Agiotagem lulista na crise capitalista

A decisão do presidente Lula de colocar mais de R$ 150 bilhões nos caixas dos bancos privados brasileiros para salvarem bancos pequenos falidos e enfrentarem problemas de liquidez , especialmente, por meio liberação de depósitos compulsórios, ou seja, dinheiro do contribuinte, recolhido pelo Banco Central, como forma de enxugar excesso de dinheiro no mercado, como arma de combate à inflação, vai na linha contrária à adotada pelos governos dos países ricos, como os europeus e o americano, resultando em óbvio favorecimento aos banqueiros.

Primeiro, liquidar ou resgatar instituições financeiras da bancarrota não é tarefa para os próprios bancos privados, senão para que se tornem grandes oligopólios. Dinheiro do contribuinte, para patrocinar oligopolização bancária, numa praça já oligopolizada, com meia duzia de grandes bancos, que escravizam a sociedade, cobrando o juro real mais alto do planeta terra? Absurdo.

Segundo, não está certo, de jeito nenhum, colocar dinheiro nos bancos privados, sem antes determinar, com discussão, no Congresso, o que terão que fazer com esse dinheiro, fixando os setores que deverão ser abastecidos com os recursos e os respectivos percentuais destinados a cada um, sob fiscalização congressual. Caso contrário, fica parecendo amarração de cachorro com linguiça. Esbravejar, como faz o presidente, lá da Europa, que vai tomar o dinheiro de volta, se os bancos não destinarem os recursos para os quais foram estipulados, não adianta.Significa, apenas, reconhecer que algo de errado já está acontecendo. Isso é presidencialismo ditatorial, sem o aval do Congresso, para solução de assunto crucial, para a sociedade brasileira, nesse momento, preocupada com possibilidade concreta de quebradeira de empresas e avanço do desemprego e da queda do consumo.

Tem que jogar pesado contra os bancos, que sempre se fartaram, e ainda se fartam, nos privilégios, em um país em que vigora não uma democracia, mas uma bancocracia exageradamente prejudicial aos setores produtivos. O presidente Lula cuidou muito bem dos bancos, até agora, bem como dos programas sociais, para fortalecer o consumo, mas, para os setores produtivos, indiscutivelmente, foi um tremendo carrasco, deixando-os sob a escravidão jurista, determinada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que veio da bancocracia americana, direto para escravizar o setor privado nacional.

Olha a diferença de tratamento dado aos bancos, aqui e lá fora. O que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa? Os bancos faliram. O que fizeram e estão fazendo os governos? Colocando dinheiro do povo, para salvá-los. Certamente, não interessa ao país consumidor sem crédito e banco quebrado. Tem, sim, que ajudá-los nessa hora, mas fixando, igualmente, compromissos rígidos, sob fiscalização do Congresso, ou seja, da sociedade, atenta em relação ao dinheiro do contribuinte.

Na Europa e nos Estados Unidos, o governo colocou grana no caixa dos bancos, mas, em compensação, estatizou parte deles, pois o dinheiro liberado e em processo de liberação, está se transformando em ações preferenciais em mãos do governo, ou seja, em poder do público, como é o caso dos depósitos compulsórios, poupança popular. Esta deveria ser utilizada para algo nobre, ou seja, para estimular produção e consumo, investimento em infra-estrutura, em estradas, portos, ferrovias etc. Para que acumular reservas em dólar, se a moeda americana está se transformando em moeda podre, sendo superada pelo euro, pois perdeu poder de representatividade cambial na praça global, com seu poder absoluto.

Fundamentamente, esse dinheiro do contribuinte, precisaria ir, também, para o programa social Bolsa Família, a fim de estimular, fortemente, o mercado interno. Qual a salvação nacional na Era Lula? O consumo interno, estimulado pelos programas sociais. Evitou formação de estoque e pressão inflacionária por efeito de desvalorizações cambiais destinada a estimular exportações na falta do consumo interno. Ao colocar poder de compra estatal nos cartões de crédito de consumo popular, a economia girou, a industria, o comércio, a agricultura e os serviços cresceram. E por conta do aumento da circulação de dinheiro, aumentou consequentemente a arrecadação, pois cada venda que se faz, o governo arrecadda 40%,  enchendo seus cofres. E com esse dinheiro vem os investimentos, o progresso etc.

