Vida honrada

Quando, no dia 17 de maio de 1985, Emília nasceu, quis registrar o esplendor. Fui em busca das palavras. E quando já me parecia impossível a tarefa, porque me vieram tantas, gravei num pedaço de papel:

“Nasceu Emília e isso basta! Para que outras palavras para quem todas as palavras não bastam?”.

Estas ainda são as palavras. Agora, não para Emília, mas para mim mesmo e aos meus , eu precisei de outras palavras. E tantas novamente encontrei. Mas desta vez, só pude organizá-las numa extensa metáfora.

E como eu me encontrasse suspenso sobre o abismo, olhei para além desse abismo e vi um vasto jardim. Que eu já vislumbrava, mas ainda não percorrera. Olhei então para traz e reconheci. Era o salão da memória e das lembranças. Saltei o abismo e cheguei ao salão.

Nele, as folhas dos livros vinham até mim e me contavam toda a história. Nele, se o silêncio surgisse absoluto como uma surdez exasperante, uma música suave tocava. Um sorriso conhecido do nada surgiria quando eu, olhando-me no espelho, não me reconhecessse. A voz mais bela eu ouviria, quando a minha própria voz se perdesse.

E nele fui andando e vi que um salão terminava em outro salão, que termina em outro e em outro… Andei até compreender que aquele era o caminho para o infinito das origens. Diante dessa certeza voltei, porque a compreensão iluminava todo o resto.

Já sobre o abismo, uma ponte se formara. E ela estampava em suas vigas nomes e rostos conhecidos. E todos eram bons. Atravessei. Na entrada do jardim, um convite, que também era uma advertência: “Entre sem pressa, porque afinal, ninguém chegará mesmo aos meus limites”. Havia planíceis sem fim, vales profundos, montanhas majestosas. Tudo iluminado pelo sol das primeiras horas da manhã.

Pisei sobre ervas miúdas, dessas que a gente nem procura saber o nome. E como era macia a relva, tirei os sapatos, as meias e, descalço, prossegui. Encontrei um campo de flores, de cores conhecidas e outras que jamais vira. Tão delicadas que me aproximei apenas até o limite de não tocá-las.  E o perfume delas era doce.

Adiante, abracei troncos de árvores. E como eram fortes, eu me senti forte. Pássaros vieram até mim e aprendi a cantar. Outros voaram tão alto, como se nuvens fossem. Bebi em fontes cristalinas. Encontrei respostas a perguntas que sequer fizera. Num bosque ao lado, o vento soprava uma música diversa.

Ali eu já entendera que quanto mais eu andasse, mais o horizonte se estenderia. Porque os sonhos se desdobram em sonhos, que se abrem em outros sonhos que a outros sonhos levam. Então parei. Se alguém olhasse, nem me veria, pois já me dissolvera na indivisível paisagem.

Agora, de volta à ponte sobre o abismo, estamos mais prontos para seguir em frente. Somos os sobreviventes de um evento atroz. E aos sobreviventes, cabe honra a vida e ela sera honrada.

A vida é celebração e como a celebramos tão intensamente, às vezes nos cobram uma dor imensa. Mas, se em algum momento o músculo ameaçar romper-se, sabemos onde encontra a fibra.

A fonte estará sempre próxima de onde estivermos. No salão das lembranças, no jardim dos sonhos, nada nos faltará. E a vida seguirá pelos tempos inesgotáveis.

Emilia Cunha Borges(17.05.1985-25.05.2008)