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Crash capitalista impõe consciência ecológica

Categoria: (Cultura) por Washington Novaes em 10-10-2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos mesmos dias em que o mundo acompanhava, perplexo, o farto noticiário sobre as tentativas de conseguir no Congresso norte-americano a aprovação de um plano de US$ 700 bilhões para conter a crise financeira que já se espalhava por todos os continentes, a comunicação praticamente não deu nenhuma importância à notícia, divulgada pela ONG canadense Global Foot Print Network, de que no dia 23 de setembro a humanidade ultrapassara, este ano, o consumo de todos os recursos que o planeta pode produzir ao longo de 365 dias. A partir daí, ocorre um consumo de recursos e serviços naturais além do que a biosfera terrestre pode repor – um sobreconsumo que agravará a crise, pois aumentará a desertificação e a chamada crise da água, produzirá maior perda de florestas tropicais, gerará a emissão de mais poluentes que contribuirão para mudanças climáticas, etc.

 

Esse consumo excessivo, que começou a ser avaliado pela ONG em 1986, uma década mais tarde já superava em 15% a capacidade de reposição; em 2007, estava em torno de 25% e ocorreu a partir de 6 de outubro; este ano, a partir de 23 de setembro. É um sistema de avaliação semelhante ao utilizado no Relatório do Planeta Vivo, do WWF. Este, em 2006, já dizia que esse impacto – a “pegada ecológica da humanidade” – mais do que triplicara desde 1961 e já superava a capacidade de reposição em 25%.      

Certamente é uma crise mais grave ainda que a financeira, mas que continua a ser minimizada, quando não ignorada. Segue-se tratando da atual crise financeira apenas em termos de quanto afetará ou não o produto bruto mundial e o produto bruto de cada país, inclusive do Brasil, sem preocupação com o quadro de realidade concreta que nos cerca. Como se a crise se pudesse resolver apenas em termos de crescimento econômico. E vale a pena relembrar, nesse ponto, o pensamento, já mencionado neste espaço, do biólogo Edward Wilson, apontado como o cientista que mais entende de biodiversidade. Tenta-se, diz ele, acreditar que a solução para os dramas do mundo estará no crescimento econômico puro e simples. Então, pode-se partir da hipótese de que a economia mundial vá crescer 3,5% ao ano – um crescimento modesto, já que se almeja 5% ou 6%, até 10% ao ano, como na China. Se ela crescer 3,5% ao ano, partindo do atual produto global, superior a US$ 50 trilhões anuais, chegaria a 2050 perto de US$ 160 trilhões. Mas não chegará, porque não há recursos e serviços naturais capazes de suportar o aumento de consumo decorrente desse crescimento. Será preciso, adverte Wilson, encontrarmos formatos de viver e consumir compatíveis com as possibilidades físicas do planeta – até porque não há outro disponível (embora nosso ministro de Assuntos Estratégicos já ande acenando com essa possibilidade).

Faz falta, nessa hora, uma figura como o falecido José A. Lutzenberger, que foi secretário nacional de Meio Ambiente de 1990 a 1992. No seu livro Fim do Futuro, que é de 1980, ele já advertia que nos encontramos “num divisor de eras”: “A crise de energia e matérias-primas que hoje solapa os alicerces da sociedade industrial demonstra que os recursos desta nave espacial, o planeta Terra, são finitos. Esta crise refuta as premissas básicas da sociedade de consumo, com sua ideologia de expansão e esbanjamento ilimitados.” Lutzenberger sabia em que terrenos pisava: “Sempre nos acusaram e continuarão nos acusando de radicais, de líricos, quando não de apocalípticos. Apenas somos realistas. A realidade é grave” (foi exatamente como “apocalíptico” que uma revista de grande circulação o qualificou em título, ao anunciar sua ascensão à Secretaria Nacional do Meio Ambiente em 1990).

