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Che, herói sul-americano atual

Categoria: (Cultura) por Beto Almeida em 08-10-2008

 

Há 41 anos, num 8 de outubro como hoje, a humanidade recebia a notícia da covarde execução de Ernesto Guevara por um agente da CIA na Bolívia, horas após ter sido aprisionado por uma patrulha do exército boliviano controlado pelo exército dos EUA. A troca rápida de telefonemas entre os comandos militares de La Paz e Washington deixou antever a pressa em eliminar a presa, antes que todo um mundo de manifestações gigantescas se levantassem mundo afora para exigir a libertação de Che. Já era prova do temor às suas idéias, ao seu exemplo, à sua função na história.

Hoje, toneladas de papel continuam sendo escritas sobre ele, o debate segue com vigor. O aparato ideológico capitalista é obrigado a dar continuidade ao trabalho de demolição da imagem histórica de Che, comprovando, contra a sua vontade, que seu exemplo e suas idéias seguem amedrontando os donos do capital e do poder. Os publicitários capitalistas apenas superam-se na capacidade de insultos e ofensas à personalidade do Che, revelando, involuntariamente, sua incapacidade de apagar da história este personagem, que, ao contrário, se agiganta.  Especialmente agora quando os fantasmas de uma nova crise do capitalismo especulativo  baseado em moeda falsa desequilibra a mais potente economia capitalista do mundo, ramificando a crise por todos os lados, dada a extraordinária dependência que a economia mundial construiu em torno de alguns destes pólos capitalistas, hoje em crise. O fantasma de Che tira o sono dos capitalistas, ele mesmo que deu continuidade à abordagem teórica de Marx e Lênin sobre a inevitabilidade da crise do sistema do capital, e, ao mesmo tempo, também desenvolveu importantes aspectos da crítica que Trotsky fazia à burocratização da União Soviética, que, tal como fanáticos religiosos, muitos partidos comunistas, entre eles um que traiu criminosamente ao Che, o boliviano, classificavam incorretamente como socialismo.

 A previsão de Trotsky, feita lá em 1936, de que a URSS se desmoronaria não pela invasão militar externa, mas pela não realização da revolução política interna que retomasse a democracia soviética vivida em plenitude nos sete primeiros anos revolucionários,  -    a única forma de democracia livre da tirania do capital   -    só veio a ser cumprida, dramaticamente, em 1990, com a sua dissolução. Quarenta anos depois, as críticas de Che àquela estrutura burocratizada, distante dos ideais socialistas, degenerada na sua forma de funcionamento interno, também adquirem vigor e atualidade, como a crítica de Trotsky;  para desespero dos catálogos publicitários a soldo do capital, como a Revista Veja aqui no Brasil. Estes, diante da monumental comprovação de toda uma análise histórica e um desenvolvimento teórico magistral rigorosamente confirmado pelos acontecimentos, contra-atacam apenas com falsificações históricas e insultos, chegando a ponto de usar como “argumento” contra Che……. “que ele cheirava mal”, numa confissão de sua desqualificada estatura intelectual.  Esta crítica de Che à economia soviética burocratizada ganhou ampla divulgação recentemente   -   40 anos depois de elaborada   -    por meio da publicação do indispensável livro “Apontamentos críticos à economia política”, infelizmente, ainda não publicado no Brasil até hoje, desafiando o mundo editorial e  em particular aos partidos de esquerda, inclusive alguns que elogiam religiosamente a Che, mas não o publicam. Por quê?

De sua personalidade enriquecida pela inteligência, pelo estudo persistente, pela bravura desprendida e infinita e pela ética revolucionária haveria muito sobre o que  escrever, estudar, aprender, desenvolver, e , sobretudo, aplicar dialeticamente para as contradições da luta de classes atual. Mas, num artigo limitado no espaço e no tempo, mencionemos apenas algumas destas características que confirmam aquela vigorosa atualidade reivindicada ao início: o Che comunicador revolucionário, o Che médico-revolucionário e o Che ministro-revolucionário.

