Nasce moeda sul-americana

O germe da moeda sul-americana nasceu nessa segunda feira histórica em que os presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, e do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, decidiram que o comércio entre os dois países, a partir de outubro, dispense o dólar.

Será realizado mediante troca de moedas dos dois países. O método, disseram, se entenderá, num segundo momento, para os demais integrantes do Mercosul, Uruguai e Paraguai. Influenciaria decisões nesse sentido aos demais países que, também, estão se filiando ao bloco comercial, Chile, Bolívia e Venezuela. Estará, na prática, intensificando-se, dialeticamente, integrando tanto o Mercosul como a Comunidade Andina. Estaria, portanto, cimentada a base da União Sul-Americana – Unasul – , para lançamento da moeda comum sul-americana. Depois, parlamento sul-americano, banco central sul-americano, forças armadas sul-americana, tribunal sulmericano. segurança sul-americana….

Os bancos centrais do Brasil e da Argentina providenciarão medidas de ajustamento nas relações das duas instituições, para coordenar as relações monetárias brasileiro-argentinas. Logo, naturalmente, as economias de ambos os países estarão se transformando numa só economia, trabalhando em conjunto no plano fiscal e monetário, para promover o sistema econômico bi-nacional. Uma potencia sul-americana global.

Trata-se de prática que disseminará comportamentos fiscais, monetários e creditícios no âmbito das duas economias integradas, sinalizando o futuro da integração efetiva da economia continental.  Caminha-se, portanto, para intensa relação direta que se traduzirá em remoção de velhos conceitos econômicos protecionistas.

O jogo da globalização, como destaca o economista Márcio Porchman, estabelece grandes grupos econômicos superiores aos estados nacionais, que se transformarem em reféns deles. A organização sobre-estatal, no plano dos blocos econômicos, coordenados por estados nacionais, torna-se necessidade como preservação do próprio Estado nacional que, sob o keynesianimso, vai se apodrecendo, de tantas de dívidas. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. A união sul-americana, cercada de riquezas por todos os lados, sob cobiça universal, vai se impondo como imperativo categório. Como comprova o plano de defesa continental que já está sendo discutido mediante visão geoestratégica da América do Sul, no cenário global, como condição de nova rica do mundo. Possui a riqueza real e não a riqueza fictícia, que está sumindo na bancarrota financeira neoliberal.

América do Sul no pré-sal

Ao mesmo tempo, o presidente Lula, no auge da euforia com a descoberta trilhonária das reservas de petróleo do pré-sal, destacou a necessidade de a Argentina participar, diretamente, do esforço brasileiro de explorar as jazidas de petróleo na costa que estão a seis mil metros de profundidade. Jogo binacional.

O propósito é o de criar infra-estrutura produtiva em torno da exploração petrolífera cujo resultado será agregação de valor industrial, traduzido em refinarias, petroquímicas e derivados industriais desse processo de industrialização ligado ao petróleo.

Se o capital argentino entra no negócio do pré-sal, por que os capitais do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia, do Chile, da Venezuela, da Colômbia, enfim, dos 13 países sul-americanos não farão também? É o jogo da integração em marcha. A riqueza sul-americana dá a base material da integração, que já se realiza por intermédio de diversas obras de infra-estrutura em curso. O jogo se inverteu. A América do Sul está de bola cheia.

A visita de Cristina Kirchner ao país na semana da pátria entra para a história da relação Brasil-Argentina por ter dado pontapé inicial na unificação das moedas dos dois países para efeitos comerciais, abrindo espaço para uma nova realidade monetária sul-americana, no momento em que a economia mundial vive os estertores de grave crise monetária decorrente da bancarrota financeira produzida pela implosão do setor imobiliário dos Estados Unidos, espraindo destruição de riquezas na Europa e no Sudesde Asiático.

A estatização bancária nos Estados Unidos, tomada, inicialmente, em relação aos dois maiores bancos imobiliários, demonstra novo curso aos acontecimentos capitalistas, dado que a orientação do mercado está fracassando, colocando em risco a economia mais poderosa do mundo.

Novo contexto internacional

Tal situação dramática, potencializando a crise global, acelerada pelo empoçamento do crédito, devido às desconfianças dos bancos em emprestar em ambiente de falências dos mutuários, em face da queda dos preços dos ativos imobiliários, abre espaço para desorganizações monetárias nas relações de troca internacionais. Os efeitos de tais solavancos, como demonstra a história, balançam instituições, pois afetam o humor da população que é dominada pelo sentimento de perda do seu poder de compra, induzindo-o à ira política. O neoliberalismo jamais voltará a ganhar eleições, depois da crise bancária.

Nesse ambiente, as matérias primas essenciais, escassas, tendem a aumentar de preços, no contexto em que a moeda de troca referencial, o dólar, enfraquece-se, sofrendo deterioração cambial crescente. Ao mesmo tempo, os países industrializados têm seus produtos desvalorizados, no cenário global, graças à concorrência, impulsionada pelo desenvolvimento científico e tecnológico.

Tendem a inverter-se as deteriorações nas relações de trocas. O câmbio deixa de ser arma poderosa contra as mercadorias, que se transformam em poderosas armas contra o câmbio, fragilizado pelo excesso de moeda americana na praça, desvalorizando seu poder de compra e impondo, consequentemente, inflação mundial, que induz os governos ricos a baixarem os juros, promovendo a eutania do rentista.

Não estaria afastada possibilidade de emergência internacional capaz de levar os bancos centrais à discussão sobre necessidade de novo modelo monetário global, caso a crise se aprofunde e coloque em xeque a capacidade do tesouro americano continuar emitindo moeda para salvar o sistema financeiro da bancarrota neoliberal em curso. O neoliberalismo, como proposta econômica, perde utilidde. Nega a regra número um de Keynes: “Tudo que é útil, é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”.

O lançamento de nova modalidade nas relações de troca entre Brasil e Argentina que escanteia o dólar demonstra que se caminha para a moeda sul-americana? O lastro para garantir ela, pelo menos, já está dado nas riquezas potenciais continentais, bombando no cenário internacional, dando maior visibilidade ao continente sul-americano no plano global.

A bancarrota financeira global que reduz o poder relativo dos ricos em relação aos pobres que podem vir a ser mais ricos do que os que agora temem o fantasma da pobreza somente ajudará a dar novo colorido político ao nacionalismo sul-americano, anunciado por Cristina Kirchner e Lula da Silva. Pode representar plataforma política contra os efeitos destrutivos que poderão advir da crise bancária cuja duração ninguém prever, pois estão todos assombrados.