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Calote americano valoriza dólar

Cesar Fonseca em 24/10/2008

É incrível, mas os fatos demonstram ser verdade, pelo menos, hoje, já que tudo está mudando, velozmente. O dólar está se fortalecendo na crise global, quando as avaliações, baseadas nas leis da economia, dizem o contrário, relativamente, ao movimento das mercadorias com oscilações dos seus respectivos preços no jogo da oferta e da procura. O excesso de dólares, no mundo, ampliado pela derivação especulativa com a moeda americana, cujos efeitos espalharam, quebrando geral, bancos, empresas, seguradoras etc, em vez de desvalorizá-los, está produzindo o oposto, sua valorização.

Por que?

Para o economista Eduardo Starosta , da Estplan, tal força decorre do calote que o governo americano deu e continua dando na praça global. A moeda derivativa e os títulos da dívida pública americana estão nas mãos dos chineses, dos europeus e dos americanos, condenados a valorizarem o dólar, para não entrarem, totalmente, num monumental cano. A valorização do dólar seria antídoto a um calote ainda mais fantástico. Entrega-se o anel, para não perder os dedos.

O prejuízo dos aliados europeus e asiáticos, detentores das moedas pobres, jogadas na circulação capitalista global, somente, pode ser evitado, se o dólar se valorizar. Dá a sensação que eles, os aliados entubados com a moeda americana, estão relativamente saudáveis, mesmo com o cofre cheio de moeda podre. Jogo político estratégico dos endividados e dos credores, para manter as aparências.

Relaxam e gozam, como disse Marta Suplicy, que pode dançar, no domingo, em São Paulo, por acercar-se, espetacularmente, de grandes marketeiros homofóbicos.

Se o dólar for para o sal, vão, com ele, os aliados. Salvar o dólar representa salvação dos aliados. Jogo de duas mãos, que interessa a ambas, pois, caso contrário, correm perigo de decapitação.

O calote dado nos aliados é uma manobra política pensada pelos Estados Unidos, não de agora?

Os deficits gêmeos americanos vêm subindo extraordináriamente desde o fim da segunda guerra mundial, que representou o inicio da guerra fria entre ocidente capitalista e oriente socialista. Houve muito tempo para pensar estrategicamente ou a coisa emergiu de supetão?

O avanço dos deficits sinalizou fragilidade estrutural da economia americana e consequentemente debacle monetária, isto é, fim do poder do dólar, nos moldese estabelecidos desde Bretton Woods.

Acossado, o governo americano, acostumado às artimanhas das guerras, que precisam sempre ser provocadas para criar mercado capaz de sustentar o estado industrial militar americano, assim considerado por Eisenhower, em 1960, armou arapuca para seus credores, enquanto ficava mandando os países endividados pagarem em dia seus papagaios aos bancos.

Armação geoestratégica caloteira

A armação estratégica americana do pós guerra colocou os Estados Unidos no pólo do consumo mundial e os aliados no polo da produção.

Produção destinada ao consumo, na terra de Tio Sam, que pagaria as mercadorias com o dólar, ancorado, inicialmente, a partir de 1944, no ouro.

Essa ancoragem, em 1974, foi para o espaço, porque o mercado desconfiando da saúde financeira americana, sob a guerra do Vietnan. em 1973, provocou, a partir da Alemanha, corrida contra o ouro, depositado nos Estados Unidos.

Na hora, o governo Nixon deu o calote na praça. Desvinculou o dólar do ouro e a moeda flutuou espetacularmente. Beiço geral no mercado. Quem devida em dólar, na ocasião, se deu bem. De lá para cá, a financeirização especulativa inundou a praça, sem lastro monetário algum para o dólar desvinculado do ouro.

As engenharias e arquiteturas financeiras foram imaginadas abstratamente para reproduzir o dólar deslastreado em montanhas de derivativos criativos inovadores multiplicadores de riqueza via bolhas especulativas globais. Binga bang em 2008.

Quem segurou o poder do dólar, nesse período?

O grande mercado consumidor americano e , principalmente, poder bélico militar e espacial, mantido mediante endividamento expresso em títulos do tesouro dos Estados Unidos adquiridos pelos aliados, concordes em ter a América vitoriosa no pós-guerra como gendarme do mundo, destinada a preservar o capitalismo, como barreira ao avanço do socialismo e do comunismo.

A dívida americana, portanto, no pós-guerra é , sobretudo, uma dívida politicamente negociada, porque o credor é devedor e o devedor, credor, emissor do poder monetário que , como diz Keynes, estabelece deterioração nos termos de troca em favor da moeda mais forte, que fixa as regras.