 

A consciência da comunicação como arma da revolução

 

Uma das facetas desta extraordinária personalidade é o jornalista Che Guevara. Não é o caso de detalhar aqui sobre suas atividades como fotojornalista e seus escritos denunciando as injustiças das veias hemorragicamente abertas da América Latina antes mesmo de vincular-se ao movimento revolucionário cubano no México, após escapar da invasão ianque à Guatemala rebelde do coronel Jacob Arbenz;. Mas, o organizador revolucionário também na área da comunicação logo se expressou quando, ainda durante os combates em Sierra Maestra, Che organizou a  fundação de um periódico,  cuja impressão foi possível em gráfica montada com equipamentos levados a lombo de burro e em várias viagens clandestinas para o quartel-general da guerrilha comandada por Fidel. Logo depois, um passo ainda mais audaz: a fundação da Rádio Rebelde, também em território liberado de Sierra Maestra. Os transmissores foram igualmente para lá conduzidos em lombo de burro e as emissões puderam ser captadas por rádios venezuelanas que, por sua vez, retransmitiam muitas dessas alocuções de Fidel e de Che, possíveis de serem captadas por rádios da Argentina. A Revolução Cubana começava a construir seu sistema de comunicação social revolucionário.

A Rádio Rebelde desceu da Sierra Maestra na ponta do fuzil e existe atualmente, continua  coerentemente fazendo jornalismo revolucionário. Após a tomada do poder, Che continuou tomando iniciativas como comunicador, era extraordinariamente consciente da imperiosa necessidade de travar a batalha das idéias contra o dilúvio de manipulação e mentiras que até hoje se lançam contra Cuba Socialista.  Baseado numa iniciativa de um seu conterrâneo, o general Juan Domingos Perón, outro dirigente igualmente atento para a necessidade de enfrentar o sistema imperialista de desinformação, razão pela qual criou na Argentina uma Agência Latina de Notícias, Che Guevara  foi um dos principais responsáveis pela criação da Agência Prensa Latina, ainda hoje desempenhando imprescindível papel nesta luta de classes ideológica e informativa,  especialmente revelando as maquinações do terrorismo midiático incessante contra Cuba e contra todos os governos e povos que adotam posições de transformação social , soberania e independência ante o império.. Che, sempre organizador, foi ainda o criador da Verde Olivo, revista das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, no que se revela a importância da questão militar e da nova função revolucionária atribuída aos militares. Um detalhe: na sua primeira edição, a Verde Olivo trazia na capa o próprio Che. Informado, enfureceu-se, foi até a gráfica e determinou a inutilização de todas aquelas capas e a reimpressão de outra capa, sem qualquer possibilidade de que se alguém insinuasse culto à personalidade.

Hoje, seguindo o rastro de iniciativas organizativas revolucionárias de Che no campo da comunicação libertadora e confirmando a atualidade de seu pensamento em torno de uma informação anti-hegemônica temos a Telesur. A emissora televisiva multi-estatal demonstra a possibilidade de integração e cooperação em várias áreas, inclusive na informação e na cultura, e vai consolidando-se a passos largos permitindo que se tenha  nas telas o protagonismo dos povos do sul, divulgando amplamente o processo de transformação da Bolívia, no Equador, Nicarágua, Venezuela, nacionalizando suas riquezas, derrotando o analfabetismo, realizando a integração social e energética, comunicando aos quatro ventos que a ALBA é uma realidade. Nas telas de Telesur pela primeira vez se mostrou o bombardeio da direita contra a Casa Rosada em 1955, se contou a verdadeira história do que foi o processo de transformação social na era peronista, assim como se  contam histórias dos processos revolucionários dirigidos por Pancho Villa e Zapata, retira do ostracismo com toda força a personalidade de Eliecer Gaitan, se divulgam os filmes latino-americanos, inacessíveis nas telas gringas e colonizadas. Trata-se de vigorosa atualidade do pensamento de Che. Que deveria servir de reflexão e estímulo, por exemplo, ao PT que, até hoje, com vários anos de governo, ainda não tem imprensa própria de circulação nacional, embora prometida na última eleição de sua direção nacional

 

Timor mereceu a atenção do revolucionário sul-americano

 

            O Che médico já atendia aos camponeses nas zonas liberadas de Sierra Maestra. A consulta gratuita era acompanhada de fervorosa e apaixonada argumentação em defesa da revolução cubana, na qual, também se explicava o peso das condições sócio-econômicas na causa e determinação das enfermidades. A tal ponto que um menino camponês que observava atentamente as consultas de Che disse a sua mãe: não leve a sério este médico, ele diz para todos que a culpa dos problemas é do capitalismo….

            Seguindo aquele exemplo do médico revolucionário, milhares de médicos cubanos estão espalhados hoje  por 77 países dos vários continentes prestando serviço médico solidário, levando o exemplo revolucionário humanista do povo cubano, alcançando as zonas mais inóspitas, nas quais a medicina capitalista não chega, demonstrando assim todo o seu desprezo pelas camadas mais pobres da população.

