Multilateralismo ou guerra

– Saiu da minha algibeira.

A resposta de Fêlix a Viana, que, puxando o saco do amigo, perguntou onde conseguia os bons vinhos que servia aos convidados, é a lógica que Machado de Assis expressa por meio do seu personagem, em “Ressurreição”, que fica rico com súbita herança, algo que lhe proporciona tudo, informações e poder em abundância, graças ao dinheiro.

Quando, no entanto, o money falta e os bons vinhos escasseiam, somem, também, as informações e o poder. É o que pode, igualmente, acontecer com as nações. Olhaí os Estados Unidos. Henri Paulson, secretário do Tesouro, diante da bancarrota financeira, não titubeou: “É um momento que exige humildade”.

Ou seja, acabou a arrogância do imperio, diante da falência bancária, que obriga o estado a oligopolizar geral o crédito, cumprindo a previsão de Jack London, em “Tacão de Ferro”, com prefácio de Trotski. Oligopólio estatal contra oligopólio privado em nome do interesse público.

A história gira no balanço das instabilidades monetárias violentas. A Inglaterra, com sua libra poderosa, estourou nas águas da crise neoliberal de 1873-1893, cujo resultado foi a primeira guerra mundial. Agora, são os Estados Unidos que se lascam na, igualmente, crise neo-neoliberal, iniciada na explosão monetária dos anos de 1980, em que se inaugurou o capitalismo de desastres financeiros seguidos, e concluída, nesse momento, gerando indefinições gerais.

Os começos de séculos são fatídicos. O que vem por aí, no rastro dos destroços do neoliberalismo: nova guerra mundial, intensficação das guerras regionais em curso, que, segundo o FMI, são boas para puxar a economia, na medida em que aumentam gastos do governo, neo-guerra fria, ou a humildade americana para perceber que o unilateralismo praticado pelos Estados Unidos precisa dar lugar ao multilateralismo?

A conta não poderá mais ser paga com o dinheiro da algibeira americana.

O colapso da ideologia utilitarista capitalista evidencia que Tio Sam esgotou sua capacidade de, pelo dólar ancorado em emissões estatais sem lastro, de comandar sozinho o processo. O keynesianismo americano estressou-se. E se os 700 bilhões de dólares podres que serão jogados na circulação não forem suficientes, como desconfiam os próprios analistas do mercado?

Novos visitantes sentarão à mesa para participar do banquete, depois do fracasso do dólar, que está no topo do comando mundial desde a conferência de Bretton Woods, em 1944?

Surgirá o bankor, moeda que, na ocasião, John Maynards Keynes, grande economista inglês, sugeriu, para equilibrar as relações cambiais internacionais, sendo sua proposta ultrapassada e negada pelos então poderosos americanos, que emergiram soberanos no pós-guerra?

Pode pintar governo mundial, já que os isteites estão brochando? Se o dólar não é mais o todo poderoso para ser o equivalente monetário global, surgirá o que no seu lugar, uma cesta de moedas?

Nasceria, nesse embalo, a moeda sul-americana, lastreada nas riquezas reais sul-americanas, a partir de decisões da Unasul – União das Nações Sul-Americanas?

ONU ou guerra?

 

Entraria em cena a ONU, desdenhada pela Casa Branca, desde sempre? ONU ou guerra?

O dinheiro fictício monetário, emitido sem lastro por Tio Sam, ou melhor, tendo como lastro o poder das armas e da pujança do mercado interno americano, agora, bloqueado pela crise de crédito, daria lugar a uma nova política monetária global, distribuida pelos poderes regionais globais, formados por meio de blocos – bloco norte-americano, bloco europeu, bloco asiático e, por que não, bloco sul-americano?

Não há mais lugar para a visão unilateralista, intensificada depois da queda do muro de Berlim, em 1989. A visão da realidade, desde então, passara a ser a do princípio único. Contrasenso total, pois, essencialmente, a realidade é dual, positivo-negativo, singular-plural, noite-dia, claro-escuro etc, em interatividade dialética. 

Se é(era) a unicidade do pensamento americano que dá(dava) unidade ao mundo, para que o plurilateralismo global, se Tio Sam tem(tinha) a força?

As bases dessa fortaleza atravessou as terras, os mares e os ares, para firmarem-se como imperio poderoso nas asas do dólar ancorado em fetichismo monetário deslastreado.

Os alicerces romperam-se nas ondas do maremoto bancário, contido, por enquanto, pela estatização do crédito, sob comando de política oligopolística, bem à moda da recomendação de Lênin.

O dólar, abalado pelos acontecimentos, perdeu a capacidade de bancar o unilateralismo. Os Estados Unidos, baleado, estão abrindo o bico. Primeiro, pediram socorro aos bancos centrais. Tenta, num ímpeto machista, resolver a parada, emitindo o que pode e o que não pode, ninguém sabe até quando.

Já  enfrentam duas guerras fracassadas, a do Iraque e a do Afeganistão, e tem sua moeda, se o Estado não entra para salvar o barraco do incêndio, correndo perigo de virar papel pintado.

John McCain, candidato do partido republicano à Casa Branca, mostrou-se mais realista e objetivo que Barack Obama. Destacou que a hora é salvar o dólar, que significa salvar os Estados Unidos. Mas, sozinhos?

O Huck econômico global, na tentativa de evitar a bancarrota geral do sistema capitalista, tenta impor-se. Conseguirá, sozinho?

Salvar o dólar, portanto, representa prioridade número um, mais importante do que manter as tropas no Iraque ou no Afeganistão.

O fato é que não se sabe se vai ter dinheiro para continuar mandando para o sumidouro da economia de guerra, antes que sejam salvos os aplicadores que estão dançando na derrocada do setor imobiliário, maior ameaça à moeda nacional.

Desde os anos de 1940, os Estados Unidos seguem o conselho de Keynes, de expandir as forças produtivas via aposta na economia de guerra, visto que é esta que puxa a demanda global capitalista, para bancar o que o presidente Eisenhower denominou o estado industrial militar americano como sustentáculo da democracia contra o socialismo.

No momento em que as forças ameaçam faltar a Tio Sam, para continuar bancando a guerra, custe o que custar, seria possível sustentar, sem limites, a produção bélico-espacial?

Ou o multilateralismo – visão coletiva, socialista -, para além do unilateralismo – visão egoísta, individualista – , torna-se opção irresistível, para, por meio da humildade, detonar a arrogância imperial?