26 set
2008Sucessão em ritmo de desaceleração econômica
Cesar Fonseca em 26/09/2008
A sucessão do presidente Lula, certamente, vai ocorrer em clima oposto ao que o titular do Planalto estaria planejando, se for levada em consideração suas declarações super-otimistas, de primeira hora, quando estourou a crise bancária, levando de roldão o bancão Lehman Brothers e, em seguida a seguradora AIG, exigindo cobertura estatizante.
Pouco antes, já havia estourado os dois maiores bancos imobiliários, também, estatizados, dando dimensão sombria da catástrofe financeira.
Naquele momento, o presidente sorria largo. Que crise? Era sua pergunta irônica. Pergunte ao Bush, gozou. Além disso, falou grosso contra os que ficaram ao longo dos últimos vinte anos dando palpites errados sobre a condução da economia brasileira, como o FMI e o Consenso de Washington. Talvez sonhando com o dinheiro antecipado do petróleo do pré-sal, o presidente jogou para o alto as possibilidades de que consequências mais sérias venham a afetar fortemente a a economia brasileira.
Era uma convicção psicológica expressa sobre a sua segurança relativamente não apenas à economia, mas, também, à política, pois declarou sua confiança em fazer sua sucessora, ao admitir que quem o substituirá poderá ser uma mulher. Os ventos poderiam mudar, abrindo maiores chances à oposição, no momento, sem bandeira?
Confiança abalada
Sintomaticamente, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, supostamente, a preferida do presidente, passou a falar prospectivamente sobre supressão de todas as carências sociais nacionais mediante exploração da riqueza do petróleo depositado no pré-sal. Passou a sacar contra o futuro.
Entretanto, a confiança excessiva presidencial sobre o panorama global mudou da água para o vinho em Nova York, onde foi falar, na terça, 23, na Assembléia Geral da ONU.
Ali, na babel capitalista, a confusão era geral entre os líderes mundiais, todos apavorados. O presidente, que pregou multilateralismo e governo mundial, para tratar do assunto crise americana, sentiu que a barra da bancarrota financeira é , realmente, super-pesada e que o Brasil seria afetado.
Teve que deixar de olhar apenas para o seu umbigo.
Por mais que a economia brasileira esteja bombando nesse momento, no compasso dos números positivos do IBGE, sinalizando PIB de quase 6% em 2008, pode pintar um ressaca braba, se o crédito internacional diminuir para todos, de modo a diminuir o rítmo da economia global, como começou, efetivamente, acontecer.
O presidente Lula pegou onda econômica internacional favorável, depois que havia passado onda desfavorável, que levara o governo FHC, de roldão. Fragilizara-se financeiramente depois de três transfusões de sangue pelo FMI, sob vigilência do Consenso de Washington, nos anos de 1997-2002.
Agora, o titular do Planalto tem a oportunidade de enfrentar situação inversa, negativa, nos dois anos finais de administração petista, podendo ser mais severa do que a enfrentada por FHC.
O ex-presidente enfrentou vendaval das economias capitalistas periféricas, de 1997 e 1998. Lula, nesse momento, passa a enfrentar crise da maior economia do globo, no capitalismo cêntrico, do qual todos dependem, organicamente. O buraco é mais embaixo.
As incertezas não permitem prognósticos confiaveis
O exemplo de susto pavoroso foi dado durante toda a semana no compasso do vai-e-vem das bolsas em queda. Os bancos, esperando sinal do Congresso americano, fecharam as torneiras. As empresas, consequentemente, sinalizaram suspensão de investimentos, para compatibilizar com tempos de vacas magras no mercado consumidor mais forte do planeta.
Os empresários brasileiros, com as torneiras fechadas para os financiamentos às importações e exportações, correram para o BNDES, pedindo empréstimos e redução da TJLP – Taxa de Juro de Longo Prazo – na casa dos 8% ao ano.
Teria dinheiro para todos?
Certamente, as torneiras serão abertas, depois da tempestade, mas não se sabe quando a tempestade passará, mesmo depois do acerto político de democratas e republicanos no Congresso, embora os candidatos Barack Obama, democrata, e John MacCain, republicano, relutem diante de W. Bush, para aprovar o pacote de 700 bilhões, quantia considerada insuficiente para cobrir os prejuízos gerais deixados pela implosão do setor imobiliário americano altamente alavancado na base da moeda podre.
Calcula-se que os dólares podres derivativos, que encharcaram o mercado imobiliário, nos últimos dois anos, somando-se a outros créditos podres, herdados de crises especulativas anteriores, alcançam entre 45 e 55 trilhões de dólares, algo três vezes superior ao PIB americano. Seriam os chamados “credit default swaps”(CDS), sobreacumulados na praça.
Trata-se de quantia ainda não contabilizada, inteiramente, configurando fenômeno de reprodução monetária jamais visto na história do sistema, engolfado no excesso de dinheiro que perde valor e pede socorro ao governo para ser enxugado.
Parece hiperinflação alemã dos anos de 1920, que destruiu a República de Weimar e abriu espaço, com a crise bancária de 1931, à ascensão de Hitler e do nazismo, como relata Hjalmar Schacht, o mago das finanças do furher, em sua autobiografia “Setenta e Seis Anos de Minha Vida”, Ed. 34, 1999.
Nesse ambiente, a moeda brasileira seria porto seguro, sabendo que, com a desaceleração da economia global, torna-se mais difícil financiar o deficit em contas correntes de perto de 2,5 do PIB, algo em torno de 30 bilhões, quando, no início de 2007, havia um superavit de quase 1,5%?
Confiança externa maior que interna
O presidente Lula, na última etapa do seu governo, veria a sorte abandoná-lo em meio a possível tempestade, invertendo situação que o levou aos pincaros da popularidade de quase 95%, somando os que acham que faz um governo ótimo e os que dizem que realiza governo regular, segundo a última pesquisa Sensus?
A crença do presidente Lula nesse sentido pode ser dada menos pela confiança interna do que a externa. O jornal inglês Financial Times destacou, na quinta, 25, que o Brasil pode ser porto seguro para os investidores.
Há três meses, o primeiro ministro inglês, Gordon Brown, destacou ser necessário ampliar espaço para Brasil e Índia, no Grupo dos 8. O presidente Sarkozi, essa semana, na ONU, bateu na mesma tecla.
O século 21 não seria, pelo andar da carrugagem da crise monetária, um século americano, como foi o século 20, na era do dólar. O dólar, inchado pela especulação, abriu o bico.
Brasil e América do Sul, destacam líderes mundiais, estão na tela dos investidores. Os árabes, que estão preocupados com a saúde do dólar, que cota o preço do petróleo, podem desembarcar no Brasil, em busca de terras para comprar, a fim de garantir alimentação, como já estão fazendo na Ásia e na África.
Se for lançada moeda sul-americana e banco sul-americano, ancorados nas reservas reais sul-americanas disponíveis, os depositantes no banco poderão pintar, como admitiu agir nesse sentido o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, em encontro com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez.
Os dólares do petroleo iraniano seriam convertidos, no Banco sul-americano, em moeda sul-americana,como nova alternativa monetário no cenário pós-era dólar?
Nesse contexto, o Brasil, de riquezas incomensuráveis, junto com os países sul-americanos, que caminham para uma integração econômica mais acelerada, tem, aos olhos externos mais que os internos, possibilidades de continuar sendo o paraíso dos especuladores e dos oligopólios. Estes, felizes, aumentam a cada ano as remessas líquidas de lucro, já na casa dos 35 bilhões de dólares, valor correspondente ao total dos investimentos externos. Tremenda sangria financeira que se eterniza.









