mercado imobiliário, se revela podre.

Balança perigosamente o poderio do Estado Industrial Militar Americano, assim concebido, em 1960, pelo presidente Eisenhower, a partir dessa moeda guerreira, altamente, contraditória, intervencionista, ditatorial, permanente ameaça à democracia. 

Na base dela ergueu-se visão imperial para dominar unilateralmente o planeta terra do pós-guerra. 

Os Estados Unidos seriam os consumidores-mor do mundo, puxando a demanda global com moeda estatal deslastreada, ancorada em títulos comprados pelos exportadores para o mercado americano. Em troca, seria o gendarme protetor do mundo contra os fantasmas do comunismo.

Tal armação, estrategicamente, concebida em 1944, em Bretton Woods, no pós guerra, que prosseguiu com novas guerras,  inaugurou o poder do dólar, que, agora, em 2008, balança na desvalorização monetária detonada pela especulação desenfreada.

O dólar emergiu dos escombros da guerra e da falência da libra esterlina inglesa todo poderoso, cobrando senhoriagem na imposição de deterioração nos termos gerais de troca cambial, para enriquecer os americanos. 

O poder de uma nação sobre a outra é, segundo Keynes, exercido pela moeda. O dólar de 2008 é, apenas, sombra turva desse passado glorioso.

O que está entrando em tremenda crise não é, propriamente, o neoliberalismo. É o keynesianismo, a moeda estatal deslastreada keynesiana que construiu o estado imaginado por Eisenhower como algo que se eternizaria. 

É essa solução do estado gastador para puxar a demanda global, na guerra, que bate biela.

O pensamento de Keynes, que orientou a direção da economia de guerra americana a partir de 1936, com Roosevelt, revelou, na crise bancária presente, seus próprios limites. A moeda sem lastro do estado capitalista, na crise financeira incendiária, que pode trazer revolução política no seu rastro, deixou de ser solução, para se transformar em problema ainda sem solução.

A contradição explode, agora, dentro dos próprios Estados Unidos. A economia de guerra, bancada pela moeda estatal, que dinamizou o capitalismo no século 20, entrou, agora, em guerra contra seus próprios soldados, o povo americano.

O modelo de guerra passou a escalpelar violentamente os contribuintes e mutuários americanos, na crise bancária , fruto da anarquia financeira detonada pela dinâmica capitalista impulsionada por moeda fictícia. Em nome dela foram detonados todos os controles e regulamentos capazes de impedir sua autonomização suicida. O Estado, na prática, sob o modelo keynesiano, suicidou-se, como havia se suicidado, em 1929, o neoliberalismo de mercado. 

Bancada com o dinheiro estatal, a estratégia de guerra americana no pós-guerra está, ao que parece, esgotando-se. Se o governo está sem bala para colocar dinheiro para salvar os contribuintes prejudicados pela ganância financeira, como bancaria, diante do povo empobrecido, os gastos crescentes com guerras externas, como as do Iraque e do Afeganistão, cujo custo supera 3 trilhões de dólares?

A expressão política da bancarrota da economia de guerra ainda não está desenhada, podendo ser um anjo ou um monstro.

Guerra interna maior que externa

O governo americano está diante de uma guerra interna muito mais perigosa, potencialmente, que as guerras externas. As externas não detonaram governantes. Pelo contrário, elas produziram heróis. John MacCain, candidato republicano, é um deles. 

Ao contrário, a guerra interna pode expulsar governantes do poder, dada a ira popular contra a ganância financeira, como destacou o economista Paulo Nogueira Batista Junior, representante do governo Lula no FMI.

O jogo da guerra estava sendo possível de ser bancado enquanto a dívida pública interna, avalista dos consumidores, tinha credibilidade ilimitada, no papel de regular o valor da moeda, por meio da política monetária dirigista do Banco central americano. 

Se essa possibilidade está sendo colocada em risco, na fogueira monetária em curso, por que os americanos continuariam bancando guerras externas. A jogada imperialista está em risco.

John Maynard Keynes foi profético ao conferir que o capitalismo necessita da guerra na fase pós padrão-ouro de 1929 : “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto, em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensbilizarem com uma grande dissipassão de recursos na preparação das armas, aprenderiam a conhecer sua força, e aprenderiam de uma forma como nunca poderão aprender em outra ocasião; aprenderão uma lição que logo poderá servir para reconstruir o mundo que compreenderá os principaís princípios que governam a produção da riqueza. As preparações de guerra, longe de requererem um sacrifício, serão um estímulo que nem a vitória nem a derrota do New Deal pode oferecer para um maior consumo individual e um melhor nível de vida” (trecho de artigo de Keynes, em  New Republic, em 1940, citado por Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, 1980, Campus, prefácio de Edmar Bacha).

