Democracia direta detona guerra civil na Bolívia

Não dá para tapar o sol com a peneira. Os adversários radicais do presidente Evo Morales, depois de perderem a parada do referendo nacional sobre se Morales continuaria ou não presidente, adotam o terrorismo político, para tentar melar o jogo democrático.

Fundamentalmente, os opositores bolivianos, nas regiões ricas da Bolívia – Pando, Beni, Santa Cruz, Chuquisaca, Tarija, formando a chamada “Meia lua”, agora, lua vermelha, manchada de sangue, na região leste, de norte a sul, fronteira com Brasil –  estão temerosos de que o referendo constitucional, no próximo dia 7 de dezembro, dê outra vitória acachapante ao representante político do pensamento socialista indigenista sul-americano.

Partiram para a ignorância fascista. Poderá dar, é claro, nova reviravolta na questão política, favorável à nova ideologia política no poder boliviano, extraída da força popular. Acelerará a democracia ou antecipará o golpe?

O referendo e o plebiscito são as novas armas da revolução sul-americana, que, estão, também, na constituição dos Estados Unidos, como suprassumo da representatividade democrática.

A conscientização política, sob governos dispostos a praticar a democracia participativa, assombra os fascitas, que tentam esconder-se por trás do biombo da democracia representativa, como falsos democratas.

Pretendem, resistindo, conservadoramente, ganhar o poder e exercê-lo com os interesses de cúpula política, mediante sistema viciado de distribuição do jogo eleitoral do poder em que os partidos carecem de representatividade popular.

Pode ser que próximas etapas de mudanças serão dadas pelo referendo. Antes, virá o referendo maior, o de 7 de dezembro de 2008, que chancelará ou não a nova Constituição.

Depois, não estaria afastada hipótese de novos avanços da democracia participativa para discutir e votar sobre política energética nacional, como já reivindicam os partidários de Morales.

Historicamente, o poder sempre esteve em mãos da cúpula política e empresarial associada ao capital externo que mandava e desmandava na política energética. O poder indigenista sentou à mesa e quer participar, legitimamente, via democracia direta, do novo poder. Força política consciente irresistível.

Tudo deixa de ser previamente dado para ser tudo plenamente discutido nas ruas. As cúpulas sempre tiveram medo das ruas. Preferem o udenismo golpista. A nova Constituição boliviana está adequada aos interesses das forças políticas que chegaram ao poder e sentiram que, por serem maioria, terão o mando de campo por algum tempo, que pode ser longo, se souberem manter-se unidas. Seu ponto de unidade é o pensamento indigenista, o mais humilhado na história da América do Sul.

Pensamento socialista indigenista

Agora, tal pensamento, que foi teorizado por José Carlos Mariategui, em livro genial, internacionamente, respeitado,  “7 ensaios de interpretação da realidade peruana”(1927), e que vem fazendo a cabeça ideológica da nova esquerda sul-americana, voltada para cultivar as tradições políticas indígenas, destruidas pelos colonizadores, começa a fazer efeito bravo no compasso dos plebiscitos e dos referendos democráticos. Revolução democrática.

Como sempre foram minorias que só conseguiram maiorias por meio da manipulação da democracia representantiva, cujo peso maior é o jogo econômico associado do capital interno e externo, os interesses econômicos privilegiados pelo status quo sob ataque se desesperam. Não dispõem de base popular suficiente para se submeterem,  com sucesso, aos pressupostos básicos da neodemocracia direta. Vêem seu poder esfumarçar-se sob impactos de referendos e plebiscitos democráticos.

Deixa de ser útil, para os interesses conservadores, os pressupostos democráticos em sua radicalidade popular, expressa na democracia direta, que supera, quantitativa e qualitativamente, a democracia representativa, viciada pela corrupção do capital. Um salto ousado e perigoso.

Seria diferente no Brasil? Aqui, por exemplo, a democracia representativa se transformou em farsa, depois que se subordinou, completamente, aos interesses dos credores, que induzem o governo a administrar o país por medidas provisórias. Os interesses que sustentam essa situação não ficariam de pé sob impactos de referendos plebiscitários.

Novos donos do poder

Nova Constituição, via assembléia constituinte, como rola na Bolívia, poderia  eliminar o suprassumo do poder dos banqueiros, expresso na letra b, do inciso II, do parágrafo terceiro do artigo 166, da Constituição brasileira, que transformou em direito e causa pétrea o pagamento dos serviços da dívida, tornando-o livre de contingenciamentos.