Velhacaria bancária sem controle congressual

Quanto de dinheiro do compulsório vai para o programa Bolsa Família, para manter a demanda interna aquecida, já que a externa entrará em recessão, com a desaceleração global? Quanto irá para a agricultura familiar, para os mais pobres plantarem e colherem sua renda, com a poupança pública dos compulsórios? Quanto se destinará para a reforma agrária? E para a indústria, o comércio? Não há uma discussão ampla sobre o assunto. Falham os poderes públicos. Só R$ 5 bilhões, do total de R$ 150 bilhões, vão para a agricultura! Pouco demais. Onde estão os políticos, para evitar que o presidencialismo autoritário brasileiro faça o que lhe der na telha, favorecendo os bancos?

A sociedade global está em processo de repulsão relativamente aos bancos. Por isso, os governos europeus e americanos estão sendo obrigados a ajudar os bancos falidos, mas, também, a dar ampla satisfação ao poder democrático estabelecido, isto é, aos contribuintes, irados com as ações bancárias especulativas, estimuladas pelos próprios governantes, que se ausentaram em matéria de normas, regulamentações e fiscalizações adequadas, deixando tudo correr solto, até explodir geral. Criminosos.

O presidente brasileiro segue na contramao dos govenantes europeus e americano. Por que estes estatizaram os bancos? Simplesmente para que com o governo, com dinheiro estatal – o Estado é capital com sua própria moeda – , mais atuante nas carteiras dos bancos, forcem juros mais baixos para o comércio, indústria, serviços e agricultura, a fim de que as atividades produtivas continuem girando, evitando, consequentemente, a recessão.

Lula se nega a estatizar, mesmo que parcialmente os créditos correspondentes aos bilhões de reais de depósitos compulsórios. Por que não jogou esse dinheiro no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal, para emprestarem barato, tirando do ar as expectativas negativas que se formam, justamente, porque os bancos privados, em vez de colocar recursos na produção, continuam aplicando na especulação, nos títulos públicos, enquanto, ao mesmo tempo, permanecem tímidos quanto a ajudarem os pequenos que estão pela hora da morte?

Adianta os bancos disporem do dinheiro do compulsório, para emprestar a 6% ao mês, escravizando os tomadores? Que adianta se disporem a emprestar ao custo exorbitante, se a economia está em processo de desaceleração? Quem vai tomar dinheiro a 100% ao ano para aplicar na produção, que , graças ao dinheiro caro e aos impostos escorchantes, deixa margem de lucro inferior à taxa de inflação?

A questão ética e moral não deixa dúvida: se se coloca dinheiro estatal, sem lastro, na circulação capitalista e dela retira parte dele em nome do combate à inflação, em forma de depósito compulsório, o retorno da moeda à circulação, em nome do combate à recessão, teria que favorecer, fundamentalmente, não aos bancos, que não são donos dos recursos, mas os contribuintes, seu verdadeiro proprietário.

Se tudo fica frouxo como está, o resultado pode ser simplesmente estimulo aos agiotas. Eles poderão nem colocar o dinheiro na produção e , se colocar, sob pressão, o farão a um custo elevado, como está acontecendo. Agiotagem criminosa desenfreada.

Congresso alienado na discussão dos compulsórios 

O Congresso brasileiro está fazendo papel de palhaço no cenário da crise bancária. Depois reclama que Hugo Chavez chame os congressistas brasileiros de papagaios do Consenso de Washington.

O que aconteceu nos Estados Unidos? O presidente W. Bush, ao ter que lançar mão de dinheiro do contribuinte, mandou mensagem ao legislativo, para que os congressistas apoiassem , ou não, as propostas desesperadas elaboradas pela Casa Branca.

