Calote pode virar solução global

O candidato do Partido Republicano, John MacCain, se prevelecer o rítmo das pesquisas, até a hora da votação, poderá dançar, perdendo para Barack Obama, do Partido Democrata. Sua proposta, altamente, impactante, no entanto, poderá permanecer, porque teria batido fundo no coração das famílias americanas, cujos lares são assediados pelo desemprego, detonado pela economia monetária especulativa que o governo não consegue mais bancar, dando tranquilidade ao contribuinte e aos aposentados. Todos estão ameaçados por uma neo-pobreza relativa.

Que propós MacCain? O calote. Os mutários que perderam feio na especulação com os imóveis e ficaram mais pobres, impossibilitados de pagarem suas dívidas, terão estas perdoadas.

O Congresso, com ele na presidência, votaria uma nova legislação, flexibilizando as responsabilidades de credores e devedores, algo inexistente. Hoje, a legislação protege credor e penaliza o devedor. 

A grande imprensa brasileira não falou nada sobre o assunto por enquanto, mas, muita gente boa, já falou nisso, inclusive, o Papa João Paulo II.

O Vaticano respeita Marx. Fala por parábolas, como acabou de fazer o Papa Bento 16, ao ressaltar que o apego ao lucro traz a pobreza e a desilusão. Jesus e Marx, uma dobradinha que a Igreja adota, em momentos extremos, mesmo que repudie na aparência. Bento 16 repete São Tomaz de Aquino e Santo Agostinho, condenaram o pecado da usura.

Levado ao extremo, o capitalismo, na sua autodrestruição, está dando lugar uma nova combinação cuja expressão é a condenação do sistema tanto pela visão cristã, como pela materialista.

O modelo tocado por moeda estatal inconversível, sem lastro, expresso, como representação, no dólar – algo abstrato, espiritual, que impulsiona o material – passa a ser condenado pelo altar católico.

MacCain, antevendo o empobrecimento relativo americano, fechou com a Igreja Catôlica, pregadora do calote. Os bispos brasileirs estão batendo palmas, porque, na Era FHC, tentaram o plebiscito, para discutir o endivimanto interno e externo brasileiro, depois da crise monetária dos anos de 1980. A pobreza generalizou-se. A periferia passou a ser brutalmente explorada pelo centro graças aos juros altos.

Pintaria plebiscito nos Estados Unidos, previsto na constituição? Na crise bancária de 2008, essa possibilidade se torna concreta, nos Estados Unidos, que não seriam mais os donos do mundo, diante do empobrecimento relativo.

O calote seria a solução?

Sarney pagou os juros e foi acusado de caloteiro

 

Como superar o prejuízo senão pelo perdão, talvez pela inflação, um dos seus atributos, entre outros? Keynes diz que na economia monetária, a que vigora no mundo no pós-1929, o governo é a única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, porque ao jogar dinheiro na economia com uma mão e enxugar com a outra cria a “eficiência marginal do capital”, o lucro, porque: 1 – eleva os preços, 2 – diminui os salários, 3 – reduz os juros e 4 – perdoa as dívida contratadas a prazo pelo investidor. Ou seja, o espírito animal keynesiano só nasce se o empresário não precisar enfiar a mão no bolso.

Keynes teria  fôlego, agora, pela mão, seja de MacCain, seja de Obama, para bancar o jogo, de modo a dar tranquilidade ao mutuário e ao investidor, desconfiados do sistema bancário e sob desconfiança deste.

MacCain foi muito mais consistente, do ponto de vista do interesse do eleitor, do que Obama, jogando com a “eficiência marginal do capital” do mutuário, abrindo espaço para sua regeneração por meio do perdão.

Mas, o dólar terá gas para patrocinar o perdão?

A desmoralização do governo W Bush é, ao mesmo tempo, a desmoralização da moeda. Sob W. Bush, nao seria possível. Sob Obama ou MacCain será?

A perda de poder relativo da moeda de Tio Sam , que está abrindo espaço para ser subsituida pelo euro, dado que as ações financeiras dos governos europeus revelam credibilidade européia na moeda europeia, abre novo cenário.