            Para ilustrar a presença do exemplo do médico Che no profissionalismo solidário dos médicos de Cuba, conto que em visita recente ao Timor Leste,  rigorosamente do outro lado do mundo, deparei-me com a presença de 350 médicos cubanos. Inclusive, foram os médicos cubanos os que ofereceram os primeiros socorros ao presidente timorense Ramos-Horta, vítima de atentado terrorista em fevereiro deste ano, episódio ainda envolto em dramáticas interrogações, sobretudo a partir das inevitáveis ramificações que pode ter com a imensa e cobiçada riqueza petroleira que aquela jovem nação oceânica é possuidora. O presidente Ramos-Horta me contou que quando se anunciou a chegada dos 350 médicos cubanos àquela ilha, o embaixador dos EUA ali não teve vergonha em manifestar sua insatisfação, pressionando para que os cubanos não fossem aceitos. Em resposta, Ramos-Horta perguntou ao embaixador quando médicos dos EUA atuavam no Timor. Diante da resposta “nenhum”  -  reveladora do mais alto grau de desprezo social  -  Ramos-Horta lhe disse: Cuba nos oferece uma ajuda desinteressada, além de oferecer bolsas para 600 timorenses estudarem medicina na Escola Latino-Americana de Medicina. Gratuitamente., tal como estudam lá aproximadamente 500 jovens pobres norte-americanos, em sua maioria negros, oriundos dos bairros proletários do Harlem e do Brooklin. Um deles me contou que se tivesse ficado nos EUA jamais teria a possibilidade de tornar-se um médico, e que, muito provavelmente, estaria com vínculos ao tráfico de drogas, como muitos de seus amigos que lá ficaram….

            Esta vigorosa atualidade do pensamento de Che, encarnado em política do Estado Socialista de Cuba, é uma consciência que se espalha pelo mundo, fruto da generosidade de uma revolução que, apesar dos limitados recursos de que dispõe, faz da partilha de seus recursos humanos com outros povos uma razão de estado, uma ética de nação, transformando em realidade concreta um pensamento infinitas vezes repetido pelo próprio Guevara: tremeremos de indignação por qualquer ser humano oprimido, onde quer que ele esteja. Materializando este pensamento revolucionário, Cuba desenvolveu um método de alfabetização para indígenas da Nova Zelândia, e outro, para ser operado por meio do rádio, para alfabetizar em dialeto creolo, que nem escrita possui,  ponderáveis parcelas da população da Haiti. Isto desenvolvido por pedagogos de uma Ilha que já vendeu o analfabetismo há décadas !!!. Estão vivas ou não as idéias deChe?

 

A revolução na África teve em Che um aliado fundamental

 

            Os 350 mil homens e mulheres cubanos que foram a Angola para lutar em defesa do bravo povo de Agostinho Neto, agredido pelo exército nazista do apartheid sul-africano, era um prolongamento lógico e inevitável do pensamento internacionalista de Che Guevara, alma da consciência internacionalista proletário do povo cubano e uma decisão de estado, comandada diretamente por Fidel Castro. Como disse Mandela, foi na Batalha de Cuito Cuanavale, no sul de Angola, em 1988,  “o começo do fim do apartheid”, abrindo uma nova era para o sul do continente africano, cujo mapa político registra governos progressistas e antiimperialistas que desenvolvem a cooperação para enfrentar a herança nefasta do colonialismo. O  internacionalismo proletário, a solidariedade internacionalista, são políticas do estado socialista cubano, em cuja fase inicial tinha um Che como ministro, infatigável na luta contra a falta de especialistas, agravada pela fuga de cérebros, o terrorismo lançado contra Cuba, as limitações tecnológicas, a herança colonial e, a seguir, o bloqueio.  Ali estava um exemplo vivo de administrador socialista, sempre incorporando a participação coletiva, considerando respeitosamente a diferença de opiniões, mas, intransigente na defesa da estatização, do monopólio do comércio exterior, da planificação estatal. Não é que Che fosse um romântico que desprezasse o poder, ao contrário, desprezava sim o poder pessoal, era atento as perigos profissionais do poder, mas era, sobretudo, um intransigente construtor do poder proletário, lutou incansavelmente pela tomada do poder das mãos dos capitalistas, pela destruição de todo poder do capital.