Estes somente podem abater-se sobre o lombo da população em forma de contingenciamentos de recursos destinados aos investimentos em educação, saúde, segurança, infra-estrutura. Tudo garantido por medidas provisórias que excluem o debate social entre as forças antagônicas por intermédio dos partidos.

No contexto do referendo e do plebiscito, é outra história. A sociedade é chamada a dar opinião. Por isso, Morales está causando a rebelião fascista contra si. Os fascitas estão temerosos de perderem o poder no plebiscito no próximo dia 7 de setembro. Querem rebentar, antes, um golpe, dividindo, perigosamente, o país. Separismo radical.

Hugo Chavez, presidente da Venezuela, percebeu o jogo dos golpistas, pois sofreu na pele. Reagiu e avisou que mandará bomba. Expulsou o embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, sob pretexto que descobrira golpe interno contra si por militares aliados de Washington, repetindo o gesto de Morales, que justificou a expulsão do embaixador americano por estar conspirando contra os interesses da democracia boliviana.

Washington considerou absurdo e expulsou, também, os embaixadores dos dois países nos Estados Unidos.

Morales bobeou por não ter cobrado, na hora, dos Estados Unidos apoio ao governo boliviano contra o golpe fascista e terrorista, antes da radicalização final. Precipitou-se, quando poderia tirar partido da data de 11 de setembro, quando, em 2001, Nova York foi bombardeada pelo terrorismo.

Seria um teste para a política anti-terrorista bushiana.

A radicalização política favoreceu a Casa Branca, que ficou livre de maiores explicações, por ter o governo boliviano pré-julgado participação do governo americano em conspiração contra Morales, ancorado no novo poder indígena.

O campo ficou aberto para as bombas. O terrorismo político está sendo a resposta dos temerosos de perderem o poder sob plebiscitos e referendos. A luta pelo poder sempre foi sangrenta, na América do Sul, mas os referendos e plebiscitos surgiram como possibilidades de mudanças sem sangue, mas com paz.

A quem interessa, numa economia dominada pelos oligopolios privados, a guerra que põe em campos opostos o governo popular e os interesses contrariados com a mudança brusca via plebiscito democrático?

Atualidade jacklondoniana

Emergiu na Bolívia a previsão de Jack London, em “Tacão de ferro”(1907), prefaciado por Trotski, de que do ventre do oligopolio privado nasceria, em nome do interesse público, o oligopólio estatal.

A estatização total das riquezas energéticas bolivianas é a emergencia do oligopólio estatal que desbanca, via referendos e plebiscitos, o oligopólio privado na exploração das riquezas do gás e do petróleo, razão maior do radicalismo fascista.

As prioridades políticas que levaram Morales ao poder exigem que tire mais dinheiro dos ricos do petróleo e do gás, para fazer o mesmo que o presidente Lula está fazendo no Brasil, bombando com dinheiro público os programas sociais, para sustentar o consumo interno e dar estabilidade econômica à Bolívia.

Diante da exigencia de maior transferência de riqueza, via política fiscal, os interesses contrariados jogam bombas na democracia direta, pois ela se transformou em seu algoz.

O cinismo mostra que não tem limites. Os fascitas se auto-intitulam “grupos cívicos”, neologismo com o qual tentam encobrir o que realmente são, ou seja, grupos terroristas, jogando bombas nas armas da economia, as exportações do gás, e da política, referendos e plebiscitos.

No último referendo, que assegurou sua continuidade no poder, 65% apoiaram Morales.  Se rolar o mesmo percentual no próximo dia 7, estará dada a base legal para aprofundar reformas econômicas, que, necessariamente, implicam maior distribuição da renda nacional, concentrada nas mãos dos falsos democratas que passaram a ter como arma não a palavra mas bombas.

Faltou solidariedade bushiana

A falta de solidariedade de Washington à democracia participativa de Morales, semelhante à democracia participativa direta americana, responsável por levar o governador da California, Arnold Schwarzenegger, ao poder, demonstra caráter anti-democrático. Para ele, as Farcs contra o presidente Álvaro Uribe são terroristas; mas, os bombardeadores da democracia boliviana são “grupos cívicos”.

O jogo, pelo menos nessas horas quentes, é de radicalização, mas pode, também, ter muito fogo de palha, porque os opositores e governistas, na Bolívia, já sabem que, isoladamente, não conseguirão governar. Os antagonismos fizeram explodir as contradições que buscarão sua superação dialética.

A tese – o pensamento econômico colonialista – fez emerger radicalmente a antítese – o pensamento econômico socialista indigenista. Qual a síntese?