 

Mestre Lutzemberg previu o caos mas não foi escutado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pouco tempo depois, em 1981, ao dirigir-se a uma turma de universitários que o elegera paraninfo, ele insistia: “Nossa política desenvolvimentista, nossos modelos econômicos e tecnológicos são concebidos como se a natureza não existisse, ou apenas estorvasse, como se nós mesmos não fôssemos parte integrante dela, como se pudéssemos sobreviver à sua demolição.” Quem observa a atual crise financeira constata exatamente isso: seu descolamento da realidade física, a começar pelo mercado de hipotecas de imóveis nos EUA, cada uma delas negociada, renegociada muitas vezes, por valores que nada têm que ver com o concreto. Alavancado, como se diz no mercado. Se quiser, encontrará panorama semelhante nos mercados de commodities, nos quais a safra de um ano de determinado produto pode ser negociada e renegociada por muitas vezes seu valor real. E assim será em muitas áreas.

Lutzenberger seria utilíssimo também para nos ajudar a resolver o drama amazônico, que não sai das manchetes. Foi ele que acabou com os subsídios e incentivos fiscais que estimulavam a derrubada da floresta para plantar soja ou criar bois. Foi ele que mostrou a irracionalidade de inundar a floresta para gerar energia subsidiada destinada a produtos eletrointensivos que os países industrializados não querem fabricar, exatamente por causa do custo da energia. Foi ele que proibiu o Ibama de emitir guias que eram usadas muitas vezes cada uma, para transportar madeira extraída ilegalmente – e foi isso que lhe custou a saída da secretaria, em 1992, por pressão do lobby das madeireiras. Mas não é só. Lutzenberger também foi dos primeiros a fazer muitas contas que ficam escondidas até hoje debaixo dos tapetes (“temos de fazer contas de tudo”, dizia). Sobre as unidades de energia consumidas para produzir, por exemplo, carnes, e que são superiores às que estão no produto. Ou sobre a água consumida com a mesma finalidade.

São lições indispensáveis ainda hoje. Será inútil manter ilusões e retardar soluções verdadeiras. Teremos, a partir da crise financeira, de refazer as contas de tudo. Se não for assim, iremos de recaída em recaída. O que está em jogo são os formatos de viver. 

Artigo publicado em O Estado de São Paulo em 10.10.2008

Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

Crise abala Lula e fortalece Serra

Categoria: (Política) por Cesar Fonseca em 10-10-2008

O presidente Lula e o governador José Serra emergiram como polos opostos na crise bancária mundial que ameaça a economia brasileira. Depois de a bancarrota financeira global detonar os pequenos e médios bancos, está levando para o abismo, também, as grandes e médias empresas, que estavam alavancadas na especulação.

Só não correm perigo, por enquanto, os grandes bancos, que estão sendo abastecidos pelos depósitos compulsórios, que utilizam, não para emprestar ao público, mas para comprar títulos do governo, sem contribuir para a formação da riqueza social.

Os tremendos tombos nos lucros especulativos dos empresários podem criar pânico no mercado brasileiro, se a situação internacional deterior-se, fortemente, como tudo indica que isso venha a acontecer, no compasso da primeira grande crise monetária do século 21, anunciando tempestades econômicas e políticas.

Nesse contexto, o governador de São Paulo, José Serra, sobressaiu atacando os juros altos e colocando-os em campanha eleitoral, enquanto o presidente ficou calado sobre o assunto, até agora, porque se tornou prisioneiro do custo elevado do dinheiro. 

Bancarrota empresarial e financeira à vista tenderia a abalar o presidente Lula, como está abalando os presidentes em geral, no espaço global. Já, Serra, livre atirador contra os juros altos, faturaria no cenário em que se instaurou o “Chaos”, rítmo jazzístico frenético de Wayner Shorter.

Grandes empresas como Sadia, Votorantim, Perdigão, Aracruz Celulose, na qual a Votorantim tem muitas ações, e muitas outras de expressão e peso na economia, com grande influência na saúde ou na doença da bolsa de Valores de São Paulo, concentrada numa totalidade não superior a 200 ações negociadas, certamente, nos próximos meses, baterão à porta do governo, pedindo socorro. Os clamores já estão percorrendo os corredores das federações de indústrias.

 

O hospital das grandes empresas nacionais entra em ação

 

 

O BNDES, velho hospital de empresas falidas, será chamado a exercer o seu eterno papel, de emprestar e perdoar, ao longo do capitalismo nacional, tocado pela concentração da renda, de forma abusiva, desde o desenvolvimentismo keynesiano-jusceliniano dos anos de 1950, seguindo com os militares, de 1964 até 1984, e paralisado, daí, em diante, durante a Nova República, detonada pelos efeitos da crise monetária dos anos de 1980, que instaurou o neoliberalismo jurista estagnante.