Não há dúvida: a estratégia capitalista keynesiana, que Roosevelt adota, expressa na decuplicação dos gastos do governo, movimenta, dinamiza e reproduz o capitalismo americano que havia entrado em crise em 1929, mas com uma particularidade importante: a dinâmica do sistema seria dada pelos gastos do governo, não mais da iniciativa privada. Essa revelara os seus limites na crise de 1929. Todos os presidentes americanos, depois de 1936, não deixaram cair a lição keynesiana, cuja força é contestada na crise do subprime.

 

Nova divisão internacional do trabalho

 

O que entra em crise, agora, é o modelo de estado keynesiano americano ancorado em moeda deslastreada que organizou a economia mundial a partir da visão americana no pós guerra, tendo a divisão internacional do trabalho subordinada aos interesses dos Estados Unidos e sua moeda, o dólar.

Os americanos, com o dólar competitivo, para ajudar os aliados, transformou-se no polo consumidor global, enquanto os aliados se posicionaram no lado oposto, no polo das exportações de mercadorias para o consumidor americano. As exportações dos aliados se revelam nas importações americana, assim como as importações americanas se transformam em objeto de desejo dos exportadores aliados.

O mercado financeiro, para bancar essas relaçóes de troca, apoiado no dólar, foi convocado para ter como grande negócio a dívida americana, que passou a ser o avalista global do capitalismo no pós-guerra. O preço a pagar pelos aliados seria o crescente armamentismo americano, sustentado pelos gastos do tesouro americano cujos títulos passaram a ser adquiridos pelos aliados. Parceria econômica geoestratégica capitalista do pós-guerra para derrotar a União Soviética comunista.

O jogo econômico do pós-guerra pode ser superado porque sua âncora, o dólar, como equivalente geral, está sob ataque insano do mercado global, abrindo vácuo  para outras forças que já se organizam, no rastro da primeira grande crise monetária do século 21. Os efeitos políticos poderão ser imensos.

Como os esforços americanos terão que ser canalizados para dentro, a fim de resolver os estragos internos provocados pela desvalorização do dólar, no patrimônio dos americanos, certamente, as guerras externas poderão perder gás. A guerra interna ameaça ser mais feroz que a guerra externa.

A impotência americana se expressa na falta de fôlego do presidente W. Bush de salvar o mercado, simplesmente, porque rendeu-se às regras do mercado, todo o seu governo, incluindo o próprio poder legislativo, responsáveis por aprovação de leis laxativas que deixaram as raposas soltas no galinheiro.

Essa anarquia monetária é a anarquia do próprio modelo econômico em que o irreal movimenta o real e vice versa. Na prática, entra em colapso a economia de guerra e a moeda que movimenta a guerra, dada a falta de confiança nela disseminada no merc ado.

Marx, em O Capital, diz disse que o sistema capitalista ativaria ao máximo as forças produtivas, entraria em crise de realização e passaria a dinamizar as forças destrutivas, na guerra. A guerra exigiu nova moeda, porque o novo molde de reprodução do capital não cabia mais dentro do padrão ouro do século 19. Agora, a moeda do século 20, que movimenta a guerra, também, precipita no abismo.

 

Visão católica, equívoco dos economistas neoliberais

Os economistas liberais e neoliberais sempre tiveram resistência à formulação macroeconômica marxista desenvolvida pelos neomarxistas no século 20, obedecendo as pegadas do mestre. 

Marx considerava que a economia no século 19 era composta de dois departamentos, o departamento I, produtor de bens de produção, de bens de capital(D1) e o departamento II, de produção de bens de consumo(D2). 

Estudou as relações entre ambos e concluiu que o sistema capitalista, sob esses dois departamentos, entraria em crise, diante da contradição entre produção e consumo, cujo destino é crônica insuficiência de demanda global que leva à deflação. 

Previu que surgiria o departamento III, Estado(D3), cuja função seria a de puxar a demanda global, na guerra. Nesta, como destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, o que dinamiza o capital não é a produção de mercadorias, mas de não-mercadorias, consumidas pelo governo-Estado, D3. 

A produção de mercadorias, impulsionadas por D1+D2, seria superarada e requereria complemento de D3, ou seja, ampliação dos gastos do governo.

