Bancarrota empresarial na sucessão presidencial

Bancarrota empresarial – ao lado da bancarrota dos pequenos bancos, que se tenta salvar, privatizando-os com dinheiro do contribuinte, dos depósitos compulsórios, por meio dos bancos grandes privados, mediante vantagens fiscais e altamente liberais, ou seja, prática de juros altos – pode ser o principal desafio a ser enfrentado pelo presidente Lula nos dois últimos anos de sua gestão em plena sucessão presidencial. Turbina-se um horizonte de grandes tempestades entre empresas, alcançadas pelo terremoto financeiro especulativo.

As duzentas maiores empresas brasileiras que , junto com poucas estrangeiras, movimentam a Bolsa de Valores de São Paulo, semi-faliram ou faliram na especulação com o subprime nacional, desenvolvido especulativamente no mercado de dólares na Bolsa de Mercadoria de Futuros, o maior cassino da história nacional.

São cerca de R$ 3 bilhões de prejuízos, segundo se comenta nos meios empresariais. 

Os empresários apostaram no dólar barato no futuro  e compraram títulos a juros caros no presente, para ganhar na especulação. Jogada histórica fixada como forma de compensação pelos ganhos insatisfatórios na atividade produtiva, atacada de morte pelos juros altos de carga tributária excessiva, que jogam a lucratividade para baixo. Dançaram. Em uma semana, emergiu uma desvalorização da moeda nacional de quase 40%, na onda dos desastres. Facada.

Intranquilidade econômica e financeira que afeta a tranquilidade política governamental mantida até agora relativamente ao futuro. Votorantim, Sadia, Aracruz Celulose, Vale, Petrobrás, Perdigão e o rol de pequenas e médias no elo da cadeia mais fraca do capitalismo nacional entraram em grandes prejuízos, que obrigarão o governo a intensas negociais econômicas e financeiras, sob intensas pressões, tanto por parte do capital como do trabalho, no contexto sucessório.

Algumas empresas, nesse ambiente de alta volatilidade, poderão morrer; outras, somente se salvarão se forem socorridas pelo BNDES, o hospital das empresas brasileiras, desde quando criado em 16 de junho de 1952, pelo presidente Getúlio Vargas.

 

Greves podem ser fato político novo

As negociações nesse sentido, mobilizarão, sem dúvidas, no Congresso, empresários e trabalhadores, todos ameaçados, jogando lenha na fogueira da sucessão do presidente Lula, desatada pela primeira grande crise monetária global do século 21, cujos primeiros lances já ocorrem durante as eleições municipais, quando o governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, pede juros baixos já, para evitar a catástrofe empresarial. Falar em aumentar juros, pelo BC, nesse ambiente, para adequar-se às metas inflacionárias fixadas pelo próprio mercado financeiro, via pesquisa Focus, bíblia do BC, seria arriscado, politicamente.

Os empresários e os trabalhadores estão em polvorosa. Se as grandes empresas nacionais que dinamizam a bolsa foram dinamitadas pela crise, significa que a Bolsa, igualmente, expressão real dessas empresas,  está sob perigo de explosão, se é que não foi implodida com as ações em queda. A emergência da falência empresarial joga desconfiança generalizada na bolsa onde as ações dessas empresas estavam pontificando espetacularmente.

A BVSP chegou a superar a casa dos 70 mil pontos, quando, como reconheceu o presidente do Itaú, Roberto Setúbal, tem caixa para apenas 45 mil, no máximo, onde passou a ficar, com tendência para cair. Ilusão de riqueza e poder. Crash.

Tal situação cria ambiente político de alta tensão na economia ameaçada por perspectivas futuras sombrias que desarmam o espirito animal investidor dos empresários. 

O PAC, combustível eleitoral do presidente, para tentar fazer sua sucessora, a ministra Dilma Roussef, conforme admitiu o ministro da Justiça, Tarso Genro, pode ficar estressado, como destacam os próprios empresários, embora o governo sustente, compreensivelmente, posições altamente otimistas. 

A euforia recente, que levou o setor produtivo a acreditar demasiadamente no futuro, levando o presidente Lula a um surto otimista excessivo, vê-se diante do seu reverso. O clima anterior, de promoções altamente marquetizadas de lançamentos de ações na bolsa, obedecendo a regulamentação moderna, pautada pela transparência, levou à suposição de paraísos e prosperidades sem fins, capazes de garantir auto-sustentabilidade. 

Alta especulação, transparência total. Sucessos atrás de sucessos. E , agora, a transparência vai ficar diante de todos, quando os balanços contábeis registram fracassos atrás de fracassos?

Nus em cima do palco. 

 

O dragão chinês é ameaça geral

Nesse ambiente, em que as quedas violentas das ações das empresas sinalizam fragilidade financeira dos empresários, as ações delas continuarão despencando junto com a oferta de emprego e renda que estavam bombando o consumo interno. Para piorar essa situação, as empresas brasileiras, de pernas bambas, terão cima, de enfrentar, além dos juros e da carga tributária elevados, a concorrência chinesa, que passou a assustar geral.