As empresas caíram na armadilha dos juros altos. Aplicavam uma parte dos seus resultados na especulação, para obter alta lucratividade, como forma de compensar a baixa lucratividade relativa na produção, afetada pelo jruo composto extorsivo.

Os lucros especulativos complementam os insuficientes lucros produtivos. Estes não sobrevivem sem aqueles.

Conseguiram as empresas, dessa forma, sustentar a taxa de lucro média em ascensão. Caso contrário, se ficassem só na produção, suportando no lombo o prolongado sacrifício, teriam sucumbido à concorrência internacional.

Como suportar tal competição, se na Europa, Ásia e Estados Unidos os juros estão caminhando para serem negativos, descontada a inflação?

 

Desequilíbro se instala na economia especulativa

O jogo de equilíbrio das empresas entre especulação e produção foi para o espaço com a emergência da crise bancária. 

Enquanto nas atividades produtivas, no ambiente da concorrência, a margem de lucro nunca supera a casa dos 10%, ficando na média de 7,5%, e olhe lá, nas atividades especulativas, o lucro se situa(va) no  invejável dos 25% ao 30%. Na média, entre especulação e produção, as empresas lucravam 15% a 20%.

Sem os lucros especulativos, poderão perder tudo.

O jogo da especulação foi, brutalmente, interrompido. Os empresários e os especuladores jogavam no dólar futuro para fazer lucro no presente, em real, multiplicado nos juros altos internos.

Estavam comprados no dólar barato que subiu violentamente de preço. Ficaram como o turista que se encheu de dívida no cartão de crédio no exterior com o dólar barato, que vira dólar caro com a desvalorização da moeda nacional repentina. Facada.

O grupo Votorantim, do grande empresário Antônio Ermírio de Moraes, histórico investidor na produção, não titubeou diante do jogo especulativo no tempo das vacas gordas. Abriu seu próprio banco. Foi participar do jogo do crediário em todas as direções, nos investimentos especulativos e no crédito direto ao consumidor. Alanvacou com Arquimedes, o grego. Os lucros bancários passaram a ganhar dimensão equivalente aos lucros obtidos pelo grupo na produção e comercialização oligopolizada do cimento.

Assim, como o grupo Votorantim, outras grandes empresas desenvolveram a bissexualidade empresarial brasileira: faturar prá frente, na especulação, e prá trás, na produção. E vice-versa. Uma equilibrando a outra.

O desastre financeiro global americano e europeu, que puxa o mundo para baixo, colocando os demais continentes em situação de total instabilidade, pegou os empresários comprados no futuro com expectativas de explosões financeiras iminentes no presente.

O exemplo da Sadia é sintomático. Desesperada diante dos prejuízos, a direção da empresa, que estava atuando de forma concessionária pelo presidente que havia se afastado, teve que apelar para a  volta imediata do verdadeiro chefe. O ex-ministro Luis Fernando Furlan, proprietário da empresa, foi obrigado a assumir seu próprio negócio, que estava sob comando de empregados. O olho do dono estava ausente?

Furlan pode já estar batendo às portas do BNDES.

 

Os próximos momentos são de angústia

Nas próximas semanas, com os possíveis agravamentos e rescaldos da grande crise monetária global, cujos prejuízos são calculados, até agora, em 14 trilhões de dólares, cinco brasis, a onda de desastres financeiros pode avançar em meio ao discurso desenvolvimentista do presidente Lula como arma para manter o otimismo nacional.

Os governos nacionais foram ultrapassados num mundo onde a economia passou a ser dominada pelos grandes oligopólios cujo poder impõe vontade aos próprios governos. O grupo dos sete grandes, convocados às pressas por W. Bush, nesse final de semana, em Washington, resolverá a parada? Difícil.  Com a crise, tanto os governos, como as grandes empresas, todos balançam e revelam suas fragilidades.

A balburdia estará instalada nesse sábado e domingo na capital americana, pois, junto com o grupo dos sete, estará, também, o grupo dos vinte. Certamente, pintarão propostas de todos os naipes, como, por exemplo, a de realizar, já, uma nova coordenação monetária global, porque o dólar teria sido ultrapassado em seu papel de equivalente monetário global por falta de gás financeiro do governo americano.