D1+D2 = D3. Vale dizer, forma-se uma nova unidade na economia monetária, pós padrão-ouro, somando os dois departamentos da economia de mercado,  D1+D2, dependentes de D3, gerador de moeda que vai para a circulação gerar consumo sem que seja preciso aumentar a oferta.

Essa formulação macroeconômica simples, apoiada na observação da contradição e da superação da contradição que detona novas contradições foi substituida pela fantasia matemática neoliberal que evitou o todo para priorizar as partes do sistema, negando a organicidade intrínseca dele, em movimento dialético. Imperou-se com o neoliberalismo a visão meramente mecanicista da realidade. Viajaram na maionese.

Os neoliberais, segundo Marx, têm uma visão católica da moeda. A moeda, para eles, é apenas mediadora de trocas, valorímetro, quase um relógio, algo neutro, que fica acima das relações sociais. Aparentemente, essa suposição vigorou contraditoriamente no tempo do padrão ouro, século 19. Do século 20 em diante, a moeda é capital do Estado, ou seja, moeda política, que organiza a economia e sociedade cuja essência é o antagonismo, sob o capitalismo.

As forças liberais, que haviam levado a economia capitalista à total anarquia, cujo resultado foi, em 1929, a deflação, foram ultrapassado pelo novo tempo. 

O Estado é a resposta da realidade à loucura neoliberal de 29, como passou a ser, também, agora, a pretensa resposta para a crise bancária, de 2008, como clamam muitos. 

A diferença fundamental  é que entre 1929 e 2008 o Estado não é mais aquela potência financeira de outrora. Precisa de muito viagra, pois se encontra excessivamente endividado, impotente, adiposo e desacreditado pelo mercado.

Se o governo não consegue mais controlar a inflação, via enxugamento do excesso monetário que lança na circulação para girar a produção, a alternativa é sombria: ou instaura-se a desconfiança e o medo, ou o governo passa uma borracha na dívida e começa a endividar-se novamente.

Adam Smith, em “A riqueza das nações”, é claro: dívida não se paga, renegocia, rola. Essa possibilidade estaria limitada para a ação exuberante do império ou suas forças se esgotaram?

 

As diferenças entre 1929 e 2008

 

 

Na crise de 1929, o Estado entrou na economia, para salvá-la do colapso do lassair faire, ou seja, da anarquia dos mercados em concorrência livre das mercadorias. Na crise de 2008, 78 anos depois, o Estado, que entrara, antes, para salvar o mercado, perdeu a capacidade de controlar o mercado.

Entregou sua própria cabeça aos especuladores, ou seja, suas próprias atribuições, sua capacidade de regulamentar a economia, como forma de contribuir para a reprodução ampliada sem freios do capital. 

O Estado, visto do ponto de vista do Direito Administrativo, deixa, no colapso da moeda estatal deslastreada, de ser entidade política, constitucionalmente, constituida, que determina, para ser entidade administrativa, que é determinado.

Tal dinâmica foi imposta pela própria moeda estatal deslastreada. Teria perdido sua dinâmica o capital estatal, única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, segundo Keynes, para organizar a economia e a sociedade mediante capacidade de ofertar quantidade de moeda na circulação capitalista?

Nessa circulação, o produto real e irreal são polos e contrapolos que se interagem dialeticamente, sob modelo keynesiano, agora, abalado, diante da bancarrota financeira estimulada pela desregulamentação do estado keynesiano.

As discussões entre bancos centrais e líderes políticos na ONU já demonstram a necessidade de nova concertação econômica global, no compasso da derrocada da lógica de Bretton Woods, montada sob império da moeda sem lastro real.

O pacote Paulson-Bernamke, alterado pelo Congresso, para tentar salvar o país da bancarrota financeira, é o retrato da ruína da moeda de Tio Sam. Em 1929, explodiu o padrão ouro. Em 2008, explode o padrão monetário especulativo estatal.

Paulson falou o inimagínavel, pediu humildade. O império abriu o bico.

O senador Aluísio Mercadante(PT-SP), excitado pelos acontecimentos e pelas consequências dramáticas que a crise bancária detonará, para negar o excessivo otimismo do presidente Lula, desprovido de realidade, está dizendo que Keynes é a solução. 

Afinal, não é a solução keynesiana que está entrando em crise nos Estados Unidos? Devia ler, urgente, “A crise da ideologia keynesiana”. Do contrário, pode jogar o presidente Lula numa fria.