Perigo de neonazismo

 

Qual a garantia que está por trás dos insuficientes 700 bilhões de dólares que o presidente W. Bush tenta embuchar no mercado global, para evitar o desastre financeiro roliudiano americano?

Simplesmente, nenhuma. É tudo papel podre tentando salvar papéis podres. A Europa já conhece essa história e, naturalmente, está desejando construir uma arca para si, sem precisar embarcar totalmente na arca americana, que está fazendo água.

Evidentemente, a consciência social e política dessa ausência de segurança tende a manter as pessoas desconfiadas na capacidade do governo, já excessivamente endividado, de sustentar o prolongamento do endividamento estatal, para garantir estabilidade da moeda.

Mais moeda podre, significa perigo de hiperinflação, se o tesouro americano não tiver capacidade de enxugar parte dessas moedas pobres, que estão em circulação, podendo se transformar em enchentes inflacionárias. O tesouro é o entesourador que tem a capacidade de evitar a hiperinflação. Mas, até quando?

A reta final da campanha eleitoral americana está colocando em cena, no compasso da primeira grande crise monetária do século 21, que ameaça a sobrevivência do dólar, não os candidatos em disputa, Barack Obama, democrata, e John MacCain, republicano, mas a maior representação da democracia americana: o Congresso.

Qual será a solução final dos congressistas americanos diante da tempestade monetária que ameaça empobrecer a América?

As reações sociais pela internet voltadas para pressionar os congressistas no sentido de que sejam equitativos em suas decisões, salvando, não apenas, os bancos, mas, também, os contribuintes, colocam em cena o perigo de o próprio Congresso, caso não atenda os anseios populares, ser ultrapassado pela radicalização social.

Se isso acontecer, poderia pintar, nos Estados Unidos, um repeteco da República de Weimar, que desembocou em Hitler e no nazismo em 1933, fruto da crise bancária de 1931?

As apostas estão todas em cima do Congresso americano, que se transforma no super-poder, pois a solução, para o bem ou para o mal, em plena bancarrota financeira, sairá de suas fileiras. Se a democracia não der solução…

Uma página importante da história política americana e mundial está sendo escrita, nessa semana em que se reune a Assembleia Geral da ONU em meio ao vendaval financeiro-especulativo na terra de Tio Sam.

 

Crise bancária produziu Hitler

 

A República de Weimar explodiu com a subida de Hitler ao poder, porque, fundamentalmente, perdeu a capacidade de enxugar o excesso de moeda na economia que destruiu o poder de compra do marco alemão.

A Alemanha ficou entre os sociais democratas de esquerda, no poder, de um lado, e a radicalização de outro, dividida, por sua vez, entre os comunistas, influenciados por Moscou, de uma parte, e, de outra, pelo nazismo em ascensão, sob agitação hitlerista.

Na esquizofrenia geral desatada pela crise bancária, iniciada na Aústria, com o estouro do Osterrrichische Kreditanstalt,  espalhando por toda a Europa, principalmente, na Alemanha, deu Hitler na cabeça.

No comando do partido nacional-socialista, como relata Hjalmar Schacht, o mago das finanças tanto da República de Weimar, como de Hitler, em “Setenta e Seis Anos de MInha Vida”, Ed. 34, o furher emergiu com força total no rastro do desânimo e revolta geral dos alemães com a incapacidade dos sociais democratas de controlarem a moeda, isto é, assegurarem o poder de compra da moeda nacional.

Na hiperinflação, entre 1919 e 1923, diz Schacht, acabara a confiança popular na moeda em um pais massacrado pelas dívidas a pagar por reparações de guerra, impostas irracionalmente pelo Tratado de Versalles.

Mas, assim que a hiperinflação, mediante sacrifícios inauditos impostos à sociedade, fora superada, novamente, os bancos, a partir de 1928,  voltaram a forçar emprestimos em alta escala para a Alemanha e paises europeus em geral, sem maiores preocupações com fiscalizações e regulamentações do mercado, semelhante ao que ocorre na presente crise bancária americana, onde reinou o laxismo dos bancos centrais. Os empréstimos despertaram os interesses dos sociais democratas que estimularam endividamento geral das prefeituras, governos regionais e empresas, até estourar a bancarrota em 1931, passaporte para o nazismo.

A república americana está fazendo, agora, o mesmo que fazia a república de Weimar, jogando papel podre para comprar papéis pobres que terão que ser enxugados numa escala infinita cujo resultado pode ser o de o governo americano começar a enfrentar instabilidades intermitentes, como avaliam os analistas em geral.

 

Radicalismo emerge pelo medo

Nesse ambiente, a realidade está demonstrando que se torna inevitável o aprofundamento da desconfiança social e econômica no poder americano, dado que o dólar está sob ataque, quanto mais o sentimento de perda real do poder de compra da moeda vai ficando claro aos olhos dos contribuintes irados, propensos ao radicalismo político.

O estouro do setor imobiliário, produzido pelo excesso de financiamentos para compra de casas, é o estouro da moeda, que tem nos imóveis a sua representação.

Os dólares derivativos, cuja quantidade são trilhões e mais trilhões que perdem valor a cada dia, pedem, pelo amor de Deus, para ser enxugados, a fim de que possam manter seu poder de compra mínimo que seja.