Nele, a economia de guerra , para a acumulação capitalista, se transforma de solução em problema. 

Negação da negação 

Como sustentar os gastos públicos inflacionários no Iraque, se o governo precisa gastar muito mais, agora, para salvar o contribuinte da guerra monetária destrutiva interna?

Novas prioridades internas se transformam em freios aos ímpetos dos gastos públicos, para exercer sua dupla função no sistema econômica no contexto da economia monetária keynesiana: enxugar o mercado do excesso de moeda, de um lado, e dinamizar a economia de guerra, keynesianamente, de outro.

Esse foi o jogo mantido até o momento, para manter equilíbrio relativo macroeconômico capaz de sustentar equilibradamente a sobrevivência da produção e do consumo da indústria de bens duráveis.

Caso contrário, sem o Estado gastando para dar bolsa família às grandes indústrias de guerra, a indústria de bens duráveis, padeceria por falta de consumo e renda.

Ambos, na economia monetária, são gerados pelo governo com sua moeda estatal inconvesível, expressa no dólar. O jogo estressou-se.

Significa dizer que a moeda americana  deixou de ser o motor dinâmico da economica global. A lógica passa a ser outra. O governo tem que ser, em vez de guerreiro, pacifista. Não tem gás para bancar guerras nem curtas, nem prolongadas, enquanto perdurar o estrago geral em curso.

O todo poderoso e orgulhoso Henry Paulson, que ganha(va) milhões por dia, milhares por hora, como homem de Wall Street, pediu humildade aos americanos.

Um dos gigantes da especulação com o dólar derivativo, o secretário está com seu poder murcho. De privatista, passou a ser estatista. Vestiu a camisa de Lenin.

 

Show de bancarrota roliudiana

 

A história já demonstrou que em tais situações, as comunidades se viram, criam suas próprias moedas, assim como os governos criam as suas.

Se os governos quebram, a sociedade abandona ele com sua moeda desmoralizada e busca outras convenções, para bancar relações de troca.

Pragmatismo social e econômico para fixar nova representação monetária que sugira suficiente credibilidade.

Sem credibilidade, o dólar pode viver uma monumentação hiperinflação.

Dificilmente, o governo teria fôlego para entesourar os dólares derivativos tóxicos que ele mesmo permitiu serem criados pela engenhosidade dos bancos de investimentos, de cujos postos arregimenta seus assessores de política econômica. Raposa para tomar conta do galinheiro. Governo e mercado financeiro são, no capitalismo dominado pela especulação, irmãos xifópagos.

Os europeus perceberam o jogo. Diante do caos financeiro, tanto os Estados Unidos fugiram da Europa, como a Europa, dos Estados Unidos. Ambos estão altamente intoxicados de moeda podre. Precisam buscar uma forma de passar o prejuízo para frente.

A Europa decidiu apostar no euro, jogando o governo para gastar na moeda européia, na crença – inabalável? – da sua credibilidade internacional. Conseguirá?

Houve, no dia seguinte, à estatização europeia bancária, euforia bursátil, mas, em seguida, o pessimismo reacendeu  brabo.

Tudo indica que tal volatilidade continurá, só ninguém sabe se o governo terá fôlego para continuar sendo o entesourador geral de moeda podre,.

Quem paga dívida numa balbúrdia dessa? 

O calote pinta quase como solução natural, como caminho aberto para nova concertação monetária global, que se traduziria num FMI mundial, como apregoam os europeus.

Daria vez à proposta de Keynes – sempre Keynes! – feita em 1944, em Bretton Woods, de criação de um moeda mundial, o “Bankor”, coordenada por força internacional, capaz de criar câmara de conversão monetária global, para dar novo rumo ao mundo e se transformar em instrumento capaz de restabelecer a credibilidade monetária?

Adam Smith volta ao poder, porque, para ele, dívida pública não se paga, renegocia, interminavelmente, abrindo espaço para novas dívidas.