Todos estes exemplos  estão  cada vez mais vivos na história revolucionária mundial e encontram  ressonância em muitos lados, como por exemplo nas  diretrizes adotadas pela Revolução Bolivariana , comandada por Chávez, uma delas na preocupação pela diversificação produtiva, pela industrialização, pela crescente intervenção do estado, pelo desenvolvimento de laços de cooperação estratégica com países que afirmem a integração latino-americana, com o sentido de reduzir a dependência da economia capitalista mundial, hoje afetada por uma crise ainda sem controle. Estes foram temas tratados à exaustão pelo Ministro da Indústria Che Guevara. E agora, diante desta crise financeira capitalista, da falência sucessiva de bancos, da nacionalização de bancos que se procedeu, por exemplo, na Inglaterra, não vemos mais do que outra vez confirmar a vigência das idéias de Che Guevara, intransigente defensor da estatização, da economia real produtiva, crítico severo e mordaz dos arranjos criados pelos países imperialistas para seguir com sua rapina e sua acumulação usurpadora, em nome de uma financeirização virtual e artificial, às custas da economia produtiva e dos que produzem, os trabalhadores, sempre atirados nos abismos mais profundos da miséria e da opressão.

O Che ministro era também exemplo de criatividade: fundou o Instituto de Investigações dos Derivados da Cana-de-açúcar, e , no discurso no dia inauguração fêz uma previsão visionária que além de indicar sua insaciável curiosidade científica e tecnológica,  encontra hoje ampla confirmação. Disse o Che: chegará o dia em que o açúcar será apenas um dos derivados da cana e não o mais importante. Atualmente, da cana já é possível produzir medicamentos, o etanol, a álcool-química , com seus plásticos biodegradáveis e fertilizantes orgânicos que tornarão possível a libertação da agrcultura de petro-dependência atual, cara, insustentável ambientalmente e também para a saúde dos povos. Relativizando a importância do açúcar ao longo do tempo, inclusive em razão de seus complexos vínculos com um sistema de comércio internacional no qual Cuba não tinha e ainda não tem controle dos preços, Che nada mais fêz que antecipar-se a uma situação que de fato tornou-se realidade. Hoje Cuba desmantelou praticamente metade de sua produção açucareira e, segundo informa o Granma, dá início à implantação de 11 centros de produção de etanol em território venezuelano, num projeto binacional que confirma, uma vez mais, a importância das iniciativas em curso para a integração latino-americana. Combinada com a cooperação agrícola em curso entre Brasil, Venezuela, e Cuba,  iniciativas como esta, impulsionadora do desenvolvimento de energia renovável num mundo com restrição de energia fóssil,  viabilizam  novas opções produtivas, colaborando com esforço já em curso para  a transformação da agricultura dos dois países, e, fundamentalmente, revelando , novamente, a vigorosa atualidade das idéias de Che Guevara.

Show de incompetência sul-americana

Categoria: (Política) por Cesar Fonseca em 08-10-2008

 

Os líderes sul-americanos estão perdendo tempo precioso.

Em vez de se unirem em torno da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, para debater a grande crise monetária, urgentemente, perdem-se em suas idiossincrasis pessoais, dando espaço às intrigas internas, esquecendo o essencial.

As ações dos líderes europeus, americanos, japoneses e asiáticos demonstram que a política sobrepujou a economia. Não há mais política econômica, mas, sim, economia política. A realidade capitalista está sendo rasgada, com tintas de sangue espalhando-se por todo o lado, com o sistema pedindo socorro, depois dos desastres decorrentes das especulações exageradas.

A Europa, que, em torno da União Européia, com seu euro, relativamente, forte, se mostra apavorada, concluiu que, isoladamente, nenhum país conseguirá superar suas dificuldades. Coordenam os líderes europeus fundos de investimentos comuns, para atacar os problemas gigantescos que emergem incontrolavelmente. Os asiáticos, igualmente, buscam formar seus fundos financeiros, com o mesmo objetivo.

O banco central americano e o banco central europeu, depois de hesitações maiores, pois não sabiam o tamanho real do incêndio monetário, buscavam ações isoladas. Os europeus, num primeiro momento, pensaram poder, cada um por si, dar conta do recado. Debalde. O governo americano, idem. W. Bush, nas cordas, jogou a toalha. A crise é maior que os Estados Unidos. Estes não conseguirão sair do buraco sem a ajuda dos demais aliados.