A política, segundo ensina Sócrates, na República de Platão.

As partes terão que sentar à mesa. O banquete da renda nacional terá que ser dividido por bem ou por mal, graças ao predomínio do plebiscito.

A burguesia boliviana, porém,  ainda não percebeu que o combate ao subconsumismo nacional, como está sendo feito no Brasil, com maior distribuição da renda, via garantia de consumo dos mais pobres, dinamiza a economia,  alavanca a própria renda nacional, estabiliza relativamente a inflação e fortalece a democracia.

Ninguém faz revolução de barriga cheia. Fidel Castro que o diga. Lula , igualmente, nada nas alturas da popularidade.

O jogo na Bolívia é como se invertesse a história. Os índios chegam ao poder para explorar os brancos e dominar suas riquezas, a fim de exportá-las e obter o fruto para aplicação nos projetos sociais indígenas.

Estes passam a obedecer a uma lógica econômica dada pela política indigenista, inversa ao pensamento predominante historicamente desenvolvido pelos outrora detentores exclusivos do gás, dos minérios, do petróleo e da política.

Entra em cena a força ou a fraqueza do estado nacional para conter os oligopólios econômicos.

O Estado nacional já era

O economista Marcio Porchaman, presidente do IPEA, tem destacado que os estados nacionais, no contexto da globalização, foram ultrapassados pelos oligopólios econômicos. Estes, na Bolívia, eram os donos absolutos do poder.

Agora, são os donos relativos. Vencerá o absolutismo ou a relatividade? Como resgatar o poder do estado nacional em meio à contestação social violenta em reação à melhor distribuição da renda no país?

Para Porchman, o episódio, preocupante para toda a diplomacia sul-americana, destaca a necessidade de sedimentar a união sul-americana, alvo de grandes resistências que cobiçam as riquezas da América do Sul.

Desejam dividir para governar. A Bolívia tem sido alvo dos separatistas, depois que o pensamento socialista indígena josecarlosmariateguiano chegou ao poder.

A decisão de estatizar o petróleo e o gás e as demais riquezas estratégicas levantou a ira dos velhos grupos oligopólicos energéticos, que atuam na Bolívia, como extensão da sua abrangência global, desde a primeira metade do século 20.

Em outras ocasiões, derrubaram governos nacionalistas, para sustentar seus interesses. Contavam sempre com argumentos, repetidos no Brasil pelos tucanos sobre a expropriação ilegal de riquezas dos investidores, referindo-se à Petrobrás, para resistir, se possível com tropas nas fronteiras Brasil-Bolívia.

Os interesses petrolíferos internacionais, acionistas da Petrobrás, depois da abertura do capital da empresa na Era FHC, somente não radicalizaram demais o discurso anti-Morales, porque o presidente Lula não caiu no conto golpista tucano neoliberal-guerreiro.

Evitou neo-Iraque sul-americano, via armadilha contra Saddam Hussein, estimulando-o a invadir o Kuwait, para, em seguida, ser invadido e executado.

Lula desarmou a bomba que os interesses multinacionais projetavam, vale dizer, criar zona de conflito na América do Sul. Acirraria, ainda mais, a polarização guerreira entre o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, e o dos Estados Unidos, W. Bush. Fogueira.

Beleza pura para os interesses da guerra.

 

Com a América do Sul, rica em petróleo, sob guerras separatistas, o mercado de armas se ampliaria extraordinariamente.

A gravidade política do momento pode exigir dos 12 países sul-americanos maiores esforços para intensificar a UNASUL – União das Nações Sul Americanas, como instância política maior para debater os problemas sul-americanos, buscando soluções próprias, para além do estado nacional, vulnerável, possíveis, já que o continente, graças as suas riquezas reais, aumentou seu cacife político na negociação global.

Por que a quarta frota norte-americana estaria avançando em mares sul-americanos, quando estouram conflitos separatistas e terrorismo político na Bolívia?

O Congresso nacional discute a bisbilhotice da ABIN, na CPI dos Grampos, mas não debate a bisbilhotice da Casa Branca em terras e riquezas  da América do Sul. Depois reclama quando Hugo Chavez o chama de papagaio de Washington.

A América do Sul está diante das possibilidades de integração e de desintegração, simultaneamente.

Brasil e Argentina deram pontapé  no sentindo da integração, dispensando o dólar das relações comerciais brasileiro-portenhas, a partir de outubro, lançando germe da moeda sul-americana. Os radicais terroristas do separatismo boliviano sinalizam o contrário, desinteração.

Quem vencerá? Bomba ou democracia?