A Casa Branca tem fôlego suficiente para garantir esse poder de compra?

A sensação geral é de que não tem e tanto é verdade que não há força ainda suficiente para dar sossego à intranquilidade geral na economia americana.

A economia monetária fictícia bancada pelo dólar derivativo, derivodólar, é pura psicologia. Os humores variam com a valorização ou desvalorização do valor que, como destacou ironicamente Delfim Netto, no Valor, nesta quarta feira,  está apenas na tela do computador.

 

Moeda capitalista montada a cavalo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Economia de papel podre bate biela. O capitalismo vive a pregação de Marx. O sistema capitalista, disse, desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e crise e passaria a desenvolver as forças destrutivas, na guerra.

As forças produtivas entram em colapso em 1929, com a falência do padrão ouro,  e as forças destrutivas passam a ser desenvolvidas por novo padrão monetário, bancado pela moeda estatal inconversível, o statemoney, moeda fictícia sem lastro. Não são mais os bens e os serviços que puxam a demanda, mas a produção bélico e espacial etc.

A produção de mercadoria, como explica Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, dá lugar à produção de não-mercadorias, bancada pela não-moeda, cujo lastro é a ficção abstrata, para tirar o capitalismo do buraco, não mais mediante forças produtivas, mas graças ao somatório das forças destrutivas e especulativas.

O que é a destruição presente de capital na economia americana senão a expressão exata da explosão das forças econômicas destrutivas?

Desmancha, portanto, a moeda que movimentou o capitalismo durante o século 20, especialmente, a partir de 1936, quando Roosevelt segue o conselho de John Maynard Keynes, lançando mão da dívida pública, para dinamizar o sistema.

A moeda estatal é o capital do estado, o estado é o capital, que, no entanto, mostra-se, também, no limite, limitado, para continuar executando sua tarefa na reprodução ampliada do capitalismo contraditório.

Na prática, o que está sendo implodido é a moeda da burguesia capitalista criada no século 20. O estado cumpriu o papel que Hegel determinou.

Ele, o estado, abstrato, ressalta o autor de a “Fenomenologia do espírito” sopra valor no papel para ser a representação objetiva do dinheiro capaz de movimentar as trocas cambiais, tornando-se referência monetária para azeitar as relações sociais.

A burguesia, ao conquistar o poder do estado, aposenta o rei e a monarquia e, consequentemente, a moeda do rei e os poderes monárquicos, o padrão-ouro, para jogar, claro, com sua própria moeda.

A moeda estatal inconversível é a moeda capitalista moderna que toca a economia para manter desperto o espírito animal dos empresários sem que eles precisem colocar a mão no bolso.

A farra, no entanto, como mostra o choro do colosso americano, está dando suspiros derradeiros.

 

O sopro do poder abstrato

 

O estado nacional, juridicamente, construído pela inteligência humana, ao longo da história, tornou-se, com o fim da moeda monárquica, o poder monetário abstrato, ancorado na lei. Esta cria na mente social os fundamentos de garantias do contrato baseado no direito positivo.

Napoleão é o grande iniciador desse jogo, tendo como principal assessor o maior ladrão da história da burguesia, o genial diplomata Talleyrand, retratado, competentemente, pelo historicador russo E. Tarlé, em “Diplomada da burguesia em ascensão”.

Talleyrand faz, em nome da acumulação de capital burguês, o mesmo que o rei fazia com os burgueses, isto é, expropriação. O expropriador passou a ser expropriado.

O negociador de Napoleão se transformou num dos maiores investidores de imóveis em Paris, graças às comissões que extraia a forceps dos reis vencidos pelo avanço da burguesia francesa sobre a Europa, brandindo as armas e o código napoleônico.

 

Moeda burguesa entra em crise

A moeda estatal inconversível, no século 20,  é Napoleão ressuscitado a serviço do estado burguês.

Durante todo o século passado, tal moeda, nascida para tirar o capitalismo do crash de 29, movimentou e fez o serviço previsto por Marx: promover as forças destrutivas, na guerra, ou seja, a economia de guerra.

Keynes considerou as guerras necessárias, para puxar a demanda global, já que as forças produtivas, deixadas ao livre mercado, levaram o sistema ao colapso.

O mesmo faz, hoje, o FMI, batendo palmas para as guerras regionais. Seu combustível, no entanto, a moeda estatal, que nasceu para negar o padrão ouro, está sendo negado pelo esgotamento monetário estatal ameaçado pela fogueira monetária-inflacionária.

Estados Unidos, nova República de Weimar? 

Berço esplêndido da social democracia europeia, dos grandes filósofos e das propostas revolucionárias estruturalistas lançadas no século 20 pela Escola de Frankfurt, a república de Weimar, no momento em que o fantasma da derrocada financeira, paira no ambiente global, volta a impressionar e fazer meditar sobre o que pode acontecer, se o Congresso americano não der conta do recado.

Os americanos, nesse momento de total incerteza, jogariam suas fichas numa promessa, Barack Obama, ou continuarão apostando em suposta segurança, John MacCain?

O momento estaria para experimentações ou conservadorismo?