Essa situação, coloca o governo do presidente Lula diante da possibilidade de ser obrigado a salvar tanto os bancos como empresários, emergindo como super-empresário estatal no contexto desenvolvimentista nacional, dado pela crise bancária.

Os bancos privados grandes fugiram do compromisso de salvarem os bancos privados pequenos, mesmo com dinheiro subsidiado do governo. O impulso nacionalista governista vai se tornando irresistível, no rastro do processo de bancarrota privada.

O governo está tendo que assumir as contas do desastre, claro, com dinheiro do consumidor, jogando as reservas cambiais no fogo. Os repórteres de O Valor, Cristiano Romero e Cláudia Safatle, informam que serão sacados pelo menos 20 bilhões do total de 207 bilhões de dólares acumulados, para salvar bancos, empresas e garantir investimentos em infra-estrutura.

O perigo de o dinheiro ser torrado pode ser grande, principalmente, se a onda especulativa com o dólar , no país, onde seu valor sobe, proporcionalmente, mais do que em outras praças, se os juros internos continuarem elevados, estimulando novas ondas especulativas com a moeda nacional, num segundo momento da crise.

teve que assumir pepino, emitindo medida provisória salvacionista, que poderá ser ampliada. Não seria, apenas, suficiente salvar os bancos pequenos. Os representantes dos setores produtivos, também, são candidatos ao socorro governamental.

Os efeitos da grande crise tenderão a desatar consequências cujos elos se estendem em todas as direções do sistema econômico. Nesse contexto, ganha dimensão politica a discussão sobre a taxa de juros brasileira, a mais alta do país.

 

José Serra-José Alencar, novo fato político

 

Nesse sentido, saiu na frente o governador José Serra, de São Paulo. Na quarta, 09, depois de encontrar-se com o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, preferida pelo titular do Planalto para sucedê-lo, conforme disse o ministro da Justiça, Tarso Genro, ele abriu fogo contra a política monetária comandada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Politizou o assunto, para ajudar, não apenas a campanha eleitoral do prefeito Gilberto Kassab, do Democrata, 17 pontos à frente de Marta Suplicy, do PT, no DataFolha. Sobretudo, com o discurso de tiro ao juro, Serra alavanca sua própria candidatura presidencial para 2010, pelo PSDB.

O governador paulista fechou sua posição com o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva. Racha, dessa maneira, o próprio governo.

Qual o novo discurso de Marta Suplicy e de Dilma Roussef diante do de José Serra? Falarão a favor dos juros altos, quando trabalhadores e empresários buscam, justamente, o contrário, para sobreviver?

Os juros altos, no estouro da crise bancária, que destroi riquezas especulativas, deixaram de ser solução para os especuladores, para se transforarem em problemas altamente explosivos. Não trabalham mais para produzir riqueza especulativa, mas para produzir destruição de riqueza na especulação.

O PMDB, maior vencedor das eleições municipais, comprará o discurso do juro alto ou do juro baixo proposto pelo governador de São Paulo, como alternativa para a sobrevivência da economia, que detonou, na crise, o esquema de reprodução do capital na especulação?

Serra assumiu a vanguarda do novo discurso, com o qual pode atrair aliados à direta, à esquerda e ao centro.

O presidente Lula, que estava com o tempo trabalhando a favor dele, está sendo obrigado, agora, a correr contra o tempo. Sem outra alternativa, teve que assumir o pepino neoliberal com dinheiro do contribuinte.

Se não salvasse os pequenos bancos e se não salvar grandes, médias e pequenas empresas, certamente, a Era Lula estará encerrada, politicamente.

José Serra colocou o presidente da República em uma armadilha. Por ter tocado na ferida, o titular do Palácio dos Bandeirantes deixou o titular do Planalto entre apoiar os juros altos e perder prestígio ou conter os juros altos e seguir a orientação do próprio Serra.

Estrategicamente, Serra passaria a ser o mentor de nova política econômica em que a intervenção do Estado na taxa de juro se faz necessária para evitar que tanto o capital como o trabalho sejam destruídos.