Tremendo contraste com a posição americana arrogante até há pouco tempo, que pensava ser onipotente. A invasão do Iraque em 2002 foi feita por Tio Sam à revelia da ONU, que condenou a ação. Agora, quando a guerra interna, econômica, assola a economia americana, deixando as famílias desesperadas, o líder americano, fracassado, pede água.

 

O povo nas ruas, tensão ideológica à vista

 

O desespero deixou os asiaticos com os nervos à flor da pele, todos indo para as ruas, algo que apavora o sistema democrático, diante da turba revoltadaO grande perigo é o povão ir para a rua, pedir seu dinheiro de volta. Os asiáticos de Hong Kong já fazem isso com grande alarde. Dançaram os correntistas com sua grana depositada em bancos que estão indo para o espaço, incapazes de serem salvos por si mesmo.

A mobiliação popular, caso se globalize, na Europa, Estados Unidos, América do Sul, fará emergir processo político que tenderia a levar de roldão as social-democracias estabelecidas. Abriria espaço para outras alternativas, cujas consequências poderiam rebentar com a democracia.

Nesse ambiente, em que os líderes na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia se descabelam, correm para um lado e outro, onde ficam os líderes sul-americanos?

Eles, há pouco, criaram a União das Nações Sul-Americanas, a Unasul. O objetivo da instituição, como destacam, é o de unir o continente em torno de um parlamento, de uma moeda, de um banco central, de uma segurança, de um tribunal sul-americanos. 

A eficácia dessa proposta mostrou ser possível, recentemente, quando a presidente pro-tempore da Unasul, a líder do Chile, presidente Michele Bachelet, diante da crise boliviana, ameaçadora em rachar o país ideologicamente, convocou os líderes e amainou as tensões. Mostrou eficiência. Por que, até agora, ela e seus pares não se reuniram, em caráter emergencial, para discutir a grande crise monetária, que pode ser ameaça a todos eles.

 

Desentendimento Brasil e Equador divide America do Sul

 

Ao contrário, os presidentes sul-americanos, arrogantes, acham que podem tocar, cada qual seu país, sem ver o todo da crise. O presidente Lula, numa demonstração de falsa força, cuja materialidade tende a ser negada, demonstrando ser mera impulsividade, fala em sustentar o surto consumista, enquanto o momento sugere cautela. 

Na Argentina, da mesma forma, passadas duas semanas do tumulto monetário, somente, na terça, a presidente Cristina Kirchner resolveu criar um conselho de emergência. O país está caindo pelas tabelas, endividado e pressionado pela inflação. Não dá para sair do buraco sozinho. Na Venezuela, idem, o presidente Hugo Chavez, arroga-se, com sua presunção, em ação isolada.

No Equador, o presidente Rafael Correia, vitorioso em recente eleição, que elegeu nova constituição altamente democrática para o país, consolidando mentalidade socialista sobre o pensamento neoliberal falido pela grande crise, como Lula e Chavez, não falou em uma ação coordenada. Igualmente, o presidente Evo Morales, diante de um país dividido, à beira da revolução separatista, não apelou para a união continental.

Os três, Lula, Chavez, Correia e Morales, reuniram-se em Manaus, há poucos dias, e cada um saiu para o seu lado. Não tiraram uma nota conjunta, sequer convocaram a Unasul, para debater os problemas emergenciais, que superam as questões nacionais. Se os europeus, muito mais ricos que os sul-americanos, concluiram que, isoladamente, não são ninguém, sendo necessária ação conjunta indispensável e rápida, para salvar o continente do incêndio monetário, por que a América do Sul, empobrecida e sucateada pelo neoliberalismo, ao longo dos últimos vinte anos, não requereria ação política semelhante?

Encontro continental está previsto para dezembro! A OEA, que faliu, porque não cuidou da essência fundamental da união e integração latino-americana, tem programada reunião naquele mês, que está anos luz da crise atual, tamanha a velocidade dos acontecimentos. Tremenda incompetência sul-americana.

Está pintando, portanto, trementa incompetência política entre os líderes. Essa seria a hora de lançar o Banco do Sul, para formar um grande fundo sul-americano, ancorado em riquezas reais sul-americanas, que fortaleceriam a moeda sul-americana, capaz de credenciá-la na nova arquitetura monetária global, que nascerá do caos em que mergulhou o dólar.

Até quando ficarão parados, com a boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como destacou o poeta Raul Seixas?