Foi um pau firme. Num primeiro momento, a Câmara de Represenatntes recuou. O mundo veio abaixo, mas não morreu ninguém. Num segundo instante, o Senado aprovou e, em seguida, a Cãmara ratificou,  mas, aí, o perfil do pacote mudou. Inicialmente, a proposta governamental era escandalosa, como a que Lula propõe, agora, salvando os bancos, com compulsório, mas sem exigir destinação específica dos recursos para o setor produtivo, em mensagem ao Congresso, para dar credibilidade à ação governamental. Estranhamente, o presidente, mediante presidencialismo imperial, sequer realizou reunião com os presidentes das duas casas do Congresso, para dar sonoridade nacional a sua ação política, como se os congressistas fossem meros fantoches. São ou não? Se não reclamaram até agora é porque estão acomodados em suas insignificâncias.

Somente depois de muita discussão no Congresso americano, a situação acomodou-se, sinalizando atendimento de interesses dos contribuintes, que pressionaram os congressistas, antes que estes aprovassem o pacotinho de 700 bilhões de dólares, para cobrir um rombo calculado em mais de 30 trilhões de dólares, a bomba atômica especulativa, impulsionada pelo mercado derivativo dos derivodólares que encharcam a praça mundial  de créditos podres.

Os governos, na Europa, diante da bancarrota, frente ao perigo de se sucumbirem, e sabendo que os congressistas europeus resistiriam à dose do remédio, mudaram de tática. Dançariam feio politicamente, se repetissem W. Bush. Colocação de dinheiro público na banca? Sim. Mas, com participação do Estado na carteira de crédito bancário, dando ao contribuinte poder financeiro.

Por isso, foi aplaudida, mundialmente, a proposta do primeiro ministro Gordon Brown, da Inglaterra, de lançar, na circulação capitalista européia, 1,3 trilhão de euros, quase 2,5 trilhões de dólares, fazendo com que a moeda européia desse um salto de qualidade e credibilidade diante do dólar, francamente, desmoralizado na praça global, sem poder ser mais a representação absoluta nas relações de trocas cambiais no cenário internacional. Brown, que estava perigando, ameaçado de ser detonado pelo parlamentarismo inglês, deu a volta por cima. Virou ídolo nacional, europeu, mundial. Diante das ameaças do parlamento, que o detonaria, sagrou-se campeão, transformando a crise em oportunidade política consagradora, pelo menos por enquanto.

Falta de regras claras pode dar impeachment

E Lula? Sob o presidencialismo autorítário, regado por medidas provisórias ditatoriais, que colocam o Congresso de joelhos, não dá maiores satisfações à sociedade, por meio doLegislativo, sobre o que fará com os R$ 150 bilhões. Quem acredita na pureza dos banqueiros?

Na Europa, de braços dados com Dom Quixote, na Espanha, o titular do Planalto aplaudiu Brown, a nova liderança política europeia, mas mandou o presidente do BC, Henrique Meirelles, jogar debaixo do pano, longe do Congresso, a quantia bilionária, ou seja, poupança popular guardada nos cofres do Tesouro, sem discussão de regras claras, explícitas, sob fiscalização social. Onde está o Procon, nascido para proteger o contribuinte?

O que dizem os congressistas nacionais, sob a fraca liderança do senador Garibaldi Alves(PMDB-RN), subordinados aos conceitos bancocráticos, que dominam a cena nacional? Nada, até o momento.

Se a fantástica quantia do compulsório, poupança popular acumulada – depois ainda falam que falta ao Brasil poupança para o desenvolvimento interno! – continuar sendo manipulada, sem maiores regras – onde estão essas regras, claras, amplamente discutidas no parlamento nacional? – , enquanto as atividades produtivas entram em processo de desaceleração, sinalizando desemprego e consequente diminuição do consumo, estará rolando no cenário nacional prática financeira criminosa, que pode, inclusive, suscitar impeachment do presidente da República.

Imagine se W. Bush mandasse fazer o que Lula está orientando para que o BC faça! Seria chutado da Casa Branca. No Brasil, terra da bancocracia, o governo patrocina a agiotagem e os congressistas ficam calados, ao mesmo tempo em que a produção e o crédito entram em colapso, inviabilizando o consumo. Produção é consumo, consumo é produção. Um não vive sem o outro. Mas, os bancos, com o compulsório, no bolso, vivem muito bem.