O excesso de endividamento americano estaria, num jogo de cena fantástico, sendo combatido, portanto, no plano político, porque se a China, o Japão e a Europa discordarem de dar sustentação à moeda americana, suas reservas em títulos da dívida do tesouro dos Estados Unidos, vindo o dólar a dançar, dançariam, também. 

 

Dólar forte sinaliza protecionismo à vista

É plausível imaginar que esse calote tenha sido programado e acionado para dar um choque mundial no capitalismo, como um jogo de guerra, promovido pelos altos estrategistas americanos, como arma para manter a sustentação da América no comando mundial mediante revalorização do dólar por meio do simples beiço na praça?

Verdade ou não, o fato está aí. O calote, se for levado em conta os números, já foi dado e a moeda americana segue se valorizando.

Basta citar uma informação, diz Starosta. O nível de alavancagem das dívidas dos governos ultrapassou em quatro vezes os limites fixados pelo acordo de Basíléia, para o comportamento das políticas fiscais públicas, no plano da ação dos bancos centrais.

No início dos anos 2000, cada unidade monetária, seja dólar, seja euro, seja real, seja peso etc, poderia , noâmbito orçamentário dos governos, alavancar 11 vezes. No auge da crise atual, do subprime, essa alavancagem é de 40 vezes.

Os governos europeus e asiáticos se entupiram de títulos americanos e de derivativos, ou seja, moedas podres, candidatas ao calote em curso. 

Na prática,  o calote, que se expresssa na sustentação do dólar pelos governos aliados, cheios de papagaios americanos, representa enxugamento de liquidez na praça global, enxarcada de numerário dolarizado. cujo resultado é a valorização monetária cambial.

As consequências dessa redução da oferta de dólares, valorizando-os, são, na sua opinião, emergência de um neo-protecionismo generalizado.

Nesse contexto, a tendência, prevê, é fechamento de mercado e apostas internas, para salvar a demanda e sustentar a dinâmica das empresas. Essa é a saída para os governos. Caso contrário, enfrentarão quedas violentas de arrecadação e carências de investimentos. Paralisia geral, crise política e consequente vitória da oposição em pleitos presidenciais.

O fortalecimento do dólar frente ao real pode levar ao pior, ou seja, a uma corrida contra a moeda nacional, fragilizando-a, fato que, na sua opinião, poderia induzir o país a buscar um empréstimo ponte no FMI ou no governo americano.

Talvez, aposta,  seja essa a estratégia de aproximação de Lula com Washington, para ter que se socorrer, caso continue forte o sangramento cambial em curso.

 

Estratégia de rendição aos EUA

Como se daria essa aproximação? Com relativa rendição, expressa em aumento de compra de moeda americana com reais, como forma de irrigar a praça.

De um lado, fortaleceria o comércio exterior, interrompido pela falta de crédito. De outro, representaria entrada do governo brasileiro na fila da China, da Europa e do Japão, com disposição de gastar moeda nacional, para estabilizar a moeda americana.

Assim como os chineses , europeus e japonês entubaram uma montanha de dívida americana, tomando calote, como forma de concordãncia necessária à preservação dos seus próprios interesses, nas relações dialéticas com os Estados Unidos, o BC brasileiro agiria no mesmo sentido.

Compraria ativos financeiros americanos para valorizar o cacife do dólar, atraído pelo juro alto brasileiro, irrigando a praça que está monetariamente seca, inviabilizando a vida das empresas.

O BC, sob Meirelles, vai operando no sentido de ficar mais perto possível dos Estados Unidos, para tentar solucionar os problemas internos brasileiros agudizados em decorrência da acelerada desvalorização do real frente ao dólar.

Chegar mais perto dos americanos, com o dólar que se valoriza com o calote de Tio Sam na praça global, é a palavra de ordem do império aos súditos.

Terá força o dólar para tanto, dessa vez?

Pelo sim, pelo não, relativamente, ao Brasil, orientado por Meirelles, o avanço do dólar, em relação ao real, é concreto e real.

Eventual empréstimo-ponte, garantido pelas reservas de 200 bilhões de dólares em caixa, funcionaria como azeitamento de relações estratégicas entre Brasília e Washington.

Em troca, o BC lançaria mão da poupança popular, isto é, o dinheiro dos depósitos compulsórios, em torno de R$ 160 bilhões, para comprar dólares e euros?

Enquanto o dólar se valoriza, sinalizando que Tio Sam caminha para relativa recuperação, os americanos, certamente, apostarão na sua grande especialidade, isto é, eterna valorização do produto americano, seja real ou abstrato.

Até quando, só Deus sabe.

Categoria: (Cultura)

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