Montada numa reserva cambial de quase 2 trilhões de dólares, a China chega super-avalizada, para impor seu preço super-baixo aos mercados concorrentes. Solidariedade socialista-capitalista chinesa?

Calçados chineses estão sendo adquiridos por preços com descontos de até 70%! Quem vai comprar sapato nacional, cujo custo de fabricação é elevado, graças aos juros altos e a excessiva carga tributária?

Antes as empresas buscavam compensação, pelo estrago dos juros e dos impostos na produção, jogando na bolsa. Com a explosão do mercado bursátil, essa possibilidade esgotou. As empresas financeiramente sucateadas, compradas no dólar barato no futuro que explodiu de preço no presente, tendo, além disso, a China fungando no cangote, estão se rebentando, no ambiente de altíssima concorrência global.

Se o BNDES não socorrê-las, os trabalhadores das empresas irão para a rua demonizar Lula e sua candidata à sucessão Dilma Roussef. O desemprego estará batendo às portas no novo tempo de vacas magras.

O que preocupa sobremaneira o Palácio do Planalto nesse momento é a saúde da indústria automobilística. Se ela fraquejar, a vaca pode entrar no brejo. O berço político do presidente Lula está na corda bamba.

 

O carro-chefe da indústria nacional balança as pernas. 

 As 24 diferentes montadoras instaladas no país movimentam 1,3 milhão de empregos, englobando 500 autopeças, para manter uma capacidade instalada de 3,5 milhões de véiculos, vendidos em 3,6 mil concessionárias espalhadas Brasil afora. São 45 plantas industriais estabelecidas em 7 estados brasileiros e em 26 municipios, para vender automóveis, comercial leves, caminhões, ônibus, tratores e colhetadeiras. Trata-se de um parque industrial que recolhe uma receita total de R$ 21 bilhões em IPI, ICMS, PIS e Cofins, cuja saúde pode ficar abalada.

O empoçamento do crédito balança essa estrutura produtiva e ocupacional da qual depende todos os demais segmentos da economia, numa cadeia produtiva que caracteriza o capitalismo nacional dependente de poupança externa, historicamente. Afinal, não houve, no Brasil, a aposta da formação do capital o país, como fizeram os asiáticos, dependentes, no entanto, do mercado externo americano e europeu. 

Sem a renda extra oriunda da especulação, que estava bombando o consumo das classes altas e das médias, favorecidas pelo jogo especulativo, as empresas serão obrigadas a suportarem taxa de lucro cadente na produção interna sob intensa concorrência entre 24 competidores. Luta de gigantes. 

Nesse contexto, a classe empresarial se inquieta extraordinariamente, destaca o primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do DF, Ricardo Caldas, porque a desconfiança evita que os bancos negociem com as empresas, retendo os recursos, dado o alto risco que imaginam correrão diante de clientes de cuja saúde financeira desconfiam.

Estatização já

Para Ricardo Caldas, a saída inglesa é ideal, no ambiente de tumulto geral, em que ninguém acredita em ninguém. O governo participa com os recursos públicos no capital dos bancos – no caso brasileiro, lançando mão dos depósitos compulsórios – , para recapitaliza-los e dessa forma adquire força para conduzir, de maneira mais organizada, o próprio custo do dinheiro, a fim de bancar novas relações de trocas entre setor privado e setor financeiro. Fora disso, acredita, os juros não cairão. Ao contrário, subirão. 

O governo, apavorado, está, por enquanto, cuidando de salvar os bancos pequenos, colocando dinheiro da poupança nacional, ou seja, os recursos recolhidos, compulsoriamente, sobre depósitos à vista e a prazo nos bancos grandes privados, na tentativa de fazer com eles cumpram a tarefa. Henry Paulson, secretário de Estado dos Estados Unidos, tentou essa saída. Não deu certo. Dará aqui?

Pode dar certo para os grandes bancos, que caminharão para a oligopolização bancária privada nacional, mas daria, do ponto de vista empresarial, em forma de redução do custo do dinheiro, para ativar a produção?

Os juros estão subindo com a insolvência do mercado empoçado por falta de confiança do setor privado nos bancos e dos bancos no setor privado. A confiança seria adquirida por intermédio da gestão, puramente, privada?

A estatização, à moda inglesa,  seria a solução, para criar ambiente mais adequado para organizar o sistema bancário e restabelecer a confiança nas relações comerciais em geral?

Ricardo Caldas acredita que esse deve ser o caminho do governo, se quiser manter aquecidas as obras do PAC, depois da bancarrota bursátil.

No novo ambiente, disse, não dá para conviver com o juro alto e com carga tributária extorsiva, combinando-se, para manter baixa a rentabilidade, que inviabiliza investimentos. O gargalo é esse.